Os Teus Acordes

5 @ApenasLu troca e-mails com @UmTomasReal


Luiza suspirou, se sentou na cadeira de rodinhas e afastou o bloquinho de anotações que ficava ao lado de seu notebook. Digitou rapidamente os quatro números de sua senha e instintivamente acessou o perfil pessoal de Tomás. Disfarçadamente (para quem?) trocou para o perfil de suas músicas.

Foi um dia de aula cansativo e como todo bom dia de aula cansativo, rendeu diversas reflexões para que o tempo passasse mais rápido. Uma dessas reflexões foi sobre como alguém tão mal educado não merecia nem um pouquinho das palavras de carinho que a @ApenasLu escreveu em um momento de deleite e fraqueza.

Decidida, foi até seu primeiro comentário e olhou atentamente a lixeirinha. Estava tão plena quando o escreveu... Desejou tanto escutar a música, a sentir ecoando em sua mente tão alta, tão nítida, tão sonora...

Para, Luiza! Ele te tratou super mal!

É a primeira impressão que fica, é o que sempre dizem. E a primeira impressão foi a que ele era apenas mais um ouvinte mimado que só enxergava o próprio umbigo e... e...

E que tinha acabado de enviar um e-mail?

“Cara @ApenasLu,

Tudo bem? Espero que sim. Me alegro, pois vejo pelos seus comentários que tudo parece estar bem:

‘Esta música é, definitivamente, música para os meus ouvidos.’

‘Eu amei o jogo de cordas do minuto 1:58. Você definitivamente manda muito bem no violão!’

E por último, mas não menos importante:

‘Parabéns por compor essa obra de arte, para você e sua mãe.’

Confesso que esse último me arrancou boas gargalhadas.

Bom, sou um músico que acabou de chegar nesta imensidão que é o mundo online. Estou admirado, encantado e... sensível? Cada comentário — positivo ou não — alcança meu coração como um trem bala. E os seus, esses e alguns outros, me despertaram uma gratidão imensa e eu senti, de rompante, uma necessidade de te contactar, de te agradecer e – quem sabe – de estabelecer uma abertura, um canal, para que você possa escrever mais sobre o que pensa/acha/sente das minhas tão humildes melodias.

Qual não foi minha surpresa ao ver que já te conhecia? (...)”

Luiza suspirou fundo. Será que ele realmente se lembrava do esbarrão? Havia reparado nela? Isso não apagava o fato de que tinha sido completamente mal educado! Mas será que? Continuou lendo.

“(...) @ApenasLu, nossos pés nos dirigiram um para o outro naquela rua. E venho aqui pedir desculpas. Deixo, por hora, as palavras bonitas de lado e te digo:

Fui um babaca. (...)”

É verdade. Luiza pensou e, sem querer, sorriu.

“(...) E você em momento algum reclamou ou foi grosseira, talvez tenha até mesmo pedido desculpas e eu, em meu torpor, sequer ouvi. Peço desculpas, lu.

Então é isso. Este e-mail, inicialmente com a função de agradecer, se tornou uma carta de redenção em uma garrafa neste mar de pixels tão vasto que é a Internet. Espero que não guarde mágoas. Contudo caso as guarde, saiba que entenderei.

Saudações de um músico elegante e pateta,

@umTomasReal”

Luiza olhou por alguns momentos o monitor e o fechou, acreditando que, se aquilo não fosse real, ela acordaria naquele mesmo momento. Não haveria motivo, na verdade, para sonhar com um e-mail de Tomás, exceto pelo fato de que havia ficado completamente deslumbrada com a música dele e com o próprio por longas horas enquanto fuxicava suas redes sociais, quando descobrira que gostava dos filtros que transformavam as fotos em cartoons e de músicas dos anos 70. Mas se curou quando encontrou o rapaz de uma maneira tão brusca e desrespeitosa no meio da rua. Ela pensava isso, pelo menos. Só que agora ele tinha procurado seu e-mail apenas para agradecer e se desculpar e, meu Deus, isso era tão exageradamente fofo!

Não que ele não estivesse fazendo mais do que a obrigação, sendo educado, ou mesmo que hoje em dia seja uma tarefa exatamente difícil descobrir o e-mail de alguém. Sinceramente, Luiza pensou, alguns cliques no Google bastam para descobrir até o CPF de uma pessoa, por que não o e-mail? Ainda assim... ainda assim aquilo a tocou. Ligou o notebook. Desligou novamente. Repetiu o procedimento pelo menos mais duas vezes.

Não havia acordado. Era melhor parar de ligar e desligar antes que ele parasse de vez. Resolveu abrir e reler o e-mail. Ok, Luiza, é apenas um e-mail. Agora você tem dois caminhos: responder ou fingir que não viu.

E é claro que, com toda maturidade que os dezessete anos de sua vida lhe conferiram, com toda a educação que seu pai lhe passou, com todo o amor e carinho ela, bom, fingiu não ter visto o e-mail. E foi fazer um lanche na cozinha. E assistir um pouco de televisão ao lado do seu pai, enquanto, ao mesmo tempo, folheava um livro e freneticamente balançava as pernas.

Souza sorriu. Ai, ai, como é intensa a adolescência, não é mesmo?

“Formiguinha, meu amor, está tudo bem?” gesticulou.

Luiza sequer se virou para ver. Souza, então, apoiou a mão no joelho da filha, em uma tentativa de chamar a atenção e interromper aquele balançar de pernas incessante.

“Formiguinha, está tudo bem?” Repetiu.

Luiza olhou para ele com aqueles grandes olhos castanhos e visivelmente incomodados. Estava repassando uma possível resposta na sua cabeça muitas e muitas vezes sem sentir, reparando nisso apenas ao olhar para seu pai. Souza a abraçou e a fez um breve cafuné.

Luiza respirou fundo. Inicialmente, explicou timidamente o que havia acontecido: ela descobriu um músico pela Internet, um belo músico, e havia comentado como uma... fã em seus vídeos.

Ela se considerava fã de Tomás? Não, era muito cedo para isso, mas ele mexia com ela de alguma maneira. Preferiu guardar essa informação para si, seu pai não precisava saber disso.

Desembuchou a história: Tomás havia sido um babaca ao esbarrar com Luiza no meio da rua e sequer se importar com ela, falando inúmeras palavras rápido e emboladas demais! E sair andando, simplesmente, sem nem se verificar se ela estava bem ou não! Ultrajante!

Souza riu e, revoltada, Luiza perguntou do que ele estava rindo. Não havia nada de engraçado naquilo tudo!

Souza respondeu que o discurso indignado da filha se assemelhava ao de alguém que havia cultivado alguns sentimentos pelo rapaz. Como bem pensava, a adolescência é uma fase bastante intensa.

Luiza ficou ofendida. Sentimentos? Por aquele músico grosseiro? Jamais!

Seu pai continuou explicando que entendia a revolta pelo que aconteceu na rua. As pessoas não enxergam umas às outras, e, e isso é triste, sentia que enxergavam ainda menos aquelas que não podem ouvir.

Luiza concordou com a cabeça seu olhar murchou. Sim, era verdade. Tinha se sentido invisível.

Souza pediu desculpas por ter rido e sinalizou que entendia e que sentia muito. Luiza, por sua vez, o abraçou e ficou decidida a esquecer o e-mail, até que seu pai acrescentou uma observação: a invisibilidade é um mal crônico da sociedade, mas pode ser deixada de lado se não desistirmos ou esquecermos de ninguém. Como é mesmo aquele ditado? Ninguém larga a mão de ninguém?

Luiza atentamente o olhou, franziu as sobrancelhas e concordou com a cabeça. Estava certo. Lhe deu um beijo na bochecha e correu de volta para o quarto.

Sentada, novamente, na escrivaninha, havia esquecido o notebook ligado. O e-mail estava bem a sua frente, prontinho para ser respondido.

“Oi, @umTomasReal (...)”

Apagou. “Oi” é péssimo!

“Caro, @umTomasReal (...)”

Apagou novamente. “Caro” é tão péssimo quanto! Cafona. Além do mais, eles nem se conheciam direito para expressarem tal estimo, tal carinho, um pelo outro.

“@umTomasReal (...)”

Perfeito.

“(...) Me desculpa pela demora. Estava assistindo televisão com meu pai. Por aqui temos legenda em todos os programas. Isso facilita, bom, tudo e (...)”

Apagou mais uma vez. Releu o e-mail que Tomás a havia enviado. Ele não a ouviu pedir desculpas porque ela não falou desculpas. Não tinha exatamente o hábito de falar com a boca. Ele pediu desculpas pelos xingamentos, que também não foram ouvidos por ela. Ele não sabia que ela não ouvia. Era a primeira pessoa, em tempos, que a conheceu e a tratou como uma ouvinte.

Isso a incomodava, é claro, mas em partes. Alguma pequena parcela dela queria manter assim. Se sentir parte da massa, por que não?

Recomeçou o e-mail.

“@umTomasReal (...)”

Certo, escrever ia demorar.