Os Teus Acordes
11 A compositora predileta
A noite estava linda. Noite de lua cheia, céu estrelado, brisa gelada. Marília respirou fundo enquanto caminhava para a balada.
A fila estava pequena. Nunca chegava nas festas antes de abrirem, não gostava das filas. Gostava da música, da multidão dançante e, de certa forma, do anonimato. Era por isso que quase nunca ia acompanhada. Lilia e Luiza sabiam do costume da amiga, mas tirando seus pais, eram as únicas.
Chegou à porta, apresentou a identidade, deu boa noite para o segurança — já conhecido, todo mês reservava uma noite dançante para si – e entrou na casa escura. Só conseguia enxergar quem estava próximo do palco, iluminados pelo jogo de luzes neon.
Marília se certificou de que se alguém ligasse para ela o celular vibraria, não tocaria, já que não iria ouvir. Se infiltrou no meio daqueles corpos agitados e desarmonizados. Fechou os olhos, jogou os braços para o alto e, enfim, dançou.
Cerca de duas horas depois, esbaforida, abraçada pela própria endorfina e com os pés levemente doloridos, Marília reparou em um rosto conhecido no meio de uma pequena confusão que se formou no canto da boate.
— Eu apenas não entendo... — Tomás argumentou com o gerente do local. — Vocês literalmente têm um telão que só transmite umas imagens aleatórias.
— É apenas para a imersão, meu jovem. — Respondeu o homem de blusa social e duas bebidas na mão.
— E por que não imergir todo mundo?
— Querido, para que vou legendar todas as músicas que tocarem? — O gerente debochou. — “Ora, ora, vou para a balada, onde se ouve música, para ler uma coisinha nova.” Lê um livro, oras!
Tomás, antes completamente calmo, havia perdido a compostura e elevado um pouco o tom de voz, atraindo mais alguns curiosos das redondezas.
— Aqui não é meramente um lugar para ouvir música. Se fosse isso eu seria burro, já que é muito mais barato ouvir diretamente do meu celular! Por aqui sentimos a música. E mesmo aqueles que não podem ouvir, podem sentir. — Tomás se virou em direção a saída, pedindo licença para o pequeno grupo de pessoas intrometidas. — É ótimo saber, inclusive, que vocês agem com tamanha hostilidade frente a uma sugestão de cliente.
O gerente resmungou algo e voltou para a parte de trás do palco. Tomás, com passos pesados e postura curvada, nitidamente irritado, saiu às pressas do local.
O que tinha sido aquilo, afinal? Luiza tinha falado sobre como Tomás havia sido babaca com ela, como a havia desmerecido. Esse mesmo Tomás? Que acabou de discutir com o gerente da boate por não ser inclusiva?
Marília tirou o moletom da cintura e o vestiu. Como não havia consumido nada, apenas devolveu a comanda para o bar e saiu apressadamente.
Por que ela estava seguindo o Tomás? Mal sabia, mas algo naquela história não se encaixava. Além do mais, ele havia tratado muito mal sua melhor amiga, merecia escutar algumas palavrinhas sobre não ser um idiota com as pessoas.
De longe, o viu atravessar a rua e virar a esquina. Marília puxou a gola de sua blusa para cima – a madrugada pode ser realmente fria – e colocou as mãos no bolso do moletom. Esperou o sinal fechar, sua respiração ficou densa no ar, atravessou a rua e virou a esquina, observando atentamente loja por loja, cada porta transparente. Após passar por diversos lugares fechados, parou em frente a uma padaria aberta por vinte e quatro horas. Pensou que Tomás, de costas, não tivesse reparado que havia sido seguido. Talvez não a reconhecesse da lanchonete nem se estivesse virado em sua direção. Marília havia sido apenas grosseira com ele, nada perto de uma pessoa marcante. Entrou no local e sentiu imediatamente a onda de calor. Agradeceu os deuses. Apesar de gostar do frio da madrugada, ser abraçada por um ambiente confortável e quente é, nessas condições, um momento de glória.
— Amiga da Luiza, não? — Tomás perguntou, ainda de costas quando Marília se aproximou, fazendo a mesma dar um pequeno pulo.
— Como você sabe?
Tomás se virou. Estava bebendo um refrigerante e comendo um pedaço de bolo de milho. Pelo menos ela chutou que fosse bolo de milho, o comparando com os da vitrine.
— Bom, você estava na balada. — Tomás se virou para a olhar. — E eu me lembro do seu tratamento gentil na lanchonete do Zeca.
— Seu Zeca.
— Ele não é minha propriedade. — Tomás riu, Marília continuou séria. — Vamos lá, qual é o seu problema comigo? Um homem não pode mais comer bolo de milho – bingo! pensou – em paz sem ter alguém o seguindo de cara feia?
— Vamos começar pelo fato de que você não é um homem, você é um moleque!
— Touché. — Debochou Tomás, movimentando seus braços como se estivesse abaixando a espada invisível.
— E eu não estou te seguindo.
Tomás levantou as sobrancelhas e desenhou um sorriso no rosto.
— Ok, talvez eu esteja te seguindo. O que foi aquela cena na boate? Você primeiro humilha a Luiza e logo depois defende a causa dos surdos e oprimidos? Oh, Santo Tomás!
Um pouco longe da padaria e do bolo de milho do Tomás, Luiza e Lilia faziam uma festa do pijama e assistiam seus filmes favoritos.
“Sabe...” Lilia gesticulou, enquanto viam pela octogésima sétima vez o mesmo filme. “Eu não consigo entender...”
“Nem eu, não importa quantas vezes eu assista ‘Como eu era antes de você’. Custa entender que a vida não se limita às limitações do corpo? Aliás, essas limitações podem, muito bem, não limitarem. Não conseguindo ouvir, consigo prestar muito mais atenção em tudo e em todos, vê?” Luiza respondeu, segura de si.
Tomás deu uma grande mordida no bolo, mastigando lentamente. Bufou, revirando os olhos.
— Não defendi a causa de ninguém. Só acho que não custa nada.
— Não custa mesmo! Da mesma forma que não custava nada entender e enxergar a Luiza como alguém que pode, sim, consumir normalmente suas músicas antes de dizer todas as besteiras que disse. — Marília respondeu, brava.
“Não estava falando do filme, mas também não entendo isso. As pessoas podem ser bastante orgulhosas! Eu estava me referindo ao Tomás. Será mesmo que ele é tão preconceituoso desse jeito?” Lilia perguntou.
Luiza pôs um punhado de bala de gelatina na boca e retrucou:
“Foi como ele se mostrou. Não acredito que me sensibilizei pelas suas músicas! São lindas, mas a beleza não é nada sem o conteúdo.”
“Que clichê, amiga!” Lilia riu, fazendo com que Luiza risse também.
Era clichê, é verdade.
— Você está certa. — Tomás suspirou.
“Mas, sabe? Você está certa.” Lilia continuou a conversa, pausando o filme. “Não adiantada nada ter lindas músicas, cabelos sedosos, um rosto de anjinho e te tratar como tratou. Não adianta nada a pessoa se abrir para o flerte e não aceitar quem o crush realmente é. E você é incrível! Eu realmente sinto muito que o Tomás seja tão tapado ao ponto de não enxergar!”
“Obrigada, Lilia.” Luiza sorriu. “Obrigada.”
— Estou? — Marília arregalou os olhos, não estava esperando uma resposta positiva tão imediata à sua revolta.
— Sim, você está.
“Ele não te tratou nada bem...”
— ... poderia muito bem ter agido com naturalidade... — Tomás prosseguiu seu raciocínio.
“... afinal, Luiza, é algo natural. Você não é um monstro ou um brinquedinho com defeito. Você é uma pessoa com uma sensibilidade enorme...”
— ... linda, diga-se de passagem...
“... e cativante. Enquanto ele, um músico bundão, simplesmente pôs tudo a perder.”
— E eu coloquei tudo a perder.
— Você já perdeu, Tomás. Ela não quer te ver nem pintado de ouro. Você foi grosseiro, muito mal educado. — Marília acusou e Tomás deu outra mordida no seu bolo, abaixando seu rosto com vergonha.
“Gostaria de vê-lo novamente. Gostaria que pedisse desculpas, que fosse tudo um mal entendido.” Luiza desabafou.
— Talvez. Mas nunca terei certeza se eu ao menos não tentar me desculpar. — Tomás ergueu a cabeça.
Praticamente engoliu o restante do lanche e pulou da cadeira, se levantando.
— Ok, talvez amanhã. Está muito tarde.
Marília sorriu. Algo em Tomás a fez sentir que o menino estava sendo sincero. Talvez estivesse mesmo arrependido.
— Marília. — A menina estendeu a mão.
Tomás a puxou, sacudiu e lhe deu um beijo na bochecha. Marília o encarou.
— Desde quando te dou esta intimidade?
— Desculpa, tomei alguns drinks. Não quis invadir seu espaço. — O rapaz respondeu.
Normalmente, quando ouvia isso, infelizmente era dito com sarcasmo. Só que ele tinha sido verdadeiro e respeitoso.
— Ok. Boa sorte, Tomás. Realmente espero que você consiga falar com a Luiza.
— Eu também, Marília.
“Eu também, Luiza. Também gostaria que fosse um mal entendido, ele pareceu ser tão bom rapaz.”
Ele realmente parece ser um bom rapaz. Marília pensou, Lilia suspirou e Luiza comeu mais algumas balas de gelatina. Tomás, arrependido, não conseguia deixar de pensar no sorriso de sua compositora anônima predileta.
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