— Bom começo de aulas, bebê! — A voz calorosa da mãe de Jake ecoou pela garagem, mas o som parecia apenas arranhar a barreira invisível que o isolava em seus próprios pensamentos.

Jake pedalava pela rua com movimentos automáticos, os pés pressionando os pedais com uma urgência que ele mesmo não entendia. O sol da manhã, recém-nascido no horizonte, banhava o mundo em tons dourados. Seus raios capturavam o cabelo ruivo de Jake, fazendo-o brilhar como fogo sob a luz suave. Ele mantinha os olhos fixos à frente, mas a mente vagava por cenários de ansiedade e expectativas. A brisa da manhã, fresca e perfumada com o orvalho, cortava sua pele e fazia a camiseta colar levemente às costas, mas não conseguia dissipar o nó apertado em seu peito.

"É só mais um começo de ano," ele tentou se convencer, mas a angústia parecia crescer a cada pedalada, uma presença insistente que ele não conseguia ignorar.

O rangido de pneus no asfalto o arrancou abruptamente do transe. Ele mal teve tempo de processar o som antes que uma voz alegre rompesse o silêncio.

— E aí, campeão! Preparado pra um ano incrível?

Amelia Bourne surgiu ao seu lado com a naturalidade de quem pertence à cena, como se sempre tivesse estado ali. Seus longos cachos rosa vibravam a cada movimento, dançando como chamas vivas ao ritmo descontraído de suas pedaladas. O sorriso radiante que estampava seu rosto era inconfundível, carregado de uma energia contagiante que parecia iluminar o ambiente ao seu redor. O casaco roxo vibrante que ela vestia destacava-se contra sua pele negra, criando uma explosão de cor e estilo que só ela conseguia carregar com tamanha autenticidade.

Amelia tinha um ar de aventureira destemida, como se o primeiro dia de aula fosse apenas mais um capítulo de uma jornada épica que ela estava ansiosa para viver.

Jake suspirou internamente ao vê-la. Sabia que, quando Amelia estava por perto, algo embaraçoso sempre estava prestes a acontecer.

— Ah, já começou... — murmurou Jake, tentando manter o equilíbrio na bicicleta enquanto se alinhava ao lado de Amelia. Seus olhos verdes, tão intensos e expressivos, exibiam uma mistura de resignação e antecipação. Não havia como negar: Amelia era uma força da natureza, impossível de evitar ou ignorar.

— Nem falei nada ainda... — ela rebateu com um sorriso travesso, cutucando-o de leve no braço com o dedo. Seus olhos castanhos brilhavam com a diversão de quem já sabia exatamente como desestabilizá-lo.

Jake respondeu com um meio sorriso, desviando o olhar enquanto ajustava o capuz de seu casaco azul. Ele conhecia bem Amelia: ela nunca falava sem ter algo em mente. Sempre havia um plano escondido, uma ideia aguardando o momento certo para ser revelada.

— Então desembucha logo... — disse ele, a voz carregada de uma resignação quase teatral, já se preparando mentalmente para a surpresa que ela provavelmente guardava.

— Eu e o Tyler estamos na mesma sala este ano, — ela revelou, em um tom que soava conspiratório, como se compartilhasse um segredo muito bem guardado.

O nome de Tyler atingiu Jake como um choque elétrico. Seu peito deu um salto involuntário, e o ar parecia escapar por um segundo. Os dedos apertaram o guidão com força, quase a ponto de machucar, enquanto uma onda de calor subia por suas bochechas. Ele tentou, desesperadamente, esconder o rubor que tomava conta de seu rosto, mas a sensação era inevitável. Que ridículo! Era só o Tyler... Um amigo. Como sempre fora, certo?

Mas, se era tão simples, por que o nome dele ainda causava esse efeito? O tempo parecia desacelerar, os sons ao redor se tornando distantes enquanto a mente de Jake mergulhava em um turbilhão de pensamentos e emoções conflitantes.

— Legal pra você... — murmurou, a voz quase sumida. Ele tentava soar indiferente, mas sua hesitação era evidente. E se Amelia notasse? O calor em seu rosto parecia aumentar, um contraste cruel com o vento frio que cortava o ar da manhã.

Tyler. Um nome que carregava tantas lembranças, algumas das quais Jake preferia esquecer. Ele engoliu em seco, sentindo o gosto amargo das memórias — especialmente daquela noite. A imagem dos olhos vermelhos de Tyler, brilhando de raiva, era uma ferida ainda aberta em sua mente. O incômodo em seu estômago pesava como uma pedra, densa e imóvel. Ele desviou o olhar, tentando desesperadamente afastar as lembranças.

— Olha os carros! — A voz firme de Amelia interrompeu seus devaneios, trazendo-o de volta ao presente com um puxão abrupto. Jake percebeu tarde demais que quase atravessara a rua sem olhar, e o tom genuinamente preocupado dela o fez estremecer.

— Tá distraído, hein? — Amelia observou, enquanto ele desviava para a calçada.

Jake deu de ombros, tentando disfarçar o tumulto que fervilhava dentro dele. Mas sua mente ainda era um redemoinho de sentimentos e lembranças, girando sem descanso, deixando-o sem chão.

— Sabe o que isso significa, né? — Amelia insistiu, o tom desafiador fazendo ecoar sua típica provocação.

— Nem tenta! — Jake respondeu de imediato, a voz carregada de uma firmeza quase desesperada. Ele inclinou o corpo sobre a bicicleta, aumentando o ritmo das pedaladas. Era como se quisesse fugir não só das palavras dela, mas também da tempestade de sentimentos confusos que se agitava dentro dele.

Amelia, no entanto, não tinha intenção de deixá-lo escapar. Ela acelerou com a mesma facilidade de sempre, seus cachos rosa balançando ao vento como se celebrassem a corrida.

— Posso falar de você pro Ty... — ela provocou, com um tom repleto de malícia e diversão.

Jake quase perdeu o controle da bicicleta. Os pedais vacilaram sob seus pés, e ele se inclinou abruptamente para corrigir o equilíbrio. Seu coração disparou, como se tivesse recebido um choque. Ele virou o rosto para Amelia, os olhos arregalados e a voz presa pela surpresa.

— Amelia! — exclamou, o pânico evidente em seu tom enquanto lutava para processar as palavras dela. — Nem pensa nisso!

— Por que não? — Amelia ergueu uma sobrancelha, o sorriso travesso iluminando seu rosto como uma chama viva. — Vocês dois formam um casal fofo!

As palavras dela bateram como um soco no estômago. Casal? Ele e Tyler? A ideia o atingiu com uma força inesperada, desestruturando qualquer controle emocional que ele ainda tivesse. Amigos... Eles eram apenas amigos, certo? Jake balançou a cabeça, como se pudesse afastar a confusão crescente. Mas o gesto trouxe uma nova onda de desconforto — o suor frio escorrendo por sua nuca aumentava sua agitação. O vento gelado continuava a bater contra ele, mas não era o bastante para acalmar o calor sufocante que queimava em seu rosto.

— Meu Deus... — murmurou, mais para si do que para ela, a voz impregnada de exasperação. — Que tipo de fanfics você cria na sua cabeça?

Amelia riu, uma risada cheia de satisfação, mas não perdeu a chance de dar o golpe final, a cartada que ela sabia que deixaria Jake verdadeiramente abalado.

— O Hyan também acha, sabia...? — disse, sua voz casual contrastando com o brilho de malícia em seus olhos.

Jake sentiu o chão desaparecer sob ele. Seu coração, que já estava acelerado, agora parecia querer escapar do peito. Hyan? Ele piscou várias vezes, como se tentasse clarear os pensamentos, mas a paisagem ao seu redor se tornava um borrão, indistinta, enquanto sua mente era tomada pelo caos.

— O Hyan sabe de quê, Amelia? — perguntou, a confusão transbordando em sua voz. Seu tom era uma mistura de incredulidade e nervosismo, enquanto tentava desesperadamente recuperar algum controle sobre a situação.

— Ele descobriu sozinho, eu juro — disse Amelia, dando de ombros de maneira despreocupada. — Você sabe como ele é, com essas intuições estranhas...

Jake suspirou, sabendo exatamente do que ela estava falando. Hyan sempre tivera aquele jeito peculiar de observar tudo ao redor, silencioso e atento, para então soltar um comentário certeiro que desvendava as situações com uma clareza desconcertante. Era como se ele enxergasse mais fundo do que qualquer um.

— Os Red Way são estranhos... — Jake murmurou, tentando mascarar seu desconforto com um sorriso tímido. A frase saiu sem pensar, quase como um escudo para evitar lidar com o que realmente sentia. Mas então, uma ideia lhe ocorreu, uma oportunidade de virar o jogo. Ele olhou para Amelia com uma expressão que misturava leveza e um toque de travessura, o que imediatamente despertou a curiosidade dela.

— Mas, falando no Hyan... — ele começou, pausando propositalmente para prender sua atenção. — Vou estar na sala dele este ano...

Amelia, que até então fazia questão de parecer desinteressada, arqueou uma sobrancelha. Seu olhar ficou afiado, claramente captando que Jake estava prestes a devolver a provocação.

— E...? — ela perguntou, tentando esconder sua expectativa.

— Parece que a sorte virou, hein? — Jake respondeu com um tom triunfante, o sorriso se abrindo em seu rosto enquanto cruzavam a rua 37. Ele segurava firme o guidão da bicicleta, mas agora sentia o vento contra o rosto como um aliado, uma energia nova impulsionando-o adiante. — Eu posso falar de você pro Hyan...

— Jake! — gritou Amelia, visivelmente desconfortável com a virada repentina. Ela apertou o ritmo das pedaladas, determinada a alcançá-lo, mas não conseguiu esconder o rubor que subiu em suas bochechas.

Jake soltou uma risada sincera, algo que parecia ter esperado o dia inteiro para escapar. O peso em seu peito finalmente começava a se dissipar. Ele dobrou a esquina da rua 38, sentindo-se revigorado, como se tivesse conquistado uma pequena vitória tanto contra Amelia quanto contra suas próprias inquietações.

— Agora pedala rápido! — gritou para trás, a voz carregada de um entusiasmo recém-descoberto. — Não quero perder o primeiro dia de aula!

Amelia, rindo apesar de si mesma, ergueu a mão para mostrar o dedo do meio, um gesto que dizia mais do que qualquer resposta verbal. Ela sabia que Jake tinha vencido essa rodada... mas só por enquanto.


Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.