Os Teus Acordes

16 Destrua este caderno!


"Como é que foi a tarde, formiguinha?" Souza perguntou, cessando a arrumação da mesa do jantar por um momento.

Luiza se virou para seu pai, se forçou a dar um sorriso e moveu os pés rapidamente para o quarto. Souza não pôde deixar de reparar nos olhos cheios de água.

Assim que chegou, ficou de frente com o caderno que Tomás deu a ela: pautado para músicas, em um característico silêncio de não se ter quase nada escrito.

Sua vontade era de rasgar em pedacinhos. O pegou, segurou com firmeza e se preparou para destruí-lo. No três: um, dois e três! Largou o caderno na cama. Não tinha forças para isso. Não tinha forças para destruir nada naquele instante. Talvez em instante nenhum. O ato de destruir demanda muitas energias, varre o espírito e, a cada estrago feito, deixa um vazio para trás. Parecia um movimento sintonizado, talvez até mesmo fosse: assim que guardou o caderno novamente, seu pai entrou no quarto, pedindo licença.

"Estou preocupado, formiguinha. Vi como você chegou em casa."

Luiza suspirou. Suas bochechas estavam molhadas com as lágrimas que permitiu caírem quando entrou no quarto. Como já não tinha mais como esconder o que estava sentindo de seu pai, pulou em seus braços e se aninhou. Souza acariciou seus cabelos e a afastou por um momento para que pudesse lhe dizer:

"Minha filha, sinto muito por qualquer coisa que esteja passando."

"'Eu sei, pai."

"Eu amo você."

A menina se aninhou novamente e abraçada ali, chorosa, parecia ter rejuvenescido alguns anos. Voltado a ser criança, retornado à segurança dos braços do pai. A nostalgia confortou Souza na mesma medida que o revoltou. Quem for que tivesse feito isso com sua filhinha iria pagar!

"Espero não me arrepender de dizer isso." Souza segurou novamente os ombros de Luiza, a afastou e disse. "Mas tem um idiota perguntando por você na porta."

"Um idiota?"

"É, um músico idiota. Ele não tem nada a ver com você estar dessa forma não, não é, filha?"

Luiza congelou. O que é que Tomás estava fazendo na sua casa? O que ele queria após tê-la tratado tão mal? De novo! Começando a ser tomada por uma pequena fúria, que tentou disfarçar, franziu as sobrancelhas, sinalizou para seu pai que Tomás não tinha nada a ver com isso, agarrou o caderno de partitura com força, deixando marca de seus pequenos dedos nele, e foi até a porta. Não o cumprimentou, apenas o puxou pelo braço para fora de sua casa. Quando alcançaram o portão, Luiza o soltou e se virou para ele, naquele momento devidamente expressando sua indignação.

Ela escreveu no caderno em letras garrafais: "o que é que você quer comigo?" e o lançou diretamente no garoto ofegante parado bem na sua frente.

— Será que é isso que querem dizer quando falam "palavra no olho dos outros é refresco"?

Luiza pegou o caderno de volta e escreveu novamente com traços grossos e bem marcados: pimenta.

— Eu sei, eu sei. — Ele suspirou. — Lu, fui um babaca.

Ela não precisou escrever "jura?" no papel. Seu olhar expôs seu pensamento.

— Um completo babaca. Ainda sou, na verdade. E eu te devo desculpas por isso. Hoje pensei em tacar pedrinhas na sua janela, achei que fosse ser romântico até me dar conta de que...

Luiza pôs a mão na testa e respirou fundo.

— Eu sei, eu sei. E me desculpe por isso também. É tudo muito novo para mim! Estou aprendendo a lidar, sabe? De qualquer forma, isso não é desculpa. Nada é desculpa. Nada justifica a forma como te tratei.

"Eu não sei muito bem o que é ter limites. Minha mãe sempre foi muito liberal comigo, contanto que eu me tornasse um médico promissor no futuro e não cometesse nenhum crime. Acredito que dependendo do crime ela até revelaria.

Ok, calma, é brincadeira. Notei pela sua reação que ficou preocupada é não é necessário que fique.

Eu nasci em berço de ouro e tenho consciência disso. Quando criança tinha qualquer brinquedo que pedisse, quando adolescente qualquer console, enfim. Meus familiares estão sempre por perto, mas nunca perto o bastante. Perto o suficiente para as comemorações, para as trocas de presente e longe o bastante para qualquer problema que surgisse, fosse físico ou emocional. Minha mãe, não. Ela sempre esteve aqui, colada comigo, mesmo que eu duvide um pouco dos seus sentimentos às vezes. Enfim. O que estou querendo dizer com tudo isso é que, lu, você está certa. Eu sou um garoto mimado. Mimado e babaca e te tratei mal porque não soube lidar com uma situação que, sei lá, fugiu das minhas expectativas."

Luiza, lendo atentamente a boca de Tomás, acompanhando cada movimento, cada pausa, respiração e vírgula, abaixou a cabeça. Aquelas palavras tinham a atingido. Escreveu sem marcar grosseiramente o papel desta vez.

"Eu fugi às suas expectativas?"

Tomás se apressou.

— Não, lu! A situação fugiu, não você. Você transbordou. É linda, engraçada e, meu Deus, tão sensível! Você não ouve, você escuta. Atentamente, com todo o coração e com seus lindos dedinhos que sentem a vibração. Você é... esplendida.

Luiza pôs as mãos no ar, mas as palavras fugiram.

— Você é esplendida e eu sou um músico mimado, é isso que estou querendo dizer. Você se esforça para me entender, para falar a minha língua. Eu sequer entendo a sua. Acho tão lindo ver suas mãos escultoras de ar escreverem palavras a serem decifradas.

"Não é bem assim que funciona." A garota comentou com as mãos e imediatamente riu quando reparou o que estava fazendo.

— Viu só? Eu não tenho a menor ideia do que você disse agora! Poderia até mesmo estar me xingando. Olha, eu realmente espero que não. — Tomás interrompeu sua fala e seu sorriso aumentou. — Mas poderia, é verdade. E é uma verdade linda. Não o fato de eu não te entender. Isso é terrível e precisamos consertar o quanto antes!

Luiza rapidamente desenhou uma pequena ferramenta no papel e mostrou para Tomás. Ao lado escreveu "consertando".

— Talvez precisemos um pouco mais do que isso para consertar, só que eu penso nisso depois.

"Você está falando rápido demais de novo." Escreveu e sorriu.

— Ah, desculpe! Não esperava que minhas desculpas dariam certo. Estou animado! Nunca antes pedi desculpas.

"Como?"

— Desculpe! Viu? É viciante! Ok, já me desculpei antes, sim. Com o Zachary, por exemplo. Mas sei lá, além dele, as pessoas nunca me cobraram muitas explicações, sabe?

"Não, não sei, querido músico mimado."

— É, está bem, você tem razão. Também preciso pensar melhor nisso mais tarde. Ok, ok, ok. — Irrequieto, Tomás andou de um lado para o outro antes de ficar de frente para Luiza outra vez. — Lu, eu gosto de você. E sinto muito se eu não for gostável por ser um babaca. Mas eu te acho incrível. E eu gosto de você. E eu sinto muito. Por isso e por outras coisas também. É! É isso!

A boca de Luiza se abriu em formato de "o". A surpresa estava estampada. Até esperava que Tomás correspondesse seus sentimentos quando se comunicaram pela internet. Até quando ele a chamou para ouvir sua música, não era ingênua. Mas achou que tinha se enganado, realmente acreditou que havia sido ingênua com tudo o que aconteceu e, de repente, ali estava Tomás. Tentando encontrar as palavras certas. Tentando reparar as erradas. Ele estava bem ali. Ela se voltou para o caderno e começou a escrever. A mão do rapaz a parou.

— Não precisa me responder. Não agora. Aliás, se quiser, tudo bem, mas não se sinta pressionada, ok? Queria te mostrar uma música. Vou para casa agora e, se em breve você aparecer por lá, saberei que fui desculpado. Ou não, você também pode estar apenas curiosa, mas a gente vai descobrir isso mais para frente. E, lu, seus olhos estão inchados.

Instintivamente a menina passou as costas das mãos nas bochechas.

— Me desculpe, e me desculpe de verdade mesmo, de coração sentido, por ter causado isso. — Ele se interrompeu e pensou melhor. — Ou talvez eu esteja sendo apenas egocêntrico, achando que o mundo gira ao meu redor. Bom, de qualquer forma eu sinto muito seja lá pelo que for.

Ele a abraçou desajeitadamente e foi embora. Luiza permaneceu ali, estática, compreendendo aos poucos a conversa mais longa que já teve com Tomás, que arrancou-lhe as palavras e a deixou assim, perplexa.