Os Teus Acordes

18 O plano é o seguinte...


Tinham se passado quatro dias desde a última vez que Luiza e Tomás se viram. A imagem do quase beijo permaneceu vívida na mente dela, enquanto todas as imagens de Luiza, desde a sua chegada, dela sentada na canga, observando a música com atenção, emocionada, alegre, serena.... todas as imagens de Luiza permaneceram vívidas na mente dele.

Não trocaram muitos e-mails nesses três dias. Tomás estudou para as provas e Luiza focou no planejamento do brechó online.

Quando Tomás estava terminando de estudar para as últimas provas decidiu que era um bom momento para rever a garota que fez seu coração palpitar mais rápido. Mas depois de tanto pisar na bola, de tantas desculpas e de dias sem trocarem palavras, ele queria que o reencontro fosse no mínimo marcante. Foi neste momento que teve uma ideia.

— Que bom que você finalmente está estudando de verdade, meu filho. — Silvia, mãe de Tomás, passou em frente a porta do quarto.

— Estudando muito! — Tomás respondeu e minimizou a janela aberta do computador. — Não basta apenas se esforçar, tem que ser o melhor, não é o que você sempre diz?

— Isso aí!

Quando Silvia se afastou, Tomás revirou os olhos e resmungou. Não acreditava realmente que precisava ser o melhor em tudo. Muito menos que não ser o melhor anularia seus esforços. Só que era esperto. Queria um pouco de paz para estudar e, sendo assim, por que não dizer o que sua mãe queria ouvir? Até porque estava realmente estudando. Apenas não estava estudando exatamente o que ela queria.

Quando reabriu a janela que tinha minimizado, se levantou, fechou a porta do quarto e voltou a se acomodar: era importante que estivesse confortável e atento para a próxima vídeo-aula para iniciantes em LIBRAS.

Mais tarde naquele mesmo dia Tomás foi correndo para a casa de Zachary. Sua "segunda mãe" o recebeu sem que o amigo sequer ouvisse a porta sendo aberta, resultando em um enorme susto para Zachary.

— Ué, desde quando você tem instagram? – Tomás perguntou, apoiando as mãos nas costas do amigo e tentando enxergar melhor o que ele estava fazendo.

— Cruzes! — Zachary imediatamente fechou a janela que estava aberta e se virou para Tomás. — Seu intrometido! Como é que você chega assim, do nada?

— Boa tarde para você também. — Sorriu, se jogando no pufe azul que ficava do lado da cama.

— O que é que você quer? — Zachary perguntou e passou a caixa de bombons para Tomás.

— Eu tive uma ideia, mas vou precisar da sua ajuda.

— Ok, depende, vai envolver sair de casa?

— Mais do que isso. Envolve sair de casa e ir até a lanchonete conversar com seu perfil favorito do instagram. — Tomás gargalhou.

Zachary apenas o encarou.

— Achou que eu não tivesse visto, não é? Zac, você mal a conhece!

— Estou ciente disso. — Bufou. — Quem te garante que eu farei parte do seu plano?

— Ninguém. Só que eu sei que lá no fundo, bem lá no fundo, esse gamer incompreendido esconde um romântico incompreendido. É uma excelente desculpa para você finalmente começar a conversar com a Lilia, o que acha?

Zachary coçou o queixo e encarou Tomás. O convite era tentador e assustador ao mesmo tempo.

— Me fale mais sobre...

Paralelo a isso, bem como Tomás previu, Lilia se arrumava para ir à lanchonete. Tomás tinha elaborado uma estratégia para que Zachary conversasse apenas com ela, sem Luiza estar presente. Só que a tática não foi necessária. Luiza não pôde ir para a lanchonete naquela tarde. Estava ocupada terminando um trabalho que Marília já tinha feito e Lilia adiava até o último momento, como de costume.

— Lilia? — Zachary timidamente foi até a mesa das duas amigas.

— Pela nonagésima vez, Lilia, se você chegar dez minutos atrasada todos os dias para a primeira aula não é considerado horário de tolerância, é abuso! É irresponsabilidade. — Marília continuou a discussão, sem reparar na presença de Zachary.

— Fale com meus advogados. — Curta, ríspida e sarcástica, Lilia respondeu e se virou para o lado. — Oi, a gente se conhece? — Questionou.

Soaria como uma pergunta grosseira, mas a garota sorria o tempo todo, fazendo com que Zachary se derretesse um pouco por dentro. Que sorriso lindo, tão doce.

— É, sim. Na verdade, não. Médio. Nos conhecemos, entre o sim e o não, médio.

Marília, desconfiada, arqueou as sobrancelhas. Não era ele o amigo do Tomás?

Lilia achou a resposta engraçada.

— Gostei de você. — Pensou alto demais, fazendo com que Zachary se derretesse mais um pouco.

— Também gosto de você. — Zachary respondeu impulsivamente, fazendo Marília engasgar. — Digo, você parece ser muito gente boa, sabe? Legal, simpática e tal. Essas coisas. Olha, deixa para lá. Eu vim em missão.

— Missão? — Marília perguntou. — Você tem o que: treze anos?

— Dezesseis. Acabei de fazer dezesseis. — Retrucou sem tirar os olhos de Lilia.

Marília reparou e aquele gesto queimou um pouco seu estômago. Preferiu se manter quieta e observar o que Zachary tinha a dizer.

— É uma missão, mas não é do tipo "missão super secreta", mas é secreta.

— Você é muito enrolado! — Lilia riu e convidou o menino a se sentar na mesa, para indignação de Marília. — Pode pegar uma ou duas batatinhas, estou curiosa. Mas não pegue demais, ok? Elas são os meus amorezinhos.

— É claro! Jamais teria a audácia de tomar seus amorezinhos de você. — Se sentou, sentido um pouco menos do nervoso de antes.

Notou que Lilia tinha uma energia que fazia as pessoas ficarem confortáveis ao falarem com ela, se sentissem à vontade. Ela parecia realmente ser uma pessoa muito boa.

— Então nos conte, jovem. Missão secreta, é? Mas nem tão secreta assim. Estou curiosa.

— Bom... A ideia é do Tomás.

— De novo aquele garoto? — Marília revirou os olhos.

— Sim, aquele garoto teve uma ideia bastante, como vou dizer? Bonitinha. Acho que vão gostar.

— Ok, pode falar. — Lilia respondeu, apoiando a cabeça em uma das mãos enquanto a outra levava mais batatinhas para a boca.

Zachary e Lilia olharam juntos para Marília, em um questionamento silencioso se ela estava ou não interessada em ouvir o que o menino tinha a falar. Ela apenas revirou os olhos e bufou. Sem retrucar, mostrou que estava aberta para ouvir, mesmo que um pouco.

— Já que insiste... — Lilia e Zachary sem querer falaram juntos e começaram a rir.

Aquilo irritou ainda mais Marília. Quem ele pensa que é para chegar de qualquer maneira, se sentar à mesa e, ainda por cima, agir dessa maneira com a Lilia? Agir como... como se já se conhecessem.

— Ok, o plano é o seguinte...