Dragões e Pedras Mágicas

As semanas seguintes ao jogo de Quadribol foram marcadas por um clima estranho em Hogwarts.

Era como se o castelo inteiro tivesse começado a respirar diferente — mais rápido, mais tenso.

Harry andava inquieto, e até Rony, que raramente se importava com algo além de comida e Quadribol, parecia desconfiado.

Na Sonserina, os comentários sobre o “favoritismo” de Snape ainda ecoavam pelos corredores. Draco, claro, se encarregava de espalhá-los, inflando seu ego com cada palavra.

Eu tentava ignorar. O que realmente me tirava o sono era a sensação crescente de que algo estava acontecendo debaixo de nossos olhos — algo que ninguém ousava nomear.

Foi então que recebi uma mensagem de Harry, entregue discretamente por Edwiges:

“Encontre-nos amanhã à tarde, na cabana do Hagrid. É importante.

— H.”

Dobrei o bilhete e o escondi entre as páginas do meu livro de Poções. Sabia que ir até lá seria arriscado, mas a curiosidade e a inquietação eram mais fortes do que o bom senso. Além disso, algo me dizia que aquele encontro teria respostas que eu precisava ouvir.

✩✩ 9 ¾ ✩✩

A cabana de Hagrid cheirava a feno e fumaça. O calor era quase sufocante — o fogo da lareira rugia como uma fera, e os janelos estavam completamente embaçados.

— ‘Tá quente demais aqui — murmurou Harry, abanando-se.

Hagrid servia chá em canecas enormes, o rosto suado e o olhar nervoso. Rony e Hermione estavam com ele, sentados em bancos de madeira.

Quando entrei, Hagrid sorriu, mas parecia inquieto.

— Harriet! — exclamou. — Que bom que veio, menina.

— Meu irmão mandou uma mensagem — expliquei, sentando-me ao lado de Hermione. — Disse que era importante.

Harry me olhou brevemente, depois voltou-se para Hagrid.

— Hagrid... a gente sabe sobre o que você tirou de Gringotes no meu aniversário.

O grandalhão parou no meio do movimento de despejar chá.

Por um instante, o silêncio pareceu pesar no ar.

— Eu não devia saber, né? — completou Harry, com cautela.

— Não devia mesmo — respondeu Hagrid, cruzando os braços. — Isso é coisa de Dumbledore, não de criança curiosa.

Hermione se inclinou para frente, a voz baixa e melódica:

— Mas nós sabemos que é sobre a Pedra Filosofal.

Hagrid congelou.

— Como é que vocês...

— Estava em um livro — disse Hermione rapidamente. — Nicolau Flamel.

O olhar dele oscilou entre nós, indeciso.

— Vocês não deviam se meter nisso. É perigoso demais.

— Hagrid — insisti —, não estamos tentando nos meter. Só queremos entender.

Ele bufou, passando a mão pela barba desgrenhada.

— O que precisam entender é que a Pedra tá bem guardada. Dumbledore cuidou disso.

Hermione trocou um olhar comigo e, discretamente, ergueu a varinha sob a mesa. Murmurou algo quase inaudível — um feitiço de persuasão leve, inofensivo, mas suficiente para afrouxar a língua de alguém tão leal quanto Hagrid.

Ele piscou algumas vezes e, sem perceber, começou a falar:

— Tem o Fofo, o cão de três cabeças, que é meu... e depois tem os encantamentos da professora Sprout, o do professor Flitwick, o da professora McGonagall, o do professor Quirrell... e o do professor Snape.

Hermione soltou a varinha lentamente, trocando comigo um olhar cúmplice.

Harry parecia chocado.

— Snape?! — exclamou. — Eu sabia! Ele quer roubar a Pedra!

— Besteira — retrucou Hagrid, despertando de repente. — O Snape ajudou a proteger a Pedra, menino! Dumbledore confiou nele.

— Claro que confiou — murmurou Harry, cético. — Como se Snape fosse conhecido por sua gentileza.

Hagrid o fuzilou com o olhar.

— Vocês deviam é confiar mais no Dumbledore.

Tentei mudar de assunto, mas foi impossível.

O calor estava insuportável, e Hagrid parecia ainda mais nervoso. Foi quando notei o estranho movimento sob a manta junto à lareira.

— Hagrid... o que é aquilo? — perguntei, apontando.

Ele tentou cobrir o embrulho rapidamente, mas era tarde. A manta se mexeu, e um som abafado, como um estalo, encheu a sala.

— Oh, droga... — murmurou ele.

O embrulho vibrou mais uma vez — e então, com um pequeno estalo, uma fenda se abriu no topo. Uma fumaça quente escapou, e, de dentro, surgiu algo escuro, coberto de escamas.

— Isso é... — Hermione arregalou os olhos. — Um ovo de dragão?!

— Um Norueguês Ridgeback — disse Hagrid, com um orgulho desajeitado. — Ganhei num jogo de cartas outro dia.

— Você ganhou um dragão? — exclamei. — Hagrid, isso é completamente ilegal!

— É só um filhote. — Ele se ajoelhou, todo bobo, observando o ovo rachar. — Vai se chamar Norberto.

Harry suspirou, levando a mão à testa.

— A gente vai acabar preso por causa disso.

— Preso nada — respondeu Hagrid, acariciando a casca. — Só precisam prometer que não vão contar pra ninguém.

Hermione bufou.

— A gente não vai precisar contar. O cheiro de enxofre já vai denunciar tudo.

Mal terminei de rir quando um som lá fora me fez congelar. Um farfalhar, um estalo... passos apressados. Harry correu até a janela e olhou pela fresta.

— Ah, não...

— O que foi? — perguntei.

— Malfoy — respondeu ele, cerrando os dentes. — Ele estava aqui fora. Nos espiando.

O sangue gelou nas minhas veias. Eu conhecia Draco bem demais — e sabia que ele não deixaria isso passar em silêncio.

✩✩ 9 ¾ ✩✩

Nos dias seguintes, Draco parecia particularmente satisfeito consigo mesmo. A cada corredor, a cada risada dele, eu sentia que algo estava prestes a acontecer.

Até que, numa manhã cinzenta, a notícia se espalhou: Malfoy havia sido pego tentando denunciar Harry e Rony à professora McGonagall, falando sobre um dragão que supostamente Hagrid estava criando.

A professora, porém, o pegara fora da cama e lhe dera uma detenção por “inventar histórias”.

Ironia pura.

Quando ouvi isso, quase ri — não de escárnio, mas de pura incredulidade.

Draco Malfoy, o garoto que nunca errava, punido por mentir sobre algo que, infelizmente, era a mais pura verdade.

Mas a diversão durou pouco.

Hagrid, aflito, decidiu que não podia mais manter Norberto escondido.

— Carlinhos vai levar ele pra Romênia — explicou Harry, durante o jantar, quando conseguimos conversar rapidamente. — A gente só precisa levar o dragão até a torre mais alta.

— A gente? — perguntei, arqueando a sobrancelha. — Você e Hermione, imagino.

— E Rony, mas ele foi mordido — respondeu Harry, mostrando o curativo da mão do amigo. — Está na Ala Hospitalar.

Suspirei.

— Vocês vão se meter em encrenca, eu sinto.

— Já estamos — disse ele, sorrindo de canto. — Mas não tem outro jeito.

Naquela noite, fiquei acordada.

Da janela da Sonserina, vi as sombras se moverem lá fora — Harry e Hermione, cobertos pela Capa da Invisibilidade, atravessando o pátio com uma caixa nas mãos.

A neve refletia o luar, e, por um instante, eles pareciam fantasmas. Pensei em segui-los, mas fiquei parada, o coração apertado. Eu sabia que aquela aventura tinha um preço. E, no fundo, sentia que o preço ainda estava por vir.

✩✩ 9 ¾ ✩✩

Na manhã seguinte, o rumor se espalhou rapidamente. Filch havia pego alunos fora da cama na madrugada. Ninguém sabia quem eram — mas eu sabia.

Encontrei Harry mais tarde, pálido e cansado, e ele me contou o que acontecera.

— Conseguimos entregar Norberto a Carlinhos — disse, a voz baixa. — Mas deixamos a Capa da Invisibilidade para trás.

— E Filch? — perguntei.

— Nos encontrou nas escadas. Disse que Dumbledore ficaria sabendo.

Por um momento, fiquei sem palavras.

O mundo mágico tinha regras claras — e quebrá-las, mesmo com boas intenções, podia custar caro.

— Vocês podiam ter sido expulsos — murmurei.

— Mas o dragão está seguro. — Ele deu um meio sorriso. — Valeu a pena.

Suspirei, sem saber se devia abraçá-lo ou repreendê-lo. Às vezes, Harry era como o fogo: bonito, quente, mas impossível de controlar.

Enquanto ele falava, algo em mim mudou. Eu percebi, pela primeira vez, que o mistério da Pedra e os riscos que ela trazia não estavam apenas em livros antigos — mas vivos, pulsando dentro das paredes de Hogwarts.

E, de algum modo, eu sabia que tudo aquilo — o espelho, Snape, o cão de três cabeças, a Pedra Filosofal — estava se conectando, formando uma rede de segredos da qual eu já fazia parte.

Mesmo sem querer.

Naquela noite, voltei a escrever no meu caderno. Tentei colocar em palavras o que sentia, mas tudo parecia pequeno diante do que eu sabia agora. O castelo dormia, mas eu não.

As sombras no teto se moviam como se me observassem, e, ao longe, o vento soava como um sussurro. Escrevi apenas uma frase, antes de fechar o caderno: “A verdade é como uma chama — ilumina, mas também queima.”

E, por alguma razão, soube que logo ela queimaria a todos nós.