Os Potter: A Pedra Filosofal
13 Capítulo 13
Chegando ao fim
A manhã começou com o céu pesado, de um cinza metálico que refletia o humor de todo o castelo.
O ar estava parado, e até as corujas pareciam inquietas.
Eu descia para o Salão Principal com passos lentos, tentando afastar da mente o peso que me acompanhava desde a noite anterior. Havia algo no ar — algo que sussurrava perigo.
Nocturna, minha gata, caminhava ao meu lado, a cauda ereta, os olhos cor de âmbar observando tudo com a desconfiança habitual.
Ela era silenciosa, como eu. De certo modo, éramos duas criaturas que haviam aprendido a existir na sombra.
Sentei-me à mesa da Sonserina e servi-me de uma fatia de torrada e um pouco de chá. O aroma forte me trouxe um breve conforto.
Nocturna saltou para o banco ao meu lado e começou a lamber as patas com elegância felina, como se não houvesse nada de errado no mundo.
— Ainda acha que vai poder trazer esse bicho para o salão? — ouvi uma voz familiar às minhas costas.
Olhei por cima do ombro. Draco Malfoy sorria, o rosto iluminado pelo reflexo das velas. Sentei-me mais ereta, pronta para ignorá-lo, mas ele se aproximou, trazendo consigo um humor diferente do habitual — menos venenoso, mais... curioso.
— Bom dia pra você também, Malfoy — murmurei, voltando ao meu café.
— Bom dia, ruivinha — respondeu ele, o sorriso se alargando.
Revirei os olhos, mas não consegui conter um meio sorriso. Aquele apelido — que ele usara na primeira vez que nos vimos — sempre me irritara, mas naquele momento soou quase... familiar.
— Achei que tivesse deixado de lado as provocações — disse, pegando um pedaço de pão.
— E perder a diversão? Jamais. — Ele se sentou à minha frente sem pedir permissão. — Além disso, a Sonserina anda entediante ultimamente.
— É o que acontece quando as pessoas estão ocupadas demais tramando para ganhar a Taça das Casas.
Ele riu baixo.
— E você? Não parece se importar com a Taça.
— Não me interesso em troféus — respondi, calmamente. — Só em respostas.
Ele arqueou uma sobrancelha.
— Respostas? Sobre o quê?
— Sobre o que está realmente acontecendo neste castelo.
Por um instante, o sorriso dele sumiu. Os olhos cinzentos se estreitaram, avaliando-me.
— Cuidado, Potter. Às vezes, as respostas machucam mais do que as perguntas.
— Às vezes, sim — admiti. — Mas a ignorância costuma matar primeiro.
Houve um breve silêncio. Então ele sorriu novamente, mas o brilho em seu olhar era outro — menos provocador, mais respeitoso.
— Sabe, ruivinha, você é diferente dos outros. — Ele se levantou, ajeitando o uniforme. — Talvez seja por isso que Snape gosta de você.
— Snape não gosta de ninguém — retruquei.
— Exato. — Ele inclinou a cabeça, divertido. — E ainda assim, faz exceções.
Antes que eu pudesse responder, ele se afastou, a capa esvoaçando atrás de si. Nocturna ronronou suavemente, como se zombasse de mim.
— Nem ouse começar — murmurei, dando-lhe um pedaço de torrada.
Mas a verdade é que o comentário de Draco me acompanhou o resto do dia.
✩✩ 9 ¾ ✩✩
A aula de Poções começou com o som do caldeirão fervendo e o aroma metálico das essências mágicas se espalhando pelo ar. O professor Snape andava entre as mesas, o manto negro deslizando como fumaça.
Havia algo no modo como ele se movia — uma calma perigosa, quase animal.
— Hoje, trabalharemos com uma variação da Poção da Morte Simulada — anunciou. — Um antídoto que requer precisão e controle. Um erro, e a mistura se tornará tóxica.
As palavras ecoaram pelo salão, e os alunos se entreolharam, nervosos.
Snape começou a distribuir os ingredientes, e quando passou por mim, nossos olhares se encontraram por um breve instante. Havia algo ali — um aviso silencioso, talvez, ou uma compreensão mútua. Abri o livro apenas por costume, mas ignorei as instruções. Eu já as conhecia de cor.
Misturei primeiro o asfódelo em pó, depois o extrato de sanguinária. O vapor subiu, prateado, e a superfície do líquido começou a pulsar em tons de lilás.
À minha esquerda, Pansy Parkinson tossia, tentando conter a fumaça que se erguia do próprio caldeirão. À direita, Draco fingia concentração.
Snape parou atrás de mim. O silêncio se espalhou como veneno.
— Senhorita Potter — disse, baixo. — Posso saber o porquê de estar mexendo o caldeirão no sentido anti-horário?
— Para neutralizar o ácido residual da raiz de mandrágora — respondi, sem hesitar. — O movimento inverso impede a reação explosiva quando o antídoto for adicionado.
Ele observou o líquido, que cintilava em azul e, lentamente, tornava-se transparente. Snape inclinou a cabeça, os olhos escuros fixos em mim.
— Muito bem — murmurou. — Excepcional, até.
Alguns alunos o encararam, surpresos. Snape raramente elogiava.
Eu mantive o olhar firme.
— Dez pontos para a Sonserina — completou. — Talvez a senhorita Potter esteja finalmente compreendendo a arte que há por trás da obediência às regras.
— Ou talvez compreendendo quando é necessário quebrá-las — respondi baixinho o suficiente para apenas eu ouvir, antes de conseguir me conter.
Por um segundo, o silêncio foi absoluto. Então ele deu um leve sorriso — quase imperceptível — e seguiu adiante. Acho que não falei baixo o suficiente.
Mas quando a aula terminou e todos começaram a sair, senti seu olhar me seguir até a porta.
— Senhorita Potter — chamou, quando já estava quase no corredor.
Voltei-me. Ele se aproximou devagar, a expressão indecifrável.
— Seja cuidadosa. — A voz era baixa, quase um sussurro. — Às vezes, saber demais é um fardo do qual não se pode escapar.
Assenti, sem saber se ele falava da Pedra Filosofal — ou de mim mesma.
E quando ele se afastou, percebi que, por mais frio e enigmático que fosse, Snape entendia mais sobre dor do que deixava transparecer.
✩✩ 9 ¾ ✩✩
Naquela tarde, Harry, Rony e Hermione me procuraram.
Estavam ofegantes, os rostos pálidos.
— Foi Hagrid! — exclamou Harry. — O homem que deu o ovo pra ele fez perguntas sobre o Fofo!
Meu coração disparou.
— O cão de três cabeças?
— Sim — respondeu Hermione, aflita. — Ele contou como fazer o bicho dormir!
Rony completou:
— O estranho estava encapuzado, deu bebidas a ele e tirou tudo o que precisava saber!
Por um momento, fiquei sem palavras. Aquele simples erro podia custar a segurança da Pedra.
— Precisamos avisar Dumbledore — disse Harry, decidido.
Fomos até o escritório do diretor, mas quem nos recebeu foi a professora McGonagall.
A expressão dela era séria, mas não hostil.
— Professor Dumbledore viajou esta manhã — explicou. — E não quero mais ouvir uma palavra sobre essa... pedra imaginária.
— Mas professora, alguém pode roubar! — insistiu Harry.
Ela suspirou, cansada.
— Não sei como descobriram sobre a Pedra, mas fiquem tranquilos. Não é possível roubá-la. Está muitíssimo bem protegida.
As palavras dela ecoaram na minha mente o resto do dia.
Mas quando a noite chegou, sabíamos que nada estava bem. O castelo dormia, mas nós não.
Vestimos capas, pegamos as varinhas e seguimos pelos corredores vazios.
Neville tentou nos impedir, o rosto tenso.
— Não vão! Vocês vão ser expulsos!
— Me desculpe — murmurou Hermione, e lançou o Petrificus Totalus.
Neville caiu, rígido, no chão.
— Eu o solto depois — disse ela, sem emoção.
Quando chegamos ao corredor do terceiro andar, a porta estava entreaberta. O som grave de um ronco preencheu o ar.
— Fofo — sussurrou Harry.
A harpa mágica estava caída ao lado, as cordas silenciosas. Peguei minha varinha e murmurei um feitiço à harpa que voltou a tocar. A melodia ecoou suave, e as três cabeças do cão se moveram lentamente até adormecerem.
— Agora! — disse Rony.
Abrimos o alçapão e pulamos. A queda foi longa e úmida. Caímos em algo macio... e vivo.
As vinhas começaram a se enrolar em torno de meus braços e pernas.
— É o Visgo do Diabo! — gritou Hermione.
A respiração faltava, a pressão apertava o peito. Lembrei-me da aula da professora Sprout.
— Ele odeia luz! — gritei, e conjurei uma chama intensa.
O calor se espalhou, e as vinhas se retraíram, libertando-nos.
Rony tossiu.
— Lembre-me de nunca mais brincar com plantas.
Seguimos adiante, entrando em uma sala iluminada por asas reluzentes.
Centenas de chaves voadoras flutuavam acima de nós.
— Flitwick — sussurrou Hermione. — Esse é o feitiço dele.
No centro, uma porta trancada. Harry olhou para o teto e apontou:
— Aquela! — A chave prateada, com uma asa quebrada.
Harry montou na vassoura e voo. O ar parecia cortar o seu rosto, as chaves zuniam como navalhas. Harry mergulhou, pegou a chave e destrancou a porta.
A próxima sala era um tabuleiro gigante de xadrez de bruxo. As peças se moviam sozinhas, pesadas, ameaçadoras.
Rony observou por um momento e respirou fundo.
— Eu cuido disso.
A partida começou.
As peças batiam com força, e o chão tremia a cada movimento.
No final, Rony sacrificou o próprio cavalo para permitir nossa passagem.
Quando a torre o atingiu, ele caiu com um gemido surdo.
— Rony! — gritei.
— Vão — disse ele, antes de perder a consciência. — Terminem isso.
Com o coração pesado, seguimos para a próxima sala.
Um trasgo jazia caído, inconsciente — provavelmente o mesmo do Dia das Bruxas.
Não havia tempo a perder.
Então chegamos à última câmara. Sete frascos alinhados e um pergaminho com enigmas.
As chamas negras bloqueavam a passagem à frente; as roxas, atrás. Li o texto em voz alta. Era um problema de lógica. Sete poções: três com veneno, duas com vinho, uma para voltar e outra para seguir.
— Isso não é magia — murmurei. — É lógica.
Hermione me olhou, nervosa.
— Você consegue resolver?
Observei as garrafas. O padrão das quantidades, as posições, as instruções codificadas. O cérebro funcionava como uma máquina.
Minhas mãos tremiam levemente enquanto eu analisava os frascos. O silêncio na sala era pesado, quebrado apenas pelo crepitar das chamas roxas e negras que nos enjaulavam. Hermione observava meus movimentos com os olhos arregalados, e Harry estava pálido, mas firme.
— O enigma é claro — murmurei, mais para mim mesma do que para eles. — Dois nos farão avançar, um nos levará para trás… Três são veneno puro…
Minha mente trabalhava rapidamente, conectando as pistas do pergaminho ao arranjo dos frascos. A lógica sempre foi meu refúgio — um mundo onde as coisas faziam sentido, ao contrário da vida com os Dursley ou dos mistérios de Hogwarts.
— Este — disse eu, pegando o frasco menor à direita — É o que permite avançar. Só há o suficiente para uma pessoa.
A expressão de Hermione se tornou determinada.
— Harry tem que ir. É ele que Quirrell, ou quem estiver lá, quer impedir.
Harry protestou, mas eu o interrompi.
— Ela está certa. Você é o alvo, ou melhor nós somos… Hermione, você volta por este aqui — apontei para o frasco de vinho à esquerda — E leva o Rony para a Ala Hospitalar. Eu... eu encontro um jeito de seguir o Harry.
— Lily, não! — Harry pegou meu braço — É muito perigoso.
— Desde quando o perigo nos impediu? — Respondi com um sorriso triste — Somos os Potter, lembra? Vamos juntos, Harry. Sempre.
Ele hesitou, mas viu a firmeza em meus olhos. Bebemos juntos a poção avançar — era gelada como o inverno — e atravessamos as chamas negras como se fossem fumaça.
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