Os Olhos do Corvo
2 Prólogo — Queda
Notas iniciais

"Eu era um coração pesado de carregar
Meu amado estava sobrecarregado
Meus braços em volta de seu pescoço
Meus dedos atados à coroa
Eu era um coração pesado de carregar
Meus pés arrastavam pelo chão
Então ele me levou para o rio
Onde lentamente deixou-me afogar"
— Heavy in Your Arms, Florence + the Machine
O Mar não fora feito para mulheres. Apesar da furiosa tempestade que rugia sobre sua cabeça, encobrindo sua visão do oceano que navegava, o capitão enxergava essa invariável verdade em sua mente, tão clara quanto possível: o Mar não fora feito para mulheres.
Repetiu a frase para si algumas centenas de vezes, apesar do amargurado peito lhe ardendo para dizer-lhe o contrário, a fim de convencer-se a fazer o que era certo. Afinal, era ele o culpado da ruína de sua tripulação e de sua tão estimada nau, a qual as ondas agora açoitavam violenta e impiedosamente.
Martirizou-se uma vez mais por ter sido tão tolo. Como pudera trair seu verdadeiro destino — a navegação — por um romance infantil? Sua futilidade o assombrava. Podia ver um de seus marujos deixando-se levar pelos encantos de uma bela mulher, mas ele? Seu eu mais jovem o mataria, cotar-lhe-ia a cabeça se pudesse vê-lo em tão constrangedora situação.
O Mar não fora feito para mulheres e, aparentemente, tampouco para homens apaixonados.
Seus marujos inúmeras vezes o alertaram sobre os perigos que atraía, mas o capitão não lhes deu ouvido. Esteve cego desde a fatal noite em que a encontrara vagando sem rumo pelo porto. Suas memórias eram claras e o vinham perseguindo há tempos, a datar de quando as chuvas começaram, e agora, mais uma vez vinham à tona:
O dia já havia se erguido ao horizonte, mas a escuridão prevalecera, dificultando o trabalho da tripulação que se ocupava a carregar o navio para a nova jornada.
Ele próprio, a supervisionar seus subordinados, venerava a figura gloriosa de sua nau, com o orgulho aquecendo-lhe o corpo do frio invernal que permeava a manhã na cidade de Ascott. Quando fora nomeado capitão e a ele coube a honra de nomear sua embarcação, havia prestado homenagem a seu pai e ao pai deste, a batizando Desbravador III, e nada no mundo o fazia estufar mais o peito.
Um dia, quando tivesse um filho, pensara ao observar o marceneiro gravar em letras cor de ouro o nome escolhido na madeira no dia em que recebera sua licença, gostaria que ele nomeasse seu navio também de Desbravador.
Sua tripulação igualmente o aprazia, formada por homens leais e trabalhadores, apesar de supersticiosos. À época, ele recordou ter notado alguns marujos realizando suas habituais crendices, que, segundo eles, afastaria os maus agouros que por ventura encontrassem. O capitão achava tais cismas tolas, mas seus companheiros pareciam sentir-se mais seguros quando presos a elas, e não seria ele a causar-lhes desconforto.
Fora enquanto os observava quebrar uma garrafa de vinho contra o casco do navio que passos apressados a contrastar com a calmaria do amanhecer chamaram sua atenção para a moça de olhos negros.
Ela chegara ao porto correndo, o barulho de seus saltos a bater o chão de pedras e o hálito quente a formar nuvens contra o ar álgido. Era dona de pele alva como a lua permeada de pequenas estrelas alaranjadas que coloriam suas bochechas, ponte do nariz e ao redor de seus lábios rubros. Os cabelos de um laranja vivo iluminavam a aura sombria emanada por suas vestes quentes de pele escura, e sua postura curva e expressão chorosa não diminuíam em nada sua beleza. Ou fora o que o capitão à época pensara.
Agora, ela era um assombro aos seus olhos.
Estava assustada, podia-se notar. Seu olhar era tão profundo e cheio de trevas que o capitão pode provar da angústia da donzela em seus próprios ossos, sentindo-se imediatamente desconfortável. Algumas lágrimas assustadas escorriam pelas bochechas da jovem, e ele apenas percebeu que andava em sua direção quando sentiu uma mão pôr-se firme em seu ombro.
— Não é boa coisa falar com pessoas de cabelos vermelhos antes de uma viagem, meu Senhor — disse seu imediato às suas costas.
— Poupe-me dessas superstições, sim? Meu pai não acreditava nessas tolices, e nem o fazia meu avô, logo, não devo eu — O outro rapaz não pareceu contente com a resposta, mas tampouco pareceu surpreso. Conhecia bem o temperamento de seu capitão e, apesar de se preocupar com as consequências de suas ações, já era habituado ao seu ceticismo. Voltou a fazer seu trabalho, já seu líder seguiu o caminho que traçava antes de ser interrompido.
Ainda a alguns centímetros de distância, não contendo sua curiosidade, dirigiu à moça uma pergunta:
— Passa bem, senhorita? — indagou com suavidade para não sobressaltar a jovem, que já parecia temerosa.
Ao perceber que era chamada, algo brilhou em seu olhar como uma faísca de esperança, logo antes de irromper em lágrimas.
— Perdoe meu comportamento enxerido, meu Senhor — pediu ela entre soluços de desespero — Nunca agiria dessa maneira em circunstâncias de hábito, mas não havia mais para onde ir.
O homem aproximou-se mais e tomou a liberdade de acariciar seus ombros, não sabendo por certo como — ou mesmo se deveria — confortá-la. Não era de sua natureza distribuir boas ações a desconhecidos, mas algo nos olhos negros da moça implorava por seu amparo, algo de que ele não conseguia desvencilhar-se.
— Diga-me o motivo de suas lágrimas e farei o possível para ajudar.
Ao ouvir suas palavras, a jovem hesitou, porém, parecendo não ver outra escolha, respondeu.
— Sou a mais moça de sete irmãs, todas muito bem casadas, e é chegada a hora de me unir a um homem também — O capitão estranhou o fato de ela não ser comprometida. Aparentava ter por volta de vinte primaveras (sete a menos que ele próprio), idade em demasia para ser solteira, especialmente para dona de tamanha graça. Quando ela prosseguiu, seu pranto se intensificou e as palavras saíram trêmulas de seus lábios — Mas o homem ao qual meu pai cedeu minha mão... é um monstro! Ouvi histórias apavorantes sobre ele pela aldeia, eles o chamam... Mão de Aço.
O apelido de seu noivo deixou sua garganta como um sussurro abafado, quase inaudível. O medo que sentia era tal que suas faces se contorciam em uma expressão que o capitão nunca saberia explicar em palavras. Algo tão apavorante, e ainda assim tão belo, tão sublime, tão frágil.
Ela segurou suas mãos com força.
— Por favor, meu Senhor — pediu a jovem com o pavor tão claro em seus olhos que ele parecia escorrer junto às lágrimas — Não me importa seu destino, tampouco o que fazem, apenas preciso deixar essas terras. Sou boa cozinheira, arrumadeira, trabalharei de graça se me levar daqui. Eu lhe imploro, não me faça voltar para casa!
— Não farei — As palavras saíram de sua boca sem serem antes aprovadas por sua mente, mas o rapaz sabia que não poderia deixá-la — Me chamo Ranson Daltrey, sou comandante deste navio. Eu e meus homens estamos partindo para Augor em busca de luxos e riquezas. Venha conosco e não deixarei que nada lhe falte.
A moça lhe sorriu genuinamente, a gratidão tomando lugar em seu rosto onde antes se via apenas medo e tristeza. Ela ajoelhou-se a seus pés e lhe agradeceu infinitas vezes, beijando-lhe as botas e, logo em seguida, as bochechas.
— Sou Lady Ermengard Paragon, Senhor, da Casa Paragon de Ascott — apresentou-se com uma exagerada reverência. — E prometo que não se arrependerá!
As primeiras semanas que se seguiram à partida foram tão calmas quanto poderiam ser. O céu estava aberto e ensolarado, e o mar, sereno como Ranson nunca o havia visto. Os ares pareciam ter sido abençoados por todos os deuses e apesar da presença de Ermengard a bordo, a marinhagem trabalhava com incomum empenho, uns marujos assoviando aqui, outros cantarolando acolá, em um clima de patescaria que parecia não ter fim — e todos esperavam que não o tivesse.
O capitão, por sua vez, cada vez mais encantado com a moça que os acompanhava, sentia-se orgulhoso de sua decisão de trazê-la com ele. Era discreta e prestativa com seus dotes de mulher nobre, acatando as ordens que lhe eram dadas com destreza e capricho. Sua beleza o fascinava de forma tal que às vezes perdia-se a desejá-la: durante o dia, quando podia vê-la e falar-lhe; e à noite, quando a imaginação não lhe impunha limites. Ranson ansiava tão profundamente tê-la para si que, não mais podendo conter seus sentimentos, chamou-a em sua cabine e confessou sua paixão. Ermengard, apesar de surpresa, aceitou o cortejo de seu capitão e, enfim, ele pode amá-la.
E amou-a todas as noites desde então, e por vezes, durante o dia também. Abraçava-a por trás enquanto ela cuidava da limpeza e levantava sua saia sem pudores, aliviando-se do desejo crescente entre suas pernas minutos depois. Ou então a tocava de madrugada, enquanto ela dormia, acabando por despertá-la quando já sobre e dentro dela.
Ao longo da viagem, sempre que aportavam em alguma vila ou cidade, o comandante não hesitava em encher sua nova Senhora de mimos e presentes: vestidos, peles, perfumes e joias, tudo pago com o ouro do Rei. Logo os marujos descobriram e, enfurecidos com o efeito que Ermengard causava em seu líder, começaram a sussurrar más palavras dela pelos corredores do Desbravador.
O mestre de armas disse a um dos criados de bordo que a mulher que os acompanhava era, na verdade, uma bruxa. "É só olhar para seus cabelos", justificou. "Vermelhos como fogo e sangue". O boato passou de boca a boca, e logo todos os mais de duzentos tripulantes, crédulos como eram, falavam no assunto, que sem demora chegou aos ouvidos do capitão Ranson.
Inicialmente, não deu ouvidos à sua tripulação, apesar da veemência com que afirmavam a ascendência bruxa de sua amada. Porém, quando o enorme bulcão¹ surgiu no horizonte, indicando a monstruosa tempestade que em breve os atingiria, toda a adoração, por sua parte, foi-se esvaindo de poucos em poucos até que tudo o que restava era amargura.
Aos olhos de Ranson, só restava uma coisa a ser feita para livrar-se da onda de má sorte que vinha assolando sua embarcação. Discutira tal decisão com seus comparsas mais chegados, que no mesmo instante concordaram que aquele era, de fato, o melhor caminho a ser tomado. Articularam o plano durante vários dias, quando ninguém estava por perto, até que todos tivessem a mesma certeza do capitão: não havia possibilidade de falha.
As gotas d'água golpearam-lhe o rosto com ferocidade, caindo bravas de um céu desalumiado e o trazendo de volta ao presente, ao dia em que salvaria seu navio. Então, tomado por vergonha e arrependimento, limpou do rosto algumas lágrimas.
— Tragam-na — ordenou a dois dos marinheiros de guarda, seus cúmplices, que prontamente se direcionaram aos alojamentos, onde os marujos se preparavam para o repouso.
Quando retornaram, seguravam Ermengard bruscamente pelos braços. Ela trajava suas vestes noturnas e, ao que parecia, estava a se pentear quando fora interrompida, pois apenas o lado direito de seus cabelos flamejantes estava com os cachos acertados. Isso logo não importaria, uma vez que a chuva já começava a encharcá-la também.
— Ranson? — chamou ela com desconfiança na voz — De que isso se trata? Ordene a esses brutamontes que me soltem!
— Sinto muito, mas não posso, Ermengard — ele não se atreveu a olhar nos olhos pretos como carvão da bela mulher. Temia que, caso o fizesse, seu feitiço cairia outra vez sobre ele e perderia o controle de suas ações — Suponho que eu não queria acreditar que você fosse capaz de fazer isso comigo, ou com qualquer outro integrante desta tripulação.
— O que? O que se passa?
— Sua presença não favorece meu navio. A tempestade se enfurece mais e mais, e você está tornando tudo pior!
Com a compreensão espalhando-se pelo rosto da mulher, os marinheiros ali presentes puderam vislumbrar sua verdadeira face: as ventas de seu nariz delicado dilataram-se. Os lábios, antes cheios e perfeitos, encolheram a uma mera rachadura enrugada acima do queixo. Seus olhos, agora estreitos, transformaram-se em espelhos negros que refletiam a podridão de sua alma destinada ao Ommdra.
Um trovão soou estrondoso à distância, e enquanto ela berrava suas palavras acima do rugido da chuva, um espetáculo de raios iluminava seu rosto enraivecido.
— Não podem me culpar pelas tempestades! Não sou feiticeira, não controlo os Grandes Deuses! — mentiu a bruxa, mas o valente comandante não se deixou intimidar. Ergueu os olhos até a visão da traidora.
— Você não me dá escolha — disse ele reprimindo as lágrimas que apertavam sua garganta. O veneno que lhe fora dado de beber era forte. Apesar de tudo, ainda a amava. — Livrem-se das roupas — ordenou friamente para os marinheiros.
Ao ouvir tais palavras, todo o ódio que transformou sua aparência segundos atrás deu lugar ao medo. O mesmo medo que Ranson havia presenciado tanto tempo atrás no porto de Ascott.
Medo falso, presumiu o capitão.
Apesar de seus protestos enérgicos, com pernas e braços que se debatiam tentando escapar do enlace dos punhos que a seguravam, suas vestes foram rapidamente rasgadas com as adagas dos marinheiros, não sem que ela antes fosse arranhada diversas vezes pelas lâminas afiadas.
O temor que ela provocava naqueles homens em nada impediu que eles se aproveitassem da situação. Afinal, uma moça bonita como aquela, mesmo que uma bruxa, não se encontrava com frequência em alto mar e, com a autorização do capitão para que a possuísem, nada os faria pensar duas vezes antes de prosseguirem. Tocaram seu corpo com os dedos calosos e logo a debruçaram sobre o chão de madeira gelado pela chuva. Enquanto dois deles mantinham-na imóvel, um terceiro abaixou as calças e a penetrou sem cerimônias. A dor que sentiu, mesmo que intensa, foi expressa por não mais que um grunhido saído do fundo de sua garganta.
Deitada lá, enquanto aqueles três homens jorravam seus líquidos para dentro de seu corpo, Ermengard não tentou resistir. Ao invés disso, encarou Ranson com o semblante de alguém que já está morto. Parecia sussurrar para ele "era isso que queria ver?", e, de fato, o comandante não parecia desconfortável em assistir à mulher que durante meses assenhorara sendo usada por seus companheiros. Não, tudo o que podia sentir era a vontade de fazê-la sofrer tal qual ela havia feito com ele. Aquela violação era apenas parte de seu breve plano de vingança.
Assim que acabaram de usá-la, um dos três marujos afivelou seu cinto e dirigiu-se à proa, onde se pôs a armar a prancha. Os outros dois a ergueram do chão com rispidez e foi apenas então que o capitão se aproximou. Por que parar agora, afinal? Ele também teria sua despedida. Ergueu o queixo da moça e a observou da cabeça aos pés com um misto de desejo e repúdio. Aquela fragilidade que ele achara tão bela quando a viu pela primeira vez se fazia novamente presente e ele surpreendeu-se ao notar que, apesar de seu asco, essa peculiaridade ainda o instigava.
Parou os olhos em seu corpo desnudo e sem pressa admirou seus formatos: a cintura estreita em contraste com os quadris largos, os seios bonitos, a pele clara pintada pelas sardas. Tudo o que durante um tempo fora dele, mas que ele agora não via a hora de ver boiando sem vida no mar. Bem, não antes de acabar de vez com a brincadeira.
Ranson então enfiou a mão direita por entre as mechas dos cabelos de Ermengard, os puxando com força e a arrastando até a amurada do navio, logo ao lado da prancha já posicionada. Parado atrás dela, esticou o pescoço e a beijou na bochecha, e então no ombro, pressionando a virilha contra suas costas. Sem dúvidas, aquele não era um beijo afetuoso, como os que milhares de vezes haviam trocado, mas sim um de pura luxúria, sem qualquer fração de amor. Arriou as calças e, segurando seus cabelos em uma mão e um de seus seios na outra, a invadiu com uma força descomunal, que tomou impulso em seu rancor.
Dessa vez, ela gritou. Não somente de dor, mas em protesto, e berrou tão alto que Ranson se viu obrigado a mover a mão que tocava seu peito rapidamente para sua boca em uma tentativa de calá-la, mas de nada adiantou. Logo, o restante da marinhagem apareceu no convés para assistir ao espetáculo. A multidão torceu ao ouvir o desespero na voz daquela que tanto queriam longe, e quando seu comandante derramou-se nela e suas pernas ficaram sujas não somente de sêmen, mas também de sangue, as gargalhadas que soltaram foram de doer a barriga e o maxilar.
Ao desvencilhar-se do corpo da bruxa, ela foi-se ao chão com um estrondo. A tripulação a viu juntar as mãos em oração enquanto as lágrimas escorriam por seu rosto junto da chuva, murmurando palavras que não ouviam: mais motivos para os sons da tempestade serem sobrepostos de risos.
O capitão, porém, já satisfeito, perdeu o ânimo para joguinhos. Queria vê-la morrer.
Enquanto ele e um de seus comparsas erguiam o corpo enfraquecido de Ermengard, os marujos gritavam sugestões de como ela deveria ser morta.
— Cravem uma espada em seu útero! — propôs um deles.
— Não! — discordou outro — Mergulhem esse rostinho bonito em água fervente!
Mas Ranson já havia decidido: ela andaria na prancha e, com seus próprios pés, mergulharia para a morte. Havia, afinal, forma pior de ir-se desse mundo que tirando a própria vida sem que lhe fosse dada outra opção?
Elevaram-na até a plataforma e ele desembainhou a espada, apontando-a diretamente para as costas da mulher.
— Ande! — ordenou. Ela não o fez. Ele, então, tocou a extremidade da lâmina no local onde ficava a base de sua espinha. Sangue escorreu e pingou na madeira do convés quando ela cambaleou na direção do mar.
— Irei — disse Ermengard finalmente depois de alguns momentos em que havia apenas inspirado e derramando mais lágrimas — Mas irei por conta própria.
Ela andou um, dois, três passos até a beirada, para então virar-se de frente e encarar todos aqueles que, de forma ou outra, a haviam agredido aquela noite. E então ela riu. Uma risada profunda que transbordava sarcasmo e desprezo enquanto mais trovões ressoavam no céu em trevas.
As grossas mechas de cabelo molhado que encobriam parte do seu rosto faziam de sua aparência a coisa mais assustadora que aqueles homens já haviam presenciado em suas vidas. Aquele monstro de olhos negros e cabelos de fogo ficaria para sempre costurado em suas retinas.
Quando tornou a falar, as águas se agitaram e os relâmpagos iluminaram a pintura de destruição que, em menos de uma hora, ela havia se tornado.
— Mas escutem o que digo, marinheiros: estão enganados se pensam que isso ficará assim. Um dia, cada um de vocês pagará pelo que estão fazendo, pois eu posso morrer esta noite, mas minha ira... ela será imortal — com essa jura, Ermengard cruzou os braços sobre o peito nu e, de costas, atirou-se n'água, fazendo questão de encarar Ranson para que ele jamais esquecesse seus olhos tomados de trevas.
❈
Apesar do forte impacto de seu corpo n'água, tudo que sua mente podia suportar sentir era frio e medo. Já fora do alcance dos olhares da marinhagem do Desbravador, ela não mais precisava fingir coragem, e de seus trêmulos membros à esquina mais profunda de seu âmago, o pavor emanava como a corrente marinha que a cercava: de um lado a outro, por todas as partes.
Sem conseguir impulsionar-se até a superfície novamente, Ermengard esperava o ar esvair-se por completo de seus pulmões, mas isso parecia não ocorrer nunca. Seu fôlego não acabava, apenas a sufocava no pânico da impotência. Ela abriu os olhos em meio à escuridão e o sal fê-los arder, mas ainda assim o breu não a deixava enxergar, até que, depois do que lhe pareceu uma vida toda, seus ouvidos captaram algo além do movimento da corrente e da tempestade sobre a água. Era uma melodia que se aproximava, cantarolada com uma suavidade tal que ela pensou ser o som de sua alma desgrudando-se de seu corpo, elevando-se ao Edrea, assim como pensou que o fulgor que lentamente surgia a sua frente a faria ver a Morte. Entretanto, não foi Ela quem a moça viu, ou pelo menos não o que se imaginaria d'Ela.
Era uma mulher jovem, com talvez trinta ciclos, e tão bela quanto Ermengard jamais poderia imaginar. Sua pele era como se feita de bronze fundido, escura e reluzente e, no lugar onde deveriam estar seus olhos, havia pedras preciosas de um azul profundo que captavam cada nuance das águas. Seus lábios cheios e avermelhados curvavam-se em um sorriso doce e seus cabelos negros flutuavam ao seu redor como se pudessem estender-se por todos os Cinco mares. Ela não vestia nada além de lascas de ouro que pareciam presas à sua pele, formando arabescos por todo seu corpo nu. Quando falou, não usou de som ou palavra, mas Ermengard pode ouvi-la em sua mente, como um sopro oco e sem voz, mas ainda assim canoro.
"Olá, Ermengard", soou o silêncio.
"Exijo que me diga quem és", respondeu a moça com o respeito formal que incessantemente lhe fora ensinado. Sua voz também era apenas um sopro. "És a Morte?", perguntou com cautela.
"Por vezes, sou, mas não hoje", respondeu o ser. "Chamo-me Feontia, mas acredito que em sua terra me chamem Andrastia. Sou uma das Quatro Ninfas e protetora dos Mares de Caor". Foi feito um momento de silêncio para que Ermengard absorvesse a informação. Ela a conhecia, é claro. Sua face estivera bordada em uma tapeçaria pendurada em seus aposentos em Ironshore, e quando questionou quem era aquela, lhe fora dito que se tratava de Andrastia, a deusa que todos em Castlecray afirmavam ter morrido.
Mas essa não era a verdade, apesar de assim estar escrito na Midh² de sua família e na de todas as outras que conhecia.
Ermengard estava completamente deslumbrada de estar na presença de uma deusa, mesmo que na hora de sua morte. Certamente, não fosse o fato de estarem ambas embaixo d'água, ela ter-se-ia ajoelhado e beijado seus pés mil vezes.
A ninfa prosseguiu.
"Sinto muito por Ranson. Sei que você o amava", disse e surpreendeu-se quando, rapidamente, a moça a corrigiu, os olhos novamente tomados de raiva.
"Eu nunca o amei!", bravejou naquele suspiro que era sua voz.
Feontia, de cenho franzido em dúvida, ergueu as mãos para tocar as de Ermengard, e quando o fez, enxergou tudo, pois as pedras preciosas que substituíam seus olhos não a impediam de enxergar. Não, de forma alguma. A ninfa via tudo e, a um simples toque, via também tudo o que já havia se passado: sentia na pele cada dia já vivido, como se houvesse estado lá. Cada glória, sofrimento e alegria eram permanentemente guardados em sua memória, apesar de, no caso de Ermengard, não haver tanta glória, tampouco alegria para relembrar.
"Compreendo", seus olhos vítreos a fitaram. "A vingança que deseja, você a terá, se assim desejar".
"Minha vingança? Como a terei se estou morta?", seu semblante era triste. Apesar de tudo, queria viver, e, sim, queria vingança.
"Você não está morta, Ermengard. Se estivesse, eu não poderia estar aqui com você. Há centenas de anos moças como você são jogadas ao mar em nome destas superstições absurdas. Caso queira, terá sua vingança, e não somente de Ranson e sua tripulação asquerosa, mas de todos os homens que já a fizeram mal. Poderá devolver aos bárbaros navegadores destes mares todo o medo e sofrimento que outros a causaram".
O frio intenso do oceano a envolvia, e não somente seu corpo, mas sua alma gelava com ele. Todos os seus pensamentos eram lentamente transformados em repulsa, ódio e uma vontade insana de fazê-los pagar — todos eles —, até que cada fibra de seu ser clamava com desespero pelo sangue dos homens. Queria banhar-se nele, queria tingir o mar de vermelho. Eles mereciam, ela sabia disso.
"O que tenho de fazer?", perguntou. Ansiava por aquilo que Feontia tinha a lhe oferecer.
"Não tem de fazer nada, querida. Olhe para suas pernas".
Ermengard assim o fez, porém não foram pernas que viu. Em seu lugar, havia uma belíssima cauda de escamas negras e reflexo prateado dançando abaixo de si, seus cabelos cor de fogo bruxuleando em volta de seus seios nus. No momento em que seus pulmões aliviaram-se, uma sensação desconhecida tomou seu pescoço e, quando ela o tocou, sentiu suas guelras respirarem.
A ninfa acariciou seu rosto e sorriu, porém não era o mesmo sorriso doce e acolhedor de outrora, mas um escárnio tão sádico e vingativo quanto o de Ermengard viria a ser.
"Minha filha Raven, a moça dos olhos de corvo", disse Feontia. "Eles são todos seus".
E, assim como surgiu, desapareceu na suave luz que havia trazido consigo, deixando Ermengard — ou melhor, Raven — sozinha no escuro com seu novo eu. A música que Feontia havia cantarolado ao aparecer agarrou-se à sua mente, não só em melodia, mas também com palavras. Sua garganta queria cantá-la, alto o bastante para sobrepor o som das ondas e da tempestade que rugia.
Seus olhos antes cegados pela escuridão enxergavam tudo que a cercava. Com sua cauda, impulsionou-se até a superfície sem dificuldade alguma, e pôs-se a cantar, com todos os sons à sua volta tocando como instrumentos para sua canção. Sua voz ressoava tão alta que logo os marujos do Desbravador, dezenas de metros acima dela, correram até a amurada em torno de toda a embarcação com feições apavoradas. O capitão rugiu à sua visão, ao que ela apenas sorriu.
Ela não era o monstro que Ranson havia imaginado que era, e sim o que ele mesmo havia criado.
Ao final daquela noite, o navio estaria no fundo do oceano, e cada um de seus marinheiros, destruído, enquanto A Moça dos Olhos de Corvo estaria para sempre viva.
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