Um grupo de três crianças, sendo dois meninos e uma menina, estava reunidos em um banco, debaixo de uma árvore, na frente da escola onde estudavam. Era começo de tarde, e as aulas tinham acabado.

— Eu já te disse, Lorenzo! Você não pode entrar pro nosso clube! — Disse um dos meninos.

Lorenzo, o garoto com a jaqueta azul, parecia estar abatido.

— Mas eu queria andar com vocês... Eu não tenho amigos aqui, e o seu grupo é o mais legal, Miguel.

A menina pensou um pouco.

— Talvez ele deva passar por um teste, Miguel. Afinal, não é qualquer um que entra no nosso clube.

— Tem razão, Sarah.

Lorenzo se animou com a ideia. Talvez ele podia passar por um teste e entrar para o grupo que tanto admirava.

— Eu topo! — Disse ele, empolgado.

— Calma que não é tão simples assim! — Disse Miguel.

Sarah se levantou.

— Eu tenho até uma ideia...

Ela se aproximou de Miguel e falou algo em seu ouvido.

— Tem certeza? Isso é cruel! — Disse ele.

Lorenzo se assustou um pouco, mas ainda estava confiante.

— Certo, entendi!

Sarah voltou para seu lugar.

— Lorenzo, nós ouvimos dizer que tem uma bruxa morando em um prédio aqui do bairro! — Disse Miguel.

— B... Bruxa?

— Sim. É uma mulher que não fala com ninguém, anda pela cidade à noite, e talvez já tenha até matado! — Disse Sarah, em tom ameaçador.

Lorenzo baixou a cabeça.

— Então, se você quer mesmo andar com a gente... Por que não vai até o apartamento dessa bruxa e explora o que tem dentro?

— E... Eu?

Sarah riu.

— Qual é, Lorenzo? Já está com medo?

— Q... Quem disse que eu estou com medo?!

Lorenzo pegou sua mochila, que estava do seu lado e se levantou.

— Vamos lá, agora mesmo!

— Espera! — Disse Miguel.

Lorenzo se virou para ele.

— Você está se esquecendo que ela é uma bruxa? Se pegar a gente lá, vai nos matar. Mas ela sai toda noite, então podemos esperar até escurecer.

— Acha que pode fazer isso, Lorenzo? — Perguntou Sarah.

— Posso... Posso!

O grupo combinou que naquela noite iriam para aquele prédio, e Lorenzo ia entrar no apartamento da suposta bruxa...

.........

......

...

Renata entrava na Mansão Mayer. E encontrou Maria e Marcelo na sala com algumas crianças.

— Maria, Marcelo...

Maria olhou para Renata.

— Crianças, vão brincar um pouco no quintal. Os adultos precisam conversar em particular.

As crianças foram correndo até o jardim.

— Renata... O Claude não está com você? — Perguntou Marcelo.

Renata negou com a cabeça.

— Ele disse que tinha algumas pesquisas para fazer...

Maria suspirou.

— Eita lelê... Agora que a gente entende melhor como o Claude funciona, dá pra ver que ele está ficando confuso...

— Eu acho que cedo ou tarde ele vai ter alguma outra ideia pra nos ajudar. — Disse Marcelo.

Renata pensou.

— O Claude me disse que vocês estão sabendo de tudo...

Maria e Marcelo se espantaram.

— Você... Sabe? — Perguntou Maria.

Renata cruzou os braços.

— É, aquela história que o Beto contou não me convenceu nem um pouco.

— Bem, você é inteligente... Uma hora ia perceber. — Disse Marcelo.

— E o que você pretende fazer, Renata?

Renata deu um sorriso que demonstrava certa... Maldade?

— Não é óbvio? Eu vou investigar.

— Como assim? — Perguntou Maria.

— Os outros membros da Liga do Bem não estão sabendo que o Claude já desconfia de um traidor na equipe, certo? Eu posso usar isso a meu favor.

Maria e Marcelo se olharam.

— Então, você quer ser um tipo de espiã? — Perguntou Marcelo.

— É, quase isso... Mas eu preciso que vocês não contem nada para ninguém.

Maria concordou.

— Pode deixar.

Naquele instante, Vavá, Ângela e Clara entraram na sala.

— Renata, você chegou! — Disse Ângela.

— Nós estávamos te esperando. — Disse Vavá.

Renata se virou para eles.

— Ah, sim, eu fiquei de ir até a biblioteca com vocês!

— Vamos, a essa hora já está aberta! — Disse Clara.

Renata se virou para Maria e Marcelo.

— Eu vou com eles.

— Tudo bem, até mais tarde! — Disse Marcelo.

Renata seguiu o grupo até a saída da mansão. Maria e Marcelo demonstravam uma mistura de preocupação e tristeza no olhar.

— Marcelo... Eu não consigo acreditar...

— Nem eu, Maria... Mas se tem mesmo um traidor na Liga do Bem, tem que ser exposto... Eu acho que a Renata vai fazer um bom trabalho...

— Eu espero que sim...

.........

......

...

Claude estava em seu apartamento, sentado em frente ao computador. Eles fazia pesquisas e salvava alguns conteúdos. Até que seu celular tocou. Ele o pegou, e olhou o visor.

— ...Oliver?

Ele atendeu.

— Alô?

— Claude, sou eu, Oliver. Eu preciso falar com você.

Claude se sentou na cadeira novamente.

— Estou ouvindo...

— Bem, a Mia estava fazendo umas pesquisas sobre a garota misteriosa.

— E então? Ela descobriu algo de interesse?

— Mais ou menos... Na verdade, ela quer a sua ajuda.

Claude estranhou.

— A Mia quer a minha ajuda? Pra quê?

— Ela gostaria de falar em particular.

— Tá, como eu faço pra encontrá-la?

— Ela queria que eu lhe pedisse para encontrá-la à uma da tarde na cafeteria da praça.

Ao olhar no relógio, Claude notou que faltavam vinte minutos para uma da tarde.

— Tudo bem... Eu vou me arrumar e já irei para a cafeteria. Obrigado por me passar o recado.

— Sem problemas. Se descobrir mais alguma coisa, eu estarei aqui.

— Certo. Até mais.

A ligação se encerrou.

Claude se arrumou rapidamente, e saiu do prédio, em direção à cafeteria da praça. Não demorou muito e ele chegou lá. Olhando em seu celular, viu que faltavam três minutos para uma da tarde.

— Ela deve estar aqui...

— Ei!

Alguém chamou por ele. Em uma das mesas, estava Mia, acenando para Claude. Ao percebê-la, ele foi até a mesa e se sentou.

— Claude... Eu estava te esperando.

— Mia...

Mia tinha uma pasta em mãos.

— Como vai com a sua namorada?

— ...Quem?

— A garota. Aquela que você está caçando...

— Ela não é minha namorada, é uma agressora e tem que ser capturada.

— Eu sei... Relação complicada, né?

Claude suspirou.

— Você me chamou para debochar de mim?

— Sim, e chamei também porque tenho uma pergunta... Como é essa garota misteriosa?

Claude pensou.

— Bem, nós não conseguimos ainda uma imagem dela.

— Mas alguém chegou a ver?

— Sim, a Renata, ela conseguiu ter uma noção dela.

— Ela é maior de idade?

— Aparentemente sim, mas... Por quê?

Mia olhou para a pasta.

— Seria bom se alguém conseguisse reconhecê-la, não?
— Certo, mas para isso teríamos que ter fotos de todos os mutantes que a Doutora Júlia criou. Não sabemos o nome dela.

Mia jogou a pasta na mesa.

— Então toma.

Claude pegou a pasta e olhou. Dentro haviam papéis com fotos de várias pessoas.

— Mia... O que é isso?

— É um relatório completo de todos os mutantes que a Doutora Júlia criou na região de São Paulo. As fotos foram tiradas pelo pessoal da Progênese em uma pesquisa sobre a população mutante maior de dezoito anos na cidade. As fotos foram tiradas um ano atrás, são bem atuais.

Estavam em preto e branco, mas eram fotos de todos os mutantes que viviam em São Paulo. Claude notou até Renata e Carol na lista.

— Mia, isso é... Isso é informação secreta! Essa pesquisa foi feita ano passado, e procurava mapear os mutantes adultos em São Paulo!

Mia apenas acenou com a cabeça. Claude falava como se estivesse espantado com o que acabou de ver.

— Só quem tem isso é o computador do governo! Como você conseguiu?

— Ué, eu hackeei.

Claude levou um susto e se levantou da cadeira.

— Mia, isso é crime!

— Só se você me denunciar... Vai fazer isso, Claude? Ou vai usar essa informação para conseguir mais informações sobre a garota que está espalhando terror na cidade?

Claude ficou sem reação.

— Nós vamos ter que falar sobre isso depois, Mia...

— De nada.

Claude olhou os papeis novamente.

— Você... Entende de tecnologia?

Mia acenou com a cabeça.

— Eu estudei esse tipo de coisa porque queria me tornar detetive. Antes de trabalhar com o Oliver, eu treinei para conseguir invadir arquivos pessoais.

— Faz sentido... Mas ainda assim, passar pelo computador do governo e conseguir esse tipo de conteúdo... Você deve ser muito mais inteligente do que eu pensei.

— Mas não sou mutante. Lembre-se disso.

— Certo... Obrigado!

— Eu pedi dois cafés. Devo tomar sozinha, ou vai me acompanhar?

Claude se sentou novamente.

— Ah, tudo bem.

Claude ainda pensava em como aquela jovem detetive tinha feito com que ele saísse do personagem. Aparentemente, há pessoas nesse mundo que são capazes disso...