Os Olhos do Corvo
5 Capítulo III — Lágrima
Notas iniciais
"Mas uma sereia não possui lágrimas para chorar,
e, portanto, sofre muito mais"
—Hans Christian Andersen, A Pequena Sereia
A Noite ainda reinava quando a sereia deslizou seus pés ágil e silenciosamente para fora da cabine de Gehart, subindo até o deck. Algumas tristes gotas de chuva ainda teimavam em tamborilar no chão de madeira, compondo uma desagradável sinfonia que se infiltrava, insistente, nos ouvidos da jovem moça. Apesar, porém, da incômoda sensação que aquilo lhe causava, Raven cintilou um sorriso quando percebeu a sombria silhueta que se parava a lhe aguardar ao lado do mastro principal do navio.
A formosa dama deu um passo à frente, de modo que seu corpo fosse iluminado pela tênue luz da Lua minguante, os brilhantes topázios azuis resplandecendo de malícia e determinação. Um calafrio percorreu a espinha da sereia ao sentir o genioso olhar da Ninfa sobre si, e isso foi o suficiente para fazê-la curvar-se diante de sua protetora, a cabeça apontada para o chão em sinal de respeito, permanecendo desconfortavelmente inclinada até que Feontia a concedesse permissão para voltar a se erguer.
— Imaginei que a veria apenas amanhã, minha Mãe — murmurou Raven, um suave tom de medo decorando sua voz — Sinto muito tê-la deixado esperando, não foi, de forma alguma, minha intenção.
— Raven, poupe-me de seu falatório, sim? — disparou a dama, fria e cortante como milhares de estacas de gelo — Já se passou quase uma semana, apenas busco saber porquê este navio ainda flutua.
— A senhora sabe que não posso apressar as coisas — respondeu da mais respeitosa forma possível, para não desagradar sua protetora — Esses poucos dias não foram suficientes para que eu possa...
— Você deve pensar em suas irmãs!— interrompeu a Ninfa com brutalidade — Entendo que tenha de demorar-se mais para se satisfazer, mas preciso que provenha a elas o necessário para que sobrevivam.
Feontia proferia suas palavras de forma dura, violenta, e cada período formado fazia Raven encolher-se levemente de pavor. Conhecia bem temperamento de sua superior, e sabia que, se não analisasse cada uma de suas falas em sua cabeça antes destas escaparem de seus lábios, punições nada agradáveis estariam a lhe aguardar quando retornasse à Ilha.
"A Ilha", relembrou e, de imediato, seus pés formigaram. Sua mente constantemente desfazia-se das memórias sofridas do local onde vivia com suas irmãs sereias enquanto não estava caçando. Todavia, a mais simples lembrança das lascas de vidro infiltrando-se em sua pele provocava em seu corpo dor e angústia tão intensas, que não tinha outra escolha se não encolher-se ainda mais para dentro de si, lágrimas tristes incontroláveis queimando seu rosto e espatifando-se no chão com um baque cristalino.
Ao notar os pequenos vitrais estilhaçados a sua frente, a Ninfa, em uma descarga de fúria, segura com força a garganta de sua protegida, sufocando-a.
— Sinto muito — desculpou-se, aflita, a moça de cabelos flamejantes, consciente da gravidade de seus atos, os longos dedos de Feontia expulsando o ar de seus pulmões e a impedindo de respirar — Me perdoe, por favor.
Aparentemente, a mulher não o fez. Manteve sua mão firmemente segura ao delicado pescoço da sereia, sem, nem por um momento sequer, desfazer-se de sua postura elegante. As lágrimas de dor da mais jovem eram agora de desespero, e cada vez mais vitrais espalhavam-se pelo chão de Cedro Real do navio enquanto ela, em uma tentativa já destinada à falha, fazia força para readquirir a habilidade de respirar.
Assim, nessa guerra silenciosa e angustiante, permaneceram por alguns momentos, até que a Ninfa — não por piedade, ou misericórdia, pois tais noções não existiam em seu gélido coração de vidro — decidisse que seus termos haviam sido compreendidos, soltando, então, a garganta dolorida da sereia, que foi jogada ao chão por seus próprios sentidos, engolindo enormes lufadas de ar para dentro de seu corpo fragilizado, visando recuperar seu fôlego e suas forças.
— Veja, Raven, é por atitudes como essa que ninguém jamais a amou — afirmou Feontia, observando a moça com seus topázios resplandecendo de desgosto — Você é fraca.
Ainda recuperando-se das agressões recém-sofridas, uma última lágrima queimou o rosto de Raven, transformando-se lentamente em uma esfera pontuda de vidro, a moça decidida a não mais demonstrar seu medo ou apreensão para com sua Mãe. Negou, então, com a cabeça, discordando da fala proferida por ela.
— Você mente — tentou manter a voz firme — Fui amada em vida, sei que fui.
— Muito bem. Cite três homens que realmente a amaram.
Ela revirou as memórias embaçadas de seu passado, de forma a querer encontrar uma resposta pertinente à pergunta da Ninfa, o fazendo momentos depois:
— Meu pai — murmurou de olhos baixos.
Feontia riu-se.
— Seu pai a vendeu a quatro homens diferentes, amava mais sua fortuna do que jamais amaria você.
Esta era uma verdade, pensou Raven. Logo, teve de entrar mais fundo em suas obscuras memórias, tentando seu máximo para não deixar as lágrimas voltarem a açoitar-lhe os olhos.
— Feönn? — nem mesmo ela própria estava certa da resposta.
— Oh, pelos deuses, você é ainda mais ingênua do que jamais julguei — tornou a zombar a Ninfa, aproximando-se da moça para melhor falar-lhe — Ele a trocou por seu reino, simplesmente a entregou de mãos beijadas, sem nem ao menos preocupar-se com o que seria feito de você.
Assim, mais um nome fora riscado da pequena lista de Raven, e ela já era capaz de pressupor o que viria quando proferisse a graça do terceiro homem no qual, dentre tantas lembranças que sem piedade lhe cortavam o peito, conseguira pensar. Mesmo assim, de olhos e cabeça baixos, num murmúrio quase inaudível, ela a sussurrou em meio ao silêncio da noite fria:
— Ranson.
Feontia desferiu um duro tapa em seu rosto, afastando-se, então, quase que imediatamente.
— Ele nunca a amou! — exclamou a Ninfa em um tom de voz elevado, preenchendo com sua fúria o ambiente noturno.
Pela primeira vez, Raven fez menção de erguer-se, pondo-se de pé para encarar sua Mãe.
— Amou, sim! — discordou ela, de modo infantil — Seus homens o fizeram pensar que eu deveria ser culpada pelas tempestades. O Oceano o fez enlouquecer.
Lentamente, a Ninfa aproximou-se da moça de olhos de corvo, sua expressão aos poucos se transformando de sádica para compadecida, subitamente buscando confortar aquela pela qual era responsável.
— Não, Raven. Percival, todos os homens que mencionou... Eles não a amavam — orou a Dama, suave, enquanto acariciava os cabelos flamejantes da mais jovem — Estavam apaixonados por uma face bela o bastante para causar nos outros inveja, e por um magnífico corpo para lhes dar prazer. Puseram de lado o suposto afeto que sentiam por você assim que lhes foi conveniente. Isso não é amor. Você entende o que eu lhe digo?
— Sim, minha Mãe — respondeu a sereia, sua voz calma, mas ainda carregada de medo e receio. Feontia era demasiado instável e imprevisível, a convivência com ela era, para Raven, sinônimo de constante e colossal desalento. Algumas de suas irmãs eram adoradas pela Ninfa, tratadas como realeza, mas ela própria nunca conseguira alcançar as expectativas a ela impostas.
— Ótimo — depois de um tempo, ela tornou a falar — Sabe, quando a ouvi jurar vingança, a imaginei como uma das grandes. Eu esperava muito de você, Raven. Por que nunca deixa de me desapontar?
A moça baixou a cabeça, frustrada consigo mesma. Será que nunca agiria como o esperado, parando, assim, de decepcionar a todos? Fora tudo o que sempre fizera.
— Eu nunca quis falhar, minha Mãe. Em Vida, ser amada fora uma de minhas maiores preocupações. Ser querida por alguém, por qualquer um. A partir de agora, trabalharei com afinco para não mais causar-lhe frustrações, pois quero que seja você essa pessoa.
Mesmo que Feontia a apavorasse, Raven a admirava muito. Era a única figura familiar que lhe restava, a que havia lhe acolhido quando mais ninguém a quis. Devia tudo a ela. Devia-lhe sua própria vida.
— Para que isso aconteça — respondeu a Ninfa — Você não pode mais ser Ermengard. Ranson, Feönn, seu pai e todos os outros em sua antiga vida se foram. Eles a abandonaram. Você deve deixar de lado as boas lembranças que guarda deles, e guardar apenas as que vão lhe fortalecer. As que a lembrarão de sua verdadeira missão.
Raven ergueu seus buracos negros para encontrar os reluzentes topázios decorando o belo rosto de Feontia. Sua Mãe estava certa. Ela possuía apenas um propósito e não deixaria de cumpri-lo. Faria todas na Ilha orgulhosas, e lhes serviria um banquete.
Daquele instante em diante, o amor dos homens que a torturaram até seu último suspiro já pouco importava. As únicas merecedoras de seu carinho e afeto eram Feontia e suas irmãs.
Sua voz encheu-se de malícia para acompanhar o sádico sorriso que se formava em seus lábios, o reflexo do sangue que derramaria vindo-lhe aos negros olhos quando proferiu a palavra que faria ambas, protetora e protegida, se sentirem satisfeitas:
— Matar.
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