Os Olhos do Corvo
4 Capítulo II — Chuva
Notas iniciais
"Há um fantasma em meus pulmões e ele suspira enquanto durmo
Se enrola em minha língua enquanto fala suavemente
E então anda com minhas pernas
para fazer-me cair aos seus pés"
—I'm Not Calling You a Liar, Florence + The Machine
Fora cedida à Raven a cabine de hóspedes, uma das maiores e mais belas do navio. Nela havia uma enorme cama de dossel com lençóis de seda, travesseiros de penas de ganso e ervas, um conjunto de penteadeira e armários de cedro e uma magnífica tapeçaria bordada com histórias dos deuses. A cabine se localizava entre os aposentos do capitão e do imediato, e a simples ideia de ter a moça dormindo do outro lado de sua fina parede de madeira fez os joelhos de Gehart tremerem com o misto de antecipação e nervosismo. As primeiras três noites com Raven no navio foram excruciantes para o rapaz, que não conseguia se deixar levar pela exaustão do dia de trabalho sem antes pensar no que a moça estaria fazendo, pensando, sonhando, até que a verdade lhe acertava no rosto com um baque surdo carregado do silêncio da madrugada fria: ela estava dormindo. Apenas dormindo, e de jeito nenhum estaria ela pensando nele.
Gehart queria se livrar da agonia que apenas a imagem dela em sua mente o causava, queria lavar de sua alma aquele sentimento tão horrível. Já não era mais um garoto, não podia se deixar desabar de amores do jeito que, percebia, estava fazendo. Pelos deuses, ele nem mesmo a conhecia, sequer haviam trocado mais do que algumas palavras vazias, mas quanto mais o rapaz tentava bloqueá-la em sua mente, mais vezes ela aparecia para perturbá-lo.
Era ela o espírito que em sonhos o assombrava, com olhos funestos e uma triste melodia da qual as palavras ele esquecia pela manhã.
~*~
A viagem até o porto de Menfis demorou mais do que Axel previra: cinco Sóis e quatro Luas, e o navio atracou no sexto dia. Assim que o porteiro* posicionou a escada, todos os marinheiros deixaram o navio com uma pressa desmedida para alcançar a taverna mais próxima.
— Seu bando de bêbados imprestáveis!— gritou o Capitão da proa com uma voz divertida e um sorriso nos lábios, então se virou para Gehart, que lentamente baixava a âncora — Você não vai?
O rapaz ergueu os olhos para Axel, sem resposta. Estava se demorando para desembarcar para poder ver Raven. A moça era muito reservada e raramente deixava seus aposentos, encontrando a tripulação apenas para as refeições que, agora, ela mesma preparava, fato este pelo qual os marinheiros eram extremamente gratos.
— Vou assim que terminar aqui. — murmurou, um pouco envergonhado por sua paixonite infantil. Gehart sabia que Axel o conhecia bem demais, e logo perceberia seu estranho comportamento.
— Vejo que chegamos— soou suave uma voz já conhecida vinda de perto da porta. Raven lançou um de seus encantadores sorrisos aos rapazes. Ela usava as vestes que lhe foram emprestadas: uma camisa branca de linho, calças pretas de inverno, um sobretudo e botas de couro que eram demasiado largas para o tamanho de seus pés. Mesmo vestida em trajes nem um pouco dignos da dama que realmente era, Gehart ficou deslumbrado com sua já conhecida, e ainda estonteante beleza. Sua pele alva esquentava-se debaixo do sol da matina, seus cabelos, escovados e brilhantes como mil moedas de cobre, esvoaçando ao redor de suas faces com a gélida brisa marítima.
— Lady Raven. — sorriu o Capitão com um cumprimento de cabeça, então caminhou na direção da moça, alcançando-a uma pequena bolsa de couro. Ela a tomou das mãos do jovem homem e a abriu, fazendo com que as moedas douradas deslizassem para suas frágeis mãos com um suave tilintar.
— Sinto muito, não posso aceitar tudo isso. Há mais de cem moedas aqui, Capitão.
— Por favor, eu insisto. Se esta for uma viagem lucrativa, este empréstimo não nos trará prejuízos.
Raven examinou as moedas. Há quantos anos não possuía tantas riquezas? Talvez uma década, ou mais. O tempo no mar com suas irmãs parecia correr tão depressa e tão lentamente ao mesmo tempo, que já não tinha mais noção dos anos.
Abriu um sorriso para Axel.
— Se faz questão, então devo aceitar. Mas apenas se me for permitido pagar minhas dívidas quando alcançarmos o Reino de Bittlebarrow. Tenho ouro o suficiente na capital para quitar minhas dívidas para com sua tripulação, e ainda bancar minha viagem até Southsilver.
O capitão assentiu com a cabeça e dirigiu-se às escadas, descendo até o porto.
Gehart terminou seu trabalho com a âncora e preparou-se para seguir o amigo, ainda mancando um pouco por conta do tornozelo fraturado. Seus ouvidos pulsaram quando percebeu que Raven o esperava ao lado dos degraus, os lábios curvados em um delicado sorriso.
—Milady— cumprimentou o rapaz inclinando de leve a cabeça.
— Por favor, Gehart, poupe-me das formalidades, se não se importa. Chame-me de Raven.
Ele apenas assentiu, e os negros olhos da moça cintilaram com o reflexo da luz do Sol. Eram tão profundos que quase pareciam vasculhar sua alma, seus segredos, seus pensamentos, fazendo com que se afogasse em seu próprio reflexo. O ar escapava lentamente dos pulmões de Gerard enquanto eles se enchiam da escuridão dos buracos negros na face alva da moça, sua garganta apertava-se em torno de si mesma, seu fôlego se esvaindo quase por completo quando Raven estendeu-lhe a mão direita.
Tudo o que lhe custou para readquirir a habilidade de respirar o ar que lhe cercava foi desviar seus orbes castanhos da tempestade que se formava nos dela.
— Se importaria de me acompanhar até o cais?— indagou a dama, seus lábios rubros curvados num belo sorriso.
Gehart tomou-lhe a mão, guiando-a através da íngreme escadaria até que alcançassem a calçada de pedra.
Raven agradeceu com uma reverência, rindo-se divertida ao perceber que, por força do hábito, procurava segurar as baias do vestido para fazê-lo, quando não estava a vestir um. O rapaz a acompanhou, então retribuiu o cumprimento.
— Precisa algo mais, Milad... Perdão. Raven?
— Não acho que será necessário. Pode ir agora— respondeu com um suspiro, olhando a cidadela à sua volta. Era um aldeia grande e movimentada, com carroças e carruagens, e uma feira de comércio que se estendia além de onde os olhos podiam enxergar. À beira do cais estava a estrebaria na qual a tripulação se acomodava. As mesas haviam sido posicionadas do lado de fora do estabelecimento para que se pudesse aproveitar o sol, e os marujos acenavam de longe para Gehart, invitando o jovem a juntar-se a eles.
Raven abanou aos rapazes, então indicou a feira com a cabeça para que pudessem encontrá-la mais tarde, então seguiu seu caminho, atraindo olhares curiosos e deixando um rastro de murmúrios por onde quer que passasse.
~*~
Já era final de tarde quando a moça de olhos de corvo voltou a aparecer no porto, mais linda do que nunca. Seu vestido cor de vinho era bordado de pedrarias nas mangas, na cauda e no busto, e o comprimento cobria-lhe os pés. Suas orelhas, pescoço, pulsos e dedos carregavam adornos dourados com pedras de cor idêntica ao tecido de suas vestes, e seus cabelos flamejantes haviam sido trançados com fios de ouro, fazendo com que brilhassem ainda mais à luz do Sol poente. Raven carregava em ambas as mãos novas e enormes maletas de couro, onde, Gerard deduziu, estariam mais vestidos, jóias e sapatos, assim como produtos que usaria para cuidar da pele e dos cabelos.
Os marujos de Axel aguardavam-na ao pé da escada que os levaria de volta a bordo do Melodia do Mar, e ao fisgarem visão de Raven, os queixos de cada um deles lançou-se ao chão. Os rubros lábios da sereia se alargaram em um sorriso com a reação da tripulação, porém, ela manteve seus olhos fixos em Gehart, cujos joelhos tremeram e fraquejaram à medida que a moça se aproximava.
Todos os marinheiros curvaram-se diante dela, produzindo um coro uníssono para saudá-la: "Lady Raven", murmuraram enquanto acotovelavam-se por uma posição mais à frente. Axel, que observava divertido a situação um tanto quanto patética pela qual seus amigos passavam, apenas direcionou o olhar para a calçada, tentando esconder o sorriso que insistia em formar-se. O capitão era apaixonado pela noiva, Avery, e não havia mais belo rosto ou mais nobre donzela para fazê-lo mudar de ideia.
~*~
Quando caiu a Noite, caiu também a Chuva. Ela havia começado com pequenas e suaves gotas de água no deck da embarcação, porém, depois de apenas alguns minutos, transformou-se em uma violenta Tempestade, com gotas tão imensas e pesadas que cada uma que caía ressoava no chão de madeira como um milhão de tambores numa parada. Os Trovões eram tão altos, e os Relâmpagos tão reluzentes que, apesar de ter-se revirado no leito inúmeras vezes, Gehart não conseguira pregar os olhos. Através da redonda e solitária vigia de sua cabine, tudo o que se podia ver era água e luz, agitando-se, misturando-se numa enorme e assustadora metamorfose de sombras que o rapaz achou demasiado perturbadora para continuar assistindo.
Quando o punho bateu três vezes em sua porta de madeira, ele nem mesmo o escutara por sobre o barulho estrondoso da Tempestade. Foi apenas no momento em que os negros olhos de corvo surgiram em seu portal, quase totalmente misturados à noite, que Gerard percebeu que não estava sozinho.
Raven continuou em silêncio durante alguns longos minutos, permitindo que o estrépito da tormenta preenchesse o vazio que entre eles se dispunha. Tinha seu corpo delicado envolto em um suave tecido branco que ondulava até seus calcanhares, deixando amostra seus pés descalços. Estava trêmula, as negras orbes inundadas com lágrimas cristalinas que lhe escorriam a face e, quando sua voz se fez presente, o pavor contido em sua garganta viu-se livre, ao enlaço dos ouvidos do moço.
— Eu não pretendia perturbá-lo em seu sono, meu Senhor— disse ela, tentando sobrepor-se ao alvoroço das incessantes gotas d'água— Mas não temos tempestades assim em Ascott.
Gehart limpou a garganta. A presença da encantadora mulher em seus aposentos no meio da madrugada o deixava inquieto, mas ela parecia tão aflita que não podia se permitir perder a cabeça.
— Então os deuses devem estar incrivelmente satisfeitos com o povo de Ascott, Milady— constatou enquanto erguia-se de seu leito e cobria os ombros da moça com o sobretudo pendurado às costas de sua cadeira. O rapaz aproximou o corpo de Raven do seu para mantê-la aquecida, então fechou a porta atrás dela, a fim de abafar os ruídos da chuva. Ela respondeu ao gesto com um sorriso. — Tempestades passam. Amanhã nem mesmo nos lembraremos desse chuvisco.
— Chuvisco?— indagou Raven— Me parece mais um dilúvio.
Gehart andou até sua mesa de cabeceira, servindo um copo d'água de uma jarra de porcelana e, em seguida, o depositou nas mãos da jovem.
— Bem, não é o pior pelo qual já passamos. — replicou ele, tentando confortá-la.
— Mesmo?— perguntou, sua voz carregada de descrença.
— Não toma minha palavra por verdadeira, Milady?
Ela o observou durante um longo período, sustentando seus olhos castanhos, o sugando novamente para dentro de seus buracos negros, o forçando a mergulhar em angústias e pesadelos frios, tão frios quanto o sul mais gelado dos oceanos pelos quais já havia navegado. A moça tocou seu rosto, seu semblante carregando uma expressão quase sádica, uma face que ele jamais a imaginara vestindo, aproximando-se dele lenta e tortuosamente.
— Eu não acho que o tenha agradecido, Gehart — ele a ouviu dizer, porém seus rubros lábios não se moveram.
— Agradecido?— questionou o rapaz, desorientado— Pelo quê, Milady?
— Por ter me salvado— sussurrou a sereia ao pé de seu ouvido— Eu já havia desistido, Gehart. A água estava tão fria.
— O que?— o desconcerto na voz do jovem era evidente.
— Você me salvou. Devo pagar minha dívida agora.
Raven o segurou pelas vestes, o trazendo para si, tocando seus lábios nos dele. Seu beijo não era suave, tampouco delicado. Era feroz, quase sedento, e ela segurava seu pescoço com firmeza, deixando a Gehart apenas uma opção: ela. Sua pele fervia onde quer que a moça o tocasse, sua respiração ficava mais pesada a cada instante que se passava, e seu coração martelava veloz em seu peito, mais alto que a incessante chuva que insistia em cair. Um calor intenso explodiu dentro do rapaz, espalhando-se por seu corpo e instalando-se entre suas pernas, que estremeciam vividamente. Ele desgrudou seus lábios dos de Raven, os guiando lentamente na direção de seu pescoço, subindo de leve sua camisola de linho até que nada cobrisse seu belo corpo.
Não foi até que o primeiro botão de sua camisa fosse desabotoado que tomou consciência de seus atos e se afastou avidamente da moça.
— Eu sinto muito— implorou o marinheiro, cambaleando para trás, tentando desviar o olhar da nudez da belíssima mulher a sua frente— Me desculpe, Milady, é sobre meus ombros que cai o remorso de tratá-la com tão extremo desrespeito.
A jovem nobre o observou com curiosidade durante alguns instantes, sem instinto algum de cobrir suas intimidades.
— Por que se desculpa?— indagou, um semblante atônito retorcendo sua linda face.
— Sinto muito— repetiu Gehart com a voz carregada do mais profundo pesar — Eu nunca poderia tomar sua virtude dessa forma, Milady, nunca!
Raven riu-se, divertida da fala do rapaz. Um relâmpago cruzou a sala, iluminando seu corpo alvo e perfeito. Ela andou lentamente até ele, erguendo seu rosto da sombra que projetava sobre si mesmo. A moça pareceu chatear-se com as memórias que lhe tomavam a mente quando tornou a lhe dirigir as palavras:
— Já faz muito tempo, outro homem tomou minha virtude, Gehart. Ele era cruel e insensível, e me pôs de lado assim que percebeu que eu não poderia dar a ele o que desejava. Ele era capaz de crueldades que, tenho absoluta certeza, você não seria — mais relâmpagos iluminaram o recinto, refletindo suas luzes nos profundos olhos negros da sereia— Você não me machucaria, não é?
Gehart negou com a cabeça.
— Não— disse ele— Nunca.
— Acredite, não faço o que faço apenas para lhe prestar minha gratidão — murmurou Raven, com um sorriso sedutor enquanto ambos erguiam-se do assoalho — Faço porque não me recordo da última vez em que senti tanto desejo por alguém quanto sinto por você, Gehart.
O marujo engoliu em seco. Gostaria de contar a Raven da agonia pela qual passara nos últimos dias, de todos os estranhos sentimentos que o vinham preenchendo, mas algo em seus lindos olhos de grandes espelhos negros o diziam que ela já sabia, então apenas voltou a beijá-la, e, dessa vez, o fez com voracidade, todas as sensações voltando a atingi-lo em cheio como se nunca o tivessem deixado.
Gehart deitou o corpo da moça suavemente sobre a cama, segurando com firmeza seus cabelos flamejantes, sedento de cada toque, cada beijo mais cheio de desejo que ela o proporcionava, ignorando o amargo gosto que lentamente preenchia sua boca, o arrastando cada vez mais para dentro do negro abismo para qual a sereia o atraía.
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