Os Potter: A Pedra Filosofal
7 Capítulo 7
Voando em Vassouras
Duas semanas. Foi o tempo necessário para Hogwarts se tornar uma espécie de casa — não exatamente confortável, mas viva. O castelo parecia respirar, com suas paredes que sussurravam e escadas que se moviam de acordo com o humor do dia. Ainda assim, havia momentos em que eu me sentia dividida entre dois mundos: o da Sonserina, onde a astúcia era virtude e o orgulho, lei; e o de meu irmão, Harry, na Grifinória, onde a coragem se traduzia em impulsos e desafios.
Desde a seleção, a distância entre nós parecia crescer silenciosamente, como uma rachadura fina que se aprofunda com o tempo. As conversas eram breves, trocadas entre aulas ou corredores. Ainda havia carinho — mas também havia os olhares de lados opostos da mesa.
Naquela manhã, soubemos que os alunos da Grifinória teriam aula de voo junto com a Sonserina. O rumor se espalhou pelos dormitórios como fogo em palha seca. A maior parte dos meus colegas comemorou: afinal, significava uma chance de exibir superioridade sobre os “vermelhos”. Eu, por outro lado, apenas senti o peso de mais um confronto inevitável.
Malfoy, é claro, estava radiante.
— Finalmente poderemos mostrar a eles o que é voar de verdade — disse, enquanto ajustava as luvas de couro. — Grifinórios sempre acham que são os melhores, mas nem sabem montar direito numa vassoura.
— Alguns não precisam provar nada — retruquei, sem olhá-lo.
Ele arqueou uma sobrancelha.
— Está defendendo seu irmão outra vez, Potter?
— Estou apenas dizendo que o ar é o mesmo para todos. Quem sabe aproveita para respirar um pouco.
O silêncio que se seguiu foi quase doce.
O campo de voo se estendia sob um céu azul e frio. Madame Hooch nos esperava — uma mulher de cabelos curtos e olhar firme, que parecia feita de vento.
— Muito bem, turma — disse ela, fazendo as vassouras se alinharem diante de nós. — Quero que cada um se posicione ao lado da sua e diga: “em pé!”.
Aproximei-me da minha vassoura. O chão estava coberto de grama úmida.
— Em pé! — ordenei, e para minha surpresa, a vassoura subiu de imediato, pousando em minha mão.
Sorri de leve.
Harry, ao meu lado — porque o destino, por alguma razão, decidira nos colocar lado a lado — conseguiu o mesmo. A vassoura saltou como se o reconhecesse.
— Parece que herdamos algo do papaei — murmurei.
Ele sorriu.
— Ou talvez eu só tenha sorte.
Madame Hooch observou com aprovação.
— Excelente, senhor Potter. Ambos, aliás — acrescentou, lançando-me um olhar curioso. — Agora, montem e esperem o sinal.
O vento era frio, mas havia algo libertador em senti-lo. Quando ela soprou o apito, alguns subiram com hesitação. Outros, com arrogância. Neville Longbottom, porém, mal deixou o chão — e em segundos, sua vassoura disparou como se possuída.
— Sr. Longbottom! Desça imediatamente! — gritou Madame Hooch, mas era tarde.
O garoto subiu, gritou, e despencou com um estrondo. A turma ficou em choque. Madame Hooch correu, examinou o braço do menino — quebrado — e anunciou:
— Ala Hospitalar, agora. E ninguém se atreva a sair do chão enquanto eu estiver fora!
Mas o aviso foi inútil. Assim que ela desapareceu, Malfoy se inclinou e pegou algo que havia caído no gramado: um pequeno globo de vidro.
— Um Lembrol — disse ele, erguendo-o com um sorriso malicioso. — O pobre Longbottom vai se esquecer até de onde enfiou a coragem.
— Devolva, Malfoy — pedi, em tom calmo.
Ele me ignorou, voltando-se para Harry.
— Quer vir buscar por ele, Potter? Ou vai deixar seu irmãozinho cuidar disso?
Harry respirou fundo, os olhos faiscando.
— Me devolva, Malfoy.
— Venha pegar.
E antes que alguém reagisse, Malfoy subiu na vassoura e disparou. Harry foi atrás. Eu quis gritar, mas o som morreu na garganta.
O céu se transformou em palco. Malfoy girava, zombeteiro, enquanto Harry o perseguia com uma naturalidade que beirava o impossível.
— Segure se for capaz! — provocou o loiro, atirando o Lembrol no ar.
O globo cintilou sob o sol — e Harry mergulhou em queda livre. Por um segundo, o mundo pareceu parar. Depois, ele agarrou o Lembrol a poucos metros do chão e aterrissou suavemente, sem um arranhão.
A Sonserina inteira prendeu o fôlego. Até eu.
— POTTER! — a voz cortante da professora McGonagall rompeu o silêncio.
Ela se aproximou, o rosto entre a fúria e o espanto.
— Senhor Potter, venha comigo. Agora.
Olhei para Harry, o coração apertado.
Ele me lançou um breve olhar — um olhar que dizia “vai ficar tudo bem”, embora ambos soubéssemos que não podia garantir isso.
Mais tarde, ouvi os rumores no Salão Principal: Harry não fora expulso. Pelo contrário — McGonagall o apresentara a Olívio Wood, capitão do time de quadribol, declarando que ele seria o novo apanhador da Grifinória.
A notícia se espalhou como uma onda. Na Sonserina, os comentários eram mistos: admiração velada e inveja disfarçada de desprezo.
— Típico dos Grifinórios — disse Malfoy, jogando uma maçã de volta ao prato. — Quebram regras e são recompensados por isso.
— Talvez porque alguns quebram regras por coragem — retruquei —, e outros por vaidade.
Ele me lançou um olhar gelado, mas não respondeu.
Àquela altura, eu já sabia que o duelo viria.
Naquela noite, Malfoy se aproximou de Harry no corredor, ladeado por Crabbe e Goyle.
— Então, o novo astro do quadribol — provocou. — Talvez queira provar seu talento num duelo de verdade.
— Quando e onde? — Harry respondeu, sem hesitar.
Senti o sangue gelar.
— Meia-noite. Sala de Troféus — disse Malfoy, o sorriso largo. — Traga sua varinha... e sua coragem.
Ele se afastou, satisfeito.
Mais tarde, encontrei Harry por acaso nos degraus que levavam à torre. Ele parecia decidido, e nenhuma palavra minha o faria recuar.
— Harry, isso é uma armadilha — tentei dizer. — Malfoy não age sem um plano.
— Eu sei — respondeu, com um meio sorriso. — Mas não posso recuar.
— Então, pelo menos, seja prudente.
Ele assentiu, e se afastou no escuro.
Aquela noite foi de pressentimento. O castelo parecia diferente, como se pressentisse o perigo. Eu não o segui — não podia —, mas algo dentro de mim dizia que ele não estava sozinho.
Mais tarde, soube de tudo.
Harry, Rony, Hermione e até Neville haviam se esgueirado pelos corredores. Malfoy, naturalmente, não aparecera. Em vez disso, Filch e a gata, Madame Nor-r-ra, surgiram das sombras, forçando-os a fugir.
As escadas se moveram, as portas se trancaram, e o grupo acabou onde ninguém deveria estar: o corredor proibido do terceiro andar.
O que viram lá congelou o sangue até de Harry, que me contaria depois com voz trêmula:
— Um cão, Harriet. Um cão enorme. Três cabeças.
— Três...? — murmurei.
— Ele estava sobre um alçapão. Como se guardasse alguma coisa.
A expressão no rosto dele era a de quem vira mais do que gostaria.
— Promete que não vai contar a ninguém — pediu. — Nem mesmo aos da sua casa.
— Prometo — respondi.
Mas enquanto ele falava, algo crescia dentro de mim. Uma inquietação profunda, quase dolorosa. Um cão de três cabeças. Um alçapão. Um segredo guardado no coração de Hogwarts.
E, mais uma vez, estávamos — sem querer — no centro de algo muito maior do que nós.
Naquela noite, quando me deitei no dormitório da Sonserina, as águas do lago refletiam o luar sobre o teto de pedra. Florence dormia profundamente na cama ao lado, o cabelo espalhado como seda escura.
Fechei os olhos, mas as imagens não me deixavam: Harry voando, o brilho do Lembrol no ar, o rugido do cão, e a voz grave de Snape ecoando em minha memória.
Eu sabia que o castelo escondia segredos. Mas não imaginava, ainda, que estávamos começando a tocá-los.
E que, ao fazê-lo, algo havia despertado — dentro de Hogwarts… e dentro de nós.
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