Os Teus Acordes
10 Aceita gasolina para o café?
— Batatinhas? — Lilia piscou seus longos cílios para Marília.
— Não. — Ela respondeu enquanto olhava despretensiosamente o celular.
Lilia suspirou e suspirou, tentou novamente:
— Sanduichinho? — Não é tão bom quanto batatinhas, pensou, mas posso viver com isso.
— Lilia, nós acabamos de almoçar. — Retrucou Marília.
Ela estava sentada com a postura correta em sua cadeira, enquanto Lilia estava, como de costume, jogada na cama. Bloqueou a tela do celular e o apoiou na escrivaninha ao lado. Suspirou:
— Não é possível que esteja com fome.
— Fome, Mari, é um conceito forte demais para o que estou sentindo. Diria que estou com vontade de batatinhas.
— Como em qualquer outro momento da sua vida. – Marília debochou.
— Sim! — Lilia respondeu, não interpretando o deboche, o que acabou fazendo Marília rir. — Só que posso negociar outros lanches. Que tal um sorvetinho? É uma sobremesa, oras. Para comer sobremesa não tem que ter fome, certo?
Por alguns segundos apenas se olharam. Marília sorriu. Como a Lilia é bobinha, pensou, e sacudiu a cabeça. Lilia continuou piscando seus longos cílios e juntando as mãos, pedindo “por favor, por favor, por favor”.
— Mariliazinha, não estamos fazendo nada. A Luiza está com o Tomás, nós já estudamos, vamos relaxar, ok?
— Não estamos relaxando?
— Relaxar com sorvetinho. — Sorriu, fazendo Marília rir novamente.
— Você é impossível, Lilia.
Lilia sorriu e saltou da cama em direção à Marília, a abraçando. Marília já havia reparado, mas era estranho notar mais uma vez que os grandes olhos de Lilia tinham cor de mar sereno, azul calmo com traços esverdeados. Seus longos cílios eram a moldura que os destacava. Suas sobrancelhas, desenho, mesmo que Lilia não se esforçasse para fazê-las. Marília sacudiu a cabeça e focou seus pensamentos em qualquer outra coisa que não fossem os olhos de Lilia, assustando a garota que, por sua vez, também reparava nos olhos cor de oliva de Marília.
— Sorvetinho? — Lilia perguntou com voz baixa.
A pergunta atravessou o ar repentinamente pesado que pairou entre as duas.
— Sim, Lilia. Sorvetinho. — Marília se levantou, passou as mãos nas calças, em um movimento de espanar poeira, e pegou sua bolsa do cabideiro ao lado da porta. — Olha, você não se preocupa com seu açúcar, não?
— Que grosseria, Marília! E, sim, me preocupo. Meu último exame de sangue estava ótimo, ok? E eu faço muito exercício também. Minha mãe ainda não tirou da cabeça que quer me inscrever naquele concurso maluco, então me perturba para me exercitar pelo menos quatro horas todos os dias.
— Onde é que você encaixa essas quatro horas? A gente está junta praticamente o dia inteiro.
— Bom, eu acordo às quatro e meia da manhã. — Começou a explicar, ao passo que Marília murmurou um “meu Deus...” – E, quando chega a noite, lá pelas sete horas, faço mais duas horas de exercício. Aos finais de semana faço de manhã, antes de sair com vocês.
— Meu Deus, Lilia. Eu sei que sua mãe é fissurada nesses lances de corpo, só não sabia que era esse ponto.
— Sim. — Bufou. — Eu realmente acho que temos que trabalhar o nosso amor próprio. Sempre. É claro que precisamos exercitar o corpo, cuidar da saúde, mas esse exagero... Tenho certeza que é porque ela transfere alguma coisa para mim, alguma expectativa.
— É claro.
— Sim, ela quis participar de concursos de modelo quando era menor, só que a mãe dela considerava besteira e perda de tempo. Ela sempre esculpiu o próprio corpo e, quando finalmente se inscreveu em um, por ser menor de idade, minha avó a proibiu de participar. É triste, não é? Não poder seguir os próprios sonhos.
— Mas, Lilia, se o sonho é dela, por que você concorda em seguir?
— Primeiro que eu posso comer quantas batatinhas e sorvetinhos eu quiser sem me preocupar muito com o açúcar no sangue.
— Saiba que não é bem assim. — Marília repreendeu. — Nosso corpo precisa de combustível e, ao invés de gasolina, você está tacando açúcar e querendo que o carro ande.
— Ótima metáfora, quer que eu beba gasolina de café da manhã?
Marília pôs a mão na testa:
— É óbvio que não! Só estou dizendo que nosso corpo precisa de alimentação saudável.
— Já reparou nos meus lanches da escola? Nos almoços que eu trago quando viemos estudar aqui?
— É, é. Sim. Você só come mato.
— Sim, acho que mereço um lanchinho da tarde que não passe pelo aval da senhora minha mãe, certo?
Ambas concordaram com a cabeça.
— Bom. — Lilia continuou. — Eu aceito seguir o sonho da minha mãe por um simples motivo: por que não?
— Por você estar incentivando uma cultura de culto ao corpo que não deveria existir? Que prega, na verdade, ódio ao corpo da mulher? “Não pode ter gordurinhas, não pode ter estria, não pode ter celulite. Eca, pelos!” — Satirizou, engrossando a voz.
— Sim, eu concordo com você. — Lilia pegou uma moeda da bolsa de Marília e a tacou para cima, a rotacionando no ar. — Há o outro lado também, Mari. Minha mãe, quando criança, deturpava o próprio corpo. Ela se enxergava sempre com uns quilos a mais. E qual seria o problema se ela tivesse uns quilos a mais, não é? Eu sei que ela vê em mim uma oportunidade de fechar esse ciclo. Toda vez que ganho algum concurso ela se emociona. Não a vejo me invejando, querendo estar no meu lugar. A vejo realmente orgulhosa, sentindo como se estivesse realizando um sonho meu, mesmo sendo apenas uma transferência psicológica dela.
“Além disso, sempre que fico em primeiro, segundo ou até mesmo terceiro lugar, tenho a oportunidade de pegar o microfone e repetir, de todo meu coração, sobre como precisamos ser saudáveis e como saúde não é sinônimo de magreza. Saúde é comer bem, se exercitar bem, mas se amar também. E comer bem não é comer mato, comer bem é comer refeições equilibradas, em um intervalo de tempo equilibrado e estabelecer uma relação positiva com o alimento, de gratidão, não de culpa. É se amar. O corpo é nossa casa, sabe?
Algumas pessoas já se ofenderam por eu, magra, fazer isso, falar essas coisas. E eu até entendo. Nunca vou conseguir compreender a tal da gordofobia, já que não a sinto na pele, só que esses concursos reúnem diversos preconceituosos de plantão. Se estão olhando para mim, então por que não? Se posso ajudar, por que não falar? Por que não tentar mudar o pensamento de uma pessoa de cada vez?”
Marília ficou boquiaberta. Seu olhar alternava entre o de Lilia, antes sereno, agora mar agitado, determinado, e a boca de Lilia, pequena, rosada, em formato de coração, falando sem parar. Falando sobre um tópico tão sério e tão importante com naturalidade e consciência.
— Eu... — Balbuciou. — Eu não conhecia esse seu lado, Lilia.
Lilia rotacionou novamente a moeda no ar.
— Há muitos lados em cada pessoa, querida. Há muitos lados. Além disso, não falo muito sobre esses concursos.
Quis falar, quis concordar, quis responder, quis abraçar a amiga, mas, em vez disso, Marília continuou encarando Lilia boquiaberta.
— Sorvetinho? — Lilia voltou a piscar seus longos cílios.
Marília também piscou bastante, tentando acordar da curta viagem que sua mente fez. Estava praticamente visualizando os discursos da amiga. Estava muito feliz e orgulhosa e talvez, apenas talvez, atraída?
Não, é claro que não estava atraída pela Lilia! Pela sua melhor amiga? Havia apenas sido pega de surpresa.
Logo após o sorvete prometido, Marília e Lilia foram para suas respectivas casas.
Marília respirou fundo. Não entendia o que tinha sentido durante o pequeno discurso de Lilia e aquilo ainda a incomodava. Lilia respirou fundo. Nada como um bom sorvetinho.
— Oi, mãe! — Lilia chegou perto da mesa e lhe deu um beijo na bochecha.
Estava trabalhando no notebook.
— Cheguei! — Marília foi até o sofá e deu um beijo na testa de seus pais.
Estavam cochilando.
Lilia foi até o quarto, feliz da vida pelo sorvete. Marília também foi até o quarto, se sentou em frente ao computador, ligou o monitor e ajeitou a postura. Lilia se deitou na cama e deixou o celular cair na testa. Droga, Lilia, você nunca aprende!
Marília tem um blog. Sua temática é LGBTQI+ (Lésbica; Gays; Bissexuais; Transexuais; Queer; Intersexuais; +) e já tem algumas centenas de seguidores. Semanalmente, escolhe um dos textos que seus seguidores enviam e publica em um espaço para a comunidade. Ainda assim, tenta ter material novo a cada dois dias, para que seus leitores tenham sempre alguma novidade, seja uma notícia boa, um caso relatado com final feliz, uma reflexão ou uma crônica, exatamente no que estava trabalhando enquanto se espreguiçava e bocejava em frente ao computador.
Lilia estava rolando o feed do Instagram, até que recebeu uma notícia: um dos blogs que acompanha havia sido atualizado.
Foi postada uma crônica sobre duas amigas que se apaixonam. Tão bem escrita... Ao terminar de ler, Lilia abraçou o celular. Marília estalou os dedos quando terminou de escrever e publicar a mais nova e curta obra. Assinada por Letícia (seu pseudônimo), Marília, de certa maneira, se sentiu aliviada em compartilhar aquela crônica com seus leitores, seja lá o porquê de sentir isso.
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