Os Karas - Cigarros e Moscow Mule.
27 7. O sexto.
Notas iniciais
Chumbinho estava bastante frustrado. Vivian lhe fornecerá informações sobre Andrade que o mais jovem dos Karas gostaria de ter sido privado de saber. Chumbinho sentia-se enganado, e aquilo tudo nem ao menos havia terminado.
Todos os Karas Observavam discretamente o mais novo do grupo. Chumbinho nunca fora de ser tão quieto quanto estava sendo naquela manhã.
Vivian retornou com café. Uma das canecas era de café com leite, destinada a Chumbinho.
—Acho importante eu contar essa história para alguém… Caso me dê na telha morrer de repente… — Ela sorri timidamente — O que não é mais tão improvável assim.
Vivian observou a todos.
—Com exceção de Andrade, eu nunca contei para mais ninguém o que vocês ouvirão a seguir…
Vivian Málaga levantou-se e pegou um velho retrato. Uma foto de um pequeno garoto de cabelos negros brincando em uma praia com um balde e uma pequena pá de plástico. Os Karas passaram a foto um a um. Calú foi o último a ver e segurou o retrato com as mãos.
—Andrade é pai desta criança na foto.
Em um primeiro momento, Todos os presentes ali custaram a entender o que Vivian Málaga estava dizendo. Aos poucos, um por um, foram se dando conta. As palavras abriram o caminho através da mente deles.
—... O que está dizendo? — Crânio tirou o gravador da pausa, ainda chocado -.
—Andrade e Morais retornaram no dia seguinte como o amigo dele havia prometido. Andrade recusou de primeira, mas resolveu insistir. Conversei muito com o Sr. Morais naquele dia. Eu me lembro de Andrade aos poucos ir dobrando os seus esforços para que minha irmã o desculpasse. Foi preciso várias horas de conversa. O ponto de virada foi quando Andrade deixou escapar não ter tido pai ou mãe. Ele e Sofia seguiram com uma conversa demorada e no fim, ela havia o perdoado.
Os Karas, ainda surpresos pelas revelações anteriores foram completamente atordoados pelo fato de Andrade ter tido um filho.
—Andrade voltou mais algumas vezes naquela semana. Sozinho, desta vez. Conversava com a minha irmã. Sorria. Pedia um jantar e depois ia embora. Fingia não estar aos poucos se apaixonando por ela. Demorou três ou quatro dias para dar o primeiro beijo nela. Depois, mais dois dias para finalmente irem para a cama. Ou melhor, para os fundos do bar.
Todos os adultos no local observaram Chumbinho. O rapaz não estava ligando para os assuntos sobre relações sexuais. Estava perdido em seus próprios pensamentos.
—Está me dizendo então que… Desta relação, nasceu o filho de Andrade com Sofia Malpraga? — Peggy a encarou -
—Sim. Andrade tinha vinte ou vinte e um anos. Sofia tinha dezessete. Nessa época, Sofia e eu tínhamos o mesmo sobrenome. Sofia Málaga. Um dia depois de Andrade desvirginar a minha irmã, nosso tio apresentou a Sofia um amigo. Ex-prisioneiro. Seu nome era Hernández Praga. Sófia era imatura e foi uma presa fácil para um homem ainda mais velho que Andrade e experiente. Ficou impressionada com ele e, provavelmente se apaixonaram.
—Entendo… — Crânio disse -.
—Andrade, um dia, por acaso, acabou sabendo dessa relação dela com Hernández. Ficou extremamente chateado. Por ela ter o trocado e principalmente, por Hernández ser um ex-presidiario. Sofia e eles discutiram. Ela disse que Hernández era simpático, atencioso… Nunca bebia perto dela e nunca levantaria a mão para ameaçá-la. Essa foi a última vez que ela e Andrade se viram. Ele foi embora logo depois. Ela não sabia que, provavelmente já estava grávida.
Os Karas se entre olharam. Vivian prosseguiu.
—Mas foi, depois da primeira noite de sexo entre eles, curiosamente, no mesmo dia em que Andrade foi embora, que se revelou o monstro que era Hernández. Ele era de tudo, menos simpático. Era muito mais velho do que ela. Imagino que deveria estar procurando uma mulher fácil para limpar o seu nome, e conseguiu. Minha irmã tentava fantasiar um futuro bom com ele, só que o casamento foi apenas um movimento pensado para limpar o nome de Hernández. Mudando assim, o seu sobrenome para Malpraga. Entendem, agora?
—Como assim? — Magrí a observa -
—Málaga. Praga. Malpraga.
—Caramba… — Calú exclamou. Não podia evitar ficar no mínimo fascinado.
—Eu, com medo disso tudo, fugi para longe de minha irmã. Logo, teria idade para que meu tio encontrasse outro homem amigo dele para se livrar de mim também. A baixa instrução de minha irmã sempre foi um problema. Então, achei abrigo na igreja. Estudei as letras para saber pelo menos ler e escrever. Estudava todos os dias. Quando fiz dezesseis anos, já sabia ler e escrever o básico para arrumar um emprego. Morei em casas de favores até o dia em que meu tio veio a morrer. O malandro morreu em uma briga no próprio bar. Hernández pensou que teria o bar para ele, mas, por ter mudado o sobrenome de minha irmã, acabou que me tornei a dona legítima do lugar, mesmo sendo menor de idade.
Miguel não pôde evitar sorrir. Ao menos, existiram alguns momentos felizes na vida daquelas meninas.
—Foi enquanto cuidava da nova cara do bar, que descobri que minha irmã sofria maus tratos domésticos. Hernández bebia muito. Assim como Andrade. Assim como nosso tio. Bebia e espancava Sofia. Essa violência se estendeu até a metade da infância do filho deles. Por sorte, ele nunca soube que o filho não era dele. Não eram apenas maus-tratos físicos. Aterrorizar o psicológico de minha irmã era sua diversão.
—Ele batia no filho? — Chumbinho perguntou surpreendentemente -
—Uma única vez. Foi quando eu tomei minha decisão. Fiz um contrato. Ele leu e assinou. Troquei nosso bar por minha irmã e meu sobrinho. Ele aceitou e tornou a chamar o local de “Malpraga bebidas”.
Miguel notou nos dois cartões postais. O primeiro cartão, o que Andrade tinha comprado quando jovem, estava escrito “Málaga bebidas”. O segundo, mais recente, vinha escrito “Malpraga bebidas”. Sua percepção havia sido enganada. Um jogo dos sete erros na vida real.
—Fui atrás dos direitos de minha irmã, mas notei que era tarde demais. Passamos por muita dificuldade até o dia que Hernández morreu da mesma forma que meu tio…
—Brigando… — Disse Calú -.
—Exatamente. Lutei pelos direitos de minha irmã. E, consegui que ela se tornasse a dona do bar. Aquele sobrenome maldito a seguia. Era o sobrenome do filho dela. Tudo parecia finalmente, caminhar para uma era de paz.
—O que aconteceu? — Perguntou Miguel -
Vivian suspirou.
—Sofia começou a sofrer as consequências de seus Maus-tratos. Aos poucos, foi se tornando a pessoa que vocês viram, na casa ao lado.
O silêncio reinou novamente.
—Qual… Qual o nome do filho de Andrade? — Crânio perguntou, visivelmente abatido -
—Pablo Malpraga. Eles se conheceram a alguns meses, antes da morte de Andrade.
—Como aconteceu?
—Eu e Pablo trabalhamos no bar. Ele nunca bebia. Eu o proibia. Dizia que seu pai também bebia. Ele associava a imagem de pai ao Hernández. Uma imagem tão ruim quanto a que tinha de Andrade. Eu ensinei para ele a nossa bebida especial. Ele se tornou um excelente criador de drinks exóticos. Cuida da mãe com devoção e respeito. Viajava o mundo. Porém, tudo mudou há quatro anos.
Ela sorri para Peggy.
—Eu estava preparando o café da manhã, quando vi que o Detetive Andrade resgatou a filha do presidente dos estados unidos.
Os Karas foram se lembrando de cada detalhe, um a um daquele evento. O resgate que, na realidade, haviam sido eles que fizeram. Deu a Andrade fama internacional. Foi até presenteado com uma medalha do presidente da época.
—Foi lá, que finalmente Revi o rosto dele. Estava mais gordo, o cabelo havia caído, mas parecia tão… Tão bem. Fiquei em dúvida se escrevia ou não para ele. Essa dúvida me consumiu até que escrevi para ele no começo desse ano.
—Esperou três anos para escrever…
—Sim, mas, quando ele veio, senti que de fato ele havia mudado. Senti segurança em seus passos. Seu olhar. Estava feliz. Velho, com certeza, mas, todos nós estávamos. — Ela riu — Então, resolvi mostrar a ele o estado de Sofia. Contei tudo o que contei para vocês. Ele entrou no quarto, e chorou como uma criança.
Calú se levantou e encarou a janela. Por de trás dos óculos, uma lágrima quase desceu por sua bochecha direita contra a sua vontade.
—Ele disse que sentia muito… Que era imaturo na época em que se conheceram… Uma pena Sofia não poder entender mais. Ela não o reconhecia também.
Agora, Peggy e Magrí também choravam.
—Andrade ficou aqui por duas semanas, conversamos, almoçamos juntos. Era bom ver que ele tinha tido uma vida feliz, apesar de tudo. Perguntei sobre Morais para ele. Ele disse que Morais sempre foi seu anjo da guarda, e ele, como um jovem imaturo, o desprezou. Arrependia-se muito. Gostaria de calar o orgulho em seu peito e pedir perdão ao uma vez, grande amigo detetive. Porém, quando menos imaginamos… Pablo resolveu fazer uma visita surpresa para mim… No dia em que Andrade se preparava para ir embora.
—Andrade… Conheceu Pablo…
—Sim. Conheceram-se. Andrade estava emocionado. Pensou que nunca teria um filho. Contou para nós que tinha mais cinco filhos de que se orgulhava ter conhecido… E que Pablo era o seu sexto.
Os Karas finalmente haviam entendido. O “P” no testamento não era de “Peggy”. Era de Pablo. Pablo Malpraga. Tudo se encaixava.
Crânio desligou o gravador e deixou uma lágrima escorrer. As despedidas ocorreram em seguida.
—Senhora Málaga… Obrigado pelo seu tempo. — Miguel disse -.
Ela sorriu de maneira encantadora. Olhou brevemente para cada um dos Karas.
—Pode me deixar o telefone de vocês? — Ela pergunta — Sei que é uma ligação cara. Daqui até o Brasil… Mas, acho que vale cada centavo. Gostei de conhecer vocês, filhos do Andrade...
Saíram do local e seguiram para os respectivos hotéis de cada um. Era preciso que cada um, lidasse com isso a sua maneira.
Magrí fechou-se no quarto e não saiu de lá até às quatro horas da tarde.
Crânio redigiu um e-mail para Nicolas. Almoçou alguns tacos na calçada próximo ao hotel onde ele, Miguel e Chumbinho estavam hospedados. Uma parte dele esperava ter superado as informações que receberá de Andrade naquela manhã. Era apenas o ato de tirar as asas de anjo de uma pessoa. Mas claro, não era assim que as coisas funcionavam. Estava totalmente deprimido.
Peggy e Calú tentaram dar um passeio, mas acabou que não ficaram satisfeitos com o clima que suas conversas estavam tomando. Voltaram para o quarto do hotel em um silêncio constrangedor. Calú estava enigmaticamente… Quieto.
Miguel sentou-se na cadeira em frente à mesa. Observou Chumbinho ligar para a recepção, pegar a mochila, a lista de compras dos pais e se dirigir a porta.
—Chumbinho…
Ele não escutou.
Miguel suspirou fundo. Era uma questão delicada. Miguel tinha consciência do aspecto cínico e insensível que um adulto viria a ter em uma situação como aquela. Mas os adultos em questão eram os Karas. E um deles nem adulto ainda era. Parou e pensou. Refletiu sobre o que diria para Chumbinho quando ele voltasse. Seria o seu último sermão, e ao mesmo tempo, o primeiro concelho. O amadurecimento do amigo viria a partir daqui.
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Peggy mexia em sua mala. Examinava Calú com olhos mais curiosos do que de criança. Ele encarava a janela, em um silêncio absoluto. Voltou para ele com o lenço vermelho de Andrade em mãos.
—... Não pertence a mim… — Ela disse com um olhar preocupado -.
Calú a observou. Segurou aquilo com certo remorso. Peggy o observou por mais alguns segundos e o deixou sozinho com seus pensamentos.
Calú não disse nada. Suspirou fundo e encarou seu reflexo semivisível da janela. Ele não chorou pela morte de Andrade. Não chorou em seu enterro. Havia finalmente chegado o momento?
Apertou com força aquele lenço. Um objeto simples, mas que Andrade sempre carregou consigo. Usava para secar o suor na careca. Calú deixou o lenço de lado. Suspirou. Ainda não havia chegado a hora de chorar.
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Chumbinho retornou às dezoito horas com inúmeras sacolas. Ainda tinham mais um dia na Cidade do México. Não conversou com Miguel. O líder dos Karas ainda estava pensando no que faria. Jogou as sacolas no chão e depois foi ao banheiro.
Mais tarde, enfiou-se debaixo do Edredom da cama a direita de Miguel. Enrolou o corpo no Edredom e ficou um bom tempo refletindo.
No dia seguinte, nada de interessante. A Cidade do México, mesmo divertida, estava fazendo mal aos Karas. Peggy, Calú e Magrí foram embora naquela noite. Na manhã seguinte, Crânio, Miguel e Chumbinho se foram deixando para trás, Vivian, Sofia e o passado de Andrade.
Eram oito horas da noite quando finalmente os três rapazes atravessaram o portão de embarque.
—Miguel. Olhe. — Disse Crânio apontando para uma placa. “Miguel” escrito em uma cartolina. Era Nicolas.
O detetive estava acompanhado de dois seguranças do aeroporto. Ele era reconhecido a cada cinco minutos por um dos alienados da televisão.
—Boa noite, rapazes. Carona até em casa?
—Não obrigado. — Chumbinho passou reto por ele. — Meus pais vão me pegar na ala de compras.
—Não quer que os esperemos com você? — Miguel tentou chamar a atenção dele -.
Chumbinho não respondeu. Os Karas encaram Nicolas.
—O que descobriram?
Crânio entregou o gravador na mão de Nicolas.
—Ouça quando puder. Já aviso. É revelador.
Os dois Karas caminharam rumo à saída do local. Nicolas os observou. Nem mesmo no enterro de Andrade, que foi onde ele os conheceu, nunca havia os visto tão abalados.
Observou o gravador, o guardou na bolsa e os seguiu rumo ao seu carro. Foram os trinta e oito minutos mais silenciosos de sua vida.
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