Os Sem Nome
15 Treinos e sonhos
Tóquio, Japão — 1980
Aisha pegou os sacos que os meninos foram instruídos a colocar as roupas sujas e levou tudo para a lavanderia. Os dias estavam mais complicados no último mês. Um dos garotos tinha pegado sarna, que rapidamente se espalhou para os demais.
O surto parecia controlado, mas a situação ainda demandava cuidados redobrados. Os meninos com sintomas precisaram ser isolados dos outros. A mansão era grande, mas isso requisitou quartos dedicados fora do alojamento. O senhor Kido não queria que eles ficassem no prédio principal da mansão e, apesar da residência contar com muitas construções, poucas eram destinadas para alocas hóspedes.
No fim das contas, os meninos com sarna ficaram no alojamento dos funcionários, que era grande e tinha ainda alguns quartos sobrando, embora, mesmo assim, alguns empregados tenham “emprestado” seus quartos para eles. Para evitar contágio, todos os funcionários foram temporariamente remanejados para a área de hóspedes da mansão — uma logística que a maioria deles achava pouco conveniente.
Os garotos assintomáticos fizeram tratamento profilático e seguiram no alojamento dos órfãos. A sarna em si é fácil de tratar, o problema eram os cuidados para evitar a reinfecção. Então todos os órfãos recebiam, todos os dias, sacos plásticos para colocar roupa suja. As empregadas recolhiam os sacos, fechados, e lavavam tudo. A roupa deveria ficar em água quente e depois ser seca numa secadora. O problema é que as roupas dos garotos não eram da melhor qualidade, e por vezes estragavam nesse processo.
Aisha e Yoshiko estavam entre as empregadas cuidando do alojamento dos garotos que tiveram sarna. Além das roupas, elas também tinham que limpar os cômodos, evitando contato direto com eles. Mas foram poucos os dias que os garotos deixaram de treinar por causa disso. Se já era difícil dar conta quando eles estavam bem, o trabalho era mil vezes pior com tantos protocolos.
— Ah, Aisha, tem mais coisa pra lavar? Eu achei que já estava acabando…
— Deixa que eu faço. Vai descansar um pouco, Yoshiko.
<<< EU ******************* FORA!!!!! >— nenhuma das duas precisava entender exatamente o que eram aqueles gritos que conseguiam vagamente ouvir para ter uma boa ideia.
— Ahh, a senhorita Kido começou de novo com isso…
— Ela já não gosta muito desses meninos, né? Sem poder sair, fica pior ainda.
Com o surto de sarna, Saori ficou praticamente proibida de brincar no jardim temporariamente, para evitar qualquer mínima chance de contágio. A maioria das empregadas achava que era um tanto de exagero, mas ordens são ordens.
— Ela vai descontar neles quando puder brincar lá fora. Acho que vamos ter um novo “dia do cavalo”.
— Ah, você também estava daquela vez… tenho pena do garoto.
— Ele se esforça pra agradar ela. E ainda foi o primeiro a apresentar sintomas… se ela descobrir, capaz de pegar raiva dele, coitado.
— É…
Aisha nutria certa simpatia pelo garoto. Apesar de tudo, ele era só uma criança.
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— Ei, tia — Aisha estava voltando com uma pilha de roupa limpa quando foi abordada pelo garoto.
— Jabu? O que foi?
— Você pode me ajudar? Mas, ó, não conta pra ninguém viu?
— O que foi?
— É que eu acabei vomitando no quarto…
— Ah… tudo bem, eu vou lá limpar.
O correto era avisar toda vez que um dos garotos passava mal, porque o Mitsumasa queria ter controle sobre isso. Mas o Tokumaru não gostava quando recebia esse tipo de informação, e dava um jeito de punir os garotos. E, com o treinamento pesado, eles vomitavam com muita frequência, então as empregadas acabavam escondendo quando não havia sintomas de que era alguma infecção ou qualquer coisa grave.
— Se precisar, eu ajudo.
— Não, tudo bem, Jabu. Eu limpo.
.
.
.
.
— … Ô, tia.
— Que foi?
— Por que a senhorita Saori trata a gente assim?
Péssima pergunta. Esse era um não-assunto naquela casa.
— Assim como?
— Ah, sei lá. Ela é meio diferente com aqueles meninos que não ficam com a gente. Tem aquelas duas meninas lá também.
— Não sei — ela sabia.
— Acho que ela nunca pega pesado com eles.
— Talvez — era verdade.
— Sabe… uma vezes eu consegui sair do alojamento à noite.
— ?!
— O jardim é legal… e também…
— O quê?
— Ah, eu acho que vi senhorita Kido numa noite. O quarto dela é no segundo andar, né? Tem uma sacada…
— Ah…
— Não dava pra ver direito, é alto. Mas eu achei que ela tava chorando. Não foi uma vez só.
— Talvez você tenha se confundido…
— Aí eu queria me aproximar dela…
“Ela montou em você e esfolou seu joelho outro dia!”
— É um pouco difícil…
— Mas você acha que tem como, tia?
Droga. Ele gostava dela. Se fosse mais velho, talvez conseguisse um emprego como auxiliar do Tokumaru.
— Talvez…?
— É porque a gente é órfão?
— …
— Mas eu vou mostrar pra ela que a gente é muito mais que isso!!
Aisha não sabia se tinha pena daquele garoto se iludindo, ou se ficava admirada que, apesar de tudo, ele ainda sonhava como uma criança de sete anos. Bom, se eles fossem estudar no exterior pelo Fundação, talvez voltasse com um currículo bom o suficiente pra ser contratado para alguma das empresas dos Kido. Embora nenhuma das empregadas fizesse qualquer ideia do que eles iriam estudar no exterior.
Mesmo assim, Aisha sorriu pra ele:
— Tá certo, Jabu. Vai fundo, mas não se estresse demais, ok?
— Valeu, tia!!!
Estaria tudo bem alimentar os sonhos de um criança numa situação dessa? Era uma pergunta que ela não sabia se tinha uma resposta certa.
— Eu terminei de limpar. Por sorte, não sujou nenhum tapete. Se você se sentir mal de novo, me avise, tá?
— Tá bom!!
Aisha olhou para o menino por um instante e pensou como se sentiria se fosse o filho dela. Sentiu-se cúmplice de tudo que acontecia com aqueles garotos. Um barulho repentino, no entanto, interrompeu seus pensamentos. Ela já conhecia esse barulho bem: era hora daqueles meninos voltarem a “treinar”.
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