Notas iniciais
Olá! Aqui é a Misaki ^^ Espero que tenha entendido o título. Um trocadilho de duplo sentido. Para vossa alegria o capítulo de hoje é bem extenso, além de mais explícito rsrs. Boa leitura.

Reviro meu guarda roupa a procura de algo sofisticado para vestir. Tenho só terninhos sociais e alguns vestidos floridos. Terei que ir a uma boa loja para comprar algo mais caro. Pego o cartão e me apresso. O Shopping Center fica em uma avenida, duas quadras para trás. Sim, escolhi um bom lugar para morar e isso torna o aluguel bem caro. Passo na praça de alimentação e tomo um café antes de começar a andança. Observo as vitrines de uma loja no segundo piso e encontro alguns modelos de meu gosto.

— Diana? – longos cabelos platinados avoaçam ao meu lado.

— Oi Rosalya, que surpresa encontra-la aqui – abraço-a.

— Veio comprar alguma coisa para hoje à noite?

— Sim. Você também vai? Achei que fosse só o pessoal da Editora.

— Parece que desta vez querem que todos os envolvidos estejam presentes e digamos que já tenho uma parceria de longa data com o seu setor.

— Estou um pouco nervosa com isso, nunca participei de algo tão grande, não sei o que seria mais apropriado vestir – confesso.

— Então você tirou a sorte grande, pois eu sei exatamente do quê você precisa – ela me puxa para dentro da loja.

— Seu namorado não tem uma loja de roupas?

— Sim. Mas ele vende apenas modelos vitorianos – a platinada explica. – São lindos, claro, mas para ocasiões desse tipo, preciso de algo mais situacional.

A loja é pequena, mas o espaço é bem utilizado; é aconchegante e silenciosa. O chão é todo coberto por carpete preto, há três araras compridas e altas no lado leste enquanto a parede do lado oeste é coberta por prateleiras, também há um balcão de atendimento longo, todo de vidro. As cabines de troca são divididas por drywalls e cortinas vermelhas. Uma das moças uniformizadas vem nos atender e Rosalya já começa a enchê-la de pedidos.

Mais duas atendentes começam a ajudar, vários modelos de vestidos me são entregues um atrás do outro, saio da cabine sempre que visto uma nova peça para que minha colega de compras faça sua análise. Depois do décimo vestido começo a ficar tonta de tanto ir e vir.

— Esse! – Rosalya se levanta da poltrona de espera. – Embrulhe o vestido enquanto eu vou buscar mais algumas coisas.

Pago pela peça exuberante. Sinto doer cada centavo arrancado de meu bolso. Fico esperando do lado de fora, enquanto olho algumas joias em exposição na loja da frente.

— Um par de brincos e um colar ficariam excelentes – Rosalya faz a observação.

— Tenho contas para pagar sabia – digo-lhe exaltada.

Ela ri de minha reação. – Tudo bem, mas espero que tenha algo para combinar – ela me entrega uma sacola e uma caixa de sapatos.

— O que é isso? – tento bisbilhotar o que há dentro.

— Um presentinho – ela me dá um beijinho no rosto – até mais tarde.

Suspiro e abandono as pedras preciosas, volto para casa e coloco as coisas sobre a cama. Rosalya me comprou sandálias prateadas de salto alto e um par de luvas brancas compridas. Meu vestido é longo e vermelho, possui um desenho em pedraria que começa no busto e vai descendo em diagonal até terminar sobre a fenda da perna no lado direito. A parte de trás é aberta até pouco depois do meio das costas; a frente fica presa por duas alças que passam por de trás do pescoço, deixando apenas uma fresta aberta sobre o peito. Tomo um banho e seco os cabelos, pinto a unhas e faço a sombra dos olhos na mesma cor que meus sapatos. Modelo o cabelo em leves cachos e monto um coque alto com pequenos grampos, deixando duas mechas soltas em cada lado do rosto.

Coloco o vestido, calço as sandálias e visto as luvas. Pareço estar indo receber um Oscar pelo filme “Uma linda mulher”. Decido deixar as luvas de lado, trocando-as por uma pulseira de pedras delicadas que ganhei de minha avó. Rosalya que me perdoe. Termino o look com pequenos brincos de brilhantes, obviamente falsos. Coloco o necessário dentro de uma bolsinha de mão prateada e tranco o apartamento.

— Se me permite dizer, você está magnífica – Castiel está enraizado ao meu lado, acompanhando com os olhos cada curva de meu corpo acentuada pelo corte justo do vestido.

— Obrigada. Devo dizer que você também não passa despercebido. – Me aproximo para ajeitar a gola de seu smoking – não tem gravata?

— Não gosto. Me sinto sufocado. – Ele tira algo do bolso – tenho um presente para você – diz estendendo um lindo colar de diamantes que quase me segam com seu brilho. – Me permite?

Faço um sinal de sim com a cabeça, ele contorna meu pescoço com a peça e a fecha por trás da nuca. Toco o colar com a ponta dos dedos e olho para Castiel.

— Por quê?

— Achei que não teria nada digno em seu porta-joias para usar esta noite. Aparentemente acertei.

Claro que sim. Sou idiota por esperar algo sério ou romântico da parte deste ogro disfarçado.

— Mas cuide bem dele, tem grande valor sentimental – ele aperta o botão do elevador – o carro está lá embaixo, vamos?

— Claro.

Será que era de sua avó, ou de sua mãe talvez? E o que o faria me dar algo de tamanha importância?

Desperto com o “pim!” do elevador. Vejo o Impala 67 parado na rua, está como sempre, limpo e lustroso. Castiel abre a porta do carona para mim, me sinto uma verdadeira dama. Dou uma risadinha disfarçada. Eu diria que estas atitudes não são de seu feitio, mas é justamente o que torna o ar em volta dele sedutor, tentador e misterioso. Passo mais tempo com a versão do chefe turrão do que com a do vizinho galanteador, então essa atmosfera sempre me é convidativa.

Ele entra, afivela o cinto de segurança e dá a partida. Nunca vou cansar de ouvir o som desse motor, me faz lembrar do Mustang 70 vermelho de meu pai, ele tinha um orgulho daquele carro, cuidava dele como se fosse um filho. Lembro que quando eu tinha uns dez anos de idade, bati com a bicicleta no para-choque do carro, meu pai ficou alisando aquela parte por um tempão, passando cera e lustrando até quase fazer um furo na lataria. Ficou muito triste quando teve que vendê-lo, foi uma despedida bem dramática, mas o colecionador que o comprou disse que poderíamos visita-lo sempre que a saudade batesse.

— No que está pensando? – Castiel interrompe minhas recordações.

— Hm... Só relembrando o passado, meu pai tinha um carro parecido com o seu, pena que eu nunca tive a oportunidade de dirigi-lo – revelo amuada.

— Que tal realizar seu sonho agora? – ele me olha com um sorriso divertido no rosto, desacelera e encosta o carro.

— Você não está falando sério, está? – começo a soar frio só com a ideia.

— Tem habilitação, certo? – ele gira a chave na ponta do dedo indicador e a joga para mim.

Ele sai do carro e abre a minha porta. – Ande logo, pule para lá – diz me enxotando para o volante.

Passo para o lado do motorista, coloco o sinto e giro a chave na ignição. Aliso o volante com uma mão, coloco a outra sobre o câmbio e respiro fundo. Engato direto na segunda marcha e saio cantando pneu. Castiel se segura no banco e me olha furioso, dou risada de sua reação, sei que aquilo não vai fazer tão mal ao motor. Meu navegador indica o caminho, faço ziguezague entre os outros carros deixando-os para trás nos semáforos, as luzes da cidade passam como finas listras coloridas por minha visão periférica, viro à direita e pego uma via rápida que leva até a rodovia.

Para minha conveniência, a pista está praticamente limpa, apenas alguns caminhões de carga pesada trafegam devagar pelo lado direito. Engato a quinta marcha e acelero. O ponteiro do velocímetro indica 200 km/h, estou eufórica com a sensação, sinto cada parte de meu corpo pulsar com a adrenalina. Castiel também parece se divertir.

Queria abrir as janelas e sentir o vento açoitar meu rosto, mas isso acabaria com meu penteado, então me contento em ouvi-lo silvar pelas frestas dos vidros. Alguns minutos se passam e Castiel me toca o joelho.

— Sinto muito em acabar com a sua diversão, mas já vamos ter que pegar a próxima saída – ele diz mais alto que o barulho do vento.

Faço sinal de sim com a cabeça e desacelero para entrar na paralela, paro em um posto e devolvo o volante a ele.

— Obrigada. Foi incrível – digo ainda arfando.

Ele apenas responde com um piscar sutil.

Continuamos nosso trajeto por pouco menos que cinco minutos. Paramos em frente a um prédio altíssimo, com uma fachada gigantesca feita de painéis escuros, nela lê-se em grandes letras douradas: Hôtel Doux Rêve. Saio do carro antes que Castiel possa abri-la para mim, ele entrega a chave para um chofer e me estende o braço.

Olho fascinada para tudo. O salão de entrada é maior que meu apartamento, há um lustre de cristal exageradamente grande no centro e várias outras luzes pequenas iluminando os cantos.

— Boa noite. Como posso ajuda-los? – o atendente brota do balcão lustroso. É um homem de meia idade, cabelos acinzentados penteados para trás, veste traje social e usa um crachá de identificação. Senhor Edmond, recepcionista.

— Sou Castiel Wrath e está é a senhorita Diana Sinner – Castiel entrega nossos convites.

— Oh. Claro – o senhor faz um gesto com a mão e logo um rapaz aparece. – Oliver os acompanhará até o salão de festas. Uma excelente noite ao casal.

Aparentemente todo desconhecido que encontro acha que somos um casal. Castiel acaricia minha mão sobre seu braço e sinto um choque quando seus dedos abandonam minha pele.

O salão de festas fica no segundo andar, o ascensorista nos deixa no Hall de entrada, confirmando nossos nomes com a hostess. Entramos e eu fico de queixo caído. O lugar é enorme, deve ter uns mil metros quadrados; há um Buffet bem farto à nossa esquerda, um palco à frente e banheiros à direita.

Nosso grupo está reunido próximo às mesas, posso ver Dajan e Dakota com taças de espumante em mãos, Armin e Kentin riem de alguma coisa enquanto Nathaniel faz cara feia. Não vejo Lysandre, talvez ainda não tenha chegado. Enquanto andamos desviando de outras pessoas, posso ver os olhares maliciosos das mulheres para cima de Castiel, algumas mordiscam os lábios enquanto outras suspiram de excitação. Seguro mais firme em seu braço e ergo o queixo, demonstrando segurança.

— Boa noite – Castiel cumprimenta nossos colegas de trabalho. Eu faço o mesmo.

Todos se viram e demonstram surpresa. E logo posso sentir o calor que emana de seus olhares obstinados.

— Quem diria que poderia ficar ainda mais bela – Dakota passa as mãos pela minha cintura.

— Não a toque de maneira tão rude – Kentin me puxa para seu lado, afastando-me de Dakota. – Uma flor tão delicada precisa ser tratada de forma gentil – ele beija as costas de minha mão.

— Uma mulher delicada não usaria um vestido tão provocativo – Nathaniel pondera.

— Onde está Lysandre? – Castiel pergunta, cortando os elogios.

— Ainda não chegou. Atrasado como sempre – Armin responde.

— Se ele não chegar em cinco minutos, tomo o autor dele para mim – Dajan ameaça.

E como se falássemos no diabo, Lysandre aparece ajeitando a gravata. Ele faz um aceno discreto com a cabeça e começa a conversar com outro homem.

— Venha Diana, vou te apresentar a alguns autores – o editor chefe me carrega para uma apresentação que leva pelo menos uma hora.

Conheço alguns autores muito renomados e outros que acabam de ingressar na carreira. Todos têm visões e ideias muito diferentes, alguns querem ganhar prêmios e ter multidões de fãs, outros querem cativar leitores e proporcionar bons momentos com suas histórias.

Castiel leva as conversas de forma muito fluída, ele é formal na medida certa, mas às vezes deixa sua raiva transparecer quando algum autor o aborrece com uma piadinha de mau gosto. As autoras não se importam muito, ficam facilmente distraídas com a beleza e o charme do ruivo. Vezes por outra recebo olhares invejosos e ameaçadores das belas mulheres, principalmente quando meu chefe nega a companhia delas. Ele me conduz com uma de suas mãos em minhas costas e cada vez que me toca sinto a pele arder sobre o vestido.

— Quer beber alguma coisa? – Castiel pergunta quando enfim terminamos nossas obrigações e nos juntamos ao nosso pequeno grupo.

— Claro.

— O que está achando? – Armin pergunta.

— Não posso dizer divertido, mas talvez me sirva de aprendizado – digo abanando-me com a carteira, o amontoado de gente faz a temperatura subir.

— De fato, mas depois do discurso as coisas melhoram.

— Discurso de quem?

Ele aponta para o palco. Castiel aparece com duas taças de champanhe. Sorvo a bebida borbulhante em dois goles e sinto o alivio de minha garganta seca. O murmurinho no salão vai diminuindo até sessar, uma senhora sobe ao palco e pigarreia sobre o microfone.

— Boa noite a todos! – a mulher fala, fazendo um gesto amplo com as mãos. – Espero que estejam desfrutando desta singela celebração – ouvem-se risadinhas. Singela serve nem de apelido fofo para esta reunião monstruosa.

— Quem é ela? – pergunto.

— Shermansky. Quem mais seria?! – Armin responde.

— Tipo... A dona da Editora Shermansky?

— Meio óbvio não... – Nathaniel diz atrás de mim.

Sinto-me uma idiota.

Já se passaram quarenta minutos e a mulher ainda tem folego para falar, não há sequer uma leve rouquidão em sua voz. Shermansky já falou sobre as conquistas da empresa, sobre as premiações e futuros projetos. Ela finalmente termina seu falatório agradecendo a todos pela contribuição e faz um brinde. Todos erguem as taças esguias e as tilintam. Uma pequena banda se ajeita pelo palco e começa a tocar uma música valsada.

— Me concede esta dança? – Dajan projeta o corpo para frente de maneira elegante e me estende a mão.

Aceito o convite, dando-lhe uma mão e pondo a outra por trás de seu ombro. Eu não danço muito bem, mas Dajan me conduz com absoluta maestria. Contornamos a pista de dança assim como os outros pares; imagino que visto de cima, deve parecer uma flor abrindo e fechando.

Do outro lado vejo Melody dançando com Nathaniel, que não esconde seu desagrado. Violette dá passos tímidos com Armin que parece lhe contar algo engraçado. Priya tenta ensinar Kentin a valsar, mas os passos largos dele parecem com os de uma pessoa desviando de poças d’água. Encontro Letícia em uma dança sensual com Dakota e atrás deles está Lysandre, totalmente avulso.

Rosalya acena de longe, está esplendida em um vestido púrpura. Seu acompanhante é um belo rapaz de cabelos e olhos escuros, suas roupas contem alguns babados nas extremidades e ele a segura de forma carinhosa. Deve ser Leigh, o namorado dela.

Procuro por Castiel e ele está cercado de mulheres charmosas que exalam estrogênio. Uma onda de ciúmes me invade e eu piso no pé de Dajan.

— O que foi? – meu parceiro de dança pergunta.

— Nada, eu... Só preciso de um pouco de ar.

Há uma área de sacada extensa com vista para a cidade, seria melhor se fosse uma praia, mas é o que tenho para o momento. Me debruço sobre o parapeito e arfo.

O que está acontecendo comigo? Não há razão para tal sentimento.

Depois de algumas respirações profundas no estilo yoga, decido voltar para a festa. Infelizmente uma mulher esbarra em mim, derramando uma bebida escura sobre meu colo.

— Ó céus! Me perdoe. – Ela rapidamente pega guardanapos da mesa e me entrega. – Eu realmente não te vi.

— Tudo bem – digo enxugando o peito. – Você sabe se tem um lugar para que eu poça lavar o vestido?

— Pergunte à recepcionista, ela deve saber de algum quarto disponível – a mulher me instrui.

Agradeço meio infeliz.

— O que houve? – Dajan olha para meu vestido, demorando-se em meu decote. – Tenho um quarto aqui. Vamos – sem me deixar questionar, ele pega minha mão e me conduz até a saída. Diz algo ao segurança que faz um movimento afirmativo com a cabeça.

Entramos no elevador e subimos até o décimo andar, quarto 104. Dajan puxa uma chave ornamentada do bolso e destranca a porta. O quarto é dividido em três partes, fora a sacada. A sala de estar é demasiadamente espaçosa, há dois sofás largos na cor chocolate, uma mesa de centro em tom claro e uma TV embutida na parede. No lado contrário fica uma pequena sala de jantar, com uma mesa de vidro incolor 8 mm e cadeiras de estofamento preto.

De frente para a sacada fica o quarto, com uma cama King Size coberta por um lençol perfeitamente passado, quatro travesseiros estufados repousam sobre a cabeceira enquanto um cobertor leve cobre os pés do colchão.

— Vou usar a pia do banheiro pra tentar tirar a mancha – digo me encaminhando ao outro cômodo.

— Nem faça esforço, vou pedir para a camareira levá-lo para a lavanderia. Você vai ficar de cara com o trabalho de lavagem que eles têm – Dajan diz, tirando o blazer e pendurando-o sobre uma cadeira. – Você pode tomar um banho enquanto isso, aposto que deve estar toda melada – ele lambe os próprios lábios.

— Bom. Já que insiste, mas... – penso bem no que vou dizer – tenho dúvidas sobre você ganhar o suficiente para pagar um quarto desses.

Dajan coloca a mão nos bolsos da calça e pensa por um momento.

— De fato. Mas eu não trabalho apenas na Editora, isso é apenas um hobby para mim.

— Hm... – estreito os olhos esperando pela continuação, mas ele não diz mais nada.

Entro no banheiro, tiro o vestido e deixo do lado de fora. Há uma sauna, duas duchas e uma banheira em que aposto caber folgado umas quatro pessoas. O porcelanato faz harmonia com o resto da louça, há até algumas folhagens verdes para refrescar o ambiente. Coloco a jacuzzi para encher enquanto observo a camada de espuma se formar. Satisfeita com o nível e a temperatura da água, me despido da roupa íntima e deslizo o corpo para dentro daquele paraíso de bolhas. A hidromassagem massageia minhas costas e relaxa os músculos de minhas panturrilhas.

Não fico muito tempo para não acabar enrugando, esfrego o corpo para atirar o açúcar do vinho e me enxugo com uma das toalhas enormes e fofíssimas. Há um roupão pendurado em um gancho, vou ter que usa-lo até meu vestido ficar pronto. Saio do banheiro descalça e enfio os dedos dos pés do tapete felpudo que cobre o chão do quarto. Quis fazer aquilo assim que entramos, quando botei os olhos nele.

— Dajan? – chamo, mas ele parece ter saído.

Há uma pequenina torta de morango na mesa da sala, sento no sofá e fico encarando a fatia separada, quando finalmente decido belisca-la, Dajan aparece. Me ergo assustada, com o coração a querer saltar pela boca.

— Pode comer – diz com uma risadinha – pedi para você – ele vai até o frigobar – bebida?

— Só uma água – me sirvo com uma fatia do bolo.

Dajan trás uma garrafa gelada para mim e uma cerveja para si. Ele olha do bolo para mim e abre a boca. É sério que ele quer que eu o trate?

Meio receosa, retiro um pedaço da torta com o garfo e o entrego. O moreno não faz cerimonia, deliciando-se com o doce. O canto de sua boca fica repleto de chantilly e eu começo a rir. Comemos umas duas fatias enquanto jogamos conversa fora.

— Gostou? – Dajan pergunta.

— Sim, muito bom – respondo limpando a boca com a manga do roupão.

Dajan pega o morango do topo do bolo e me faz segurá-lo pelo cabinho com os dentes. Ele então abocanha a fruta, arrancando mais da metade.

— Adoro morangos, são doces e belos por fora, mas assim que você os morde, eles te arrepiam com um azedume suculento – ele profere em palavras aveludadas, retirando a sobra da fruta de minha boca.

Agora poderia confundi-lo facilmente com um deus egípcio, a pele cor de ébano brilha como se estivesse coberta por óleo. Os lábios carnudos levemente avermelhados pelo sumo do morango são uma tentação divina. Mas seus olhos, de um dourado tão puro quanto uma barra de ouro recém-polida, são o que me hipnotizam. Tenho fraco por olhos, penso que são como uma janela para a alma, suas cores e vibrações me fazem lembrar as belas nebulosas.

Dajan envolve minhas costas com uma mão, enquanto a outra me puxa pela nuca para um beijo faminto. Seguro-o pela gravata, saboreando-me com seus lábios. Sua mão desce para minha cintura, afrouxando a faixa de meu roupão, a manga esquerda desce, mostrando parte de meu braço. A divindade egípcia não marca bobeira, roça os dentes em minha orelha e lambe meu pescoço, depositando um mordisco em meu ombro.

— Dajan? – Letícia nos pega no flagra, tenho certeza de não ter ouvido batidas na porta. –Começaram a festinha particular sem mim? – ela joga a bolsa sobre o sofá e deixa os sapatos pelo caminho.

Olho-a confusa e envergonhada.

— Oh... Você ainda não falou com ela, não é?

Dajan balança a cabeça para os lados.

— Então acho que vou me refrescar primeiro – a gerente da livraria pega uma latinha de refrigerante e vai para a sacada.

— Conheço Lety há algum tempo, ela é uma pessoa de total confiança e apesar de espevitada, sabe ser discreta em relação a certas coisas – Dajan começa a explicar. – No dia em que fomos verificar as vendas ela se apaixonou por você, sexualmente dizendo, e propôs um ménage.

Não sei o que dizer. Fico de boca aberta e quase deixo a saliva escorrer.

— Eu nem a conheço direito e... E... Sou hétero – gaguejo.

Dajan sorri.

— Isso não se trata de gênero, mas sim de prazer – ele pressiona meu seio sobre o tecido espesso – e tenho certeza de que isso nós podemos te proporcionar em demasiado – diz ronronando como uma pantera.

Tentada pela oferta, aceno mecanicamente. Dajan faz um sinal para a outra mulher e me conduz até a cama. Ele me beija suavemente, tirando aos poucos minha roupa. Quando o roupão cai aos meus pés, sinto os seios de Letícia tocarem minhas costas. Deito-me sobre a cama imensa enquanto Lety engatinha até mim.

— Relaxa – ela me faz abrir as pernas e se posiciona entre elas, causando-me arrepios com sua respiração sobre minha virilha – você vai sentir algo que nenhum homem jamais foi capaz de te causar – ela beija minha púbis, desce umedecendo meus grandes lábios com a língua e afasta-os com os dedos. Sinto o órgão quente se movendo como uma cobra por minha vagina, ela me dá uma grande lambida de baixo para cima e começa a me chupar vigorosamente.

Me contorço, amassando o lençol sob meus pés. Dajan se junta a nós duas, sugando meus seios e puxando os cabelos de Letícia, o gesto a excita e ela me morde delicadamente. Gemo com o estimulo, arranhando as costas de Dajan. A mulher então me penetra com dois dedos enquanto esfrega o polegar em meu clitóris. Solto um grito de êxtase, cravo as unhas no travesseiro e gozo.

Com um sorriso de satisfação nos lábios, a morena lambe os dedos encharcados com meu fluido e se põem de lado.

— E então? – Dajan me pergunta.

Eu volto a fechar as pernas, pressionando uma coxa contra a outra. Posso sentir meu sexo pulsando.

— Foi... Muito bom.

O olhos de Dajan faíscam. Ele me lacera com um beijo e esmaga meu mamilo entre os dedos. Desabotoo sua camisa e ele a atira para longe. Letícia geme baixinho ao nosso lado, masturbando-se.

Alguém bate na porta – o vestido está pronto.

Letícia veste rapidamente suas roupas e atente a camareira que entrega a peça em perfeito estado, assim que vai embora, ela fecha a porta e corre até nós.

— Vi seu chefe saindo do elevador.

Castiel?!

Empurro Dajan para o lado, ele bufa em desagrado, mas se levanta e veste a camisa. Corro para o banheiro, visto minha lingerie e enfio o vestido pela cabeça, um dos grampos se solta, mas Letícia me ajuda a ajeitar o cabelo.

— Dajan? – Castiel bate na porta. – Você viu a Diana? – ele parece nervoso.

Dajan olha para nós, que fazemos sinal de Ok, ele abre a porta.

— Ela está aqui, sã e salva.

Eu e Lety fingimos conversar na sala, o editor chefe entra e nos levantamos.

— Não te vi saindo do salão, achei que tivesse acontecido alguma coisa – ele toca minha bochecha – está tudo bem? Está quente...

— Sim. Ouve um acidente com o meu vestido, mas Dajan e Letícia me ajudaram – digo, omitindo algumas informações.

— Hm... – Castiel olha para a cama desarrumada. Com exceção do banheiro, não há paredes entre o outros cômodos. – Shermansky quer anunciar uma “boa nova”, acho melhor se apresarem.

Pego minha carteira e deixo o quarto com os outros três. Sigo calada ao lado de Castiel, que está frio e rígido como uma rocha. Dajan e Letícia vêm atrás de nós, conversando alegremente. Voltamos ao salão e a senhora Shermansky dá sua boa notícia, desta vez de forma rápida. Mais uma meia hora de celebração se passa e aos poucos as pessoas começam a ir embora, meus colegas se despendem, decido que é hora de terminar a noite.

— Castiel – encontro-o na frente do hotel, o chofer já trouxe seu Impala.

— Diana. Você tem dinheiro para um táxi? – ele pergunta, sem me olhar.

— Sim, mas... Por quê?

— Porque alguém que se vende por um quarto luxuoso, deve estar na miséria – suas palavras me atingem em cheio. Ele bate a porta do carro e vai embora, me deixando plantada na escadaria.

Meu coração falha uma batida, causando uma dor agoniante. Meus pulmões parecem congelar e eu sinto dificuldade em respirar. Pego o celular, tremula, e chamo um táxi pelo aplicativo. O carro não demora muito a aparecer. Percorro o caminho de volta com a cabeça encostada na janela, minha respiração embaça o vidro e eu faço desenhos nele.

Enfim em casa, vou deixando bolsa, sapatos e vestido pelo caminho. Tiro o colar de brilhantes e respiro fundo algumas vezes, coloco-o dentro de um envelope junto de um pequeno cartão dizendo “Obrigada, mas me perdoe. Não posso ficar com ele”. Coloco o pacote no correio da porta de Castiel e vou dormir.

Minha esperança acaba de se afundar... Num abismo frio e escuro... Chamado decepção.

Notas finais
Letícia/Lety é a do Amor Doce mesmo. Espero ter me saído bem em descrever o ato sexual. Caso ache que devo acrescentar algo, é só deixar nos comentários ;p Beijo :*