Um Espelho dos Desejos

O frio chegara de forma definitiva a Hogwarts. As manhãs tinham um tom prateado, e uma névoa constante pairava sobre o lago, fazendo com que o castelo parecesse uma pintura viva — uma daquelas antigas, em que as cores são belas, mas escondem algo sombrio. As janelas estavam cobertas de geada, e os alunos, enrolados em cachecóis e mantos, pareciam sombras em movimento nos corredores úmidos.

Eu gostava dessa quietude. O inverno trazia uma calma que se assemelhava à minha própria maneira de existir — discreta, observadora, quase sempre distante. Os dias passavam entre estudos, tarefas e as longas noites nas masmorras, onde o frio era constante e o fogo jamais parecia suficiente.

Foi em uma dessas noites, pouco antes das férias de Natal, que o incidente com Draco Malfoy aconteceu.

A sala comunal da Sonserina estava quase vazia. As luzes das tochas tremeluziam nas paredes de pedra, refletindo o movimento das águas do lago que se estendia do lado de fora. Eu estava sentada diante da lareira, com o livro que o professor Snape me dera semanas atrás — um exemplar antigo de Estudos Avançados em Poções e Suas Aplicações Práticas.

O exemplar era curioso. Não havia dedicatória, nem assinatura, apenas o cheiro de tinta velha e o som das páginas rangendo. Às vezes, eu pensava que o professor o entregara a mim por descuido; outras, tinha a nítida impressão de que ele esperava algo em troca — não obediência, mas compreensão.

Eu lia em silêncio quando uma voz, carregada de desdém, interrompeu meus pensamentos.

— Ainda acordada, Potter? — disse Draco Malfoy, apoiando-se no espaldar da poltrona à minha frente. — O Natal está chegando e você ainda prefere estudar? Que deprimente.

— E o que sugere que eu faça? — perguntei, sem erguer os olhos. — Correr pelos corredores à meia-noite como os grifinórios?

Ele sorriu.

— Ao menos eles sabem se divertir.

— Alguns de nós preferem usar a cabeça — retruquei, folheando o livro.

Draco deu uma risadinha curta.

— Você fala como se o professor Snape fosse o Papai Noel. Não vai adiantar nada estudar tanto, Potter. Ele pode te proteger, mas não pode te dar um sobrenome que valha alguma coisa entre nós.

— Talvez eu não queira ser lembrada pelo sobrenome, Malfoy — disse, erguendo o olhar com firmeza. — Já basta o que carrego.

Por um instante, ele pareceu desconcertado. Os olhos cinzentos, que geralmente exibiam um brilho arrogante, ficaram frios e indecisos.

— Vai passar as férias aqui, não é? — perguntou, mudando de assunto.

Assenti.

— Sim.

— Que pena — disse ele, com fingida compaixão. — Enquanto eu estiver em Wiltshire, cercado pela minha família, você estará aqui, sozinha, em um castelo congelado.

— Prefiro o frio à falsidade — respondi, voltando-me para o livro. — E, sinceramente, o castelo não é tão solitário quanto parece.

— É? — Draco inclinou a cabeça. — Pois eu acho que é o lugar perfeito para quem vive de silêncio.

Levantei o olhar mais uma vez.

— Às vezes, o silêncio é melhor companhia do que pessoas que só sabem se ouvir.

Ele riu, mas havia algo amargo naquele riso.

— Cuidado, Potter. Essa língua afiada pode te causar problemas.

— Eu já nasci com eles, Malfoy. Um a mais não fará diferença.

Ele ficou em silêncio por um momento, e então deu um meio sorriso.

— Sabe, você é diferente do seu irmão. Ele tenta agradar a todos. Você, não.

— Talvez porque eu aprendi mais cedo que nem todos merecem ser agradados.

Draco piscou lentamente, depois se afastou.

— Boa sorte com seus livros, Potter. Quando eu estiver diante de uma lareira de mármore, vou lembrar de você aqui, com o nariz enfiado nessas páginas mofadas.

— Faça isso — murmurei. — Ao menos terei deixado uma boa impressão.

Ele se virou e foi embora, o som dos passos ecoando nas pedras úmidas. Fiquei observando as chamas até elas se tornarem apenas reflexos dourados. Por mais que não quisesse admitir, as palavras de Draco haviam me atingido.

O castelo era enorme, mas, naquele instante, senti-me pequena dentro dele.

✩✩ 9 ¾ ✩✩

Na manhã seguinte, o castelo estava tomado pelo burburinho dos alunos que se despediam. As malas desciam pelas escadas, corujas voavam em círculos sobre as mesas, e até os fantasmas pareciam mais leves. Vi Harry no corredor, cercado por Rony e Hermione.

Ele parecia animado, apesar de saber que passaria o Natal em Hogwarts. Rony também ficaria, já que seus pais visitariam o irmão mais velho na Romênia.

— Vai ser o melhor Natal de todos! — dizia Rony, gesticulando. — Sem Percy reclamando, sem Fred e George enchendo o saco... só nós, o castelo e um banquete inteiro!

— E trabalho para a escola — acrescentou Hermione, erguendo o dedo. — Não se esqueçam de Nicolau Flamel.

— Ah, Hermione, dá um tempo — respondeu Harry, rindo. — A gente procura sobre ele depois.

Ela bufou.

— “Depois” é sempre o momento favorito dos preguiçosos.

Eles seguiram em direção à biblioteca, e eu, de longe, os observei. Era uma imagem reconfortante: meu irmão cercado de amigos, parecendo, pela primeira vez, realmente pertencer a algum lugar.

E, ainda assim, uma parte de mim desejava estar ao lado deles.

✩✩ 9 ¾ ✩✩

À noite, o salão comunal da Sonserina ficou vazio. As tochas queimavam com uma luz azulada, e o único som era o estalar das brasas. Peguei meu livro, mas não consegui ler.

O frio entrava pelas fendas das pedras, e mesmo o fogo parecia hesitar.

Quando finalmente adormeci, já era madrugada.

✩✩ 9 ¾ ✩✩

O Natal amanheceu silencioso. Do lado de fora, a neve cobria o pátio e as janelas estavam decoradas com feitiços que faziam os flocos dançar como pequenas estrelas. Quando desci à sala comunal, encontrei um pequeno monte de pacotes sobre minha cama.

Não esperava por aquilo.

O primeiro era envolto em papel vermelho e trazia uma etiqueta escrita com letra apressada:

“Feliz Natal, Harriet!

Da Sra. Weasley — espero que goste.

Rony mandou lembranças.”

Dentro havia um suéter verde com a letra ‘H’ bordada em dourado. Sorri ao tocá-lo. O cheiro de lã e especiarias me lembrou de casa, embora eu nunca tivesse tido uma de verdade.

Era simples, caloroso — e, pela primeira vez em muito tempo, senti que alguém havia pensado em mim.

O segundo presente era de Hermione. Vinha acompanhado de um pequeno bilhete:

“Para Harriet,

em agradecimento por ter me salvado do trasgo.

Espero que isso te ajude em seus estudos.

Com carinho, Hermione.”

Dentro da caixa havia uma pena encantada de auto-registro, que escrevia sozinha conforme eu ditava. Sorri, emocionada. Aquela era uma dádiva de alguém que realmente me compreendia — prática, delicada e generosa.

O último presente era o mais curioso. Embalado em veludo preto, sem bilhete ou remetente, continha um pequeno frasco de vidro com um líquido prateado que se movia lentamente, como névoa viva. Quando o toquei, uma leve sensação de calor percorreu meus dedos.

Um pequeno bilhete, sem assinatura, apenas dizia:

“Para os dias em que a mente se cansa antes do corpo.”

Olhei o frasco sob a luz da lareira. Era claramente uma poção rara — uma mistura entre calmante e estimulante mágico, usada para aliviar o cansaço mental. A escrita no bilhete era firme, precisa... e inconfundivelmente parecida com a do professor Snape…

Não havia dúvidas, embora eu fingisse ter. Ele jamais admitiria um gesto de gentileza. E eu jamais o confrontaria sobre isso.

✩✩ 9 ¾ ✩✩

Mais tarde, encontrei Harry e Rony no corredor. Eles riam, cheios de chocolate, exibindo os presentes.

— Olha só isso! — exclamou Harry, abrindo um embrulho longo.

Era uma capa de tecido brilhante, tão fina que parecia desaparecer sob a luz.

— O que é isso? — perguntei, fascinada.

— Uma Capa da Invisibilidade! — respondeu ele, os olhos cintilando. — Era do papai.

Fiquei em silêncio por um momento, observando o modo como ele a segurava — com reverência e ternura.

— Deve ter vindo de alguém muito próximo — disse, baixinho. — Use com cuidado.

Ele assentiu.

— Prometo.

Mas no sorriso dele havia aquela impaciência típica de quem já decidira o contrário.

✩✩ 9 ¾ ✩✩

Naquela noite, eu o vi sair da torre, enrolado na capa. Não o impedi. Harry sempre foi movido por uma curiosidade que beira o destino, e algo me dizia que nenhuma palavra minha mudaria isso.

Mais tarde, ele me contaria o que encontrara:

— Era um espelho enorme, Harriet — dizia, os olhos brilhando. — Dourado, com uma inscrição estranha. Quando olhei, não vi só o meu reflexo... vi eles. Mamãe e papai.

— Como assim, “viu”? — perguntei, tentando compreender.

— Eles estavam ali, atrás de mim. Sorrindo. Mamãe me tocou no ombro... eu quase pude sentir.

Olhei para ele, sem saber o que dizer. A voz dele tremia, e havia algo de tão puro naquele relato que me doeu.

— Harry... — comecei, mas ele balançou a cabeça.

— Eu sei que não era real. Mas por um momento, foi como se fosse.

Ficamos em silêncio. O fogo estalava na lareira. Senti vontade de dizer que o compreendia — porque compreendia. Mas às vezes, a dor compartilhada só dói mais.

✩✩ 9 ¾ ✩✩

Na noite seguinte, Harry levou Rony até o espelho. Quando voltou, estava confuso.

— Rony não viu mamãe nem papai — contou. — Ele se viu segurando a Taça de Quadribol, como capitão da Grifinória.

Pensei por um momento.

— Então o espelho mostra o que cada um mais deseja.

Ele assentiu lentamente.

— Acho que sim.

Na terceira noite, ele voltou sozinho. Foi quando encontrou Dumbledore.

— Ele sabia que eu tinha ido lá — contou, a voz baixa. — Disse que o espelho mostrava o desejo mais profundo do coração e que muitos já perderam a razão diante dele.

— E o que ele vê quando olha no espelho? — perguntei, curiosa.

Harry sorriu, meio incrédulo.

— Disse que se vê segurando um par de grossas meias de lã.

Ri baixinho.

— Isso soa como algo que Dumbledore diria.

— Pois é. — Ele ficou em silêncio, pensativo. — Mas, sabe... acho que ele quis dizer outra coisa.

Assenti. Eu também achava.

✩✩ 9 ¾ ✩✩

Depois disso, Hogwarts voltou ao seu ritmo normal, mas algo havia mudado em nós. Harry parecia mais sereno, embora ainda pensativo. Eu o via com frequência nos corredores, trocando sorrisos rápidos, como se compartilhássemos um segredo invisível.

Às vezes me perguntava: se eu olhasse naquele espelho, o que veria? Não era uma pergunta simples. Meu coração carregava muitas ausências, e o desejo, quando nasce da perda, costuma ser cruel.

Fechava os olhos e imaginava: talvez eu me visse ao lado de Harry, numa casa que nunca tivemos, com nossos pais vivos, sorrindo como nas histórias que Hagrid contava. Ou talvez me visse diante de Snape, não como aluna, mas como alguém que ele respeitava.

Ou ainda sozinha — mas finalmente em paz.

O espelho mostrava desejos, não verdades. E o desejo, eu já aprendera, era uma espécie de magia perigosa: podia aquecer ou consumir.

✩✩ 9 ¾ ✩✩

O inverno começou a se dissolver. As águas do lago voltaram a se mover, e as corujas traziam notícias de lares distantes. Eu seguia estudando o livro de poções de Snape, com o mesmo cuidado de quem lê um enigma.

Às vezes, pensava nele — no modo como observava o mundo sem jamais se deixar tocar por ele. Havia algo em comum entre nós dois: o isolamento, a necessidade de esconder o que sentimos. Mas diferente dele, eu ainda acreditava que o afeto, mesmo silencioso, podia ser uma forma de resistência.

Naquela noite, vesti o suéter verde da Sra. Weasley e sentei-me diante da lareira da Sonserina. O fogo refletia-se nas pedras, e o livro de Snape repousava em meu colo.

Abri-o em uma página qualquer e encontrei, escrito à margem, em caligrafia pequena e firme:

“O verdadeiro poder das poções não está em transformá-las, mas em compreender o que elas transformam em nós.”

Sorri. Era uma lição que, eu sabia, não estava nos currículos de Hogwarts.

Fechei o livro e encarei o fogo. Lá fora, a neve caía devagar, e o castelo dormia em silêncio.

Pensei em Harry, no espelho, em nossos pais, em tudo o que não tivemos e, ainda assim, carregávamos dentro de nós. E percebi, finalmente, que o desejo mais profundo do meu coração não era recuperar o que perdi.

Era aprender a viver com o que ficou.