Chegando ao fim

A manhã começou com o céu pesado, de um cinza metálico que refletia o humor de todo o castelo.

O ar estava parado, e até as corujas pareciam inquietas.

Eu descia para o Salão Principal com passos lentos, tentando afastar da mente o peso que me acompanhava desde a noite anterior. Havia algo no ar — algo que sussurrava perigo.

Nocturna, minha gata, caminhava ao meu lado, a cauda ereta, os olhos cor de âmbar observando tudo com a desconfiança habitual.

Ela era silenciosa, como eu. De certo modo, éramos duas criaturas que haviam aprendido a existir na sombra.

Sentei-me à mesa da Sonserina e servi-me de uma fatia de torrada e um pouco de chá. O aroma forte me trouxe um breve conforto.

Nocturna saltou para o banco ao meu lado e começou a lamber as patas com elegância felina, como se não houvesse nada de errado no mundo.

— Ainda acha que vai poder trazer esse bicho para o salão? — ouvi uma voz familiar às minhas costas.

Olhei por cima do ombro. Draco Malfoy sorria, o rosto iluminado pelo reflexo das velas. Sentei-me mais ereta, pronta para ignorá-lo, mas ele se aproximou, trazendo consigo um humor diferente do habitual — menos venenoso, mais... curioso.

— Bom dia pra você também, Malfoy — murmurei, voltando ao meu café.

— Bom dia, ruivinha — respondeu ele, o sorriso se alargando.

Revirei os olhos, mas não consegui conter um meio sorriso. Aquele apelido — que ele usara na primeira vez que nos vimos — sempre me irritara, mas naquele momento soou quase... familiar.

— Achei que tivesse deixado de lado as provocações — disse, pegando um pedaço de pão.

— E perder a diversão? Jamais. — Ele se sentou à minha frente sem pedir permissão. — Além disso, a Sonserina anda entediante ultimamente.

— É o que acontece quando as pessoas estão ocupadas demais tramando para ganhar a Taça das Casas.

Ele riu baixo.

— E você? Não parece se importar com a Taça.

— Não me interesso em troféus — respondi, calmamente. — Só em respostas.

Ele arqueou uma sobrancelha.

— Respostas? Sobre o quê?

— Sobre o que está realmente acontecendo neste castelo.

Por um instante, o sorriso dele sumiu. Os olhos cinzentos se estreitaram, avaliando-me.

— Cuidado, Potter. Às vezes, as respostas machucam mais do que as perguntas.

— Às vezes, sim — admiti. — Mas a ignorância costuma matar primeiro.

Houve um breve silêncio. Então ele sorriu novamente, mas o brilho em seu olhar era outro — menos provocador, mais respeitoso.

— Sabe, ruivinha, você é diferente dos outros. — Ele se levantou, ajeitando o uniforme. — Talvez seja por isso que Snape gosta de você.

— Snape não gosta de ninguém — retruquei.

— Exato. — Ele inclinou a cabeça, divertido. — E ainda assim, faz exceções.

Antes que eu pudesse responder, ele se afastou, a capa esvoaçando atrás de si. Nocturna ronronou suavemente, como se zombasse de mim.

— Nem ouse começar — murmurei, dando-lhe um pedaço de torrada.

Mas a verdade é que o comentário de Draco me acompanhou o resto do dia.

✩✩ 9 ¾ ✩✩

A aula de Poções começou com o som do caldeirão fervendo e o aroma metálico das essências mágicas se espalhando pelo ar. O professor Snape andava entre as mesas, o manto negro deslizando como fumaça.

Havia algo no modo como ele se movia — uma calma perigosa, quase animal.

— Hoje, trabalharemos com uma variação da Poção da Morte Simulada — anunciou. — Um antídoto que requer precisão e controle. Um erro, e a mistura se tornará tóxica.

As palavras ecoaram pelo salão, e os alunos se entreolharam, nervosos.

Snape começou a distribuir os ingredientes, e quando passou por mim, nossos olhares se encontraram por um breve instante. Havia algo ali — um aviso silencioso, talvez, ou uma compreensão mútua. Abri o livro apenas por costume, mas ignorei as instruções. Eu já as conhecia de cor.

Misturei primeiro o asfódelo em pó, depois o extrato de sanguinária. O vapor subiu, prateado, e a superfície do líquido começou a pulsar em tons de lilás.

À minha esquerda, Pansy Parkinson tossia, tentando conter a fumaça que se erguia do próprio caldeirão. À direita, Draco fingia concentração.

Snape parou atrás de mim. O silêncio se espalhou como veneno.

— Senhorita Potter — disse, baixo. — Posso saber o porquê de estar mexendo o caldeirão no sentido anti-horário?

— Para neutralizar o ácido residual da raiz de mandrágora — respondi, sem hesitar. — O movimento inverso impede a reação explosiva quando o antídoto for adicionado.

Ele observou o líquido, que cintilava em azul e, lentamente, tornava-se transparente. Snape inclinou a cabeça, os olhos escuros fixos em mim.

— Muito bem — murmurou. — Excepcional, até.

Alguns alunos o encararam, surpresos. Snape raramente elogiava.

Eu mantive o olhar firme.

— Dez pontos para a Sonserina — completou. — Talvez a senhorita Potter esteja finalmente compreendendo a arte que há por trás da obediência às regras.

— Ou talvez compreendendo quando é necessário quebrá-las — respondi baixinho o suficiente para apenas eu ouvir, antes de conseguir me conter.

Por um segundo, o silêncio foi absoluto. Então ele deu um leve sorriso — quase imperceptível — e seguiu adiante. Acho que não falei baixo o suficiente.

Mas quando a aula terminou e todos começaram a sair, senti seu olhar me seguir até a porta.

— Senhorita Potter — chamou, quando já estava quase no corredor.

Voltei-me. Ele se aproximou devagar, a expressão indecifrável.

— Seja cuidadosa. — A voz era baixa, quase um sussurro. — Às vezes, saber demais é um fardo do qual não se pode escapar.

Assenti, sem saber se ele falava da Pedra Filosofal — ou de mim mesma.

E quando ele se afastou, percebi que, por mais frio e enigmático que fosse, Snape entendia mais sobre dor do que deixava transparecer.

✩✩ 9 ¾ ✩✩

Naquela tarde, Harry, Rony e Hermione me procuraram.

Estavam ofegantes, os rostos pálidos.

— Foi Hagrid! — exclamou Harry. — O homem que deu o ovo pra ele fez perguntas sobre o Fofo!

Meu coração disparou.

— O cão de três cabeças?

— Sim — respondeu Hermione, aflita. — Ele contou como fazer o bicho dormir!

Rony completou:

— O estranho estava encapuzado, deu bebidas a ele e tirou tudo o que precisava saber!

Por um momento, fiquei sem palavras. Aquele simples erro podia custar a segurança da Pedra.

— Precisamos avisar Dumbledore — disse Harry, decidido.

Fomos até o escritório do diretor, mas quem nos recebeu foi a professora McGonagall.

A expressão dela era séria, mas não hostil.

— Professor Dumbledore viajou esta manhã — explicou. — E não quero mais ouvir uma palavra sobre essa... pedra imaginária.

— Mas professora, alguém pode roubar! — insistiu Harry.

Ela suspirou, cansada.

— Não sei como descobriram sobre a Pedra, mas fiquem tranquilos. Não é possível roubá-la. Está muitíssimo bem protegida.

As palavras dela ecoaram na minha mente o resto do dia.

Mas quando a noite chegou, sabíamos que nada estava bem. O castelo dormia, mas nós não.

Vestimos capas, pegamos as varinhas e seguimos pelos corredores vazios.

Neville tentou nos impedir, o rosto tenso.

— Não vão! Vocês vão ser expulsos!

— Me desculpe — murmurou Hermione, e lançou o Petrificus Totalus.

Neville caiu, rígido, no chão.

— Eu o solto depois — disse ela, sem emoção.

Quando chegamos ao corredor do terceiro andar, a porta estava entreaberta. O som grave de um ronco preencheu o ar.

— Fofo — sussurrou Harry.

A harpa mágica estava caída ao lado, as cordas silenciosas. Peguei minha varinha e murmurei um feitiço à harpa que voltou a tocar. A melodia ecoou suave, e as três cabeças do cão se moveram lentamente até adormecerem.

— Agora! — disse Rony.

Abrimos o alçapão e pulamos. A queda foi longa e úmida. Caímos em algo macio... e vivo.

As vinhas começaram a se enrolar em torno de meus braços e pernas.

— É o Visgo do Diabo! — gritou Hermione.

A respiração faltava, a pressão apertava o peito. Lembrei-me da aula da professora Sprout.

— Ele odeia luz! — gritei, e conjurei uma chama intensa.

O calor se espalhou, e as vinhas se retraíram, libertando-nos.

Rony tossiu.

— Lembre-me de nunca mais brincar com plantas.

Seguimos adiante, entrando em uma sala iluminada por asas reluzentes.

Centenas de chaves voadoras flutuavam acima de nós.

— Flitwick — sussurrou Hermione. — Esse é o feitiço dele.

No centro, uma porta trancada. Harry olhou para o teto e apontou:

— Aquela! — A chave prateada, com uma asa quebrada.

Harry montou na vassoura e voo. O ar parecia cortar o seu rosto, as chaves zuniam como navalhas. Harry mergulhou, pegou a chave e destrancou a porta.

A próxima sala era um tabuleiro gigante de xadrez de bruxo. As peças se moviam sozinhas, pesadas, ameaçadoras.

Rony observou por um momento e respirou fundo.

— Eu cuido disso.

A partida começou.

As peças batiam com força, e o chão tremia a cada movimento.

No final, Rony sacrificou o próprio cavalo para permitir nossa passagem.

Quando a torre o atingiu, ele caiu com um gemido surdo.

— Rony! — gritei.

— Vão — disse ele, antes de perder a consciência. — Terminem isso.

Com o coração pesado, seguimos para a próxima sala.

Um trasgo jazia caído, inconsciente — provavelmente o mesmo do Dia das Bruxas.

Não havia tempo a perder.

Então chegamos à última câmara. Sete frascos alinhados e um pergaminho com enigmas.

As chamas negras bloqueavam a passagem à frente; as roxas, atrás. Li o texto em voz alta. Era um problema de lógica. Sete poções: três com veneno, duas com vinho, uma para voltar e outra para seguir.

— Isso não é magia — murmurei. — É lógica.

Hermione me olhou, nervosa.

— Você consegue resolver?

Observei as garrafas. O padrão das quantidades, as posições, as instruções codificadas. O cérebro funcionava como uma máquina.

Minhas mãos tremiam levemente enquanto eu analisava os frascos. O silêncio na sala era pesado, quebrado apenas pelo crepitar das chamas roxas e negras que nos enjaulavam. Hermione observava meus movimentos com os olhos arregalados, e Harry estava pálido, mas firme.

— O enigma é claro — murmurei, mais para mim mesma do que para eles. — Dois nos farão avançar, um nos levará para trás… Três são veneno puro…

Minha mente trabalhava rapidamente, conectando as pistas do pergaminho ao arranjo dos frascos. A lógica sempre foi meu refúgio — um mundo onde as coisas faziam sentido, ao contrário da vida com os Dursley ou dos mistérios de Hogwarts.

— Este — disse eu, pegando o frasco menor à direita — É o que permite avançar. Só há o suficiente para uma pessoa.

A expressão de Hermione se tornou determinada.

— Harry tem que ir. É ele que Quirrell, ou quem estiver lá, quer impedir.

Harry protestou, mas eu o interrompi.

— Ela está certa. Você é o alvo, ou melhor nós somos… Hermione, você volta por este aqui — apontei para o frasco de vinho à esquerda — E leva o Rony para a Ala Hospitalar. Eu... eu encontro um jeito de seguir o Harry.

— Lily, não! — Harry pegou meu braço — É muito perigoso.

— Desde quando o perigo nos impediu? — Respondi com um sorriso triste — Somos os Potter, lembra? Vamos juntos, Harry. Sempre.

Ele hesitou, mas viu a firmeza em meus olhos. Bebemos juntos a poção avançar — era gelada como o inverno — e atravessamos as chamas negras como se fossem fumaça.