Os Karas - Cigarros e Moscow Mule.

28 8. Cigarros e Moscow Mule.


Notas iniciais
A resposta final. Boa leitura.

Aquela quarta-feira havia sido pobre em acontecimentos e Nicolas pôde dispor de algumas horas de sua noite para escutar com atenção a fita gravada por Crânio. Escutou atentamente três vezes tudo o que vinha da voz de Vivian. Anotou a tudo e pode concluir algumas coisas.

Levantou-se e refletiu. Estava abalado com a descoberta do passado de Andrade, mas não surpreso. Simplesmente sabia lidar com aquilo. As peças do quebra cabeça finalmente haviam se colocado e a imagem estava por fim…

...incompleta. A pergunta principal ainda precisava ser respondida. Quem havia envenenado Andrade e por que?

Guardou o gravador na gaveta, encaixou a chave no trinco e trancou ali o objeto. Seguiu para o banheiro. Tomou uma rápida ducha e foi dormir.

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Com expressão séria, Magri desligou a tevê depois de assistir ao noticiário da madrugada. Não dormia uma noite inteira desde o retorno da rápida viagem ao México. Olhou no calendário um pouco distante na escrivaninha localizada no canto oposto da sala. Constatou por fim que ainda tinha mais nove dias de férias. Estaria retornando para sua rotina logo menos, deixando para trás esse caso e o passado de Andrade.

Levantou-se do sofá e seguiu para o quarto. Ao observar o telefone sem fio na base, ela precisou conter o impulso de telefonar para Miguel. Ela finalmente havia terminado suas obrigações para com a venda da casa de Andrade. Queria um abraço dele. Pensar em Miguel a fazia logo lembrar-se de Sofia Malpraga.

Foi até a cozinha e se serviu uma dose de café com leite. Duas colheres pequenas de açúcar. Sentou-se diante da mesa e contemplou o silêncio. Estar consciente perante aquilo tudo era perturbador. De súbito, sentiu-se extremamente grata por ser rodeada de homens de bom coração. Seu pai. Seus Karas… E o Andrade que ela conheceu e viveu aventuras.

Sofia Malpraga havia sofrido muito. Magri sentiu-se inspirada na força que aquela mulher possuía. Sentia-se pronta para começar a viver em prol daquilo que ela queria. Restava que ela deixasse o orgulho de lado, e se entregasse de peito aberto…

Pegou o telefone e discou algum número.

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Crânio sentou-se à mesa da cozinha e refletiu sobre a vida. Na manhã seguinte, estava convencido a passar rapidamente no laboratório. Um telefonema o pegou de surpresa.

—Alô? — Crânio esperou com certa ansiedade a resposta do outro lado da linha. Ficou extremamente surpreso com quem era a voz do outro lado. -

—Crânio, sou eu…— Dizia a voz -... Calú.

—Calú… Qual o problema?

—Nenhum… Digo quase nenhum. Está tarde eu sei… Podemos tomar café amanhã de manhã? — Essa era uma das formas de Calú pedir algumas desculpas. -

Crânio não pode evitar um sorriso.

—... Claro, Kara. Não se atrase. Você criou o péssimo hábito de se atrasar.

—E você criou o péssimo hábito de me lembrar disso constantemente. — Calú disse do outro lado — Boa noite.

—Até amanhã.

Crânio voltou para a mesa. Sua cabeça estava de certa forma indecisa sobre o que gostaria de fazer. Sentia uma enorme vontade de ir até Maria e conversar a noite toda… Suspirou fundo. Olhou o braço que havia sido ferido. Mais alguns dias de recuperação. Seria rápido. A vida cobrava que ele voltasse a suas obrigações pessoais, mas o gênio dos Karas, mais do que qualquer pessoa, odiaria voltar a sua rotina com uma peça faltando no quebra-cabeça.

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Magri desistiu de tentar ligar para Miguel. Duas tentativas e nada de sinal de vida do líder dos Karas. Foi dormir, mas só entrou no mundo dos sonhos cinquenta minutos depois.

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Após um longo mês de especulações, a última peça no quebra cabeça preocupava quase todos os envolvidos no caso, com exceção de Miguel e Chumbinho. Desde o retorno deles ao Brasil, Miguel tentou contatar Chumbinho. Todas as tentativas, porém haviam sido em vão. Chumbinho se isolará. Avisara aos pais que não queria conversa com seus “amigos adultos”. Estava decepcionado. Frustrado. Não era culpa dele. Miguel sentia o mesmo.

O telefone da casa do líder dos Karas tocou. Quando atendeu, ele sorriu.

—Filho, como foi à viagem?

Miguel conversou com o seu pai. Uma conversa corriqueira e comum entre pai e filho. Miguel não demonstrava, mas o pai entendia no tom do filho que alguma coisa o abalava.

—Qual o problema, Miguel?

Ele suspirou.

—Pai, você já foi filho. — Miguel começou — Quantos anos o senhor tinha quando você se decepcionou pela primeira vez com o vovô?

O pai de Miguel se assustou com a pergunta. Questionou se ele havia ferido os sentimentos de Miguel. O mesmo justificou a pergunta com apenas curiosidade.

—... Bem, eu era adolescente. — O pai de Miguel disse — É extremamente comum.

—Tem certeza? — Miguel perguntou -

—Um dia, você será pai e irá entender Miguel. — O pai de Miguel dizia — Os filhos começam amando o seu pai, depois passam a detesta-lo.

—E termina assim? — Miguel perguntou -

—... E as vezes, quando eles crescem, eles os perdoam. — Ele disse. Miguel refletiu — Não iria conseguir compreender o meu pai com a idade que tinha quando comecei a detesta-lo. É preciso ter uma sensibilidade maior do que eu dispunha na época.

—Por que o detestava?

—Ele não me deixava fazer tudo o que queria. Bobagens de adolescente. Eu pensava ser o dono do mundo. E o ver contrariando as minhas expectativas me pareceu uma traição.

Miguel suspirou.

—Entendi. Obrigado por me escutar, pai.

—Sempre que precisar, meu filho.

—Boa noite, eu te amo. Diga à mamãe que eu a amo também.

—Digo sim. Boa noite. Eu também te Amo.

Miguel desligou o telefone. Foi dormir logo em seguida.

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Crânio despertou de seu sono sem sonhos. Sentia um ligeiro formigamento no pé esquerdo. O relógio marcava sete e trinta e dois. Ainda tinha uma hora para se encontrar com Calú e, visando já um possível atraso do amigo, Crânio tinha preguiça. Perguntou-se o que o fez acordar, quando a campainha tocou novamente. Sentou-se na cama e perguntou-se quem seria. Olhou pelo olho mágico e reconheceu a face de um astro de cinema.

—Bom dia, Crânio. — Calú entrou. Sem esperar ser convidado

—... -Crânio bocejou -... Muito cedo, Calú. Muito cedo.

—Disse para não me atrasar. — Calú disse com um sorriso — Imaginei que estaria dormindo, então, trouxe sanduíches para nós fazermos o desjejum. Onde guarda o café?

Crânio apontou sonolento para o armário branco com detalhes em verde. Calú pegou e foi até a máquina de café. Impressionou-se.

—Gastou um pouco com isso, estou certo? — Calú perguntou -

—Não sei fazer café de outra forma. — Crânio respondeu -

—Preciso conversar com você. Mas antes, tenho a impressão que você precisa de um banho. Vá e vista se como aquele bom e velho gênio.

Crânio fez o que Calú disse. Quando retornou, o café estava pronto. Calú sabia como pôr a mesa.

—Vegetariano frango ou carne? — Calú perguntou -

—Frango.

—Fico com o vegetariano. — Calú sorriu — Peggy está me convencendo aos poucos.

Fizeram a refeição. Após isso, Calú o surpreendeu uma vez mais.

—... Desculpe-me. — Calú disse -

Crânio o encarou em dúvida. O que ele queria dizer com aquilo?

—Percebo agora que meu comportamento era… De ingratidão. — Calú dizia — Eu fui seduzido pelos vícios dos adultos. A imagem que tinha de Andrade era de um homem correto… Que me olharia com vergonha daquilo que me tornei…

—Calú, não…

—Crânio, não me interrompa. Se não, nunca poderei dizer isso. — Crânio calou-se — Eu perdi. Os vícios foram mais fortes do que eu. Entreguei-me ao álcool e ao cigarro. Andrade não bebia e não fumava. Nenhum de vocês fazia isso. Então, por não saber o que diria a vocês, eu escolhi me esquecer.

Crânio o observava atentamente.

—Porém, descobrir que Andrade já havia passado por tudo aquilo antes… Fez-me refletir. Ainda estou refletindo. Eu abandonei o cigarro. Mas… A bebida ela… Ela é…

—Entendo.

—... Andrade talvez me entendesse… Talvez me indicasse o caminho que ele seguiu depois daquela viagem a Cidade do México. Mostrasse-me que existe uma cura para o meu próprio veneno… E eu o tratei mal. Criei uma casca para com vocês. Por estar completamente envergonhado do que me tornei… Eu… Eu imploro o seu perdão.

Os dois Karas se encararam. Crânio sorriu. Um sorriso honesto, carregado de sentimentos reprimidos. Estendeu a mão para o amigo a sua frente.

—... Bem vindo de volta. — Crânio Sorria — Este é o Kara que eu conheci.

O aperto de mão tornou-se um abraço. Como dois soldados que criam vínculos de irmãos no campo de batalha, os dois rapazes ali, tornavam nova a imagem deles demonstrando seu afeto. Crânio notou que Calú andava com o lenço vermelho de Andrade no bolso.

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Miguel acordou cedo com um telefonema. Caminhou sem forças até o painel. Notou que era um número desconhecido… E fora do padrão. Subitamente sentiu o peito puxando mais ar. Não era um número que indicava qualquer região do Brasil. Era uma chamada internacional.

—Alo?

—Vivian Málaga. Sou eu, Miguel. O filho de Andrade.

—Acertei o número…

—Qual o problema?

—Sofia morreu nesta madrugada. — Ela disse tão conformada que Miguel não sabia exatamente como reagir -

Ela desligou depois dos quarenta e cinco segundos de silêncio que Miguel fez. O líder dos Karas se sentou. Não sabia o que pensava, nem mesmo o que sentia.

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Já no meio da tarde, Calú topou com Peggy. Ela por fim, havia cancelado a reserva do quarto separado e voltará a dormir junto dele. Notou nos olhos daquela linda mulher certa dúvida.

Hi, Peggy. — Ele disse — Lamento não ter tomado café com você.

Ela deu de ombros com um sorriso vigoroso. Estava confusa sobre o desaparecimento de Calú naquela manhã, mas o ver tão bem, a fez se sentir mais confortável.

—Vamos jantar juntos hoje? — Ela o abraçou -

—Poderia jantar com você para o resto da minha vida.

—E o que te impede? — Ela o provocava -

Calú sorriu. Refletiu sobre alguns restaurantes em que poderia levar Peggy aquela noite… Sorriu quando, por fim, parecia ter encontrado o ideal para eles.

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As quatorze e quinze da tarde, Nicolas bebeu um gole de suco direto da garrafa enquanto virava as páginas de suas anotações. A conclusão do caso era misteriosa. Reunidos os fatos recolhidos por Miguel e Cia, o caso parecia chegar a uma resposta enigmática. Andrade morrerá envenenado, mas o carrasco, a serpente, o seu assassino simplesmente desapareceu. Tinha que existir alguma coisa.

Desanimado, ele voltou a ler os dados de Andrade. Seu histórico na polícia… Nada.

Nicolas começara a ler o laudo médico de Andrade uma vez mais. Sem esperanças, de fato. Seu lado mais pessimista gritava em sua mente. Não havia mais o que ser feito. Aquilo era o fim da trilha. A resposta ficaria para sempre perdida.

De repente viu algo que o fez arregalar os olhos.

Durante os exames que definiram a causa da morte como envenenamento, notou-se que Andrade teve uma súbita presença de álcool em seu sangue.

Nicolas se levantou extremamente eufórico. Ele era parceiro de Andrade há quase três anos. Ele não havia ingerido uma única gota de álcool desde o seu retorno da Cidade do México a quase trinta anos atrás.

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Peggy e Calú conseguiram escutar os diversos murmurinhos que a entrada deles no Moscow Mule havia causado. O finíssimo bar e restaurante compunha-se de três andares de e gigantescas janelas de vidro. Crânio e Maria quando foram ficaram apenas no primeiro andar, dedicado a uma refeição de qualidade e os sabores exóticos do bar, que servia tanto o primeiro quanto o segundo andar. Junto de música ao vivo, todas as quintas-feiras. O segundo andar era onde funcionava o restaurante. As mesas eram maiores que as do primeiro. Mais finas. Elegantes. Mais Caras, obviamente.

Calú entrou sem receio de ser notado. Estava finalmente bem consigo mesmo. Era a primeira vez que entrava naquele restaurante e foi recebido muito rapidamente pelo funcionário -visivelmente nervoso- que os indicou o caminho para as mesas. O ator dos Karas escolhera aquele lugar por se lembrar de ter conhecido o dono do local. O tal barman absoluto que era dono de um lugar fino, mas ainda sim, saia de trás da mesa do administrador para fazer uma perigosa iguaria.

Olhou no relógio. Vinte duas e vinte oito. As Moscow Mule seriam servidas logo. Calú usava um terno vinho, camisa branca com calças e mocassins pretos, muito bem engraxados. Peggy, um vestido verde, decotado que marcava suas curvas. Calú controlava o impulso de acariciar as nádegas de sua parceira. Riu.

—Temos mais alguns dias no Brasil. Depois disso, nossas férias vão acabar. Desculpe por isso.

—Desculpar pelo que?

—Foram as piores férias da sua vida, admita. — Calú suspirou -

—Está brincando? Eu finalmente me senti dentro de uma das suas aventuras… — Ela acaricia o rosto de Calú — … E você está muito melhor. Ver os seus amigos te trouxe aquele ar de paz que a tempos não via nos seus olhos. Parou de fumar… E está tentando diminuir a bebida. Eu estou muito orgulhosa, K.

Calú beijou as costas da mão de Peggy.

—Você é o meu ponto de paz, querida.

—Não vamos exagerar. Vamos provar a tão famosa Moscow Mule. — Ela sorriu de uma maneira encantadora -

Calú levantou a mão esperando um dos garçons. Ele era jovem. Só um pouco mais velho que Chumbinho. O mesmo veio com um olhar apreensivo.

—Boa noite, Rapaz. -Calú o saudou — Traga para nós a obra prima de Paolo.

Peggy sorriu. Calú era cheio de surpresas. Entretanto, o garçom com um semblante abatido, olhou ao redor e disse algo para o outro garçom Que retirava a mesa. Sem se dirigir a Peggy e Calú eles caminharam para longe.

Calú encarou Peggy que o encarou de volta, tão confusa quanto.

Continuaram a conversar. Ou melhor, Peggy continuou a contar algumas coisas ou outras. Calú apenas meneava a cabeça uma vez ou outra perdendo o ponto alto do assunto. O ator dos Karas examinava a situação.

De repente, das escadas que davam ao terceiro andar, desceu Paolo. Aplaudido por todos os presentes. Peggy e Calú o aplaudiam também, entretanto, quando o ator dos Karas o observou, notou nos olhos de Paolo uma tristeza, incompreensível.

—... Senhoras e Senhores. Eu lamento muito, mas hoje não servirei a Moscow Mule. — Ele dizia visivelmente abalado — Eu peço desculpas a todos aqueles que vieram aqui exclusivamente para provar está iguaria. Qualquer outra bebida do catálogo será uma cortesia do restaurante hoje… É isso.

Paolo dirigiu um olhar envergonhado para Calú e Peggy. Caminhou de volta para as escadas do terceiro andar.

Peggy observou Calú. Sua expressão era de convicção. O famoso olhar de um Kara.

—Vou falar com ele. — Ele disse -

—Calú… Podemos pedir outra coisa.

—E nós vamos pedir. Só quero entender aquele olhar.

—Por que se preocupa tanto? — Peggy o observou com curiosidade -

—Nem eu sei. — Ele seguiu pelas escadas -

Enquanto subia, Calú sentiu os olhos irritados. Reconhecia aquele cheiro como ninguém, mas resistiu. Ao entrar na sala de Paolo, se deparou com a origem do cheiro.

Paolo fumava um cigarro e bebia Bourbon. Calú serrou o punho e segurou os impulsos. Olhar para Paolo era olhar para si mesmo. Notou por fim, com certa surpresa, a lágrima que descia o rosto de Paolo que o mesmo logo secou.

—Sr. Calú… Lamento muito ter estragado a sua noite. — Ele disse não encarando o Kara -

—... Está tudo bem? — Calú perguntou olhando ao redor, evitando contato com o cigarro e com o Bourbon.

—... Claro… — ele fungou, secando as lágrimas -... Nada que o senhor precise se preocupar. O dono do restaurante é quem deve se preocupar com os seus visitantes.

—... Paolo, sei que não somos amigos, mas aprendi hoje que desabafar ajuda muito. — Calú foi sincero — Não vou te forçar a nada, mas se quiser abrir o jogo, estou ouvindo.

Calú não sabia bem o porquê de ele ter feito aquilo. Pensava em uma forma de se desculpar caso houvesse ofendido o tão generoso dono do restaurante, mas nos olhos dele, ele aceitou a situação.

—... É a minha mãe, ela… Ela faleceu está manhã. — Ele disse deixando as lágrimas rolarem -

Calú sentou-se a cadeira a frente da mesa dele.

—Eu sinto muito…

—... É só que… Eu nunca tive ninguém além dela. Tudo o que fiz foi para a minha mãe. Eu fiquei rico para pagar médicos para ela. Nunca tive uma boa relação com meu pai. Ou padrasto. Figuras paternas.

—Entendo. — Calú de fato entendia — Eu mesmo tive problemas com o meu pai.

Paolo o observou. Encheu o copo com Bourbon e ofereceu a Calú. Ele negou. Paolo o tomou muito rapidamente e encarou o Kara.

—... Então, você julgaria certo aquilo que fiz?

—O que você fez?

Paolo secou as lágrimas. Indicou com um movimento da cabeça o maço de cigarros e a garrafa de Bourbon.

—Beber e fumar… Beber e fumar foram tudo o que fiz para me esquecer da culpa.

Calú não podia deixar de se sentir compaixão para com Paolo.

—... Eu cresci cuidado por mulheres. As figuras paternas que passaram pela minha vida só me deixaram vergonha…

Calú olhou a janela.

—... Cresci, estudei. Tornei-me chefe de cozinha. Especializado em gastronomia estrangeira. Aprendi a receita antiga da família e a levei para o seu patamar atual. Estava com a vida toda em seu lugar. Claro, minha mãe era doente. Mas ela tinha um homem na vida dela. Eu.

Calú não o interrompia. Ele reconhecia que o raciocínio lento que a total embriaguez de Paolo causava era apenas uma forma de afogar a mágoa. Paolo teria dores de cabeça terríveis na manhã seguinte.

—... Mas há alguns meses atrás, um dos fantasmas do passado da minha mãe voltou. Ele tocou na minha cara e me chamou de filho…. — Ele babava como se tentasse reunir forças para cuspir, mas não chegou de fato ao ato -.

Calú parou e o encarou.

—Desde então… Eu passei a nutrir um ódio gigante por aquele cara. Eu não conseguia me concentrar no trabalho. Eu fantasiava com a morte daquele cara. Minha tia dizia para eu dar uma chance para ele me conhecer. Que ele parecia ter se tornado uma pessoa boa. Ela nem imaginava que na minha mente, eu já havia o matado mais de cem vezes…

Calú arregalava os olhos aos poucos. Não podia ser verdade. Não.. Não…

—Naquele dia, eu parei de fantasiar com a morte do meu pai e comecei a planejá-la. O convidei para vir ao restaurante, ele me contou sobre suas aventuras. Que gostaria muito que eu conhecesse o amigo idiota policial dele e os filhos idiotas.

Calú não sabia mais o que dizer.

—Então, eu acabei com ele. — Ele parecia muito frio, mas, sob o efeito do álcool, ele voltou a chorar — Mas agora… Minha mãe se foi. Deus tirou de mim o meu maior tesouro. O que eu farei daqui pra frente?

Calú se levantou.

—... A chuva cai sobre os justos e os não justos… — Paolo dizia. Ele nota a aproximação de Calú -

Calú deu três passadas decididas e enfiou-lhe um direto de esquerda. Paolo caiu da cadeira e encarou Calú com gigantesca surpresa. Calú tinha os olhos marejados. Chutou a cadeira com força. Do outro lado da mesa, ele constatou a foto da mãe de Paolo. A imagem de Sofia Malpraga fez o sangue de Calú ferver. Agarrou Paolo pelo colarinho e iniciou uma sequência de socos que o fez berrar desesperado.

Lá de baixo, do restaurante, os clientes conseguiram escutar a tudo. Alguns se levantaram assustados. Os funcionários seguiram para a sala onde Calú subira e Paolo estava.

Os setenta e oito segundos que se seguiram foram os mais emocionalmente destrutivos para Calú. Ele socava a face de Paolo como se seu ato viesse a fazer Andrade voltar a vida. Aplicou-lhe um puríssimo direto no nariz, que fez esguichar sangue na camisa caríssima que vestia.

Quando os funcionários separam os dois, agarrando Calú pelas costas, Paolo, extremamente ferido pareceu fugir em meio a sua embriaguez.

Calú com certo esforço se livra dos funcionários que o seguravam e corre em direção a Paolo que estava perto da escada. O ator dos Karas se atira em direção ao maldito.

As pessoas que permaneceram no restaurante ficaram chocadas ao verem o dono do restaurante e um ator famoso de Hollywood rolaram escada abaixo. Calú conseguiu interromper a queda segurando no corrimão de metal. Paolo rolou até o fim da escada. Os seguranças pararam Calú. Peggy levou a mão a boca. |

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Foi uma longa noite para a polícia. Calú exigia aos berros que gostaria que chamassem Nicolas até o local antes de leva-lo a delegacia. Seu pedido fora atendido depois de quase uma hora de espera. Paolo fora levado ao hospital mais próximo para receber os primeiros socorros.

Nicolas encarou Calú. Calú olhou o detetive com tanta raiva que ele assustou Nicolas por meio segundo.

—É ELE. — Calú berrava. — Filho-da-***a. Foi ele quem matou o Andrade. Eu vou matar ele.

Nicolas observou a expressão aterrorizada de Peggy. Não disse nem uma palavra. Emitiu ordens para que uma viatura fosse ao hospital onde Paolo estava. Calú foi levado para a delegacia junto de Nicolas. O detetive algemou Calú e deu a partida. No primeiro sinal vermelho mais distante do restaurante, ele removeu as algemas de Calú.

—Vai confessar o que fez. – Nicolas disse enquanto levava Calú para a delegacia -

—Nicolas… Foi ele…

—Envie uma viatura para o hospital. – Nicolas o ignorava, mandando instruções pelo comunicador abordo da viatura — Vai responder por uma agressão.

—... – Calú não disse mais nada –

Nicolas ficou em silêncio por um tempo, antes de perguntar a Calú.

—Por que acredita nisso?

—... Ele é o filho do Andrade. Praticamente confessou para mim. Até mesmo um quadro da Sofia Malpraga ele tinha... Ela morreu essa noite.


Nicolas sentiu o arrepio subir até a sua nuca.

Notas finais
Próximo capítulo será o penúltimo.