Os Potter: A Pedra Filosofal
11 Capítulo 11
Uma Conversa Inspiradora
O inverno começava a recuar em Hogwarts. O gelo derretia lentamente nas janelas, e o lago, antes imóvel como uma lâmina de prata, voltava a se mover sob a luz pálida do sol. Mesmo assim, o frio persistia dentro de mim, um frio que não vinha das pedras do castelo, mas daquilo que o espelho me mostrara.
Fazia dias desde que Harry me contara sobre o Espelho de Ojesed, mas a imagem que ele descrevera — nossos pais, sorrindo atrás dele — havia se instalado em minha mente como uma lembrança que eu nunca tivera.
Era estranho desejar tanto algo que nunca se conheceu. Desde então, comecei a ter sonhos. Via reflexos em superfícies d’água, vultos familiares, e o eco de vozes que não sabia se eram reais.
Foi numa dessas noites inquietas que recebi uma mensagem inesperada.
Uma coruja parda, de olhos dourados, me trouxe um bilhete curto, selado com o brasão de Hogwarts:
“A senhorita Potter,
Favor dirigir-se ao escritório do Diretor após o jantar.
— A. Dumbledore.”
O bilhete pesou nas minhas mãos. Dumbledore raramente chamava alunos — ainda menos os da Sonserina. E, no entanto, eu sabia perfeitamente sobre o que ele queria falar.
✩✩ 9 ¾ ✩✩
O escritório do diretor ficava em uma das torres mais altas, guardado por uma gárgula de pedra que ganhava vida quando pronunciei a senha que ele me enviara. O corredor espiralado se ergueu diante de mim, cheio de engrenagens e luzes flutuantes. Era como subir uma escada feita de tempo.
Quando cheguei ao topo, Dumbledore me esperava.
Ele estava sentado atrás de uma mesa repleta de papéis, penas e pequenos instrumentos que faziam barulhos misteriosos. Atrás dele, Fawkes — a fênix que Harry comentara à um tempo atrás — dormia, o corpo reluzindo em tons de ouro e rubi.
— Boa noite, senhorita Potter — disse ele, com aquele tom sereno que sempre parecia conter o mundo inteiro. — Sente-se, por favor.
Obedeci em silêncio. Por um instante, apenas o tic-tac de um relógio em forma de planeta preencheu o ar.
— Creio que já sabe por que está aqui — continuou ele, entrelaçando os dedos. — Seu irmão me contou que também teve contato com o Espelho de Ojesed.
— Eu... — hesitei, mas não adiantava negar. — Ouvi falar dele, senhor.
— E o que ouviu?
— Que ele mostra aquilo que mais desejamos — respondi, baixando os olhos. — Não o que é, mas o que poderia ser.
— Exatamente — disse Dumbledore, sorrindo levemente. — E, por isso mesmo, é um artefato perigoso.
Silêncio.
Senti a respiração presa no peito.
— O senhor acha que é errado desejar? — perguntei, enfim.
Ele me olhou longamente antes de responder.
— Não, Harriet. Desejar é parte da natureza humana. O perigo está em esquecer o limite entre o sonho e o real. O espelho mostra o coração... mas o coração, às vezes, mente.
Desviei o olhar para a fênix adormecida.
— E se o que o espelho mostra for algo que nunca tivemos?
— Então é um lembrete — respondeu ele suavemente. — De que há coisas que não podemos recuperar, apenas honrar.
Essas palavras me atravessaram como uma lâmina morna.
Por um momento, desejei perguntar se ele também havia perdido alguém, mas algo em sua expressão me impediu.
— Dumbledore... — sussurrei. — Por que o senhor acha que Harry viu nossos pais?
Ele apoiou o queixo nas mãos.
— Porque o amor deixa marcas que nem o tempo apaga. E, às vezes, aquilo que amamos mais é também o que mais dói lembrar.
Ficamos em silêncio.
Do lado de fora, o vento batia nas janelas, e Fawkes emitiu um pequeno canto, como se entendesse cada palavra dita ali.
— Eu o escondi — disse Dumbledore por fim. — O espelho. E peço que não o procure. Nem você, nem Harry.
Assenti.
— Prometo.
— Ótimo. — Ele sorriu, e o olhar azul se suavizou. — Agora vá, senhorita Potter. E lembre-se: há reflexos que só desaparecem quando aprendemos a olhar para dentro.
Saí dali com o coração leve e pesado ao mesmo tempo.
Eu sabia que jamais esqueceria aquela conversa — e que, de certo modo, Dumbledore havia me dado mais respostas do que eu esperava.
✩✩ 9 ¾ ✩✩
As semanas seguintes passaram em um ritmo confuso. As casas voltavam da pausa do Natal, as aulas recomeçavam, e o ar do castelo se enchia novamente de vozes e passos apressados.
Na Sonserina, Draco Malfoy parecia decidido a recuperar o domínio de sempre.
Tornou-se mais arrogante, mais provocador, especialmente comigo. Eu, por outro lado, estava cada vez mais concentrada — o que parecia irritá-lo ainda mais.
Naquela manhã, tínhamos Poções.
A sala estava mergulhada em penumbra, e o cheiro de ervas e metal aquecido pairava no ar. O professor Snape andava entre as mesas, o manto negro esvoaçando como uma sombra viva.
— Hoje, faremos uma poção simples, mas que exige precisão — anunciou. — O Elixir Calmante. Um erro mínimo, e o resultado pode ser fatal.
Um murmúrio percorreu a sala.
Draco lançou-me um olhar de desafio; Pansy Parkinson riu baixo.
Aproximei-me do meu caldeirão, abrindo o livro com calma. Snape começou a circular entre nós. Eu podia sentir o olhar dele pousando de tempos em tempos sobre mim, sem expressão.
Minhas mãos se moviam com naturalidade — como se soubessem o que fazer antes mesmo de eu pensar. Eu havia estudado tanto aquele livro que o prof. Snape me dera, que eu conseguia recitá-lo de cor.
Misturei as ervas em proporções que não estavam escritas no livro, guiada por uma intuição estranha. O líquido borbulhou suavemente e mudou de cor — de um verde turvo para um azul claro translúcido.
— Potter. — A voz de Snape cortou o ar. — O que exatamente está fazendo?
Levantei os olhos.
— Apenas ajustando as proporções, senhor. A mistura indicada no livro produz uma reação ácida com o pó de carvalho. Corrigi para estabilizar o composto.
Houve um breve silêncio. Snape se aproximou, examinando meu caldeirão. O reflexo do líquido azul cintilava em seu rosto pálido.
— Impressionante — disse, baixo demais para os outros ouvirem. — E arriscado.
Depois, elevou a voz:
— Senhorita Potter conseguiu, ao que parece, compreender o princípio da neutralização mágica antes de a maioria de vocês sequer dominar a leitura das instruções.
Draco torceu o nariz.
— Deve ter decorado do livro que o senhor lhe deu, professor.
Snape o encarou com frieza.
— E, ainda assim, não vejo o senhor conseguir o mesmo, Sr. Malfoy. Dez pontos para a Sonserina.
O murmúrio foi imediato.
Senti o calor subir às bochechas, mas não disse nada. Snape se afastou, e eu voltei ao trabalho, tentando ignorar os olhares.
Quando a aula terminou, ele me chamou à mesa.
— Senhorita Potter — disse em tom neutro. — Não costumo elogiar, como deve saber. Mas o que vi hoje foi... notável.
— Obrigada, professor. — Hesitei. — Só fiz o que parecia certo.
Ele assentiu lentamente.
— Às vezes, o que parece certo é o que revela o verdadeiro talento.
Deixou que eu fosse, mas percebi, ao sair, que um leve sorriso — quase imperceptível — curvava seus lábios. E por algum motivo, aquele gesto silencioso valeu mais do que qualquer ponto ganho.
✩✩ 9 ¾ ✩✩
O clima em Hogwarts ficou mais tenso nas semanas seguintes. O Quadribol voltaria, e meu irmão, Harry, treinava sem descanso. Havia rumores de que o professor Snape seria o juiz da próxima partida — o que provocou alvoroço entre os alunos.
Na Sonserina, os comentários eram maliciosos.
— É claro que Snape vai favorecer os da casa dele — dizia Draco, cheio de si. — Grifinória não tem chance.
Eu permanecia em silêncio.
Sabia que Snape era exigente, mas justo — e, mais do que isso, que havia algo nos bastidores que ninguém compreendia.
Certa tarde, encontrei Harry na biblioteca com Hermione e Rony. Os três estavam cercados por pilhas de livros e papéis.
— O que procuram? — perguntei, me aproximando.
Hermione levantou o olhar, animada.
— Nicolau Flamel! Temos que descobrir quem ele é.
— Nicolau Flamel? — repeti. O nome me pareceu familiar.
Harry assentiu.
— Está ligado ao que o Hagrid tirou de Gringotes naquele dia.
— O pequeno pacote... — murmurei.
Hermione concordou.
— Acredito que seja algo chamado Pedra Filosofal. Mas ainda não encontrei nada concreto.
Foi só mais tarde, de volta às masmorras, que a lembrança me atingiu. Eu folheava um livro antigo, “Estudos em Alquimia e Transmutação”, emprestado da biblioteca.
E lá estava o nome: Nicolau Flamel.
Li em voz baixa: “Nicolau Flamel, renomado alquimista francês, conhecido por ser o único a criar com sucesso a Pedra Filosofal, capaz de transformar qualquer metal em ouro e produzir o Elixir da Vida, que concede imortalidade.”
O sangue gelou em minhas veias.
Era isso.
A conexão que faltava.
Peguei uma pena e anotei rapidamente os detalhes. Se o objeto que Hagrid tirara do cofre era realmente a Pedra Filosofal, então havia muito mais em jogo do que simples segredos escolares.
Mais tarde, Harry me contou sobre a partida. Snape apitara o jogo entre Grifinória e Lufa-Lufa. Rony e Neville brigaram com Malfoy, Crabbe e Goyle nas arquibancadas — típico.
Enquanto isso, Harry capturara o pomo em cinco minutos, vencendo a partida antes que a confusão terminasse.
Mas algo no olhar dele me preocupou.
— Snape estava lá, Harriet — disse, sério. — Mancando, observando tudo. E depois... eu o segui.
— O quê? — quase sussurrei. — Você o seguiu?
— Até a Floresta Proibida — respondeu. — Vi ele falando com o professor Quirrell. Falavam da Pedra.
Fiquei em silêncio, tentando processar.
— Você acha que Snape está tentando roubar a Pedra Filosofal?
— Acho que sim. Ele quer o poder dela.
Olhei para o fogo, o coração apertado. Snape podia ser severo, misterioso, até cruel — mas eu o conhecia o bastante para saber que não era movido por ambição. Havia outra coisa ali. Algo que Harry não via.
— Tenha cuidado — pedi, enfim. — Às vezes, o que parece maldade é apenas um espelho do que não entendemos.
Harry não respondeu. Apenas assentiu, com aquele olhar determinado que sempre antecedia algum tipo de encrenca.
✩✩ 9 ¾ ✩✩
Naquela noite, não consegui dormir. Voltei à biblioteca, sentei-me à mesa e reli as anotações sobre Nicolau Flamel e a Pedra Filosofal. As palavras pareciam brilhar sob a luz das velas.
“Elixir da Vida. Ouro. Imortalidade.”
Tudo se encaixava. E, ainda assim, algo dentro de mim dizia que a resposta verdadeira não estava na alquimia, mas nas pessoas. Nos desejos, nas dores, nas escolhas que fazemos quando ninguém vê.
Fechei o livro e sussurrei para mim mesma:
— Talvez o verdadeiro segredo da Pedra não seja viver para sempre... mas compreender o que vale a pena viver.
O eco dessas palavras ficou comigo por muito tempo.
E, enquanto o vento noturno uivava pelas janelas das masmorras, percebi que o mundo mágico era muito maior — e muito mais perigoso — do que qualquer um de nós podia imaginar.
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