Os Potter: A Pedra Filosofal
8 Capítulo 8
Um Trasgo nas Masmorras
A manhã começou como tantas outras em Hogwarts: o murmúrio das corujas cruzando o céu, o brilho do sol filtrando-se pelas janelas do Salão Principal e o barulho metálico de talheres e gargalhadas.
Do lugar onde eu me sentava, na mesa da Sonserina, podia ver Harry rindo com Rony mais adiante, cercado pelos amigos da Grifinória. A distância entre nós parecia crescer um pouco mais a cada dia, e, embora tentássemos disfarçar, ela se tornava inevitável.
No entanto, algo em mim sempre o observava — talvez por instinto, talvez por amor.
Enquanto pensava nisso, um bando de corujas entrou pelas janelas. Uma delas — marrom e altiva — pousou diante de Harry, trazendo um pacote comprido, amarrado com barbante grosso. O murmúrio se espalhou imediatamente.
Da minha mesa, ouvi o riso de Draco Malfoy:
— A nova vassoura do queridinho de Dumbledore, sem dúvida.
Era mesmo. Uma Nimbus 2000, reluzente, recém-saída da caixa.
Sorri sozinha.
Era estranho sentir orgulho e ciúme ao mesmo tempo — orgulho pelo irmão que parecia brilhar cada vez mais, e ciúme por não poder partilhar dessa luz.
Nos corredores, ouvi os comentários ecoarem: McGonagall havia conseguido autorização especial para que Harry jogasse no time da Grifinória, apesar de ser do primeiro ano. Malfoy, claro, não perdeu tempo em tentar denunciá-lo ao professor Flitwick.
Mas o feitiço se virou contra o feiticeiro: Flitwick, em vez de repreendê-lo, parabenizou Harry com entusiasmo, dizendo estar impressionado com seu talento.
Malfoy voltou furioso para o salão comunal da Sonserina, atirando o casaco na poltrona mais próxima.
— É ridículo! — resmungou. — Regras só servem quando se trata de nós.
Eu o ignorei. Ultimamente, aprendera que algumas vitórias não se conquistam discutindo — apenas observando.
✩✩ 9 ¾ ✩✩
Os dias passaram, e logo chegou o Dia das Bruxas. O castelo estava decorado com teias mágicas e abóboras flutuantes que projetavam sombras alaranjadas pelas paredes. O aroma de canela e maçã assada enchia os corredores.
Era impossível não se sentir um pouco criança diante de tanta cor e encanto.
Na aula de Feitiços, o professor Flitwick nos ensinou o encantamento de levitação.
— “Wingardium Leviosa” — repetia ele, empolgado, subindo em uma pilha de livros para nos enxergar. — Com a pronúncia correta, meus caros, e um toque de delicadeza no movimento do pulso!
Hermione Granger, é claro, foi a primeira a dominar o feitiço. Sua pena flutuou graciosamente acima da mesa, enquanto o resto de nós apenas fazia o ar tremer inutilmente.
— É Leviosa, não Leviosá — ela corrigiu Rony, com o ar de quem cita um livro.
Rony, corado, respondeu baixinho algo que preferi não ouvir.
Mas bastou um olhar para perceber o quanto aquelas palavras o haviam ferido.
Quando a aula terminou, ouvi Hermione deixar a sala com o rosto tenso, os olhos marejados.
Não consegui falar com ela — e, de alguma forma, isso me atormentaria mais tarde.
✩✩ 9 ¾ ✩✩
O banquete do Dia das Bruxas foi um espetáculo de cores e cheiros. As velas flutuavam sobre as mesas, e fantasmas dançavam pelos corredores. Risadas e histórias se misturavam ao som dos pratos sendo servidos.
Mas a alegria durou pouco.
De repente, as portas do Salão Principal se abriram com um estrondo. O professor Quirrell entrou correndo, o turbante torto e o rosto branco como giz.
— Trasgo! Nas masmorras! — gritou, antes de desmaiar ali mesmo.
O pânico se espalhou instantaneamente.
Alunos gritavam, professores erguiam varinhas. O professor Dumbledore ergueu-se e, com voz firme, ordenou:
— Monitores, levem seus colegas de volta aos dormitórios imediatamente!
A confusão foi total. No meio do tumulto, algo me atravessou a mente: Hermione.
Ela havia saído chorando antes do jantar. Ninguém parecia ter percebido — exceto Harry, que me lançou um olhar aflito da outra ponta do salão.
Ele e Rony estavam entre a multidão que subia para as torres. Eu, porém, fui conduzida para o lado oposto, com os sonserinos, em direção às masmorras.
Mas no meio da escadaria, algo dentro de mim travou.
Hermione estava sozinha. E o trasgo estava nas masmorras.
Desviei sem pensar. Ignorei os gritos, o aviso dos monitores, e corri pelos corredores escuros. O ar cheirava a mofo e ferro. Podia ouvir, ao longe, um rugido grave, seguido de passos pesados que faziam o chão tremer.
Segui o som até o banheiro feminino. A porta estava entreaberta. Entrei com o coração disparado.
O cheiro era insuportável. E lá estava ele: um trasgo, enorme e disforme, a pele acinzentada e os olhos pequenos e vazios. Ele agitava um porrete tão grande quanto uma árvore, destruindo as cabines uma a uma.
E, acuada num canto, estava Hermione Granger.
Ela chorava, varinha tremendo nas mãos.
— Harriet! — gritou, ao me ver. — Ele vai me matar!
Não pensei. Agi.
Apontei minha varinha, o medo se dissolvendo em pura instintividade.
— Somnus Profundus! — exclamei, a voz firme.
Um clarão azul percorreu o ar, atingindo o trasgo em cheio. Por um segundo, ele pareceu hesitar — e então seus olhos reviraram, o corpo imenso cambaleou e tombou com um estrondo que sacudiu as paredes.
Silêncio.
Apenas o som do gotejar do encanamento e o batimento ensurdecedor do meu coração.
Corri até Hermione, que ainda tremia.
— Está bem? — perguntei, ajoelhando-me ao lado dela.
Ela assentiu, engasgada.
— Como… como você fez isso?
— Eu apenas… tentei algo que li — respondi, sem conseguir conter o riso nervoso. — O livro que Snape me deu. Tinha um feitiço de sono usado para neutralizar criaturas grandes. Nunca pensei que fosse funcionar.
Hermione piscou, surpresa.
— Você é incrível.
— Apenas te devia isso — respondi. — Afinal, já basta um trasgo para assustar a Sonserina inteira.
Foi assim que os professores nos encontraram.
A professora McGonagall entrou primeiro, seguida de Snape e Quirrell. Os olhos dela se arregalaram ao ver o trasgo caído e nós duas ilesas.
— Senhorita Potter! Senhorita Granger! O que... o que significa isso?!
Tentei explicar, mas Hermione foi mais rápida:
— A culpa foi minha, professora. Eu... eu fugi chorando depois da aula e não sabia do trasgo. Harriet veio me procurar quando soube. Ela me salvou.
McGonagall nos olhou longamente, como se medisse cada palavra.
Snape, por outro lado, observava em silêncio — e, por um instante, juro que vi algo que se assemelhava a preocupação em seu olhar.
— A senhorita Granger agiu de forma irresponsável — declarou McGonagall, enfim —, mas a senhorita Potter demonstrou coragem e presença de espírito. Dez pontos para a Sonserina... e cinco para a Grifinória.
Hermione me olhou, surpresa.
— Obrigada — murmurou.
— Não precisa — respondi, sorrindo. — Só não me faça lutar com outro trasgo.
Mais tarde, quando voltamos aos dormitórios, o castelo estava silencioso.
Florence me esperava acordada, sentada na cama.
— Harriet… o que aconteceu? — perguntou, aflita.
Sentei-me ao lado dela, ainda sentindo o cheiro de poeira e suor.
— Um trasgo — respondi simplesmente. — Eu não sabia aonde estava Hermione, a amiga do meu irmão… Fiquei preocupada e fui atrás dela. Me deparei com o trasgo e usei um feitoço, colocando-o para dormir.
Ela sorriu, cansada.
Deitei-me, olhando o teto de pedra refletindo o movimento das águas do lago. O medo ainda latejava sob a pele, mas algo dentro de mim estava diferente.
Pela primeira vez desde que chegara a Hogwarts, senti que pertencia àquele lugar. Não por causa da casa, nem do sangue, nem do nome.
Mas porque, de algum modo, eu havia descoberto dentro de mim a coragem que sempre acreditei ser só do meu irmão.
Fechei os olhos, e o último pensamento antes do sono foi simples, mas verdadeiro:
“Talvez não sejamos tão diferentes, afinal.”
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