Durante a tarde, Renata recebeu uma ligação de Claude e foi até seu apartamento. Claude abriu a porta.

— Eu vim o mais rápido que pude...

— Tudo bem, entre.

Renata entrou.

— Indo direto ao ponto... Eu consegui uma pasta com fotos de todos os mutantes maiores de dezoito anos que vivem na cidade de São Paulo.

Renata se assustou.

— Isso parece arquivo importante... Como conseguiu? Eu lembro que fui chamada para tirar uma foto e passar alguns dados no ano passado, mas era para o governo...

— Sabe a Mia, a parceira do Oliver? Então, acontece que ela é uma hacker profissional!

— Uau...

Renata se sentou no sofá. Claude levou a pasta até ela.

— Eu vou devolver isso aqui pra ela depois que você checar... Já fiz uma cópia no meu computador.

— Certo, eu vou conhecê-la se ver as fotos. Foi ano passado, ela não pode ter mudado muito. Só por curiosidade... A Mia não está encrencada, está?

Claude cruzou os braços.

— Eu não vou denunciá-la. Ela não roubou para ganhar dinheiro ou fazer chantagem, e sim para nos ajudar nesse caso. Mas sim, se alguém descobrir, ela vai ter alguns problemas...

Renata pegou a pasta e começou a olhar as fotos.

— Hum...

Ela foi virando as páginas, checando cada foto com cuidado.

— Lembrando que todos os mutantes que a doutora Júlia criou foram rastreados, mas tem uma possibilidade...

Renata ergueu os olhos em direção ao Claude.

— Qual?

— Ela pode ter chegado na cidade depois desse evento. Então não fique surpresa se não encontrá-la.

— Certo...

Ela continuava verificando as fotos.

— Tem outra coisa que precisamos considerar... Ela não ter dezoito anos na época em que foi convocada.

— Eu acho que tinha, Claude... Eu diria que ela deve ser um pouco mais velha que eu. E eu tinha dezenove ano passado.

Claude apenas esperou. Mas...

— Não, Claude... Ela não está aqui...

Renata devolveu a pasta para Claude.

— Tudo bem. Vamos considerar as probabilidades.

Claude colocou a pasta em cima da mesa.

— Se ela for mais velha que você, a idade está desconsiderada, certo?

— É...

— Tem a possibilidade dela não ter comparecido ao evento, mas...

Claude pensou um pouco.

— Não... Os mutantes que a Doutora Júlia criou foram todos rastreados, ela seria encontrada...

— ...

Renata estava de cabeça baixa, e parecia pensativa.

— O que houve, Renata?

— Hum... Tem uma coisa que você não considerou ainda.

— O que seria?

— E se...

Renata olhou para Claude.

— E se ela... Não for mutante?

Um frio percorreu o corpo de Claude.

— Como... Como assim...?

— Tem a possibilidade de que ela não esteja na lista pelo fato da Doutora Júlia nunca tê-la criado...

Claude riu.

— Haha... Renata, você mesma disse que ela tem poderes sobre-humanos! É impossível que ela não seja mutante.

— É, acho que você tem razão...

Claude voltou ao seu raciocínio.

— Ela poderia ter herdado os poderes dos pais, então não seria tecnicamente uma criação da doutora Júlia.

— Mas... Não há registros de mutantes com filhos maiores de dezoito anos...

— Sim, isso é verdade... Hum... Eu vou ficar com a teoria de que ela não estava nessa região ano passado.

Renata se lembrou de algo.

— Ah, Claude...

— Sim...?

— Que se dane, eu vou contar pra você...

— ...Ãh?

Renata se levantou.

— Essa noite eu ficarei na Mansão Mayer... E tenho uma missão para cumprir...

— Missão...?

— Sim, eu vou tentar encontrar pistas sobre o traidor da Liga do Bem.

Claude suspirou.

— Você vai acabar fazendo besteira...

— Ei, eu não faço besteira... Na maioria das vezes...

— Certo, eu não vou nem discutir. Faça a sua missão, mas não estrague tudo.

— Ok!

Recebendo a "aprovação" de Claude, Renata estava mais confiante de que faria o melhor de si.

.........

......

...

O Sol estava se pondo. A garota misteriosa saiu de seu apartamento e desceu as escadas. Ao passar pela entrada do prédio, havia um casal entrando. Eles pararam e a observaram enquanto se afastava.

— Olha lá... Aquela mulher estranha que não fala com ninguém... — Disse o homem.

— Ela é bonita, mas me dá medo...

Mas a garota nem ouviu, apenas continuou andando. Ela seguiu pela calçada, enquanto a noite começava a tomar conta do céu. Os postes já estavam se acendendo.

Após ela se afastar o suficiente, três crianças se aproximaram da entrada do prédio.

— Ela já foi...? — Perguntou Lorenzo.

— Já! — Respondeu Sarah.

Miguel pegou seu celular.

— Assim que estiver dentro do apartamento dela, ligue para mim. Vamos nos comunicar pelo celular mesmo.

— Você tem que ficar lá dentro pelo menos meia hora. Só assim vai completar o desafio. — Disse Sarah.

Lorenzo pegou seu celular.

— Certo... Então eu já vou...

— Espere! — Disse Miguel — Nós vamos ficar no corredor. Temos que ter certeza que você vai entrar!

O trio entrou no prédio e foram subindo as escadas. Até que pararam em um corredor e se aproximaram de uma das portas.

— A bruxa mora aqui. — Disse Sarah.

— Vai, Lorenzo, entra! — Disse Miguel.

Lorenzo pensou um pouco, mas decidiu se aproximar da porta e tentar abrir.

— ...Está trancada...

— Ela não ia deixar a porta aberta ao sair, faz sentido. — Comentou Sarah.

— Vamos ter que abrir de algum jeito então. Mas eu vim preparado, sai da frente, Lorenzo.

Lorenzo se afastou. Miguel tirou uma chave de fenda de sua mochila e enfiou com força na fechadura.

— Quase lá...

De repente, houve um barulho.

— Xi, quebrei a fechadura!

— Mas abriu, isso que importa. — Disse Sarah.

Lorenzo imaginou que eles todos estavam encrencados. Mas decidiu não falar nada.

— Vai, entra!

Ele entrou. Em seguida, Miguel fechou a porta.

— Ei, o que está fazendo?!

— Relaxa, é só pra ninguém desconfiar. Depois eu abro.

— ...

Lá dentro, Lorenzo acendeu a luz. Seu celular tocou. Era Sarah.

— Lorenzo, o que tem aí?

— Deixa eu ver... Tem uns móveis velhos, uns livros...

— Alguma coisa de bruxaria? — Perguntou Miguel.

— Ainda não...

Lorenzo não sabia, mas os dois estavam indo embora. O plano, desde o começo, era deixá-lo trancado no apartamento da bruxa.

— Continua aí, cara... A gente está aqui fora! — Disse Miguel.

— Se achar algo interessante, avise! — Disse Sarah.

Lorenzo foi explorar a cozinha. Até que algo na pia lhe chamou a atenção.

— Espera... Isso é... Sangue?

Ele viu várias seringas, cada uma com uma inscrição diferente. Vampiro, Fogo, Raio... Ele não entendia.

— Tem sangue aqui... — Disse ele.

— Sangue? Tipo, sangue humano? — Perguntou Miguel.

— Sim, umas seringas, mas... Eu estou começando a ficar com medo...

— Beleza, pode sair então. — Disse Sarah, rindo.

Lorenzo foi até a porta de entrada e tentou abrir, mas...

— ...Ei, está trancada!! — Disse ele, assustado.

Ele ouviu Miguel e Sarah rindo.

— O que aconteceu?! Onde vocês estão?!

Miguel respondeu.

— Você acha mesmo que um idiota como você ia entrar pro nosso grupo?
— Você vai ficar preso aí até a bruxa voltar! E não deve levar muito tempo! — Disse Sarah.

— Nã... Não... Por quê?!

— Como assim "por quê"? A resposta não é óbvia? Porque você é idiota! — Respondeu Miguel.

A ligação foi encerrada. Lorenzo estava em pânico. Ele não sabia o que fazer. Pular pelas janelas era impossível, pois não estava mais no primeiro andar. E a porta não se abriria tão fácil. Ele se sentia perdido.