Os Sete Pecados
6 Dois por um
Notas iniciais

Domingo de manhã. Faço uma vitamina e ligo a tevê, está passando Fórmula 1. Lembro-me de acordar cedo quando pequena só para assistir a corrida com meu pai, não entendia muito bem, mas era uma atividade especial só pelo fato de fazermos juntos. Vejo por alguns minutos e pego meu notebook, começo a bisbilhotar meu próprio histórico do navegador até passar os olhos pelo link de umas das pesquisas do dia anterior. Abro uma nova guia e digito algumas palavras.
Agora com mais informações, procuro por lendas mais detalhadas, encontro uma contando o que já sei, rolo a página para baixo e leio o texto completo. Aparentemente o feiticeiro havia feito várias tentativas de ligar os sete pecados a um humano, mas apenas havia funcionado com aquela mulher porque além de ser completamente possuída por eles, ela também conseguia dominá-los por completo. Apoio a cabeça no braço do sofá.
Será que eu também consigo?
E se sim, o que eu ganharia com isso?
Inclino a cabeça para o lado e adormeço. Acordo já é passado do meio dia, coloco um casaco e vou almoçar fora. Ao contrário dos outros dias, no fim de semana não há uma alma penada no prédio, parece que todo mundo resolve se entocar nos apartamentos ou sair para um piquenique no bosque.
Como em um restaurante ali perto e começo meu caminho de volta tranquilamente pela calçada. Um menino me entrega um panfleto de uma academia de Boxe, na frente há uma tabela de preços e horários, atrás há a foto de uma turma de garotos com um adulto no meio que, para meu espanto, é Nathaniel. Forço os olhos para ler as letrinhas miúdas.
“Aulas gratuitas aos Domingos das 14:00 às 20:00 horas, aberto para toda a comunidade. Inscrições com Nathaniel Envy.”
Nathaniel, pugilista. Essa eu preciso ver. O lugar não fica muito longe, então decido caminhar até lá. A academia fica em uma viela, é uma sala feita de tijolos a vista, a faixada é preta com um desenho branco da silhueta de um boxeador; letras vermelhas destacam o nome do lugar. Entro e vejo vários meninos praticando socos nos grandes sacos de areia, alguns lutam entre si no ringue, o som parece meio amplificado pela estrutura alta e sem forro.
— Boa tarde moça – um jovem vem me atender.
— Oi. Estou procurando pelo Nathaniel – digo.
— Ele está lá nos fundos.
Atravesso o salão seguindo o som impactante de golpes vindo de uma área isolada.
— Olá? – chamo.
Nathaniel esta treinando sozinho. Veste apenas uma bermuda de tecido mole, o corpo completamente molhado e os cabelos grudados na testa e lateral do rosto devido ao suor. Ele desferi um soco violento no saco e acaba rasgando-o.
— Droga... – resmunga.
— Com licença – digo mais alto desta vez.
— Diana? O que faz aqui?
— Um dos seus alunos me entregou um panfleto na rua – mostro-lhe a folha.
— Ah sim. Veio se inscrever? – ele seca o rosto com uma toalha.
— Na verdade não. Vim movida pela curiosidade mesmo.
— Por que não tenta? – ele pergunta, fazendo um sinal para que me aproxime – vem.
— Hm. Está bem – penduro meu casaco em um prego na parede.
Uma nova atividade poderia ser algo interessante, aprender a me defender também.
— Primeiro você deve ficar deste jeito – Nathaniel ajeita meus braços de forma defensiva na frente do meu rosto e reposiciona minhas pernas – mantenha-se firme.
Ele demostra alguns golpes. Eu repito e ele me parabeniza. Aparentemente levo jeito para a coisa.
— É muito legal o que você faz aqui – comento.
— Só queria tirar esses garotos das ruas, infelizmente não posso fazer mais por eles – Nathaniel diz retirando as bandagens dos punhos.
— Acho que já é o suficiente para motivá-los – sorrio.
O que digo é verdade, todos aqueles moleques parecem extremamente contentes com aquilo.
— Obrigado. Eu tenho que tomar um banho, você me acompanha? – ele pergunta.
Coro com a proposta.
— Ah não. Digo... Eu vou para o chuveiro enquanto você me espera... Do lado de fora – ele se explica.
— Claro – acompanho-o até a ala de banho.
Ele entra em um dos boxes enquanto eu espero sentada encarando os armários de metal. Cheiro minhas axilas. Acho que preciso de um banho também. Olho os arredores e vejo um sabonete sair escorregando pelo piso. Me abaixo para pegá-lo e de repente estou encarando as partes íntimas de Nathaniel.
— Talvez você devesse me acompanhar, mesmo – ele me puxa para dentro da cabine.
— Espera! Eu não tenho outra muda de roupa – tarde demais. Já me encontro molhada dos pés a cabeça.
— Eu queria saber o que é que todos eles vêm em você – o loiro me encara, analisando todos os detalhes do meu corpo.
— Do que você está falando? – tento não prestar muita atenção em seu corpo nu quase colado ao meu.
— Talvez eu tenha que experimentar para saber – ele sussurra e me prende contra a parede. A água cai sobre suas costas definidas, atirando respingos em meu rosto.
Ele alisa meus lábios com os dedos por tempo demais, eu já não aguento esperar, contorno seu pescoço com as mãos e selo sua boca com um beijo depravado. Sempre quis transar no chuveiro, os filmes passam a impressão de ser algo muito excitante.
Nathaniel puxa minha perna esquerda para cima, fazendo-me enlaçar sua cintura. Me afasto por um segundo e arranco a camiseta encharcada pela cabeça, jogando-a no chão em um splash ecoante. O azulejo gela minhas costas, mas as mãos ferventes que acariciam minha pele não me deixam sentir frio.
— Professor? – um menino chama – tinha uma moça procurando pelo senhor.
— Sim, já a encontrei – Nathaniel responde enquanto apalpa meus seios por cima do sutiã.
— Ela era muito bonita, é sua namorada? – noto o tom curioso na voz do garoto.
— Ainda não – Nath me encara com seus olhos de âmbar e sorri perigosamente.
— Tá. Hm... Tem mais uma coisa. O Rafael quebrou o dedo.
O moleque vai embora correndo. Meu molestador bufa em descontento.
— Vou lá ver o que aconteceu – ele enrola uma toalha na cintura. – Tem roupas minhas no armário, pode usá-las.
Ele sai e eu fico estacada sobre a chuva de água quente. Termino meu banho e me visto. O que é que estou fazendo?
Vou embora rápido antes que alguém me veja e me pare. Decido voltar pelo parque, e como eu havia imaginado, ele estava lotado de famílias e casais fazendo seus piqueniques sobre toalhas xadrezes vermelhas e brancas. Caminho preguiçosamente pelo gramado, me escorando vez ou outra para ajeitar a meia no calcanhar.
De repente uma bolinha amarela é lançada por cima de mim, ouço um latido, sinto um impacto, segundos depois me deparo com o nariz a cheirar o chão. Rolo para o lado, ficando de costas na grama, um belo pastor alemão vem saltitante em minha direção com a bolinha babada presa entre seus poderosos caninos.
— Você está bem? – o dono do cachorro corre até mim – Diana? Olha só, parece que vamos sempre nos encontrar aos atropelos.
— Oi Kentin. Pois é, dessa vez foi o seu cão – sento sobre a raiz de uma árvore, ainda com as pernas bambas para me levantar.
O animal começa a me cheirar e então lambe minha bochecha.
— Que gracinha. Qual o nome dele? – pergunto acariciando as orelhas peludas.
— Cookie. Ele parece ter gostado de você, temos gostos muito parecidos – Kentin diz e sorri docemente.
Ele se senta ao meu lado e lança o brinquedo para longe. Cookie sai correndo em disparada com a língua de fora.
— Gosta de animais?
— Morei um bom tempo no campo, meu pai tem um Border Collie, um Golden Retriever e uma vira-lata que parece um Galgo. Eu tinha um gato e uma galinha de estimação.
— Que bacana. Eu adotei Cookie já faz alguns anos, mas ele parece ter apenas dois de tão energético – o pastor alemão traz a bolinha e larga em frente aos meus pés – acho que ele quer que você brinque com ele.
— Ok. – Me levanto – não vou te dar moleza – lanço a bola o mais longe que consigo e o lindo animal parte atrás dela velozmente.
Tentando sacanear o cachorro, pego um graveto e o jogo no ar. O bicho fica sentado me olhando, inclinando a cabeça de um lado para o outro. Acho que a ingênua aqui sou eu.
Ficamos os três brincando até o sol começar a se pôr, e no fim da brincadeira me torno a boba tentando pegar a bolinha entre o cão e o homem. Cookie parece enfim se cansar, deitando de lado no gramado, soando pela língua comprida.
— Foi bom passar um tempo com você, aposto que Cookie também adorou – Kentin bagunça o pelo de seu animalzinho. – Sempre venho passear aqui nos sábados e domingos a tarde, talvez você pudesse fazer campainha a dois pobres soldados – Kentin pisca para seu companheiro canino e este late – acho que ele concorda.
— Vou pensar. Quem sabe eu até traga alguns petiscos – brinco.
— Traga apenas para ele. – Kentin coloca uma mecha do meu cabelo para trás da orelha – você pode ser o meu – ele morde o próprio lábio de um jeito sexy, mostrando apenas seu dente pontiagudo direito.
O vento sopra e leva até minhas narinas o perfume misturado a suor de meu momentâneo paquerador. Fecho os olhos e deixo que aquele aroma me invada. Despeço-me de Kentin com um beijo em sua bochecha e de Cookie com uma coçadinha atrás de suas orelhas atentas.
Volto para o prédio já sobre a luz da lua, o síndico me entrega algumas correspondências que vou abrindo assim que saio do elevador.
— Seu guarda roupa deve ser surpreendente – ouço o deboche e já sei quem o infere.
— Boa noite para você também, Castiel. – Coloco a mão na cintura, apoiando meu peso sobre a perna esquerda – não acha que, para um homem, você repara demais nas minhas vestes? – devolvo-lhe a provocação.
— Estou apenas preocupado com a imagem de minha subordinada.
— Especialmente se tal fato pode manchar sua própria imagem.
— Você acha? E que imagem eu pareço querer preservar? – ele me pega com essa pergunta.
Tento ler algo em seus olhos, mas não consigo ver nada além da fúria cinzenta.
— Talvez a de chefe autoritário, de melhor editor – arrisco.
— Acho que a senhorita precisa me conhecer melhor – ele finaliza e fecha o elevador, indo embora com seu sorriso sinuoso.
Vou para meu apartamento, pensativa. Será que eu deveria conhecê-lo melhor? Uma relação mais íntima com meu chefe? Isso poderia fazer surgir alguns boatos, apesar de achar que ninguém seria tolo o suficiente para questionar Castiel.
Aproveito as horas livres que me restam para telefonar para meus pais, conversamos durante um bom tempo, depois tomo um banho e vou dormir.
Oito horas meu celular toca. Joguei aquele despertador horrendo fora e programei o alarme do meu telefone com o toque de um piano, assim não acordo assustada. Me levanto e sigo a rotina normal; tomar café, assistir o jornal da manhã, me arrumar e cumprimentar o vizinho.
Estranhamente hoje não o encontro, deve ter saído mais cedo para comer fora. Passo em frente à cafeteria, mas não o vejo. Já na empresa, esperando para bater meu ponto, ouço Castiel discutindo com alguém. Parece que ele levantou cedo para massacrar mais uma pobre alma.
— Bom dia – digo ao entrar no escritório.
Castiel e Nathaniel param de brigar instantaneamente e voltam ao trabalho.
— Que bicho mordeu eles desta vez? – pergunto à Armin.
— O de sempre. Nathaniel acha que pode fazer melhor o trabalho de editor chefe, e claro que Castiel o prova o contrário – Armin esclarece.
— Tenso – comento. – E o que você acha?
— Prefiro não palpitar, essa guerra deles parece ter iniciado há séculos atrás – o revisor volta a atenção para sua papelada.
Se ele soubesse...
Percebo que Castiel já me inspeciona por cima da armação de seus óculos. Começo meu serviço antes que sobre para mim. O primeiro período passa sem demais problemas. Às 14 horas Melody passa em nosso setor para dar um aviso.
— Vocês estão dispensados. Vamos ter um jantar hoje às 19 horas com os escritores – ela me entrega um convite com o endereço de um hotel. – Estejam elegantes, por favor.
Olho do papel embelezado para o pessoal.
— Não se preocupe. – Kentin acaricia gentilmente minhas mãos. – Nós cuidaremos de você.
Os sete me olham da mesma maneira que fizeram em meu primeiro dia de trabalho.
Acho que nesse banquete eu serei o prato principal.
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