Os Teus Acordes
19 Por que vagalumes saem pela noite?
"Luiza, dá para se apressar? O filme começa em vinte e quatro minutos! Ainda nem compramos pipoca!" Lilia gesticulou um pouco mais rápido que o normal, tentando se conter.
Marília lhe deu uma cotovelada. Quando Luiza se virou para o armário outra vez para terminar de escolher suas roupas, Marília a puxou para o corredor.
— Calma, mulher! Você sempre foi a atrasada do grupo e agora quer personificar a pontual, o próprio relógio humano? Ela vai suspeitar de alguma coisa, Lilia! Mantenha a calma.
Lilia a olhou com aqueles grandes olhos claros. Respirou fundo, prendeu as madeixas de fogo em um rabo de cavalo e continuou piscando os longos cílios.
— Mas... eu estou nervosa! É que é tão lindo... Eu quero que tudo saia perfeito. Todo mundo merece amor, sabe?
Marília suspirou, sorriu e, para surpresa de Lilia, a abraçou. Na verdade, nem tanta surpresa assim. Marília tinha criado a imagem de dura frente as outras pessoas, só que ao lado de Lilia sempre se mostrava um pouco mais vulnerável. Sem motivos, sem razões, apenas sentia que o abraço de Lilia era um dos mais acolhedores que podia querer, isso a deixava confortável.
— Vamos voltar lá e vamos voltar mais calmas, ok? — Marília disse com a boca em seu cabelo e as mãos nas suas costas, a segurando firme, com carinho.
— Tá legal. — Lilia murmurou e apertou mais Marília.
— Então tá.
Se desvencilharam dos braços uma da outra e voltaram para o quarto.
Luiza já tinha decidido o que vestir e já tinha até colocado a roupa. Como estava quente, sua regata de gatinhos e seus shorts jeans iriam estavam perfeitos para a ocasião. Seu sapato fechado era rosa bebê e tinha rendas por toda parte. Lilia tentou imaginar o que Tomás diria se a visse com aquela roupa tão linda e tão cotidiana ao mesmo tempo.
"Vamos?" Luiza perguntou.
Lilia ia falar algo, mas levou outra pequena cotovelada no braço. "Vamos, vamos."
Luiza olhou atentamente para ela e para Marília. Como as duas normalmente eram um pouco estranhas mesmo, não perdeu tempo tentando entender a situação.
Estava animada e saltitante. Luiza ama ir ao cinema. Mais do que ir ao cinema, a garota ama ir ao cinema ver filmes nacionais. Mas não é sempre que legendam filmes nacionais para as grandes telas, então muita das vezes seu cinema e o de suas amigas eram seus quartos com pipoca, guloseimas e pijamas. Não era ruim. Na verdade, também amava isso. Só que ver um filme nas telonas é diferente. Claro que é! E Luiza mal podia esperar para aquele momento.
Quem deu carona para elas foi a mãe de Lilia, que também era, como Tomás caracterizou Zachary, uma romântica incompreendida. Lilia e Marilia imaginaram que Souza não aprovaria o plano, então acharam melhor nem contar para ele. E a mãe de Lilia adorava ideias mirabolantes envolvendo namoros adolescentes, então por que não?
Quando entraram no carro, Lilia explicou que sua mãe cobriu as janelas com uma película que não dava para ver a parte interna, para tentar lutar contra o calor intenso que fazia frequentemente e por conta da privacidade que o filtro garantia. Tendo sido, supostamente sem querer, colocadas da forma errada, as películas impediam que quem estivesse dentro visse o lado de fora, não o contrário.
Luiza achou a história um pouco difícil de acreditar, só que a mãe de Lilia podia muito bem ser desligada como a filha era, o que garantia certa plausibilidade. Pensou que, por sorte, não tinham tentado cobrir também a janela de frente do carro, ou seja, o para-brisa, nem a de trás.
"Ansiosa?" Marilia perguntou.
Luiza se limitou a sorrir. Estava radiante! Marília e Lilia ficaram felizes com aquela reação. A mãe de Lilia suspirava a cada quarteirão, imaginando o encontro dos pombinhos.
Quando saltaram do carro, Luiza reparou que estavam bem longe do shopping. Na realidade tinham dado algumas voltas nos quarteirões próximos para pararem em frente à casa de Tomás.
"O que é que está acontecendo aqui?" Luiza perguntou, deixando a desconfiança tomar o lugar do êxtase anterior.
"Preciso que confie na gente." Marília afirmou e segurou as duas mãos de Luiza, olhando nos seus olhos por um breve instante e a abraçando.
Lilia sentiu uma vontade enorme de as abraçar também e assim o fez.
Luiza ainda estava desconfiada, porém sentiu que sua animação de antes estava voltando aos poucos. Afinal, o que estavam aprontando?
"Te prometemos uma ida ao cinema, certo?" Lilia começou a argumentar. "E vamos cumprir a promessa."
Assim que terminou de falar, andou um passo para o lado, dando visão para Tomás, que segurava um pequeno buquê de flores brancas, rosas e amarelas, como Luiza tanto ama. A garota imediatamente sentiu um nó na garganta, não de tristeza, de emoção.
"Te desejamos uma ótima sessão. E não se esqueça da pipoca!" Marília disse e, com a outra mão, Tomás mostrou um pote de plástico recheado de pipocas.
Lilia e Marilia não tardaram a sair. A mãe de Lilia também se despediu e as três simplesmente desapareceram de cena. Luiza estava atônita, completamente perplexa e maravilhada.
"Tomás." Disse, fazendo seu sinal.
Tomás ficou muito feliz em ver aquele gesto de carinho e se aproximou. Entregou as flores. Luiza as cheirou. Como eram cheirosas! Pensou. Colocou elas no jarro de água que Tomás trouxe e deixou por perto. Ele a abraçou e naquele instante parecia que só o toque dos seus corpos importava. Apenas aquela conexão era significativa.
"Não consigo acreditar que você planejou tudo isso com as minhas amigas." Luiza finalmente conseguiu sair de seu torpor e expressar algum pensamento.
— Não só com elas. Zachary também participou do plano. Quis que tudo saísse perfeito.
"E por quê?" Gesticulou, encarando seus olhos cor de mel.
Tomás não respondeu. Segurou a mão de Luiza e caminhou até o quintal.
Ali estavam duas cadeiras de praia com almofadas coloridas e um projetor em cima de uma mesinha de madeira, apontando para um grande e perfeitamente esticado lençol branco. Tinham também alguns cordões de luz pendurados por ali e um cheiro cítrico no ar. Frescor e romance. Luiza respirou fundo.
— Não sei se você reparou, mas consigo entender o que você está dizendo. Bom, consigo entender em um nível intermediário, pelo menos.
Era verdade, não tinha reparado.
"Tenho estudado LIBRAS." Tomás gesticulou.
— Não acho uma situação muito justa você me entender e eu não me esforçar para te compreender de volta. Quero te ler por completo.
"Estou impressionada."
— Imagino que você tenha dito que está impressionada. Fico realmente muito feliz com isso. Minha comunicação por sinais realmente tem melhorado. Antes era nula e agora eu te entendo, sei formar até algumas frases, como você pode ver, enfim. Ah, voltando um pouco ao papel importantíssimo do Zachary e das suas amigas para a realização desta noite, que está apenas começando, soube que alguém gosta bastante de filme nacional com legenda, certo? E tem que ser em telona, porque de "tela pequena já basta a minha e a das minhas amigas". — Falou, colocando aspas nos dizeres de Lilia, que Luiza não tardou a identificar e rir.
— Também descobri, créditos ao Zachary, que tem um filme que mexe bastante com você, certo?
"Não acredito..."
— Consigo imaginar o que é se sentir representado. Consigo imaginar que quando você assiste esse filme, seu coração derrete. Que você se enxerga no protagonista, ri com ele, chora com ele, sente as dores e alegrias dele. Que vive um mutirão de sentimentos. Na realidade eu nunca tive tanta noção dos meus, bom, privilégios tanto quanto agora. Então, na realidade mesmo, mesmo, eu não consigo imaginar nada disso tão bem quanto você. Mas posso te acompanhar nessa curta jornada de exatas uma hora e trinta e seis minutos.
Tomás se ajoelhou em frente a Luiza, que já estava sentada na cadeira de praia, e começou a mover suas mãos no ar:
"E é por isso que quero saber se você assistiria 'Hoje quero voltar sozinho' comigo."
Ela levantou as duas mãos, abaixou e levantou novamente. Suas mãos pairaram no ar como suas palavras. Luiza paralisou.
— Minha nossa senhora, como você chora! — Tomás riu, tentando quebrar o gelo, mas viu que não funcionou. — Ei, é sério, está tudo bem?
Luiza o encarou com as bochechas vermelhas e os olhos de água.
"Estou muito, muito feliz! Feliz demais!" Respondeu e pulou em seus braços.
Quando se afastou, completou:
"Muito obrigada."
— Mas eu ainda nem fiz nada. — Brincou. — E então, vamos ver o filme?
"Claro!"
Com o decorrer do filme, Luiza se aconchegou nos braços de Tomás, que sequer precisou fingir se espreguiçar novamente para abraçar a garota. Com uma mão, comeram pipoca do mesmo balde e, não sabiam dizer se estavam conscientes ou não disso, abraçaram uma a do outro com a livre.
Luiza terminou o filme com a mesma sensação de estar maravilhada como quando iniciou. Tomás ficou realmente comovido pela história. O protagonista não era apenas gay ou cego, como muitas narrativas pecam ao contar bons enredos em potencial e reduzir seus personagens a meras características. O personagem principal era um adolescente com problemas de adolescentes, permeado, isso sim, pelas suas características, não resumido a elas.
— Lu... — Tomás virou sua cadeira para Luiza. — Você tinha me perguntado mais cedo o porquê disso tudo. Eu já te disse. Porque gosto de você. Porque gosto de como você escreve seus e-mails com um tom sarcástico e ao mesmo tempo estranhamente poético. Porque gosto de como você assina. — Riu. — Porque gosto de como seu cabelo solto flutua com o vento. Porque gosto de como você tenta prender ele e ele sempre escapa.
"É difícil mesmo de prender essa minha amada jubinha."
— Posso imaginar. Bom, eu gosto de você e do seu senso de humor. Do jeito que suas mãos escrevem e esculpem o ar, também já te disse isso. Gosto muito do teu cheiro, é esquisito falar isso?
"Um pouquinho, mas pode continuar."
— Tudo bem, então vamos fingir que eu não disse que gosto muito do teu cheiro, mas gosto. Você é gentil, também é firme. Você é uma compositora incrível que infelizmente se autodenominou como anônima. Você é linda. E em tão pouco tempo, lu, eu juro que não sei como me apaixonei dessa maneira. É por você e por tudo isso que eu preparei essa pequena e íntima sessão de cinema. Quando fui grosseiro com você, me desculpe novamente, você não teve medo de me chamar de babaca. E foi a primeira pessoa, além de Zachary, que teve essa coragem. Você é corajosa, é radiante. Sabe por que os vagalumes saem à noite, lu?
"Você é realmente bastante esquisito." Retrucou, porém completamente admirada por dentro. "Não, não sei."
— Por que eles não têm medo do escuro. Carregam a própria luz. Me lembram você.
Tomás pôs uma mão na cintura de Luiza e a outra acariciou seu rosto.
— Bom, e eu também não sei se eles realmente só saem à noite. E também tem a questão da reação química, não é? Para gerar a luz deles e...
"Eu também estou apaixonada por você, Tomás." O interrompeu.
— Estou muito agradecido por ter começado a estudar LIBRAS e conseguir entender essas suas lindas palavras.
Luiza gargalhou. Ela o puxou para mais perto. Suas respirações se misturaram uma outra vez, mas desta ela não aguardou quaisquer interrupções: se aproximou e selou seus lábios. Tomás, surpreso, fechou os olhos depois de Luiza e acabou se entregando ao sentimento ao mesmo tempo, da mesma maneira. Estavam flutuando. Como o cabelo de Luiza, soltos ao vento.
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