Notas iniciais
Aviso: Referência a tráfico humano, drogas e prostituição.

Yokohama, Japão — 1980


Ela sentia dores nas costas e desconforto no esôfago, mas pelo menos não sentia mais vontade de vomitar. Estava sonolenta e cansada. Pegou a seringa que estava no chão, e foi jogá-la no lixo do banheiro. Aos poucos se lembrava da noite anterior, e talvez fosse melhor vomitar. Não sabia que horas eram, e não importava. Daqui a pouco alguém bateria à porta, trazendo comida, ou outra seringa. Olhou a própria cara no espelho do banheiro, antes de tomar banho. Precisaria fazer bem a maquiagem para disfarçar. Pôs a mão na cabeça e ponderou, depois de tantos anos, não sabia porque ainda insistia em tentar sair dali.

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— Você tem um cliente especial.

Ela, sentada na cama, olhou e respondeu:

— Achei que estaria de castigo hoje.

O homem se aproximou, pegou seu queixo e levantou sua cabeça.

— Deveria. Mas ele insistiu. Deixa eu ver essa sua cara não tá muito marcada. — ele então começou a inspecionar o rosto dela. — É, acho que está bom. E vê se não inventa de fazer besteira de novo. — Ele a soltou e foi em direção à porta.

Ela virou o rosto na direção oposta à dele.

— Ele vem aqui ou é serviço de acompanhante?

— Ele vem aqui. Vou chamar alguém pra te arrumar e preparar o quarto.

Ela olhou para a cartela de clientes da mais alta sociedade japonesa, e a guardou, intrigada. Com certeza, não era nenhum deles.

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— Ah. Você. Agora faz sentido. — Ela soltou um riso de deboche quando o homem adentrou o quarto.

— Não é o que você pensa. — Ele respondeu de forma fria.

— Ah, não deve ser mesmo. Falaram que você parou de vir porque arranjou uma neta. Eu duvidei até ver nos jornais. Eu ouvi de vários clientes que você estava diferente. Sei lá, se converteu a alguma religião… mas parece que alguns hábitos são difíceis de morrer, não é? Eu nunca acreditei que alguém como você teria qualquer salvação.

— Cala a boca. Eu não sou mais essa pessoa.

Ela sentou na cama, cruzou as pernas, e sussurrou:

— Então o que é que você veio fazer aqui, Kido? Aqui só vêm homens perseguindo suas fantasias.

— Eu quero te fazer uma proposta.

Ela cruzou os braços e revirou os olhos.

— Ah, Kido, eu conheço bem as suas propostas…

— Não me importa se você vai acreditar. Eu vi um deus. E eu sei que tenho uma missão. Porque até alguém como eu pode ter salvação.

Ela começou a gargalhar.

— Você quer que eu me vista de padre pra você poder confessar os pecados?

Ele se manteve sério, e continuou.

— Pode rir o quanto quiser. Eu estou falando a sério.

— Tá bom. E o que é que os deuses te pediram pra fazer num puteiro?

— Clarice… qual é seu nome verdadeiro?

Ela o encarou.

— E desde quando você se importa?

Anos antes, quando ela havia chegado naquele lugar, Mitsumasa Kido era um cliente frequente. Ele logo virou praticamente seu cliente exclusivo, e ela também praticamente só atendia a ele. O mais comum era ele requisitar o serviço de acompanhante, que quase sempre terminava num quarto em alguma de suas propriedades. A forma como foi parar no Japão foi um tanto complexa, mas o fato de não ser taiwanesa e nem do leste asiático dava a ela certo "status" ali dentro, reservada a clientes selecionados. Foram anos assim. “Clarice” chegou a sonhar que algum dia ele a tiraria de lá. Mas Kido nunca pareceu minimamente interessado em qualquer detalhe de sua vida, muito menos o nome que tinha antes de chegar ali.

— Oh, eu não me importo. Mas talvez você prefira usá-lo.

— O que você quer de mim?

— Está claro que minha saúde não vai aguentar por muito tempo. E eu preciso deixar coisas preparadas para Saori…

— Você quer que eu faça o que? Ensine ela a conquistar homens na cama? Ou aprenda a não cair nos truques de sedução deles?

Mitsumasa fechou a cara, deu largos passos em direção a ela e pegou seu pescoço.

— Você nunca fale da Saori dessa forma. Entendeu?

Clarice tossiu assim que ele a soltou. Não se lembrava de vê-lo tão irritado.

— Bem, eu só pensei que…

— Que…?

— Que muitos executivos estão de olho no espólio que vai sobrar para a única herdeira do conglomerado Kido.

— Saori não vai se impressionar com nenhum deles.

— Se você diz… Mas o que isso tudo tem a ver comigo?

— Um mundo de provações inimagináveis a aguarda. Preciso de pessoas que possam ajudá-la nas mais variadas frentes.

— Você quer que eu me faça de babá da sua neta e conte pra ela os podres de cada homem com quem já transei?

— Não. Mas colocaria você em uma posição para ganhar a confiança dela.

— Nunca foi agradável ficar numa posição da sua confiança.

Ele olhou sério para ela.

— Você acha que eu estou brincando?

— Eu acho que você está lunático, com delírios de grandeza e perseguição sobre a sua neta. Mais maluco ainda vir pedir ajuda pra uma prostituta.

Ele olhou para ela de uma forma intimidadora. Kido sempre fora intimidador, mas ela sentia algo diferente.

— Como eu disse, você não precisa acreditar em mim. Mas algo me diz que preciso de você. Você pode aceitar e sair daqui. Não me parece que você tem muitas outras opções interessantes.

Ela o encarou, com raiva estampada no rosto.

— Quanto eu custo?

— Alguns milhares de ienes. Talvez algumas informações comprometedoras, e outras coisas.

A vida humana não vale nada mesmo.

— E o que você quer que eu faça?

— Não sei exatamente ainda. Tem alguns projetos educacionais da Fundação…

Ela riu. Uma prostituta trabalhando com crianças? Mas ele continuou.

— Ou você pode continuar aí. Você sabe pelo menos quais são as drogas que eles te dão?

Filho da puta. Ele sempre soube.

Ela vagarosamente inspirou e expirou. Se por um lado, parecia sua única chance de ir embora, por outro, era uma proposta esquisita de Mitsumasa Kido.

— … Betina.

— Como?

— O meu nome antes de sair da Romênia era Betina. Mas não sei em que parte do caminho ficaram meus documentos. — Ela pensou como ainda lembrava desse nome.

— Ah, certo. Estamos combinados.

Notas finais
É um milagre de Natal eu conseguir postar. (Se gostou dá um joinha, deixe seus comentários, se inscreva no canal e ative o sininho.)