Os Sete Pecados
5 A lenda
Notas iniciais

Minha cabeça dói, sinto a testa latejar como se alguém estivesse derrubando uma parede de tijolos dentro dela. Levo um bom tempo para achar a chave da porta. Entro, tiro os sapatos, largo a bolsa no balcão e me jogo no sofá.
Apesar de não fazer a mínima ideia do que estava realmente acontecendo, tinha sido uma noite muito divertida; as meninas são desbocadas, mas gentis ao mesmo tempo. Acho que fiz boas amizades, estava precisando disso. A campainha toca, resmungo pra levantar e vou atender.
— Boa noite. – Castiel sacode uma sacola plástica na frente do meu rosto. – Achei que pudesse precisar.
Ele está usando uma calça preta de cordinha, uma camisa branca de mangas compridas e chinelos de inverno vermelho escuro. Os cabelos úmidos estão penteados para trás e ele esboça um sorriso leve que ilumina sua face. Pego a sacolinha de farmácia, há vários remédios e vitaminas.
— Obrigada. Mas acho que é muita coisa.
— Guarde. Pode precisar mais tarde. – Ele coloca a mão sobre minha testa – você não me parece muito bem.
— É só uma dor de cabeça, um desses analgésicos vai resolver.
— Sei. Vou te fazer um chá para a ressaca.
— Não estou de ressaca.
— Mas vai ficar – ele me puxa pela mão até seu apartamento, sem forças, eu acabo não resistindo.
Tudo está perfeitamente limpo e organizado, não esperava isso de alguém que é tão espalhafatoso no trabalho. Sério, eu não encontraria uma caneta se quer na mesa dele, mesmo se fosse rosa fluorescente e com um pompom brilhante.
Sento no sofá enquanto espero pelo tal chá. Não havia reparado da primeira vez que vim, pois estava preocupada em tratar o ferimento de Castiel, agora posso olhar ao redor com calma. Há um rack de mogno na parede esquerda, uma televisão de quarenta polegadas, várias miniaturas de motos e carros enfileiradas decoram o móvel, algumas garrafas de bebidas e um porta-retratos na prateleira mais alta. É a foto de um casal de meia idade, estão num aeroporto, ambos usando uniformes brancos com detalhes em azul marinho e vermelho vinho, com o emblema dourado de uma linha aérea.
— São seus pais? – pergunto quando Castiel volta da cozinha.
— Sim. Estão em uma colônia de férias agora – ele me entrega uma caneca quente.
— Arg! Que negócio fedido – reclamo do cheiro asqueroso da bebida.
— Por isso faz bem – ele me ínsita a beber.
— Isso vai ficar em mim por uma semana – tampo o nariz e engulo o mais rápido possível. Infelizmente o gosto é tão ruim quando o aroma. – Vou morrer.
Castiel senta de lado no sofá e me puxa para perto.
— Coloque a cabeça no meu colo, vou de fazer uma massagem.
— Não precisa obrigada – deixo a caneca sobre a mesa de centro. – Já me fez mais do que o suficiente.
— Vou te cobrar tudo depois, então talvez seja melhor você aproveitar – ele sorri de canto. Tenho vontade de pular em seu pescoço e beija-lo até que seus lábios inchem.
— Certo... – descanso a cabeça sobre seu colo e estico o corpo no sofá. Ele começa massageando minhas têmporas, seus movimentos são firmes e contínuos, poderia até achar que é um especialista. Em seguida ele passa as mãos para o meu pescoço, subindo e descendo até os ombros. Já sinto um alívio considerável da dor, relaxo e me entrego aquele pequeno prazer, então meus olhos começam a pesar e não consigo mais mantê-los abertos.
Ouço o apito da cafeteira. Acordo num sobressalto, descolando o cabelo do lado da boca, preso pela baba.
— Bom dia, dorminhoca – Castiel prepara o café da manhã. – Açúcar?
Olho para os lados. Ouço-o rir discretamente. Seus cabelos levemente desgrenhados lhe dão um ar de príncipe acabando de acordar.
— Vai me dizer que não se lembra de nada? – ele me entrega um café preto com algumas torradas amanteigadas.
— Claro que sim. Só não me lembro de ter adormecido aqui... – coro, constrangida com a situação – me desculpe.
— Não tem problema, assim pude cuidar melhor de você.
Tomo meu café ligeiro. Não que eu precise ir urgentemente a algum lugar, mas ficar perto de Castiel está se tornando cada vez mais difícil. Ele ainda é meu chefe, tenho que ter cautela.
— Obrigada por tudo, mesmo – deixo a louça na pia – depois me mande a conta.
Ele me acompanha até a porta.
— Estarei aqui sempre que precisar – sussurra, acariciando meu braço.
Sinto seu hálito quente atingir meus poros. Viro e me encanto com seu olhar obscuro. Este homem é um verdadeiro mistério.
Meu apartamento está aberto, ainda bem que é um prédio seguro. Começo a tirar os papéis dos bolsos e vejo o guardanapo que Melody me entregou na noite passada. Corro até o quarto e ligo o notebook. Abro o site de pesquisa e digito o primeiro nome da lista.
Pride. O pecado do orgulho. Alexy me disse que o irmão é realmente muito orgulhoso, mas eu ainda não consegui ver isso. Armin apenas me parece ter orgulho de seu trabalho, nada sobre superioridade ou menosprezo.
Wrath. Ira. Bem... Esse eu concordo em parte, Castiel é bem explosivo no ambiente de trabalho, só o que eu não entendo é que fora da empresa ele é uma pessoa completamente diferente, calmo e divertido, ao seu modo.
Gluttony. A gula. Ouvi algumas insinuações sobre Dajan, algo sobre ele sempre querer todo o trabalho pra si. Talvez ele só queira ajudar ou aprender mais, não deve ser algo ruim. Mas a gula não é sobre comida? Sei lá.
Lust. Luxúria. Esse quase me faz acreditar, a recepção de Dakota foi a mais calorosa, fora que o vejo me observando a todo o momento com os olhos cheios de malícia.
Greed. Kentin é muito fofo, não consigo o ver como uma pessoa gananciosa, ele parece ter muito cuidado com suas coisas, isso sim. E lembro-me de como foi atencioso quando quase me derrubou na calçada.
Sloth. Não acho que Lysandre seja preguiçoso, ele só é um cara quieto, do tipo que não gasta energia com besteiras. Fora que ele foi muito prestativo comigo quando fiz aquela besteira com as resenhas.
Envy. Pecado da inveja. Não sei quase nada sobre Nathaniel, mas sempre que alguém tenta se sobressair ele meio que corta o barato da pessoa. E ainda tem aquela história sobre a qual Iris comentou... Meio estranho.
Abro uma nova guia e digito “pecados capitais”. Aparecem vários resultados, abro os primeiros links e leio o conteúdo por alguns minutos, não encontro nada sobre o que eu já não saiba. Algumas lendas e crenças meio bizarras, mas então encontro algo que me chama a atenção.
Datada na Idade Média, uma lenda sobre os sete pecados que assolaram a humanidade por um longo período, a história conta que os pecados tinham forma humana e que induziam os desejos impuros das pessoas a aflorarem. Depois de várias tentativas, um feiticeiro finalmente conseguiu uma solução, criou um vínculo entre os pecados e uma mulher para que não pudessem mais possuir outras pessoas, um ritual de banimento foi feito e todos acreditaram que enfim o mal havia partido. No entanto, a cada duzentos anos os sete pecados ressurgiam em forma humana, não mais podiam sussurrar nos ouvidos das pessoas, apenas esperavam por uma mulher que completasse o círculo.
Depois de ler várias vezes aquele texto, uma ideia estalou em minha mente. Digitei meu próprio sobrenome na ferramenta de pesquisa virtual e ao ver o resultado entrei em pânico.
Sinner. Pecador.
Eu faço parte da lenda, a personificação da pecadora. Sou eu quem fecha o ciclo.
Coloco o computador para o lado, me estico sobre a cama e fico olhando para o teto. Eu o decorei com estrelinhas fluorescentes, quando apago a luz elas brilham como uma constelação particular. Eu adorava deitar no gramado da casa de campo para admirar o céu, essa foi a melhor forma que encontrei de manter a lembrança.
Respiro profundamente repetidas vezes, fecho os olhos e volta a pensar. Nunca acreditei nessas histórias fantasiosas, desde pequena já não acreditava em Papai Noel ou Coelhinho da Páscoa, e só colocava o dente de leite debaixo do travesseiro porque sabia que minha mãe era quem deixava a moedinha e não uma fada.
Por que agora isso parece me abalar? Talvez eu devesse convencer Melody a me explicar melhor tudo isso e então consiga tirar as besteiras da cabeça.
Decido sair um pouco para espairecer, visto um conjunto de moletom azul escuro, calço meus tênis esportivos e pego o mp3. Infelizmente um dia desses prendi os fones na gaveta e acabei arrebentando um deles, vou ter que passar em uma loja para comprar um novo. Desço pelas escadas, cumprimento o porteiro e começo minha caminhada.
Faço uma corridinha de meia hora, então paro em frente a uma pequena loja de eletrônicos.
— Com licença – quando abro a porta um sininho tilinta no alto, anunciando minha entrada.
— Olá. Como posso ajudar? – um rapaz de dezenove ou vinte anos me atende, sem despregar os olhos de sua revista de skate.
— Eu queria comprar um fone.
— Estão lá no fundo – ele apenas faz um resto com a aba do boné.
Ando entre as prateleiras, normalmente eu não compraria algo num lugar em que fosse mal atendida, mas preciso muito dos fones de ouvido, é uma tortura ficar sem ouvir música. Finalmente encontro uma parede repleta deles, diversas cores, mas sem muitos modelos diferentes. Encontro um preto que possui um gatinho no lugar do botão que muda a estação, espero que esteja funcionando.
Ouço um barulho repetitivo de botões sendo pressionados, avanço em direção ao som e logo atrás de uma pequena parede vejo duas máquinas de fliperama.
— Armin?
— Oi Diana – ele me sorri, sem parar o jogo. – Droga! Odeio essa fase.
— Acho que perguntar o que você está fazendo aqui seria meio idiota...
— Pois é. Mas se quer saber, estou tentando bater meu próprio recorde, falta apenas mais um para conseguir ficar nas cinco primeiras colocações – ele diz orgulhoso de seu feito.
— Tudo isso? Deve vir aqui com frequência.
— Eu moro perto. Meu irmão me expulsa de casa nos sábados dizendo que preciso ter um pouco de contato com a natureza. Ele acha que vou correr no parque, mas a verdade é que fico aqui a manhã toda – ele coloca outra ficha no arcade.
— Alexy é uma figura mesmo – sorrio ao lembrar-me de nosso encontro no banheiro.
— Você já o conheceu?
— Sim, saí com ele e as garotas ontem.
— Legal. – Ele joga as mãos para o alto e comemora – isso! Você me deu sorte Diana, chega mais – ele me puxa para perto – vai lá, eu controlo a nave e você atira.
— Mas eu não sei jogar isso.
— É fácil, olha – ele se põe atrás de mim, pega minha mão e me ensina a jogar.
Faço-o perder algumas fichas no começo, mas então pago mais algumas e depois de um bom treino pego o macete. Começamos a detonar os inimigos, Armin se diverte com meu entusiasmo e eu acabo me distraindo com seu jeito extrovertido.
— Yeh! – vibramos ao conseguir uma nova pontuação, bem mais altas que as anteriores.
— Precisamos de uma sigla de nossos nomes para salvar. – Armin diz. – Que tal DIMIN?
— Parece nome de menino – dou risada. – E ANA?
— Esse é nome de menina – ele faz uma careta engraçada.
— Então... – penso por alguns segundos – talvez só AD fique melhor.
Ele concorda e deixa nossa assinatura. Fico mais contente que o habitual, talvez por ter conseguido ficar um tempo sem pensar no trabalho, em Castiel e na bendita história dos sete pecados. Olho para o relógio, os ponteiros já estão bem altos.
— Uau! Olha isso, preciso voltar.
— Espera, a gente pode jogar outra coisa – Armin me segura pela ponta dos dedos. – Estamos nos divertindo tanto.
— Obrigada. Foi ótimo esse momento com você, mas acho melhor deixar para a próxima, senão vou ficar viciada.
— Acho que para mim já é tarde... – ele diz melancolicamente, chegando mais perto.
Fico de costas para a máquina. Sinto novamente aquela sensação dentro de mim. Armin penteia meu cabelo com os dedos e contorna meu rosto com o polegar.
— Você é um vício insuperável – diz e me beija.
Aperto sem querer os botões e o jogo reinicia, tocando uma musiquinha padrão. Armin passa um dos braços por minhas costas e me pressiona contra seu corpo, eu fico admirada ao perceber que ele é bem mais definido do que aparenta ser por baixo das roupas folgadas.
Decido por fim me entregar. Entrelaço os dedos aos seus cabeços negros e alimento seu vicio. Ele traça uma linha de beijos pelo meu pescoço e mordisca o lóbulo da minha orelha.
— Tudo bem ai atrás? – o rapaz da loja grita lá da frente. – Preciso fechar a loja.
Me desvencilho de Armin com relutância, me pego penetrada em seus olhos e seu sorriso divertido. Arrumo os cabelos e abro o zíper da jaqueta para me refrescar.
— Até segunda – pego a caixinha do fone, pago e saio da loja.
Felizmente o aparelho está funcionando, coloco a playlist pra tocar no último volume, sento no banco do parque e fico ali olhando as crianças brincarem na areia. Decido voltar para casa e tomar um banho. Minha barriga ronca de fome, já é uma hora da tarde e eu não comi nem um lanchinho sequer.
Tenho uma ideia. Pego o celular e rolo a agenda de contados, encontro o número e disco.
— Oi Diana. Tudo bom? Não achei que fosse me ligar tão cedo.
— Oi Melody. Ah bem... Desculpe se não for uma boa hora.
— Não, imagina— ouço o barulho de aspirador, ela deve estar fazendo faxina – pode falar.
— Eu preciso conversar com você, mas não dá pra ser por telefone, será que eu posso ir até ai?
— Poxa. É que meu apartamento está uma bagunça e eu nem almocei ainda— ela explica.
— Então eu te pago algo pra comer, o que acha? Tem um bom restaurante ai perto? – pergunto já olhando a carteira.
— Tem sim. Eu te mando o endereço, nos encontramos lá em meia hora— ela se despede e eu encerro a ligação.
Ótimo. Me arrumo e coloco algumas coisas dentro da bolsa. Chamo um táxi e sigo para o restaurante. Espero cerca de cinco minutos e Melody aparece acompanhada de uma moça.
— Ei Diana – ela me dá um beijinho no rosto – essa aqui é a Bia – eu a cumprimento – Bia essa é a nova editora.
A moça me dá um sorriso fraco.
— Hm... Diana como acha que Bia está? Ela vai a um encontro – Melody conta.
— Melody! – Bia parece envergonhada.
— Muito bonita. Tenho certeza de que ele vai se apaixonar perdidamente – digo mais por educação.
Bia agradece e vai embora. Achei que meus planos iriam por água abaixo quando a vi. Entramos no estabelecimento e sentamos em uma mesa com dois lugares, perto das janelas, dou uma olhada rápida no cardápio e faço meu pedido. Estou morrendo de fome.
— E então, sobre o que queria conversar? – Melody estende seu guardanapo.
— Eu sei que você não quis falar sobre isso ontem, mas eu realmente preciso que você me conte mais sobre os tais “sete pecados” – revelo torcendo para que ela não se levante e vá embora.
Ela me analisa por um período longo demais – Tudo bem, o que exatamente você quer saber?
— Bem, no princípio você e as outras meninas pareciam ter uma queda monstruosa por eles, mas quando eu perguntei mais sobre o assunto eles se tornaram uma espécie de agouro.
— Isso é fácil explicar. A questão da “queda” é porque eles realmente são os homens mais lindos que eu já vi na vida, você com certeza acha isso também – faço um sinal de sim com a cabeça – e apesar de eu morrer de vontade de tirar uma lasquinha do Nathaniel, não gosto de seu jeito invejoso de ser.
— Como assim?
— Vai dizer que ainda não reparou como ele fica rebaixando os outros, se alguém demonstra um sentimento bom ele olha a pessoa de cima a baixo e tenta cortar o barato.
— E aquela história da, como era mesmo... Debrah?
— Aquela vadia, espero que nunca mais apareça. – Melody suspira. – Ela realmente fez uma confusão naquele setor. Debrah era namorada de Castiel, um dia ela resolveu visitá-lo na empresa e então começou a chamar a atenção, Nathaniel parece ter ficado enciumado, não sei bem o que aconteceu, mas no fim o que todos sabem é que ele e Debrah foram pegos aos amassos na sala de reunião. Castiel armou o maior barraco, trocaram socos e chutes até os outros aparecerem para apartar a briga. Todos acharam que os dois seriam demitidos, ou que Castiel fosse pedir a transferência de Nathaniel, mas nada disso aconteceu, eles simplesmente voltaram a trabalhar e aquele clima tenso entre os dois se dá até então.
Eu ouço tudo com muita atenção – Uau. Não esperava por isso. Mas e os outros?
— Resumidamente, Dake é um pervertido, já levou todo mundo que deu mole pra o arquivo – Melody conta e eu me remexo na cadeira, desconfortável. – Você está bem?
— Sim, continue – o pedido chega, dou uma grande golada no suco.
— Castiel parece uma bomba atômica, se irrita fácil e espalha o terror – ela prossegue. – Kentin é bem fofinho, mas tem uma possessão exagerada pelas coisas. Se você estiver precisando de ajuda, a última pessoa a quem deve pedir é Lysandre, até um bicho preguiça tem mais vontade que aquilo, sinceramente não sei como ele ainda dá conta dos autores – ela faz uma pausa para dar uma garfada em seu estrogonofe – nossa, isso aqui está muito bom. Mas continuando... Um dia peguei Dajan comendo meu iogurte que tinha deixado na cozinha da editora, tinha meu nome em cima, ele me olhou e continuou na maior cara de pau. Sobre o Armin, acho que Alexy pode te contar com mais propriedade, eu só posso afirmar que ele esfrega na cara de quem for suas orgulhosas realizações.
Levo um tempo para processar todas aquelas informações. Nada me faz sentido.
— Então quer dizer que, além no Dakota, ninguém mais fica... Assediando vocês? – pergunto.
— Não. Acho que todas nós gostaríamos de uma transa com eles, mas não os suportaríamos por mais de uma noite – Melody afirma. – Por que a pergunta? Eles estão fazendo algo com você? Se quiser eu faço uma alegação e te troco de setor.
— Não, está tudo bem – minto.
Então isso é só comigo. Talvez tenha acontecido com a tal Debrah, mas no fim não deu totalmente certo. Eu espero que seja diferente para mim, não quero ser alvo de fofocas ou motivo de ódio.
Espera. Eu realmente estou pensando em fazer parte disso? Acho que preciso de uma consulta urgente com um psicólogo ou psiquiatra, porque talvez os palhaços tenham me causando trauma na infância ou então eu bati forte demais com a cabeça na penteadeira da mamãe.
Termino meu almoço com a Melody e agradeço por ter me concedido um pouco de seu tempo. Volto para casa meio arrastada, encontro a senhora do sexto andar novamente, batemos um papinho, ela me pergunta sobre Castiel e eu a explico que não estamos juntos.
— Talvez eu invista então – ela dá uma risadinha travessa – aquilo sim é homem.
— É mesmo... – dou um sorriso bobo ao pensar no ruivo.
— Olha só pra essa carinha, você gosta dele – ela aperta minhas bochechas. – Ele já parece estar na palma de sua mão, então não o deixe escapar pelos dedos.
A doce velhinha dá tapinhas em minhas mãos e desce no seu andar. Fico repetindo seu conselho na cabeça, minha mãe também diria algo do tipo, só que de um jeito mais dramático. O elevador para no décimo andar e eu sigo para meu apartamento.
— Parece distante.
— Castiel? Não, eu encontrei aquela senhora sabe, estava pensando no que ela me disse – giro a maçaneta. Ele fica ali me encarando. — Não vou dizer o que é.
— Eu não perguntei nada – ele zomba.
Ergo uma sobrancelha. Não acredito que caí nessa. Entro e bato a porta.
“Aquilo sim é homem.”
Aquilo ali é um crápula, isso sim.
Fale com o autor