Os Sete Pecados
2 Expresso
Notas iniciais

Acordo e me levanto. Chuto a quina do criado mudo com o dedinho. Merda!
Arrasto os pés até a cozinha e faço um café. Ainda não consegui entender o que aconteceu naquele arquivo e só para piorar tive um sonho com Dakota. Coloco leite no líquido quente e escuro, adoço e tomo um gole; pelo menos hoje é sábado, vou ter dois dias pra pensar nisso antes de ter que encarar o garoto propaganda novamente.
Decido pegar o jornal, caminho até a entrada com a caneca na mão, abro a porta e vejo a folha informativa no chão, com preguiça de me abaixar descalço a pantufa e pego o jornal com os dedos do pé, assim que ergo percebo que estou sendo observada, olho para o lado e vejo Castiel bebericando algo quente em sua caneca personalizada. Surpresa, acabo me desequilibrando e caio para trás, derramando o café sobre a blusa.
— Quente! – grito afastando o pijama do corpo e assoprando o peito.
— Tudo bem? – Castiel pergunta vindo ao meu socorro, de repente ele para na porta e ruboriza, escondendo um sorriso malicioso por de trás da caneca.
Lembro que estou sem sutiã e cubro o peito de imediato. Meu rosto parece uma chaleira, só falta sair vapor pelas orelhas; já não sei se o calor é devido ao café ou a situação constrangedora. Reajo ridiculamente dando uma cambalhota até a porta, batendo-a na cara do vizinho.
— Só derramei um pouco de café, nada demais – respondo depois de um longo silêncio.
— Não se queimou?
— Não.
— Tem certeza? Você está bem vermelha, deixe-me ver – ele gira a maçaneta.
— S-Sim! – seguro a porta. – Obrigada por se preocupar.
Tudo fica silencioso novamente, ouço a porta do apartamento ao lado bater, acho que ele desistiu. Levanto-me e tranco a porta, jogo o pijama na lavadora e tomo um banho. Gosto de tomar uma chuveirada de manhã, é revigorante; saio do banheiro e visto uma roupa confortável. O que vou fazer hoje? Não posso sair de casa e correr o risco de dar de cara com o gato ruivo de novo, acho que vou arrumar essa bagunça, as caixas da mudança chegaram ontem a tarde e estão espalhadas pela sala. Coloco os fones de ouvido e a música começa a tocar.
She got a body like an hourglass
But I can give it to you all the time
She got a booty like a Cadillac
But I can send you into overdrive (oh)
(You've been waiting for that, hey)
(Step on that, swing your bat, oh)
See anybody could be bad to you
You need a good girl to blow your mind, yeah
Bang bang into the room (I know you want it)
Bang bang all over you (I'll let you have it)
Wait a minute let me take you there (ah)
Wait a minute tell you (ah)
Bang bang there goes your heart (I know you want it)
Back, back seat of my car (I'll let you have it)
Wait a minute let me take you there (ah)
Wait a minute tell you (ah)
Ao ritmo da música eu vou abrindo as caixas, pulo no sofá, faço da colher de pau um microfone; quando termino já são 12h30min, não estou a fim de fazer algo elaborado, então frito dois hambúrgueres e cozinho um miojo, simples e rápido, nada nutritivo, mas gostoso. Ouço o celular tocar, não está na bolsa, nem na cama, muito menos no sofá, onde o enfiei?
Dã! Se idiotice matasse, já estaria na sétima encarnação.
Tiro do bolso o aparelho que vibra feito louco e desconecto os fones.
— Alô? – digo ao atender.
— Boa tarde, quem fala é a Melody da Editora Shermansky, gostaria de falar com a senhorita Diana Sinner— diz a voz no outro lado da linha.
— Ela mesma – digo correndo até a sacada pra melhorar o sinal.
— Gostaria de saber se você ainda está interessada em preencher a vaga de editora?— ela pergunta.
Sinceramente, depois do que aconteceu, tenho minhas dúvidas. Mas a empresa é pertinho, oferece um bom salário, o horário também não é ruim e preciso muito do emprego.
— Estou sim, posso comparecer para mais um teste se precisar.
— Isso não será necessário, o editor chefe parece ter aprovado suas habilidades, você pode começar na segunda-feira.
— Ok. Estarei ai. Obrigada. Até mais.
A chamada se encerra e eu dou um pulo de alegria; querendo ou não fico feliz por ter conseguido o emprego logo de cara, ainda mais sendo na minha área de atuação.
— Feliz? – ouço.
Viro ou não viro? Saio da sacada calmamente fingindo não ter ouvido? Ai meu pai!
— Ah... Sim – digo tentando evitar contato visual.
— Era da Editora?
Cara enxerido!
— Sim, começo na segunda feira, parece que o editor chefe gostou de mim – digo com um sorrisinho de canto.
— Realmente encantado com suas habilidades – Castiel me olha de cima abaixo – porque se dependesse do seu vestuário...
— Seria realmente estupides da parte dele – digo meio ofendida.
Ele franze a cara, obviamente irritado, mas logo relaxa e dá de ombros.
— Com licença e... Hm... Obrigada – falo a contra gosto.
— Pelo quê? – ele pergunta como se não soubesse.
— Pelo trabalho, acho que não teria sido tão fácil assim se não fosse por você – respondo.
— Digamos que vi potencial, agora você só tem que confirmar isso.
Olho-o como se estivesse sendo desafiada.
— E me retribuir, claro – ele sorri... Aquele sorriso delicioso.
— Como é? – incrível como as coisas me chocam.
— Achou que ia ser de graça? Coloquei minha reputação em risco – ele exagera.
— Certo. O que vai ser? – pergunto com medo de saber a forma de pagamento.
— Um café...
Sério? Um café? Ele invocou nisso.
— No seu apartamento – ele completa.
Sabia que estava faltando alguma coisa.
— Obrigada pela oportunidade, infelizmente vou ter de recusa-la, sinta-se a vontade para procurar outra pessoa – saio da sacada a passos pesados.
— Espera! – ele grita.
Segundos depois a campainha toca. Pego o taco de hóquei que ganhei quando jogava com a molecada no clube, ergo-o sobre o ombro e abro a porta.
— Você é louca? – Castiel pergunta ao ver minha postura agressiva.
Talvez eu seja um pouco.
Suspiro e largo o taco no chão – O que foi?
— Me desculpe, eu só estava brincando.
Estreito os olhos.
— Hoje às 16 horas na cafeteria, eu pago – ele diz.
Um café grátis nunca se recusa ainda mais na companhia de um gato ruivo, minha mãe me bateria.
— Fechado, mas sem comentários a despeito de meu vestuário – enfatizo.
Ele ri – condição aceita.
Fecho a porta e dou um sorrisinho, preciso escolher uma bela roupa.
Aproveito as horinhas que me restam pra terminar de colocar uma coisinha e outra no lugar. São 15h50, verifico novamente minha aparência no grande espelho do guarda roupa. Um vestido coral com cinto, um salto médio, uma maquiagem neutra e um coque frouxo. Excelente.
Pego minha bolsa e tranco o apartamento, o elevador está parado no meu andar, coincidência? Entro e aperto o botão do térreo. Cumprimento o síndico com um sorriso, é um senhor de cabelos brancos e olhos miúdos, uma fofura de pessoa.
Assim que saio do prédio sou imediatamente atropelada por um armário, bem... Um homem do tamanho de um armário. Ele esbarra o ombro em mim com força, me fazendo girar sobre os saltos, quando penso que vou me arrebentar no chão ele rapidamente coloca uma mão em minhas costas e me puxa para cima.
— Me desculpe. Você está bem? – ele pergunta com o rosto bem próximo ao meu.
— Sim, sim... — eu pisco várias vezes – Kentin?
— Ah... Oi – ele diz meio sem graça. – Você está bem mesmo? Tem certeza de que não se machucou?
— Tenho sim, obrigada – meu coração acelera com a proximidade, posso sentir o cheiro de seu perfume misturado ao suor.
— Ah... Você já pode me soltar – digo ao notar os olhares das pessoas que passam por nós.
— C-claro! Foi mal – ele me solta.
— É... Você parecia com pressa – digo ajeitando a mecha do cabelo.
— Ah droga! Foi um prazer Diana – ele me dá um beijo rápido na bochecha. – Até mais.
Estou realmente surpresa. Olho no relógio de pulso. Oh merda! Vou me atrasar também.
Aperto o passo e desço a rua até a cafeteria, entro e passo os olhos pelo lugar procurando Castiel, vejo alguém acenar sutilmente de uma das mesas ao fundo. É ele. Incrivelmente charmoso com sua blusa branca e camisa xadrez, os cabelos presos para trás e os óculos de leitura apoiados sobre o nariz.
— Desculpe o atraso – digo me sentando.
— Sua elegância a faz ser perdoada – ele ajeita os óculos.
Coro ligeiramente.
— E-eu encontrei o Kentin no caminho – digo.
— Kentin? Hm... Por isso se atrasou? – ele estreita os olhos.
— Ah é, bem... Ele parecia com pressa, me deu uma trombada na calçada – rio sem jeito.
— Entendo – Castiel ergue a mão e faz um sinal para a garçonete que rapidamente vem até nossa mesa.
— Boa tarde! Posso anotar seus pedidos? – a moça pergunta sacando uma caneta e um bloquinho de notas do bolso do avental.
— Um café expresso extraforte – Castiel diz.
— Um mocaccino, por favor – Peço.
— Já trago pra vocês – a garçonete anota os pedidos e sai em passinhos curtos e ligeiros.
Fico olhando para os lados sem saber o que dizer, ou talvez eu apenas esteja com receio de encarar aqueles olhos tempestuosos.
— Você veio de onde? – Castiel quebra o silêncio.
— Inglaterra – respondo brincando com meu relógio de pulso. – Não é muito diferente daqui.
— Ah é? – ele olha por cima das lentes.
— Bem... Cheguei há dois dias, mas... O que vi até agora não é diferente. – Tirando o fato de que os colegas de trabalho me assediam!
— Os franceses não tem o costume de tomar banho – ele diz.
Eu olho pra ele. Como assim?!
A garçonete chega com uma bandeja em mãos e coloca na mesa duas xícaras cheias que exalam um delicioso aroma de café. Ela deixa uma comanda e vai embora sorrindo.
— A minoria deles, claro – Castiel beberica seu expresso.
— Ah... Sim... – Rio nervosamente. Ele está me sacaneando.
— Eu tomo todos os dias – ele afirma.
— Ah bem... Eu não quis dizer isso – tomo um gole do mocacchino.
— Sempre as 22h00 – ele sorri de canto, fazendo aparecer uma covinha em sua bochecha – Caso queira ter certeza.
Eu coro violentamente e seguro o líquido quente dentro da boca, infelizmente ele escorre pelo canto dos meus lábios.
— Eu sei que o café daqui é bom, mas não precisa se afogar – ele ri da minha cara.
Tenho vontade de estrangula-lo.
— Pegue – ele me estende um guardanapo.
Engulo o café e limpo a boca. – Obrigada.
Castiel apoia o rosto sobre o punho fechado e passa a me observar. Tenho a impressão de que ele mordisca os próprios lábios... Devo estar vendo coisas.
Nós continuamos a conversar sobre trabalho, estudos, viagens e coisas do tipo. Depois de duas horas e de quase ter experimentado todos os tipos de café dali, vamos embora. Ofereço-me para pagar a metade da conta, mas ele recusa. Pegamos o elevador do condomínio em silêncio, ouvindo apenas aquela música ambiente chata.
— Obrigado por ter me acompanhado em uma bebedeira na cafeteria – ele diz já na frente do apartamento.
— Eu que agradeço pelo convite – dou risada.
— Tenha uma boa noite – ele sorri e entra.
— Você também... – Não sei porque, mas sinto-me decepcionada com essa despedida.
Tiro os sapados e penduro a bolsa no cabideiro, ligo o chuveiro e coloco uma música para tocar no celular. Tomei tanto café que duvido conseguir dormir cedo, sorte minha amanhã ser domingo. Depois de cantar toda minha playlist, decido estourar pipoca e assistir a um filme na TV. O filme e a pipoca acabam, ainda estou energética como um raio. Olho no relógio, são 23h30. Suspiro.
— Diana...
Ouço meu nome, bem baixo. Ok. Agora estou delirando.
— Diana...
Mais uma vez. Mas ninguém bateu na porta. Levanto-me e ouço alguns gemidos, o som parece vir da sacada. Pego meu taco de hóquei e abro a vidraça.
— Oi... – Castiel está na sacada ao lado, com os cabelos molhados jogados para trás, gotículas de água salpicadas pelo seu corpo brilham com a luz da lua e a toalha enrolado no quadril revela levemente “as entradas para o paraíso”.
— Castiel! Sério? Meu... – Relaxo os braços e reviro os olhos, tentando não ficar encarando aquele monumento.
— Será que você pode me ajudar? – ele pergunta meio que gemendo.
— Você está louco?! Claro que n... Ai Deus! – eu coloco a mão na boca quando vejo sangue escorrendo pela lateral de suas costas. – O que aconteceu com você?
— Um pequeno acidente, você pode vir aqui? – ele pede com cara de dor.
— Tá! Tá! Estou indo – largo o taco em cima do sofá e corro até o apartamento do lado, bato na porta.
— Está aberta... – Ele avisa.
Entro meio apreensiva, mas preocupada com ele. O vejo sentado no sofá com uma maleta de primeiro socorros ao lado.
— Você está bem? – pergunto olhando para suas costas.
— Eu só escorreguei no banho, nada de mais – ele explica.
Há um pequeno corte em suas costas, mas por causa da água aparenta ser algo realmente grave. Eu suspiro aliviada, preparando um curativo.
— Ficou preocupada? – ele pergunta me olhando de canto.
— Claro que não, você só está fazendo manhã – limpo o machucado sem delicadeza alguma.
— Ei! – ele reclama. – Desculpe, é que eu não alcanço o lugar.
Eu suspiro.
— Pronto. O menininho vai estar novo em folha amanhã. – Guardo os materiais e me levanto pra ir embora. – Você não toma banho sempre às 22h00?
— Estava muito energético para isso, precisei fazer alguns exercícios antes – ele também se levanta.
— Hm... – Coro ao reparar novamente em seu corpo.
— Aliás... Gostei das pantufas – ele aponta para meus pés.
Estou calçando duas abelhas sorridentes. Que fiasco.
— Obrigada. Boa noite – acelero em direção à saída.
— Espera... – Castiel põem as mãos na porta impedindo que eu a abra.
Sinto seu perfume inundar minhas narinas, é forte e amadeirado.
— Obrigado... – Ele sussurra.
— Ok. Você já agradeceu – coro ligeiramente com a aproximação.
— É sério, meu dia foi ótimo, graças a você – seu olhar parece sincero, calmo e profundo como um lago imperturbável.
Involuntariamente tranco a respiração, meu coração acelera e minhas mãos começam a soar. Ele retira a mão esquerda da porta e começa a aproxima-la de meu rosto, antes que me toque eu giro o corpo e abro a porta num supetão.
— Até segunda – digo já fechando a porta do meu apartamento. Apago as luzes e me jogo sobre a cama.
Que dia... Que dia!
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