Os Potter: A Pedra Filosofal
9 Capítulo 9
Um Jogo de Quadribol
O outono em Hogwarts parecia uma pintura viva. As árvores próximas ao lago negro vestiam tons de cobre e ouro, e o vento carregava o perfume frio das folhas secas. Eu gostava de observar tudo pela janela da sala comunal, cujas paredes subterrâneas se abriam para o fundo do lago. Dizia-se que a Sonserina era sombria, mas eu a achava silenciosa — um silêncio denso, que parecia amplificar os pensamentos.
Havia aprendido a gostar dessa penumbra verde-azulada que se filtrava pelas águas do lago. À noite, as sombras dançavam nas pedras úmidas e faziam a luz das velas parecer bruxulear dentro de um sonho. E era ali, em uma dessas noites de novembro, que me encontrava: sentada diante da lareira de cobre, o livro de poções que o professor Snape me dera aberto sobre as pernas.
“Poções Fundamentais e suas Aplicações”.
Era um volume antigo, pesado, de páginas amareladas e cheirando a ervas secas. O professor havia dito que seria “um incentivo para não desperdiçar o talento herdado”...
A cada página, as anotações em tinta desbotada pareciam sussurrar em minha mente: proporções alteradas, métodos alternativos, pequenas correções rabiscadas à margem. Li durante horas, fascinada. As poções descritas eram mais complexas que tudo o que tínhamos aprendido até então — elixires de amortecimento, antídotos para venenos raros, poções que podiam provocar sonhos lúcidos ou curar cicatrizes da alma.
Por um instante, pensei em minha mãe. Era como se cada página ecoasse um pouco dela, uma mulher que amava as poções, eu acho, e que, segundo o próprio Snape, possuía o mesmo olhar atento que eu.
Senti um arrepio. Fechei o livro com cuidado e o abracei junto ao peito.
— Ainda acordada, Lily? — uma voz suave me tirou do devaneio.
Era Florence Avery, minha colega de quarto. Tinha cabelos castanhos-claros e olhos cor de âmbar, que refletiam a luz do fogo como ouro líquido. Seu modo de falar era sempre tranquilo, mas havia algo de firme em suas palavras, uma serenidade que me fazia gostar dela desde o início.
— Não consegui dormir — confessei. — Estava estudando.
Ela se aproximou, observando o livro.
— Esse não é o mesmo que o professor Snape carrega às vezes?
Hesitei.
— Ele me emprestou. Disse que pode ajudar nos estudos.
Florence arqueou uma sobrancelha, sorrindo de lado.
— Ele não costuma fazer isso. Parece que o professor tem certa... simpatia por você.
— Não sei se chamaria de simpatia. — Desviei o olhar. — É mais como se ele não quisesse que eu desperdiçasse um talento que nem sabia que tinha.
Florence sentou-se ao meu lado, cruzando as pernas.
— Talvez veja algo que você mesma ainda não descobriu.
Ficamos em silêncio por um tempo, ouvindo o crepitar do fogo. Do lado de fora, o lago parecia respirar — pequenas bolhas subindo, sombras fluindo.
— Sabe… — ela retomou, após alguns instantes —, todos comentam sobre seu irmão. A primeira partida de quadribol será contra nós.
Assenti lentamente.
— Eu sei.
— E você vai torcer por quem? — perguntou, com um meio sorriso.
Ri, mas sem alegria.
— Por ele, é claro. Ainda que isso signifique ser vaiada por metade da casa.
— Então você é uma traidora da Sonserina.
— Talvez — respondi. — Mas não consigo ser outra coisa além da irmã dele.
Florence me observou por alguns segundos, e então colocou uma mão em meu ombro.
— Nesse caso, espero que ele vença. Só desta vez.
Sorri. E foi um sorriso verdadeiro.
Quando ela se recolheu, fiquei mais um tempo diante da lareira, observando as chamas refletirem no metal das grades. Fechei o livro, ainda com a mente fervilhando de ideias e emoções. Havia algo em Snape, algo em suas palavras e em seu olhar, que me deixava inquieta.
Mas naquela noite, meu pensamento voltava sempre a Harry. A primeira partida de quadribol se aproximava, e com ela, algo me dizia que o vento em Hogwarts estava prestes a mudar.
✩✩ 9 ¾ ✩✩
Na manhã seguinte, encontrei Harry brevemente no corredor próximo ao Salão Principal. Ele parecia nervoso, mas tentava disfarçar.
— Primeiro jogo, hein? — eu disse, sorrindo para animá-lo.
— Sim… e justamente contra a sua casa — respondeu, ajustando o cachecol vermelho e dourado. — Espero que você não me odeie depois.
— Eu nunca conseguiria te odiar, Harry. Mas prometo fingir.
Ele riu. O riso dele me acalmava, sempre.
— Tenho estudado o Quadribol Através dos Séculos — ele comentou. — Hermione me emprestou, e Rony jura que serei brilhante como apanhador.
— Vai provar que todos estão certos.
E eu acreditei.
Nessa noite, a dúvida me fez vagar pelas escadas geladas das masmorras. E foi então que o vi — o vulto do professor Snape atravessando o corredor lateral, apoiando-se ligeiramente na parede. Eu o segui, em silêncio. Ele parou diante da sala de manutenção, onde o zelador Filch o esperava.
As vozes eram abafadas, mas o eco das palavras alcançou-me:
— “O cão de três cabeças quase arrancou minha perna.”
Meu coração acelerou. Fofo. O mesmo cão que Harry mencionara, aquele que guardava algo misterioso no terceiro andar.
— “Tive sorte de sair inteiro”, — continuou Snape. — “Mas ninguém deve descobrir o que ele protege. Dumbledore quer sigilo absoluto.”
Senti um frio percorrer meu corpo. Dei um passo para trás, a pedra do piso rangeu levemente, e recuei apressada para as sombras.
Então Snape ergueu o olhar — e por um segundo, tive a impressão de que seus olhos cruzaram os meus.
Voltei correndo para o dormitório, o coração martelando. Algo estava acontecendo em Hogwarts. E, de alguma forma, Snape estava no centro disso.
✩✩ 9 ¾ ✩✩
Na manhã seguinte, o castelo inteiro fervilhava. Bandeiras vermelhas e verdes decoravam o Salão Principal; feitiços flutuavam no ar, e as conversas sobre estratégias, apostas e jogadas se espalhavam por toda parte.
O frio de novembro cortava como lâmina, mas o entusiasmo aquecia até as pedras das arquibancadas.
Fui com Florence e alguns colegas da Sonserina para o estádio. O campo reluzia sob o sol fraco, e as vassouras dos jogadores brilhavam como lanças de luz. O jogo começou com um rugido coletivo. Harry, minúsculo diante da vastidão do céu, subiu rapidamente. Era impressionante vê-lo voar — ágil, preciso, quase como se o ar o conhecesse.
— Ele é bom — murmurou Florence ao meu lado.
— É o que tentei te dizer — respondi, sentindo o peito apertado.
O Capitão da Sonserina, Marcus Flint, não demorou a mostrar que jogaria sujo. Empurrou Harry quando este quase alcançava o Pomo, fazendo o apito ecoar e os gritos se multiplicarem.
Mas o pior veio minutos depois. A vassoura de Harry começou a sacudir-se violentamente, como se uma força invisível a dominasse. Ele se contorcia, tentando manter o equilíbrio.
— O que está acontecendo? — perguntei, erguendo-me.
— Deve ser defeito na vassoura — alguém respondeu, mas Hagrid, sentado algumas fileiras abaixo, balançava a cabeça.
— Magia das Trevas — ouvi-o dizer, com voz grave. — Só feitiço forte pra causar isso.
Meu estômago revirou.
Hermione, que estava nas arquibancadas da Grifinória, parecia notar algo. Seus olhos cravaram-se em um ponto das arquibancadas inferiores, onde Snape observava o jogo, os lábios se movendo em um murmúrio silencioso.
E então tudo aconteceu em segundos: Hermione saiu correndo, tropeçando, e, sem hesitar, lançou chamas nas vestes de Snape, furtivamente.
Ele gritou, batendo as mãos nas roupas, enquanto Harry, subitamente, recuperava o controle da vassoura. A multidão prendeu o fôlego.
E então, num mergulho vertiginoso, ele se lançou em direção ao chão — e, para espanto de todos, ergueu a mão fechada… com o Pomo de Ouro entre os dentes.
O estádio explodiu em gritos.
Mesmo entre os alunos da Sonserina, ouvi alguns aplausos tímidos — até Florence sorriu.
Mas eu não consegui vibrar.
Havia algo errado. Algo muito errado.
✩✩ 9 ¾ ✩✩
Mais tarde, quando as arquibancadas se esvaziaram e os alunos voltavam para o castelo, permaneci sentada, observando o campo silencioso. As nuvens corriam pesadas no céu, e o vento trazia o eco distante dos gritos de comemoração.
Eu sabia que Harry não deixaria o assunto morrer. E, no fundo, eu também não conseguiria.
Naquela mesma tarde, Hagrid os levou para sua cabana — Harry, Rony e Hermione. Fui até a borda do campo e, de longe, observei-os conversando.
A porta estava entreaberta, e o tom da voz de Harry atravessava o vento:
— “Snape tentou me matar! Ele estava amaldiçoando a vassoura!”
— “Besteira, rapaz!” — respondeu Hagrid, a voz firme. — “Por que Snape faria isso? Ele tá do lado de Dumbledore!”
Houve uma pausa.
— “Mas ele foi ferido pelo cão de três cabeças”, — insistiu Harry. — “Eu vi!”
O silêncio de Hagrid foi suficiente.
— “Fofo é meu”, — confessou, enfim. — “E tá guardando um segredo. Só Dumbledore e Nicolau Flamel sabem o que é.”
Afastei-me, o coração disparado.
Então era verdade. Snape, o cão, o ferimento, o mistério… tudo se entrelaçava.
✩✩ 9 ¾ ✩✩
À noite, na sala comunal da Sonserina, sentei-me novamente diante da lareira, o livro de poções aberto, mas o olhar distante. As palavras já não faziam sentido.
Florence apareceu, enrolada em um xale verde.
— Então… ele venceu.
Assenti.
— Sim.
Ela se sentou ao meu lado, o fogo refletindo em seus olhos âmbar.
— E você, o que sente?
Demorei a responder.
— Orgulho. E medo.
— Medo de quê?
— De que algo esteja se movendo nas sombras — respondi, quase num sussurro. — A vassoura dele… Acho que foi um feitiço.
Florence ficou em silêncio, depois estendeu a mão e fechou o livro diante de mim.
— Então, talvez seja hora de aprender outra coisa além de poções — disse ela. — Talvez seja hora de aprender a se defender.
Olhei para o reflexo do fogo nas pedras úmidas da parede. Havia algo no olhar de Florence — e no peso das palavras dela — que parecia entender mais do que dizia.
Pensei em Harry. Pensei em Snape. Pensei em minha mãe.
E percebi que, mesmo sem querer, eu me encontrava no centro de algo muito maior do que imaginava — algo que misturava amor, lealdade e um segredo guardado sob três cabeças.
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