Os Olhos do Corvo

3 Capítulo I — Sinos


Notas iniciais
Hello, povo! Sim, eu demorei mais uma vez, sinto muito mesmo, mas , convenhamos, eu poderia ter escrito um capítulo qualquer de mil palavras, sem nenhum detalhe e cheio de erros, mas escolhi escrever um treco minimamente razoável para não desapontá-los... Não é bem melhor assim? Gosto de crer que sim, e pode ser que eu demore de novo, mas pode ser que não (espero que não auhsausha)! Como foi o feriado de vocês? O meu foi ótimo (era meu aniversário na sexta!). Mas, enfim, vocês não querem saber disso, né? Vamos ao capítulo :DDD Boa leitura, espero mesmo que vocês gostem! Se se sentirem à vontade, deixem suas críticas e opiniões :) ~Holly

"Mais alto que sirenes
Mais alto que sinos
Mais doce que o paraíso
E mais quente que o inferno"

— Drmming Song, Florence + The Machine

O Sol bateu de leve em seu rosto já corado. Estava suado e ofegante, cansado de subir e descer do porto até o deck do navio. A camisa branca grudava em seu corpo esguio e as calças pretas de inverno faziam suas pernas formigarem com o calor, os cabelos escuros e molhados contornando o belo rosto. Axel, ao ver seu esforço, soltou uma risada divertida.

— Qual o problema, Gehart? Não aguenta carregar alguns barris?

O rapaz deu um tapa de leve na cabeça do capitão, fazendo os outros marinheiros, na enorme embarcação que se erguia acima de suas cabeças, darem gargalhadas.

— Eu não teria de carregar tantos se você ajudasse, seu imprestável!— devolveu ao amigo.

— Cuide como fala comigo, sou seu superior— retrucou Axel, mas o sorriso ainda decorava seu o rosto.

— Superior... — bufou Shadow com desdém quando passou pelos dois para recolher mais um pesado baú de carvalho, fazendo uma reverência debochada na direção do capitão na volta para o Navio.

Gehart riu. Axel não era de se importar com as brincadeiras, muitas vezes participava delas, mas naquela tarde, parecia anormalmente tenso. Sua mão agarrava-se firme à da bela mulher ao seu lado, deixando brancos os nós dos dedos. O jovem observou a mão do amigo entrelaçada com a da moça, e se pegou pensando quando haveria de segurar a mão de alguém. Não que fosse solitário, longe disso. Na verdade, ele e os outros marujos divertiam-se muito com as garotas que conheciam nas viagens, mas não queria apenas casos de uma noite e mulheres que conhecia nas estrebarias. Queria alguém que ficasse ao seu lado, e que abanasse para ele do cais a cada vez que saíssem e que aguardasse ansiosamente o seu retorno.

O Capitão andou até seu lado e passou a mão por seus ombros.

— Já não tenho mais certeza de que quero ir— murmurou Axel baixo para que somente Gehart pudesse ouvi-lo.

— Ela ainda estará aqui quando voltarmos, sabe?

— Eu sei!— exclamou. — Mas não quero que fique aqui sozinha! E se algo me acontecer?

— Então eu tomo seu posto e mando sua cabeça para ela— zombou Gerard.— Nada vai acontecer, Ax. Vamos ir e voltar como sempre fazemos, e então você e Avery se casarão e terão um monte de filhos que, esperamos, puxem a ela.

Foi a vez de Axel dar um tapa na cabeça do marinheiro.

— Você é um idiota.

Os dois riram, descontraídos e, mais uma vez, Gehart confortou o companheiro.

— Ela vai ficar bem sem você.

— Sim. Mas ficarei eu bem sem ela?

Com um sorriso, Axel andou de volta até a moça de cabelos dourados e deu nela um apaixonado beijo de despedida, então ergueu o último barril e o carregou nas costas em direção ao navio.

— Gehart?— chamou Avery com um tom preocupado carregando sua voz.— Cuide dele, sim?

O rapaz a olhou, divertido.

— Não o faço sempre?— então andou até ela e lhe plantou um beijo carinhoso na bochecha.

— Ei, tire as mãos da minha noiva!— gritou a voz de Axel vindo da embarcação. Ele havia brandido a espada e a sacudia acima da cabeça, com uma falsa expressão de raiva.

O marujo fez que se rendeu, erguendo as mãos, então despediu-se de Avery e correu para o navio. Em alguns minutos e com movimento extremamente rápidos, dois dos marinheiros haviam se livrado da rampa que ligava o cais do porto ao deck, erguido a âncora e içado as velas, e estavam em movimento.

Gehart sabia que Axel havia selecionado para sua tripulação apenas os homens mais honrados e livres de superstições, ele mesmo o havia ajudado a recrutar os outros rapazes tantos anos antes, mas, quando a hora de partir mais uma vez chegou, e o Melodia do Mar deixou o porto, nem mesmo o mais corajoso dos marinheiros olhou para trás. Não por temerem a má sorte, e sim por temerem a irremediável saudade que os assombraria nos próximos meses.

~*~

Quase três semanas se passaram antes que encontrassem a mulher de cabelos vermelhos. O Céu havia amanhecido cinzento e chuvoso, e os irmãos Pitten, os marinheiros de guarda daquela noite, haviam soado a estrondosa sineta quando o sol, escondido atrás das negras nuvens, parecia ter marcado, aproximadamente, sete da matina.

Gehart, assim como fazia todas as manhãs, levantara, pusera as vestes quentes e se dirigira ao pequeno e simplório refeitório. Antes de comerem o prato preparada por Gorus — algo que somente a mais infeliz das criaturas chamaria de comida -, Axel inspecionou as armas de cada um dos membros da tripulação. Era imprescindível que todas as espadas, adagas, facas, machadinhas e foices estivessem sempre na mais perfeita das ordens, e essa regra estava escrita em letras vermelhas em um pergaminho emoldurado, pendurado ao lado da porta que levava do deck aos dormitórios. Como uma das muitas tripulações de corsários autorizadas pelo Rei, a viagem era incerta e traiçoeira, e nunca se sabia quando os piratas os atacariam, ou quando eles mesmos teriam de atacar.

Com muito desgosto, comeram, então se dirigiram até o convés superior, onde cada um tomou seu posto. Axel conduzia a embarcação, com a ajuda de Shadow, que lia os mapas em uma pequena mesa de madeira à sua direita. Blazhe escalou sem dificuldades o mastro principal e se assentou na vigília, pondo-se a observar o Oceano com sua velha luneta de latão. Josson e C.C. esfregavam o chão do convés, um na proa e outro na popa, Hanskel, Avaric e Gorus desceram para o porão para fazer a contagem dos suprimentos, Siward e Ethor, que haviam passado a noite de vigia, foram para suas respectivas cabines e o velho Butterfingers pôs-se a dar seus nós em uma longa corda que mais tarde seria usada na vela.

Gehart, como imediato, deveria supervisionar a tripulação em suas tarefas, ajudá-los se necessário, mas frequentemente se perdia em suas obrigações e ficava de olhos fixos no mar durante todo o dia, hipnotizado pelas cerúleas ondas, indo e voltando. Aquele dia, aquele que começara como todos os outros, fora o dia que a encontrou boiando no mar, um emaranhado de cabelos cor de fogo misturados aos farrapos de seu vestido púrpura.

Seus olhos castanho arregalaram-se à visão da moça flutuando na água, e ele escalou a alta amurada da embarcação ao mesmo tempo em que Blazhe, com sua potente e alta voz, alertava os outros: homem ao mar!

Axel segurou sua mão antes que o rapaz pudesse pular.

— Gehart, o que pensa que está fazendo?— perguntou, com alívio na voz por tê-lo segurado a tempo.

— Estou salvando a moça, o que parece que estou fazendo?— respondeu, quase suplicando ao amigo para que o soltasse.

— Por favor, não tente dar uma de herói! Ao que sabemos, ela pode estar morta.

— Mas pode não estar!— disse, já desesperado, mas o capitão não largava de sua mão— Axel, me solte.

— Não há nada que possamos fazer!

Mas o rapaz se recusava a acreditar nisso. Forçou sua mão para longe da de Axel e saltou. Seu corpo atingiu as águas com força, e ele sentiu uma forte pressão no pé. Ergueu-se dentro d'água, respirando o ar de volta para seus pulmões vazios.

— Gehart!— gritou o Capitão da amurada do navio, na qual todos os outros marinheiros agora se amontoavam, o timbre grave de sua voz quase falhando.

Com um sorriso maroto e vitorioso nos lábios, e ignorando a dor no tornozelo, ele acenou para os companheiros, então se pôs a nadar na direção do corpo da moça.

Demorou alguns minutos até alcançá-la, e quando o fez, seus músculos doíam do esforço. O rapaz a tomou em seus braços, tirou o emaranhado de cabelos de seu rosto e tentou ouvir sua respiração. Estava fraca e desacordada, mas, definitivamente, estava viva. Durante alguns segundos, Gehart a observou. Mesmo no estado em que se encontrava, era uma mulher belíssima, de pele alva tal qual porcelana, as bochechas e o nariz delicado avermelhados por conta das gélidas águas. Os cabelos molhados e vermelhos dançavam ao redor de seu corpo no mar, e de seu vestido restavam apenas retalhos.

Olhou de volta para a embarcação ao longe.

— Ela está viva!— gritou, mas uma rajada de vento carregou suas palavras para outros mares.

Começou a nadar de volta, tarefa que se complicava significativamente com um tornozelo fraturado e um corpo desacordado em seus braços. Demorou a chegar, mas quando o fez, os marujos já haviam descido o bote até a água, e ele pôde colocar a moça no fundo de madeira. Ergueu também seu próprio corpo com dificuldade, percebendo da forma mais difícil que não consegui colocar o peso no pé ferido, que estava agora meio torto para o lado errado. Gehart esforçou-se para desviar o olhar do corpo praticamente descoberto da mulher, mas seus olhos acabavam voltando a encontrá-la.

Os homens içaram o bote de volta para cima, e o ajudaram a descer, carregando a moça logo em seguida, e a colocando deitada no deck. Apenas a observaram por algum tempo, sem saber o que fazer e, de repente, ela despertou, tossindo algumas centenas de vezes e cuspindo água salgada. Pela primeira vez, a moça ergueu o rosto, deixando à vista seus olhos incrivelmente negros.

Em algum lugar ao longe, pode-se ouvir o ressoar insistente de sinos, entretanto, nenhum dos marinheiros pareceu notá-los.

À visão dos homens e com uma das delicadas mãos segurando a garganta dolorida da água salgada, ela arrastou-se para longe com dificuldade, encostando-se na amurada no navio, com uma expressão aterrorizada e lágrimas escorrendo pelo belo rosto.

— Senhorita?— chamou Axel de cenho franzido. — Está tudo bem?

Ela olhou em volta, ainda assustada.

— Vocês...— ela sussurrava, mas mesmo assim sua voz aqueceu lentamente o interior de Gehart, que ainda tremia pela sensação deixada pelo mar invernal, até que sentisse seus ossos congelados derretendo.— Vocês são piratas?

Sua fala falhou ao final da frase. Axel sorriu solidariamente em sua direção.

— Não, somos corsários. Temos autorização do Rei Elder, de Exton, Fairfall para invadir e saquear navios piratas. Não há com o que se preocupar.

Os olhos da moça se perderam em algum lugar distante. Ela demorou a falar, e quando o fez, mais lágrimas cortaram-lhe as belas faces.

— Eles vieram de lugar nenhum— murmurou. — Todos os homens... mortos. Sangue. Tanta dor. Tanta dor.

Gehart desejou poder livrá-la dos fantasmas que a assombravam. Estava assustada e beirando a insanidade, totalmente perdida em memórias aterrorizantes que não sabia dividir com eles. Axel também compreendeu que ela não conseguiria dizer-lhes o que havia se passado se não estivesse descansada.

— C.C., arranje-a uma toalha e algumas roupas— ordenou o capitão ao enorme marinheiro que, com uma facilidade sobrenatural, ergueu a moça em seus braços.— Instale-a na cabine de hóspedes.

O homem assentiu e desapareceu pela porta.

— E também traga algo quente para Gehart. Olhe para você!— exclamou o capitão ao companheiro com uma expressão carregada de preocupação. — Está ensopado!— então pensou por alguns minutos e, com um suspiro, constatou: — Bem, me parece que arranjamos uma convidada.

~*~

Um dos marinheiros tratou de seu tornozelo machucado, passando sobre a pele uma mistura de ervas e o enrolando em uma faixa de linho bem apertada e a dor diminuíra consideravelmente, embora ainda sentisse um pontada de leve quando caminhava. Gehart retornou ao convés superior no fim da tarde, onde os tripulantes jogavam cartas e apostavam moedas de cobre tentando acertar os números de dados, cada um com um enorme caneco de rum nas mãos.

Fora oferecido a ele um desses canecos, o qual o rapaz pegou e tragou um gole da bebida amarga. Nunca fora um fã de rum, ou de jogos de azar, então apenas segurou o copo, observando os companheiros se divertirem. Shadow vencia todas as partidas do jogo de cartas, sem que ninguém, além de Gehart, percebesse o baralho escondido na manga de sua camisa branca; C.C. e Blazhe sacudiam os dados em um pequeno copo de couro, tentando adivinhar a soma dos pontos, e Axel, que apenas assistia, passava a apoiar quem quer estivesse ganhando; todos os outros serviam-se cada vez mais do líquido âmbar que enchia os enormes barris que decoravam um dos cantos do deck.

Todos os olhares, porém, voltaram-se para ela quando saiu da porta que levava às cabines. Havia-se banhado, e vestia agora roupas que pareciam grandes demais para seu tamanho, mas os cabelos flamejantes haviam sido escovados até que brilhassem tanto quanto as moedas que os marujos apostavam. A moça ainda carregava uma certa preocupação nos olhos negros de tormenta, mas esticou ligeiramente os lábios na intenção de formar um fraco sorriso na direção dos homens, que a encaravam sem conseguir desviar o olhar de tamanha beleza.

— Sinto interromper os cavalheiros— disse ela, sua voz soando melódica e melancólica como um dia ensolarado de inverno.

Axel ergueu-se da cadeira onde se sentava e andou até ela.

— Não interrompe a mim ou a meu homens, senhorita— respondeu o amigo, e algo dentro de Gehart rugiu com força.— Sou o Capitão Axel. Qual sua honra?

A moça sorriu estendeu a ele sua mão esquerda.

— Lady Raven Paragon, de Ascott.

Um murmúrio curioso ressoou pelo deck. A Casa Paragon de Ascott era uma das mais ricas e influentes do Reino do Leste, Castlecray, sendo o Lorde Bernar Paragon um dos braços direitos do Rei Jesper, o poderoso governante da dita cidadela, que, digna de sua importância, era a cede do poder de todo o vasto continente de Caor.

Contudo, a única coisa que ecoava na cabeça de Gehart era seu nome: Raven. Pensou consigo mesmo que era apropriado, considerando seus olhos negros.

Quando Axel beijou sua mão estendida, a moça — Raven — sorriu, mas, por algum motivo, pareceu decididamente desapontada.

— Poderia contar a mim e meus homens o que lhe aconteceu, Milady?

Ela assentiu, e assim fez. Contou, com olhos tristes, que estava indo à cidade de Southsilver, no sul, visitar a avó, e que, já no quinto dia de viagem, os piratas invadiram. Mataram todos os homens, os idosos e as crianças de colo, poupando apenas as moças, as quais arrastaram consigo em seu navio durante incontáveis meses. A cada noite, eles tiravam uma delas do porão, as violavam, matavam e, por fim, as jogavam ao mar. Raven fora a última a ser escolhida, como uma espécie de prato principal, mas conseguiu fugir, pulando na água e nadando para longe.

— Acho que fiquei na água durante dois dias, talvez três.

Todos a observavam com olhos preocupados e, quando a foi oferecido um gole de rum, a moça aceitou de bom grado, mas não bebeu nada além disso. Enquanto contava a história, também deram a ela algo para comer, uma vez que estava há dias sem alimento.

— Estamos seguindo a rota real —disse-lhe Axel— O Reino do Sul será uma de nossas últimas paradas. Ficaríamos honrados de levá-la até lá.

Pela primeira vez, ela sorriu, e a lua, de repente, perdeu todo seu brilho.

— Atracaremos no porto de Menfis dentro de três dias, então poderemos conseguir-lhe vestes novas. Até então, suponho que deva conhecer minha tripulação.

O Capitão direcionou o olhar aos marujos, que prontamente puseram-se um ao lado do outro.

— Siward e Ethor Pitten— introduziu Axel.— Os bastardos do príncipe Rayner, do Condado de Razar, Reino de Venore

Os gêmeos Pitten eram baixos e louros, com feições miúdas e corpos magros, e mesmo tendo sido apresentados como "bastardos", não pareciam ter-se importado, apenas sorriram e, ao mesmo tempo, cada um beijou uma mão da moça.

— Blazhe Voreon — um dos maiores homens da tripulação, em todos os sentidos: era incrivelmente alto e desumanamente musculoso. Possuía pele acobreada e longos cabelos negros trançados até os tornozelos. Milhares de pequenas cicatrizes brancas e róseas se espalhavam por seu rosto, pescoço e torso.

— Milady— cumprimentou Blazeh com uma simples reverência e Raven sorriu, dócil.

— Josson Godfrey — apenas os seus braços superavam os de Blazhe em força e tamanho, o tom de sua pele tornava-se lilás pelas veias destacadas em seus músculos trabalhados, e os cabelos dourados e engordurados lhe escorriam até pouco abaixo das orelhas.

— Larkan Vorley — bastou o Capitão o apresentar para que o rapaz, não muito mais velho que Gehart, abrisse seu típico sorriso maroto e galanteador.

— Todos me chamam de Shadow— disse ele, passando os dedos pelos cabelos escuros que desciam em ondas suaves até os ombros. — E, desculpe-me a indecência, mas devo dizer que é a mais bela moça que já vi, Milady.

Ela riu, lisonjeada, o que arrancou o sorriso do rosto de Gehart.

— Bem, eu agradeço— respondeu a moça. — E posso dizer que você também é muito charmoso, Lorde Larkan.

Shadow beijou-lhe as mãos e piscou um dos olhos, fazendo com que Raven gargalhasse.

— Butterfingers Cordayne — anunciou Axel, indicando o velho Butterfingers, um senhor já idoso que quase não falava nada, mas quando o fazia, mostrava-se muito sábio. Sua pele era negra como um grão de café, e suas têmporas e cabelos ralos eram manchados de tons de grisalho.

Lady Raven fez um gesto de cabeça como cumprimento, o que, por algum motivo, deixou o velho irritadiço e desagradado, parecendo ter retribuído apenas por educação.

— Corc "Cutthroat" Caryn. Chame-o de C.C.

O marinheiro de cabelos e olhos amendoados depositou um beijo nas costas da mão da moça sem largar o punho da enorme espada pendurada no cinto.

— Posso perguntar porquê o chamam Cutthroat?— indagou Raven.

C.C. deu tapinhas de leve em sua lâmina embainhada.

— Gargantilha aqui faz todo o serviço sujo, Milady.

Seguidos dele, foram apresentados à moça também Gorus Warburg, o cozinheiro e curandeiro carrancudo de trinta e poucos anos que falava com ainda menos frequência que Butterfingers, Hanskel Mirren, o garoto de dezesseis anos que fugira da casa da rica família e, por fim, Avaric Tairy, o guerreiro sem armadura, que servira o exército do rei Elder até que a perda de uma das pernas o eliminou como soldado honrado.

Raven virou-se lentamente na direção de Gehart, os olhos negros de corvo brilhando à luz da lua.

— E quem é o rapaz que se esconde de mim?— indagou ela a Axel.

— É o meu imediato, Milady.

— Meu salvador, eu suponho— com um sorriso, ela caminhou em sua direção, e o rapaz pensou que ela seria capaz de ver seu coração batendo. — Posso saber sua graça?

— Não possuo graça, Milady— respondeu, tentando não gaguejar. — Apenas um nome. Chamo-me Gehart.

Ele tomou sua mão e nela depositou um beijo. Quando voltou a erguer os olhos, Raven carregava no rosto um sorriso vitorioso. Sabia que não precisaria fazer mais nada.

Ela o tinha.

Notas finais
* Raven, em inglês, significa Corvo. * Cut - cortar. Throat - garganta. Cutthroat - Cortador de Gargantas. ______ Já deu pra ver que eu gosto de Florence + The Machine, né? Hashuahsuah Então, o que acharam? Me dá um nervoso... aushauhs ~Holly