Os Teus Acordes

4 Nós aceitamos o amor que achamos merecer


Lilia disse, gesticulando firmemente, para Marília e Luiza sobre como estava irritada naquela manhã. Seus longos cabelos ruivos estavam presos em um comprido rabo de cavalo, suas sardas, mais aparentes graças ao sol e à vermelhidão que as emoções traziam ao seu rosto. Seus olhos azuis, cinzentos, transbordavam indignação. Lilia tivera, mais uma vez, um encontro frustrante. No auge de seus dezessete anos, colecionava encontros mal sucedidos.

Lilia, Luiza e Marília estavam no intervalo, sentadas em um banco do pátio, comendo tranquilamente — as duas últimas, pelo menos — seus lanches. Luiza se distraiu momentaneamente passando o olho pelo seu redor. Todas aquelas árvores, amarílis, begônias e azaléas formavam um jardim de cores e cheiros muito agradáveis, projetado exatamente para um fim: se tornar aconchegante, seguro e feliz para os alunos que ali estudam. Seja lá quem for que tenha fundado a escola, aplicou muito carinho em seu projeto, em cada detalhe. Pois bem, infelizmente Lilia não notava nada disso naquele instante. Seguia gesticulando e verbalizando a história.

Na noite de sábado, logo depois de terem ido a lanchonete de seu Zeca juntas, Lilia foi para mais um de seus encontros românticos. O garoto, colega de classe, havia estado de olho nela por anos, ele disse, e ficaria lisonjeado em a levar para dançar. Ela só precisaria de muita disposição e de uma identidade falsa – a balada que havia aberto no centro da cidade era simplesmente fantástica!

A garota não perdia uma oportunidade de se divertir e sua aproximação havia sido tão fofa que, mesmo mal conhecendo o pretendente, não pôde negar o convite. Todos merecem uma chance, não é? Seriamente acreditava nisso. E também não era como se não fosse completar dezoito anos em poucos meses. Já era quase maior de idade, de qualquer forma.

Ao se encontrarem, o parceiro se tornou um cavaleiro. Estava de jaqueta, que logo foi movida para os ombros de Lilia. Era uma noite fria. Abriu a porta do uber para ela e beijou sua mão quando se aconchegaram em seus acentos. Todo aquele romantismo aqueceu verdadeiramente o coração de Lilia, tão cansado de desilusões passadas.

A noite havia sido maravilhosa, leve e divertida. Dançaram até os pés se cansarem e viram o sol nascer preguiçosamente, o céu de um laranja rosado, da cobertura da casa noturna. Tudo estava perfeito, exceto por... por...

Lilia abaixou as mãos suadas, as esfregou na calça e voltou para a história. Os olhos arregalados e curiosos de Luiza e os preocupados e nitidamente incomodados de Marília sequer tentavam esconder o quanto ansiavam o desfecho da história. Lilia continuou.

O menino quis tirar uma foto com ela. Para guardar de recordação, ele disse. Que mal havia nisso? Lilia sorriu de orelha a orelha e o cavalheiro não tardou a lhe beijar a bochecha, deixando-a corada. Após a foto, os rostos próximos, as úmidas respirações se misturando, o frio da madrugada, os zumbidos do ouvido devido às músicas altas... Após tudo isso, Lilia se aproximou e seus lábios estalaram em um breve selinho. Não era algo que normalmente fazia. Embora fosse muito convidada para encontros e em muito tenham tentado de forma fracassada e estabanada a beijarem, foi a primeira vez que ela beijou alguém. Não sentiu as borboletas no estômago, como tantos diziam que ela sentiria, ou algum tipo de calor diferenciado, palpitação ou qualquer outro sintoma que mais se assemelhava a passar mal para ela do que se apaixonar. Mas o beijou. E sentiu carinho pelo rapaz. Ele retribuiu o beijo, meio desajeitado, o que a fez reparar que havia tirado uma última foto.

Brincando, perguntou se era mais uma de suas recordações. Imediatamente ele ficou nervoso e começou a gaguejar. Lilia não entendeu muito bem e perguntou o que havia de errado e ele voluntariamente começou a se confessar.

Havia apostado com seus amigos que não conseguiria trocar meia dúzia de palavras com a garota mais gata da turma. Cada um apostou vinte reais. Se conseguisse as palavras desejadas, conseguiria cem verdinhas! O suficiente para um adolescente, como eles eram, curtir um final de semana de rei, ou talvez dois. Audacioso, ele dobrou a aposta. Sairia com Lilia por trinta reais cada e, por cinquenta reais cada, a beijaria. Como ninguém acreditou que aquilo fosse possível — Lilia já tinha lá sua reputação de fofinha e inalcançável — aceitaram os termos. Se ele perdesse, daria cinquenta reais para cada um e sequer sabia como conseguiria aquele dinheiro.

O nervosismo chegou a bater à porta, mas estava confiante. Sempre vira Lilia sendo tão gentil, tão amorosa com todos. Não devia ser propriamente difícil, como diziam, chegar até o coração dela, mais especificamente até a boca.

Lilia continuou gesticulando a história desanimadamente, enquanto Luiza visivelmente expressava seu choque e Marília parecia querer socar alguém.

Ali, em frente à balada, Lilia se segurou para não chorar, mas não conseguiu. Trêmula, soluçou e soluçou por cada grama de arrependimento de ter desperdiçado seu primeiro beijo dado e sequer ter sentido nada. O garoto chorava também. Ele disse que imaginava que ela havia criado um personagem na escola, não que fosse verdadeiramente assim, uma pessoa tão boa. Chorou e se arrependeu, porém a foto já havia sido enviada. Desesperadamente tentando se redimir, mostrou para Lilia que havia negado o dinheiro de seus amigos, que dinheiro nenhum alcançaria o valor daquele encontro. Mas já era tarde, ela já havia pedido um carro separado do dele e entrado, sem que abrissem a porta para ela, beijassem sua mão ou cedessem o ombro para se aconchegar.

Luiza estava irritadíssima. Marília estava furiosa. Lilia, envergonhada de ter sido enganada dessa maneira.

“Eu sinto muito” Luiza gesticulou recebendo, como resposta de Lilia, um balançar de cabeças que ambas sabiam significar “eu também”.

— Eu vou acabar com esse garoto! Eu vou! Eu vou! Espera... quem é ele? Você não disse o nome! Lilia, não acredito que depois de tudo isso está protegendo ele! — Marília não apenas falava, cuspia as palavras.

Logo se virou para Luiza e repetiu com as mãos os mesmos dizeres com a mesma intensidade. Luiza retrucou que o que o garoto tinha feito não devia ser feito com ninguém, quanto menos com uma pessoa que nunca tratou uma única alma mal. Lilia é a pessoa mais doce que conhece, ela disse, e apostava que a mais doce que o garoto conhecia também. Estava revoltadíssima!

Lilia apenas corava mais e mais vendo as amigas tomarem suas dores e o quanto a admiravam. Ela, ao invés da raiva que normalmente outros sentiriam ao terminarem de contar a história, abraçou Luiza e Marília com força, agradecendo pelo apoio.

Aquilo derrubou toda a barreira armada que Marília tinha construído de pura raiva e revolta. Logo se viu com uma lágrima escorrendo. Diversas sensações vieram à superfície. A tão forte e segura de si, Marília, chorando na escola.

Quando se afastaram, Marília não demorou a passar as costas da mão no rosto e se levantar.

“Preciso ir, é aula de física, sabem que não posso me atrasar.” Gesticulou. “Até mais tarde, meninas. E Lilia...” Marília se virou para a amiga, que ainda estava com a cabeça repousando nos ombros de Luiza.

Marília novamente foi até a amiga, segurou suas mãos e a enlaçou em um abraço apertado.

— “Nós aceitamos o amor que achamos merecer.”

Lilia ficou boquiaberta por alguns segundos, o suficiente para Marília se afastar e ir apressadamente para a aula.

Havia emprestado aquele livro para Marília há muitos anos. Luiza não sabia disso, porém antes mesmo dela entrar na escola, enquanto Marília e Lilia ainda eram crianças, “As Vantagens de Ser Invisível” fora um dos primeiros livros que Lilia leu.

Uma bela tarde Marília foi brincar na casa da amiga e Lilia estava a aguardando enquanto terminava a última página. Lilia chorava copiosamente, sempre fora muito emotiva. Mas Marília, ao ser pega de surpresa, se sentou na cama ao lado de Lilia e chorou junto. Após muitos minutos, Lilia perguntou porque Marília estava chorando e Marília disse que odiava ver Lilia chorar, mesmo que visse tantas, tantas vezes. Lilia perguntou, então, porque nunca havia antes chorado com ela dessa forma e Marília ficou muito nervosa e se apressou em dizer que não sabia como chorar na frente de outras pessoas... Era tão íntimo.

Lilia respondeu que ela também era uma pessoa e Marília discordou, ela era sua melhor amiga, não uma pessoa qualquer. Era o amor da sua vida. Crianças são tão intensas, não é mesmo?

Naquele mesmo ano, Lilia entregou o livro para Marília de presente e escreveu na sobrecapa “para os momentos que precisar extravasar seu coração, com amor.”

Marília não soube lidar com essa ingênua declaração e subitamente entrou na defensiva. Explicou que não gostava de ler, que ela poderia largar o livro em qualquer lugar do quarto para brincarem logo, mas não garantia que um dia conversariam sobre. Lilia, sempre tão intensa, ficou arrasada, mas logo se recuperou e brincaram felizes da vida por mais uma tarde normal.

Quando Luiza perguntou para Lilia o que Marília disse, ela apenas sinalizou que ouviu que era para ficar bem, que a dor iria passar. Luiza concordou, eram sábias palavras, mas não as verdadeiras. Lilia quis guardar, sem saber o porquê, um pouquinho daquilo que foi dito para si mesma. Apesar do desfecho triste do encontro, se viu com o coração subitamente feliz e palpitante.

A emoção de saber que leram o livro que você recomendou era grande, é isso. Era apenas isso.

* As Vantagens de Ser Invisível, CHBOSKY S., 1999.