Os Teus Acordes
9 Apenas mais um músico babaca
O quintal de Tomás é bonito. Não é tão rebuscado quanto sua casa com todos aqueles móveis refinados, trabalhados detalhadamente cada um. É mais simples. Um cantinho verde atrás da casa, Luiza diria.
A grama úmida fazia cócegas nas laterais dos pés de Luiza, que estava de sandália. Haviam algumas flores aqui e ali e uma grande árvore bem ao lado da casa, mas não tão perto a ponto de prejudicar o telhado.
Espaçoso, só que não exageradamente. Aconchegante, mas não preguiçoso. Ao invés de sentir moleza naquele ambiente, se sentiu revigorada.
Tomás desencapou o violão com todo o cuidado e Luiza tateou o tecido, que era grosso e um pouco áspero. Ele puxou, de uma bolsinha que havia levado, uma canga em tons de cinza para Luiza se sentar confortavelmente. Depois puxou o banquinho do quintal que já era nativo dos seus shows para uma pessoa só (ele mesmo, no caso).
— Espero que você goste, tanto a letra quanto a melodia dessa música vieram para mim como se tivessem sido sopradas pelo vento, pela vida. — Tomás sorriu.
Luiza assentiu. Estava curiosa e, diria também, feliz por aquele momento.
Os dedos ágeis do garoto começaram a dedilhar as cordas mais graves do violão, harmonicamente alternando entre os acordes, que dançavam, vibrando. Instintivamente, sendo puxada pela leveza dos movimentos da mão de Tomás, Luiza pôs três dedos sobre o instrumento e Tomás interrompeu sua apresentação.
— O que você está fazendo, querida? — Ele perguntou, pondo a mão sobre a sua e a retirando do violão. — Isso pode atrapalhar a acústica do instrumento...
Ela quis pedir mil desculpas por interromper esse momento que soava tão íntimo e etéreo. Mas como pedir desculpas sem ele descobrir que ela... que Luiza era diferente? Tomás continuou a encarando, aguardando uma reação, qualquer que fosse.
— Luiza? — Questionou, firme.
A garota olhou fundo em seus olhos e logo desviou seu foco para o violão.
— Luiza...
Uma voz conhecida surgiu na mente de Tomás.
Zachary já havia sacado e avisado ao amigo que Luiza era surda, que sua maior fã é surda. Que não ouvia realmente suas músicas. Que não ouvia absolutamente nada.
Tomás, ainda distraído com a recém revelação, que não era tão recente assim, pediu para Luiza aguardar um momento e entrou na casa como um breve furacão: rápido, revirando tudo pela frente. Onde está aquele caderno, afinal? Se perguntou. Depois de muita procura, Tomás encontrou seu primeiro caderno de música. A mesma capa em preto e branco com a nota musical e os traços grossos desenhados, algumas figurinhas coladas, daquelas que vinham no chiclete. Estava um pouco surrado, com muitas páginas em branco, mas ainda era uma lembrança de afeto. Suspirou. Seu primeiro caderno de música antes de deixar de compor por dois ou três anos. Arrancou e guardou as poucas páginas escritas dele e o levou com uma caneta para o quintal.
Luiza permaneceu imóvel na canga. Sentiu que caso respirasse rápido ou profundo demais tudo aquilo desmoronaria. Toda aquela tarde. Só que talvez já tivesse desmoronado. Tomás entregou o caderno e a caneta para a garota. Se comunicaram por olhares e se compreenderam. Tomás já havia entendido o que Luiza estava tentando esconder e se questionou insistentemente por quê?
Luiza olhou para aquele caderno com as espirais soltas nos extremos, a capa com algumas pontas amassadas e as páginas, que foram um dia provavelmente brancas, amareladas. Começou a escrever.
“Oi.” E um sorrisinho.
Os olhos de Tomás se avermelharam. Estavam molhados. Ardiam.
“Mal pude acreditar que você se debruçou sobre minha letra para dar vida para ela. Obrigada.” Escreveu, desenhando a caligrafia e pingando os “i’s” com corações.
— Você consegue me entender? Você entende o que eu canto?
“Sim. Entendo tudo o que fala, querido. Contanto que não dispare inúmeras palavras por minuto feito uma impressora irritada com diversas impressões atrasadas.”
Tomás riu e tossiu. Havia um nó na sua garganta e rir era um pouco contraditório com que estava sentindo.
— Se incomoda de eu falar ou prefere que eu escreva?
“Pode falar. Gosto de te sentir falar.”
— Gosta de me sentir falar?
Luiza fez menção de escrever alguma outra coisa, mas riscou e virou novamente o caderno para Tomás.
“Sim.”
— Você gosta das minhas músicas?
“Acho que você já sabe o que vou responder.”
— Luiza, como você gosta das minhas músicas?
“Você está me perguntando ‘por quê?”
— Não, estou te perguntando como.
Novamente fez menção de escrever alguma outra coisa, mas riscou.
“Eu escuto. Não ouço, mas é como se escutasse. Sei o que você canta, posso ler seus lábios e, quando não posso, o Google me ajuda bastante.”
Tomás riu e ela continuou escrevendo.
“Quanto às melodias, sei que está se perguntando: eu as sinto. Sinto as vibrações, sinto com todo meu coração. Elas são todas lindas.”
Tomás não conseguiu mais segurar as lágrimas. Estava confuso, frustrado, emocionado e encantado. Tudo ao mesmo tempo. Se virou de costas.
— Tudo bem se você for para casa agora?
Luiza abriu a boca, surpresa. Aquela reação contida e defensiva estranhamente foi quase como se Tomás gritasse e esperneasse. Ela cutucou suas costas e fez menção de entregar o caderno. Tomás estendeu a mão pra que parasse.
— Pode ficar com essa porcaria! – Grunhiu.
Tomás respirou fundo e reformulou o que tinha dito:
— Fique com o caderno.
Foi até a porta. Luiza permaneceu inerte.
— Por quê?
Ela questionou com os olhos sobre o que estava perguntando.
— Por que não me contou que é surda?
“Porque isso não muda nada.” Escreveu, não mais desenhando as vogais e consoantes, mas, sim, arrastando grosseiramente a ponta da caneta sobre o papel.
— Isso muda tudo.
Tomás entrou na casa e deixou, por alguns minutos, Luiza ali, chocada, revoltada e profundamente decepcionada. Escreveu o que prometeu para si mesma ser o último bilhete, carta ou e-mail que trocaria com Tomás. Empurrou para debaixo de sua porta e foi até a casa da tia de Lilia buscar algum consolo ou, quem sabe, simplesmente um bolo de cenoura com brigadeiro para acalmar as mágoas.
Mais tarde, naquela mesma noite, Tomás pegou o bilhete. Tinha sido amassado com raiva e manchado com lágrimas que já haviam secado.
“Você não quer uma amiga, quer uma fã. Mais que isso: quer uma fã comum, como qualquer outra. Quer que eu seja uma a mais na sua futura multidão de fãs. Eu sinto muito por isso, pois nunca serei ‘apenas uma a mais’. Eu sou extraordinária. E você é realmente apenas mais um músico babaca.”
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