Os Teus Acordes

17 São os teus acordes


Tomás andou de um lado para o outro na frente do seu portão. Tinha convidado Luiza para ouvir uma música nova e parecia que ela gostou da proposta, é verdade. Mas será que parecia isso mesmo? Ou será que ele só tinha tido a impressão de que ela gostou, mas na verdade Luiza não apareceria? Será que ele se iludiu? Já podia imaginar que iriam namorar, casar, ter três filhos lindos e tirar férias em praias paradisíacas, se ele não tivesse estragado tudo antes mesmo do início. Repassou imagens do futuro na sua cabeça com saudades da possibilidade, sentiu seu coração apertando e... Ah, ela chegou.

— Oi. — Tomás a cumprimentou, meio sem jeito.

Luiza, com a alça da bolsa jeans nos ombros e o caderno de partitura embaixo do outro braço, sorriu e inclinou a cabeça, o cumprimentando de volta.

Tomás fingiu se espreguiçar, apoiou o braço nos ombros da garota, e a fez rir com os trejeitos atrapalhados. Imediatamente os retirou.

— Eu pensei que seria uma boa ideia te mostrar a música no mesmo lugar que viemos antes. Acredito muito em um negócio, sabe? Renovar as memórias. Transformar os ambientes com as energias que lançamos nele.

Luiza sorriu e sinalizou "ok". Caminharam juntos.

Tomás estava diferente, reparou. Visivelmente mais ansioso e também mais poético.

No quintal, Tomás estendeu uma canga para que Luiza pudesse se sentar e outra em frente a ela, para que pudessem ficar acomodados e a comunicação, facilitada.

O cabelo de Luiza estava solto e, com o vento, às vezes voava para frente dos seus olhos. A menina o prendeu com um elástico que estava amarrado em seu pulso, deixando algumas mechas rebeldes escaparem.

Tomás observou e de imediato sentiu vontade de penteá-las com os dedos para a parte de trás da orelha de Luiza, mas se segurou. Ele gostava dela, ok. Ela gostava dele, ok. Só que ele não sabia disso, apenas Luiza tinha certeza da situação. Garotos podem ser um pouco lentos... Bom, para Tomás, cada movimento devia ser milimétricamente calculado para que fossem desvendados os reais sentimentos da menina.

Ele sentou na canga e apoiou o violão no colo. Começou a dedilhar as cordas, ouvindo atentamente para afiná-las uma última vez antes de começar a tocar. Luiza apenas o olhou. Seu olhar devorava Tomás. Queria responder que, sim, ele era um babaca. Inclusive por não ter esperado resposta nenhuma de sua parte ao ter se declarado.

Queria dizer também que gostava dele de volta. Que toda vez que o via seu coração batia tão forte que parecia que ia pular do peito. Que sua música fluía por ela em cada parte do seu corpo, cada músculo, cada molécula. Que saber reconhecer quando errou é tão importante quanto ter a coragem de falar para o próximo que errou. E que, com ele ali, sentado na frente dela, os cachos dourados esvoaçantes, os ouvidos atentos para as cordas, a boca espremida, um lábio com o outro, por estar concentrado... que ele estar bem ali só a fazia sentir o quanto gostava dele de volta. E que nunca sentiu nada tão intenso por alguém antes. Muito menos tão rapidamente assim.

Tomás entregou um papel impresso amassado para Luiza. Imediatamente ela reconheceu a letra de uma música que enviou por e-mail para ele. Os acordes estavam escritos com caneta por cima da tinta de impressão, acima de cada trecho da música. No final da página, uma pergunta:

"Podemos nos misturar nessa obra de arte?"

Luiza sentiu seus olhos lacrimejarem. Passou as costas das mãos neles e nas bochechas inúmeras vezes, até mesmo levou um pedaço de grama ao encontro da sua vista, dificultando o que estava querendo disfarçar. Quando uma lágrima escapou, Tomás a secou com a ponta dos dedos e sorriu, calado. Foi uma das poucas vezes que o olhar de Tomás falou tanto sem que a boca o acompanhasse.

Luiza respirou fundo. Seus rostos estavam próximos demais. A ponta do dedo de Tomás ainda acariciava sua pele. Seu toque a deixou eletrizada. As respirações se misturaram. Os olhares simplesmente estavam congelados, como se colados um no outro. Em um súbito ato de desespero, Luiza pegou o caderno e escreveu rapidamente:

"São os teus acordes. São os mais lindos que já vi. Também são os únicos."

Tomás sorriu e se afastou. Foi tomado por uma paz que transbordou seu corpo inteiro. Naquele instante teve certeza de que seus sentimentos eram recíprocos. Pegou a mão de Luiza, apoiou sobre a lateral do pequeno amplificador e começou a deslizar os dedos pelas cordas serenamente.

Sentir a vibração da música que ela mesma compôs a emocionou. Tomás balançava o corpo levemente para um lado e para o outro, seus pés marcavam o tempo na grama e seus olhos ora fechavam com tranquilidade, ora abriam e encaravam Luiza intensamente. Ela não tinha desistido de conter as lágrimas. Rendeu diversos pedaços de grama grudados na bochecha. Tomás prometeu para si mesmo que não riria daquilo, não em um primeiro momento, isso apenas constrangeria.

Quando ele tocou o último acorde e o amplificador parou de vibrar, Luiza se manteve congelada por alguns segundos, admirada e emocionada. Encantada. Tudo ao mesmo tempo.

— E então... — Tomás respirou fundo e reuniu coragens para lançar palavras no ar denso que se formou entre os dois. — Você gostou?

Luiza piscou algumas vezes e começou a escrever no caderninho.

"Tenho um presente também."

— Ah, é mesmo, é? Tudo bem, você ganhou a minha curiosidade.

Luiza escreveu a letra "T" e sinalizou em libras. Tomás balançou a cabeça, mostrando que entendeu. Luiza repetiu o "T" e o emendou com o movimento de suas mãos, formando a silhueta de um violão, finalizando com a palheta imaginária o tocando uma única vez. Voltou a escrever no caderninho:

"Te dei um sinal. Agora posso te chamar assim. Você também poderá se apresentar dessa forma para outras pessoas surdas. O batismo dos sinais faz parte da nossa cultura e apenas nós podemos batizar. Não sei bem se é o presente que você esperava, só que significa" Luiza parou para pensar por um momento e voltou a escrever: "um gesto de carinho."

Luiza temia que aquilo pudesse soar como algo pouco valioso para Tomás. Só que ele ficou maravilhado com aquele conhecimento e mais ainda com o gesto de carinho. Repetiu seu sinal duas vezes e Luiza bateu palmas, mostrando que estava fazendo direito. De tão feliz que ficou, Tomás fez cócegas nela até que caísse sobre a canga e se deitou do seu lado. Luiza ficou um pouco nervosa, mas acabou se acomodando na canga e se permitiu ser abraçada por Tomás.

O céu aquarela misturava tons de rosa, amarelo e azul. Estava anoitecendo, a lua podia ser vista facilmente. Estava cheia, como os românticos apreciam. Luiza suspirou e Tomás respirou fundo. Milimetricamente se aproximaram. Se aproximaram um pouco mais. Seus tênis, seus pés, tocaram um no outro. Luiza se aconchegou. Tomás se virou. Luiza se virou. Novamente encontraram seus rostos próximos, as respirações se misturando, o ar tão denso que poderia ser tocado.

Quando Tomás fechou os olhos e se aproximou, Luiza não se assustou como antes. Sentiu suas pálpebras pesarem e seu corpo ficar sujeito a uma força de atração avassaladora. Já tinha beijado antes, Tomás não era o primeiro garoto por quem se apaixonou, ou o primeiro que beijou. Só que algo dentro de Luiza clamava por ele.

Algo dentro dela dizia que era como se fosse a primeira vez. Toda aquela energia que se tem na primeira vez: os corpos magnéticos, o coração palpitante, as mãos suadas... Mas em paz. Não tinha o nervosismo da primeira vez. Simplesmente havia paz. Fechou seus olhos e se aproximou. De rompante, abriu os olhos. Tomás a cutucou e se sentou em um pulo. O garoto consertou a postura, respirou fundo e falou alguma coisa, mas não para Luiza.

Uma mulher estava parada em frente ao Tomás atropelando as palavras, uma atrás da outra, em uma velocidade que Luiza não conseguiu acompanhar. Apenas compreendeu o "bom dia", direcionado no final do monólogo para ela.

Quando seja lá quem for entrou na casa, Tomás se virou para Luiza e explicou:

— Já que é o dia das desculpas, me desculpe por isso também. Aquela era minha mãe e ela pode ser bastante ríspida às vezes. Na maioria delas na verdade.

Luiza sacudiu a cabeça, em partes para mostrar que entendeu, em partes para afastar a imagem tentadora e persistente na sua mente de um beijo entre ela e Tomás.

— Ela me pediu para voltar para casa... Tenho prova amanhã e é bom que eu revise a matéria.

"Sua mãe está certa."

— É, talvez. É só preocupação de mãe mesmo. Já estudei, mas para os pais nunca é demais. — Bufou.

Luiza se levantou e passou as mãos nas pernas para tirar quaisquer folhinhas grudadas. Tomás passou a mão no rosto e tirou as graminhas esquecidas ali, surpreendendo a garota. Ele a acompanhou até o portão.

— Podemos nos ver de novo logo?

"Logo." Luiza escreveu e desenhou um rosto sorridente ao lado.