O frio do final de outubro se aproximava do Castelo dos Castelos; onde o vento gélido sibilava entre as torres monumentais que, por séculos, dominaram a paisagem como guardiãs de eras passadas. As estruturas de pedra, sólidas e intimidadoras, agora estavam cobertas por um fino manto de neve, refletindo a luz pálida da lua sobre o céu escuro. As bandeiras escarlates, símbolo da família Red Way, tremulavam ferozmente ao sabor do vento cortante, cada lufada trazendo com ela o eco de uma história marcada pelo poder e pela perda. Michelle Red Way caminhava pelos corredores antigos daquele lugar que, outrora, fora seu lar. Mas aquele castelo, com todas as suas grandiosas muralhas, não parecia oferecer mais calor ou refúgio. Ao contrário, o peso de cada pedra parecia esmagar sua alma.

A sala do trono se abria à sua frente, suas portas pesadas rangendo como se protestassem contra sua chegada. As paredes altíssimas estavam adornadas com tapeçarias ancestrais, retratos de magos que moldaram o mundo, seus rostos severos a encarando com olhares que pareciam vivos. O trono vermelho, erguido como um símbolo de poder absoluto, parecia desolado na imensidão do salão. Michelle sentiu o coração bater mais forte, uma sensação familiar de desconforto a cada passo que dava. Seus longos cabelos brancos, tão característicos da linhagem Red Way, balançavam ao ritmo do vento frio, enquanto seus olhos, vermelhos como brasas, varriam o cenário à sua frente. Ela notou, de imediato, os outros quatro assentos ocupados pelos líderes das famílias arcanas.

As figuras que ali estavam não eram apenas magos poderosos; eram governantes, manipuladores de destinos. Ava Blue, a Arcana de cabelos azuis curtos e olhos penetrantes como lâminas de vidro, estava ali, mas algo em sua postura estava diferente. Sempre altiva, desta vez parecia quebrada, seus ombros levemente caídos, e o brilho frio de seu olhar, ausente. Harvey Green, o Arcano Jade, com seus cabelos castanhos claro bem aparados e rosto jovem, estava sentado com a calma elegante que sempre o caracterizava. Patrick Black Garths, o Arcano Negro, repousava em uma cadeira ao lado, seu corpo volumoso coberto por mantos pesados de veludo negro, sua expressão escondida atrás de um monóculo, mas seus olhos profundamente concentrados. E por último, Nathan Gold, o Arcano Dourado, com sua figura imensa, de braços cruzados sobre o peito nu, exibindo cicatrizes que contavam batalhas secretas.

Michelle ajeitou os óculos no rosto, respirando fundo. Cada um daqueles arcanos, por mais poderosos e temidos que fossem, não a intimidava. Pelo contrário, o silêncio no ar indicava algo muito pior. Ela observou o salão vazio, exceto pelos olhares sombrios que recaíam sobre ela.

— O fato de eu odiar este lugar não impede vocês de me chamarem aqui... — Suas palavras ecoaram no vasto salão de pedra, reverberando como se buscassem uma resposta. Seus pés moviam-se pelo chão de mármore, cada passo audível no silêncio que se seguia.

Ava foi a primeira a se manifestar. A Arcana Safira, sempre firme e intensa, agora hesitava ao falar. Havia algo diferente em sua postura, uma fraqueza inusitada que a deixava ainda mais tensa.

— Michelle... — disse Ava, sua voz estranhamente desconfortavel. Ela, que nunca se mostrava vulnerável, parecia afundar em um abismo pessoal.

— Onde está meu irmão...? — Michelle interrompeu, enquanto seus olhos inspecionavam cada canto do salão. — Isto é uma reunião do Conselho dos Arcanos? Não podem prosseguir sem o Leon presente! Ele é o Arcano Escarlate!

A profundidade do silêncio que se seguiu foi sufocante. Cada um dos arcanos a observava em um misto de pena e resignação, como se a verdade fosse um peso que evitavam carregar, mas já não podiam mais esconder.

Ava abriu a boca, mas a voz que saiu parecia distante, como se cada palavra fosse um golpe.

— Michelle, seu irmão... — A voz dela vacilou.

— O Arcano Escarlate, Leon Red Way, faleceu nesta noite.

A voz grave e rouca de Patrick Black Garths rasgou o silêncio do salão como um trovão abafado, reverberando pelas paredes de pedra fria. O ar ao seu redor parecia mais denso, como se todo o ambiente estivesse sofrendo. Ele vestia uma longa túnica de veludo negro que arrastava no chão, bordada com fios prateados que brilhavam fracamente sob a luz das tochas nas paredes. Seu monóculo de ouro cintilava à medida que ele observava Michelle com olhos frios, quase desdenhosos. A aura de Patrick, um homem gordo, reforçava sua presença imponente. Por um momento, parecia que ele estava prestes a fazer uma piada maldosa.

Michelle congelou, seu corpo tensionando como se estivesse prestes a se despedaçar. Seus pés, que até então pareciam colados ao piso de mármore polido, não conseguiam se mover. O olhar dela, antes fixo no chão coberto de tapetes vermelhos luxuosos, subiu abruptamente para encarar Patrick. Seu coração bateu forte, como se estivesse tentando escapar da dor que vinha à tona. A imensidão do salão, com suas colunas majestosas e tetos abobadados, parecia sufocar o ar ao seu redor. O eco das palavras dele ainda vibrava pelas paredes, intensificando o impacto.

— O que foi que você disse? — As palavras escaparam de seus lábios antes que ela pudesse se controlar. A incredulidade manchava sua voz, rasgando o silêncio com a urgência de quem se agarra a uma última esperança. Falar assim com um Arcano era um sacrilégio, ainda mais com Patrick, cujo poder e influência superavam a de muitos. Mas a prudência fora engolida pela necessidade de entender.

Patrick inclinou ligeiramente a cabeça, seu monóculo reluzindo sob a luz das chamas. Seus olhos, sombrios como o abismo, encontraram os de Michelle com a frieza de aço. O silêncio que se seguiu pareceu eterno. Cada segundo se arrastava, carregado com a tensão crescente. Os detalhes da sala ao redor — as tapeçarias ricamente decoradas, as estátuas ancestrais dos antigos arcanos — desvaneceram-se para ela, enquanto o mundo inteiro se resumia naquele olhar.

— Leon... usou o Sacrificium Animarum Sigillum... — completou Ava, sua voz vacilando de dor. As palavras saíram como um lamento amargo.

Aquelas palavras, proibidas de serem pronunciadas entre os arcanos, agora ecoavam pelo salão com a força de um decreto mortal. Todos os magos conheciam aquele feitiço. Todos sabiam o que ele significava. Sabiam o preço. Sabiam que jamais, sob quaisquer circunstâncias, ele deveria ser utilizado. O sacrifício de uma alma para selar outras, um poder que nenhum mago, por mais desesperado, deveria ousar conjurar.

— Por quê? — Michelle balbuciou com um sussurro quebrado, mal escapando dos seus lábios. — Por que ele faria isso? É suicídio... é proibido!

Antes que o eco de suas palavras morresse, uma nova voz se fez presente, suave e traiçoeira como o sussurro de uma serpente. Harvey Green, o Arcano Jade, abriu a boca, suas palavras cuidadosamente moldadas para infligir dor com sutileza. Ele era o mais jovem entre os arcanos, mas sua juventude era uma máscara que escondia uma mente afiada e perigosa. Com um sorriso sutil, seus olhos verdes brilhavam com uma malícia velada, enquanto sua túnica verde-jade ondulava levemente ao seu redor.

— Nossas famílias estão em guerra há séculos, Michelle — disse Harvey, saboreando cada sílaba como se fosse um banquete. Ele parecia se deleitar com o sofrimento dela, como um predador que aprecia a fragilidade de sua presa antes de desferir o golpe final. — Os Lunáticos já ceifaram mais vidas do que podemos contar.

O nome, Lunáticos, dançou na mente de Michelle como um veneno, provocando uma sensação de náusea. Eram um grupo de magos renegados, rebeldes crueis, desafiadores da ordem estabelecida pelos arcanos, mas nada disso justificava a decisão de Leon. Não explicava o porquê de seu sacrifício.

— Leon pôs um fim nisso, de uma vez por todas — a voz de Ava com sua tonalidade envolvente, parecia ser uma tentativa de acalmar o furacão dentro de Michelle. Ava era uma mulher alta e esguia, com cabelos curtos azul-safira, mantinha uma postura altiva, apesar do que suas palavras carregavam. Ela estava sentada, imóvel, mas sua presença dominava o salão.

Michelle olhou para o chão, as palavras de Ava ecoando, tentando se encaixar, mas algo não fazia sentido. O irmão que ela conhecia, aquele que ela sempre protegera, o menino bobo que crescera ao seu lado, o Leon que era apaixonado pela família que construira jamais tomaria uma decisão tão desesperada. Seu coração clamava que algo estava errado.

— Ele tinha filhos! — A voz de Michelle quebrou novamente, desta vez mais frágil, o controle escapando a cada sílaba. As lágrimas já se formavam em seus olhos, ameaçando transbordar. — Ele nunca os deixaria assim...

Ava, ergueu o queixo, como se já estivesse em luto há muito tempo.

— Ele os salvou... salvou todos nós. — Suas palavras soavam mecânicas, sem qualquer emoção real, como se ela estivesse apenas repetindo um discurso ensaiado.

Michelle sentiu um calafrio atravessar sua espinha. Ela olhou para os lados, esperando que as paredes imponentes do salão pudessem oferecer algum consolo, mas tudo parecia mais opressor do que antes.

— Nem Tyler, nem Hyan têm idade para suceder o pai deles... — murmurou Michelle, sentindo o peso das palavras. O destino dos sobrinhos pairava sobre ela como uma sombra. — Não é seguro... não será seguro para eles... crescer aqui.

De repente, uma nova voz se fez ouvir, grave e cheia de autoridade. Nathan Gold, o Arcano Dourado, finalmente quebrou o silêncio, sua voz ressoando pelo salão como um trovão distante. Ele estava de pé, seus braços cruzados sobre o peito largo, uma cicatriz profunda atravessando seu rosto onde deveria estar seu olho direito.

— Não haverá sucessão — disse ele, cada palavra como marteladas, firmes e irrevogáveis.

Michelle encarou Nathan, a perplexidade estampada em seu rosto.

— Eu sou a próxima na linha... — murmurou Michelle, sua voz quase um sussurro, mal audível no vasto salão. Seus olhos, que antes pareciam afogados em indecisão, agora refletiam uma determinação vacilante. O traje longo, de um escarlate profundo, parecia pesar mais do que nunca sobre seus ombros magros.

— Michelle, escute! — gritou Ava, sua voz cortou o ar com a força de uma lâmina afiada. O rosto esculpido com a graça de uma matriarca, mas os olhos revelando algo mais sombrio, como um abismo à beira de ruir.

Michelle, imersa em seus pensamentos, mal percebeu a tentativa de alerta.

Nathan, o Arcano Dourado, permaneceu imóvel até aquele momento. Sua figura, de um guerreiro veterano, cada músculo do corpo largo e robusto parecia esculpida pela batalha. Quando ele falou, foi como se as próprias pedras sob seus pés tremessem.

— Não haverá outro Arcano Escarlate — declarou.

A respiração de Michelle tornou-se rasa, e o frio no ar pareceu penetrar até seus ossos.

Lentamente, como se o tempo tivesse desacelerado ao seu redor, Michelle girou o corpo. O vestido escarlate varreu o chão em uma dança solene. Seus olhos, antes turvos, agora procuravam uma explicação, uma justificativa, qualquer coisa que aliviasse o fardo. Mas o que encontrou foram apenas rostos impassíveis. As figuras que ali estavam — os Arcanos, antigos e poderosos — pareciam distantes, como estátuas de pedra que a observavam com uma frieza cruel.

— Compartilhamos de sua dor, Michelle — disse Harvey, as palavras saindo de sua boca com a suavidade de um veneno lento. Ele inclinou-se levemente à frente, como se estivesse oferecendo condolências sinceras, mas o brilho malicioso em seus olhos verdes revelava sua verdadeira natureza. — Mas você sabe o que aconteceu no passado. O que seu pai fez...

A menção ao pai dela foi como um estopim aceso em seu interior. O sangue de Michelle ferveu, e a raiva que sempre correu pelas veias da linhagem dos Red Way finalmente irrompeu. Era uma fúria antiga, primitiva, a mesma loucura que havia consumido seu pai e, agora, talvez, começasse a engolir sua própria alma. Ela sentiu cada fibra do seu ser se contrair, o ar em seus pulmões parecia insuficiente para conter a tempestade que crescia dentro dela.

— Não ouse falar dele! — rugiu Michelle, sua voz ressoando pelo salão como o som de uma fera libertada. Ela ergueu a mão, e em um piscar de olhos, círculos vermelhos de energia rodopiaram ao redor de seus dedos finos, desenhando selos arcanos no ar. Como brasas acesas, as runas se entrelaçaram, e uma espada fina, de lâmina escarlate e reluzente, apareceu em sua mão. Era como se o próprio sangue da sua fúria tivesse dado forma à arma. Ela apontou a lâmina diretamente para o peito de Harvey, que, por um breve momento, perdeu o brilho arrogante de seu olhar.

— Meu pai... — sibilou Michelle, os olhos antes hesitantes agora ardiam como brasas vivas, vermelhos como o fogo que corria em seu sangue. — Foi esse garoto que o matou. E agora, com meu irmão morto, vocês acham que podem simplesmente decidir o que fazer?

Todos os olhares se voltaram para Harvey, que agora permanecia imóvel, mas sem perder a compostura. Apenas Ava se moveu, ou, melhor dizendo, não se moveu — mas sua presença pareceu ficar ainda mais fria. Ela permaneceu como uma estátua de gelo, inabalável, mas seus olhos, duas janelas para uma tristeza profunda, disseram mais do que suas palavras. Quando ela falou, a voz saiu com uma serenidade inquietante.

— Michelle... — começou Ava, sua voz baixa, quase como um lamento. — Pense nos seus filhos... nos seus sobrinhos... — Havia uma dor contida em suas palavras, uma que Michelle reconheceu, mas se recusava a aceitar. — Foi uma escolha unânime.

O salão, com suas paredes de mármore branco, tapeçarias que narravam as antigas batalhas dos Arcanos, e as chamas suaves que tremeluziam nas lamparinas de ferro fundido, agora parecia um tribunal. E no centro, Patrick, o Arcano Negro, ergueu-se lentamente. Ele era como uma montanha movendo-se pela primeira vez em eras, seu corpo volumoso e coberto por vestes negras ornamentadas com runas de poder antigo.

— Recolha seus pertences e seus filhos. — Sua voz, grave e rouca, cortou o ar como um trovão distante. — Deixe o Castelo dos Castelos esta noite. Vivam como os homens comuns. O reinado dos Arcanos Escarlates terminou.

Aquelas palavras ecoaram, Michelle sentiu um vazio gelado tomar conta de si. Sua visão escureceu, e pela primeira vez em muito tempo, o futuro parecia desmoronar à sua frente. Tudo o que ela conhecia havia acabado.

Notas finais
Espero que curtam a história! Qualquer coisa, me segue no instagram @rodzsilveira e vou dar meu melhor pra postar toda semana um capitulo novinho!