Os Sem Nome

16 Confidências


Tóquio, Japão — 1980

Ele esperava em pé perto da porta da cozinha, olhando para os lados para ver se ela chegava. Também olhava para ter certeza que Tokumaru não o veria ali, o que poderia dar problemas mesmo se ele se justificasse.

Olhou o relógio no pulso. 16h05. Ela disse que a aula ia até às 16h. Tinha outra às 17h, essa ele sabia que era a de piano. Eles tinham mais ou menos a mesma idade, mas ele não tinha tantas aulas assim. Tic, tac, tic, tac, tic, tac.

— Ah, você já tá aí.

A voz tirou ele de qualquer pensamento que estava chegando. Notou, no entanto, que ela estava sozinha.

— Ué, onde tá a Mii?

— Eu pedi pra ela fazer uma pausa — Saori de forma incisiva, ele preferiu não perguntar mais sobre o assunto. Só acenou com a cabeça. Ela então prosseguiu — Vem, a gente vai subir pro escritório.

— Pro escritório? Mas não pode entrar lá.

Saori o encarou com uma expressão que ele nunca sabia dizer se era incômodo, pena ou alguma outra coisa.

Você não pode entrar lá. Geralmente. Mas não importa.

Ela se virou ao sentido do escritório de Mitsumasa. Ele se sentiu um tanto ridículo pelo comentário que tinha feito, mas a resposta dele não o deixou menos inseguro, e permaneceu onde estava.

— Mas você tem certeza que é uma boa ideia? Eu não sei, é que se o Tokumaru ou mesmo a dona Ryoko me verem ali…

Saori suspirou, levou a mão direita à testa e meneou a cabeça.

— Escuta, primeiro que ninguém vai entrar ali. Segundo que mesmo que alguém entre, não vai acontecer nada. Ou você acha que eu vou fazer o quê? Nós temos um combinado, não temos?

— Temos… mas não é mais fácil fazer em outro lugar? O seu quarto também é um lugar onde ninguém entraria.

— Você tá se convidando pra ir no meu quarto?

— Não é isso, é que…

— A Mii pode entrar no meu quarto. Além disso, no escritório do meu avô é praticamente impossível ouvir pela porta.

— Você acha que alguém vai ouvir pela porta?

— Não. Mas a prevenção é o melhor remédio.

Ele não sabia se a achava um gênio ou altamente perturbada por pensar nisso. Cedeu e foi com ela.

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O escritório de Mitsumasa era enorme como todos os cômodos daquela propriedade. Havia estantes cheias de livros e pastas de documentos. A porta dava para um conjunto de sofás ao redor de uma mesinha. Ao fundo, havia uma mesa de escritório feita de mogno, com um telefone, e algumas cadeiras. Em outro canto da sala, havia uma grande TV e um tal de “computador”, que o garoto só conhecia por meio de revistas. O ambiente era bem iluminado por enormes janelas que davam para o jardim.

Saori não fez cerimônia com ele, e assim que fechou a porta, perguntou:

— E então, o que você descobriu?

Ele seguia em pé.

— Parece que já decidiram pra onde eles vão.

— Hm. — ele entendeu como um sinal pra continuar.

— Umas empregadas tiveram que arrumar uma caixa cheia de papeizinhos com nome de um monte de país.

— Você sabe o nome de algum país?

— Ah, são cem meninos né? Devem ser cem países… parece que cada papel era um lugar bem diferente.

— Mas você sabe algum?

— Disseram que tinha… deixa eu ver… acho que Rússia, China… Estados Unidos talvez?... eu não sei bem…

— Grécia?

— Talvez, não sei. Acho que o Hideki falou de Grécia.

— … Suíça?

— Hmmm, não sei.

Saori encarou ele por uns momentos. Takeshi não sabia se ele devia falar alguma coisa.

— Você sabe se tem algum lugar aqui no Japão?

— Acho que era só no exterior.

Ela franziu o cenho e foi rumo à janela, ficando de costas pra ele.

— Difícil.

— O quê?

— É um programa da Fundação, não é? — Saori seguia de costas para ele.

— É o que dizem.

— Mas não mencionaram o nome, né?

— Não que eu saiba. Por quê?

Ela então se girou, se virando novamente para ele.

— Os orfanatos de onde eles vieram provavelmente fazem parte de programas da Fundação. A Fundação também faz parcerias com escolas, e por vezes dá bolsas para crianças de orfanato. Tem vários projetos.

— Ah, então deve ser isso…

— Mas em nenhum desses programas alguém veio ficar aqui.

— Ah.

— Eu sei que o vovô tinha começado um programa de estudos para garotas de elite. É um projeto de formação de líderes que faz parte de uma iniciativa de combate à desigualdade de gênero, com apoio da UNESCO. Eu achei que talvez esses garotos pudessem ser parte de um programa parecido, para garotos. Algo experimental, mas…

— Mas…?

— Mas, se fosse o caso, eles provavelmente iriam para uma escola da Fundação. Além disso, eles não parecem ser excepcionais em rendimento acadêmico. Eles sequer devem estudar! Passam o dia inteiro no ginásio. A outra opção seria algum programa de esportes, mas é muito diferente.

— Não pode ser alguma coisa que você não sabe sobre?

— Esse é o problema. A Fundação tem vários projetos, mas esse não se encaixa no perfil de nenhum que eu conheça. E não adianta perguntar, ninguém me fala nada.

Takeshi não entendia muito bem do que ela falava, mas achava que devia falar alguma coisa. Ele olhou ao redor em busca de algo.

— Não tem nada aqui? Já que você pode entrar…

— Se tem alguma informação aqui, está nas gavetas trancadas e nas áreas que eu não consigo acessar. Eu já olhei.

— Ah…

— Você sabe quando eles vão embora?

— Parece que daqui a umas semanas. Mas ninguém sabe direito.

— Quem te contou tudo isso?

— A maior parte das coisas foram o Hideki e a Hikari. Mas eu também ouvi um pouco da Yoshiko, ela ajudou no dia que selecionaram o destino deles.

— E da sua mãe?

Takeshi se retraiu.

— Ela não fala muito comigo disso… por favor, deixa ela fora disso.

— Tá… então a maioria das informações são de segunda mão, mas algumas são de gente trabalhando ali. — Saori parecia ignorar e não entender bem o último pedido dele. — Deve ser verdade, então.

— Acho que você deveria falar com o Hideki e a Hikari.

— Não, não dá. O Hideki não aceitaria. A Hikari seria seletiva, adiantaria tanto quanto perguntar pras empregadas.

— Mas ele falou uma vez.

— Foi por acidente, não aconteceria de novo.

— Hm.

— Mas acho que é o suficiente, por enquanto. E não esquece, isso fica entre a gente.

— Tá… mas e quanto ao meu lado?

Saori bufou, sem saber se estava irritada com ele ou com toda a situação. Às vezes era difícil acreditar que o garoto era mais velho que ela, mas não era ele quem agia de forma pouco proporcional à idade.

— Eu cumpro com a minha palavra.