Os Sem Nome

18 Nova Identidade


Tóquio, Japão — 1980

O estofado de couro na limusine do Kido era o mais confortável que um carro poderia ser, mas Betina não se sentia nem um pouco à vontade ali, mantendo as pernas retraída, os braços cruzados e a máxima distância possível. Na verdade, toda a experiência tinha sido desgastante. O cheiro do incenso das freiras era melhor que a fumaça de cigarros e charutos que se acostumou a sentir, mas a deixava extremamente desconfortável. Depois de tudo que passara, Mitsumasa tinha a empáfia de colocá-la para trabalhar com uma escola de freiras. Que piada sem graça.

— Achava que no Japão não tinham católicos.

— São poucos mesmo, e a maioria deve ser estrangeiros. Mas a Fundação Graad tem proximidade com algumas organizações de missão social ligadas à Igreja Católica. É fácil coordenar trabalhos com crianças carentes com eles. Temos até instituições da Fundação cuja gestão é repassada para algumas dessas organizações.

— Ahh, imagino que você tenha um interesse enorme em ajudar crianças carentes… mas, onde sua neta entra nisso tudo?

— Saori vai ficar na supervisão desse projeto. E você vai representar a Graad pra fazer parte da linha entre ela e o projeto.

Um silêncio recaiu sobre eles.

— Ela não é uma criança com menos de 10 anos?

Mitsumasa a encarou.

— Obviamente, ela não vai fazer isso sozinha. Como disse, acho que não tenho tanto tempo, mas preciso que ela tenha alguma experiência prática. Estou deixando Saori se familiarizar com projetos das empresas. Também preciso deixá-la gerir algumas coisas, quero ver como ela se sai em projetos que têm maiores limitações de recursos.

— E eu vou responder a uma criança que mal saiu das fraldas?

— Ela não é uma criança comum.

— Imagino… mas não seria melhor botar nesse trabalho pelo menos alguém que tem formação universitária para lidar com sua neta superdotada?

— Não… Preciso de alguém bom em fingir. E que consiga depois reportar sobre ela. Precisa ser você.

Ela bufou e riu ao mesmo tempo.

— Você é maluco. Me fazendo espionar sua própria neta por qualquer delírio que tenha…

— Tenho certeza que você vai se surpreender com esse trabalho. Ah, e você é bem informada. Com certeza poderia ajudar a Saori em qualquer outra frente.

Ela revirou os olhos. Colocou então a mão na bolsa, e pegou um passaporte. Passou os dedos pela capa do documento, olhando bem o brasão estampado, bem diferente do que ela esperava. Era um passaporte de verdade, com cheiro de papel novo, mas parecia a evidência de um crime do qual ela seria culpada.

— E isso aqui, Kido? De onde veio?

— Oh, tenho alguns contatos.

— Por que da Alemanha Ocidental?

— Muitas coisas são fáceis assim. Fora isso, seria muito complicado um passaporte romeno. O governo é muito complicado, você sabe. Você não fala alemão?

— Eu cresci no Banato, mas com certeza deve ser muito diferente dos dialetos de qualquer uma das Alemanhas.

Kido não se alterava. Ele seguia impassível durante toda a conversa, como se tudo ali fosse mera trivialidade. Mais que desconforto, aquilo causava medo. Ele apenas ajeitou a gravata antes de responder.

— Oh, é raro, mas pode acontecer. A Romênia até que tem certo interesse em permitir reunificação familiar de famílias de origem alemã do Banato, não sabia? Um interesse um tanto excepcional para um país comunista…

— Pff, você fabricou uma ascendência alemã pra mim?

— Bom, até que alguém prove contrário, toda a sua documentação de retorno à Alemanha é legítima, então não há o que questionar. Devia estudar um pouco mais suas origens para ver que toda sua família voltou junta… Se estudar sua própria origem nesses documentos que providenciamos, vai ver coisas fascinantes. E, olha que sorte, você acabou entrando numa seleção de intercâmbio para o Japão pela Fundação Graad.

Betina engoliu a seco a própria saliva enquanto olhava para ele. Já não sabia mais se aceitar aquela proposta era uma boa ideia. A Fundação Graad e as empresas dos Kido pareciam muito mais que meros ativos financeiros. Ela tinha aceitado entrar em algum projeto de poder daquele homem, sem saber o que isso realmente significava. Respirou fundo, baixou a janela do carro. Uma leve brisa acariciava seu cabelo enquanto olhava pessoas passando de um lado para o outro, sem processar de fato a paisagem a sua frente. Viu então crianças de uniforme na calçada, provavelmente voltando da escola.

— Tsc, talvez seja melhor reportar pra ela do que para você. — Disse num tom quase imperceptível.

Notas finais
Consegui escrever um novo capítulo relativamente rápido, apesar de ter ficado curto (talvez fosse melhor ter feito uma coisa só no anterior). Enfim, espero conseguir tomar algum ritmo, mas de qualquer forma agradeço demais a todos que estão lendo e acompanhando. Mesmo com as demoras, não pretendo largar essa fic. Como sempre: se gostou dá um joinha, deixe seus comentários, se inscreva no canal e ative o sininho. Comentários são sempre bem-vindos!