Os Karas - Cigarros e Moscow Mule.
26 6. Veneno dos dias pré nascimento.
Notas iniciais
Calú se arrependeu da decisão de estacionar a uma distância “segura” do bar. O sol das oito da manhã na Cidade do México o surpreendeu. Estava quente. Abriu dois botões da camisa, dobrou a manga, colocou os óculos escuros em frente aos olhos e o fedora de volta a cabeça. Agora, era complicado demais voltar atrás e trazer o carro para uma rua mais próxima. A carteira de motorista de Calú tinha licença internacional. Porém, era em momentos como esse, que ele agradecia não ser dono de nem um carro, mesmo com dinheiro o bastante para ter alguns dos mais cobiçados do mundo.
—Será uma caminhada curta. — Disse Magrí.
Ela tinha razão. Percorreram metade de um quarteirão — a movimentação era mínima na calçada. Peggy e Calú passavam despercebidos -.
Pararam em frente ao local. Os seis Karas contemplaram um pouco a fachada do local que Andrade pisara duas vezes em momentos distintos de sua vida. Subitamente, se sentiram acuados. Como crianças que observam o prédio de uma escola nova pela primeira vez. Miguel deu um passo à frente, com uma coragem que nem sabia de onde vinha, e tocou a campainha. O bar estava fechado, como era de se esperar.
Uma senhora de pele bronzeada e cabelos escuros presos abriu a porta depois de três minutos de espera. Observou ao grupo lá fora com curiosidade. Miguel pareceu abalado em um breve segundo, porém, logo aceitou a situação. A foto a mostrou mais jovem, era natural que ela estivesse mais velha agora. Mas era incrível o quão vigorosa parecia ela.
—Em que posso ajudar? — Ela disse em espanhol —
—Bom dia, perdoe a visita tão cedo, mas tenho algumas perguntas para a senhora, Sofia Malpraga.
—Do que se trata?
Os Karas se entreolharam. Miguel não a tirava de sua vista.
—Eu… Eu vim por causa de um nome. Acredito que a senhora conheceu ele… Andrade.
Crânio retirou uma fita e um gravador. Calú o observou com um olhar cômico.
—Virou paranoico? — Calú perguntou -
Crânio refletiu. Olhou para Calú e fez uma expressão de aceitação. Calú sorriu levemente com a resposta do amigo.
A expressão da senhora pareceu mudar um pouco.
—Senhora Malpraga, peço que nos escute. Não se trata de um jogo, ou qualquer coisa do tipo…
Ela fez um sinal para ele parar de falar.
—... Eu vejo. Andrade me contou de seus filhos… — Ela disse surpreendendo a todos ali — Tenho algumas coisas a contar a vocês, por favor. Queiram entrar.
—Obrigado, Senhora Malpraga.
—Ah sim, pare com isso.
—Perdão? —Miguel não entendeu -
—Não sou Sofia Malpraga. Sou Vivian Málaga. É um prazer.
Vivian Málaga indicou o caminho para os Karas e os acompanhou. Atravessaram o bar e entraram em um gabinete comprido, de cerca de trinta e dois metros quadrados, situado na extremidade aos fundos do bar. Uma parede estava coberta por cortinas. Tinha uma janela que dava para um jardim mal projetado na planta daquele lugar tão antigo.
Vivian caminhou por entre os Karas, porém, parou quando viu os rostos de Calú e Peggy. Finalmente havia reconhecido eles.
—Meu deus, são vocês mesmos? Eu não acredito. Metade da cidade do México está atrás de vocês… — Ela parou e refletiu durante sete segundos — Não me diga que você é filho de Andrade?
—Por favor, não conte aos quatro ventos a nossa estadia aqui. — Calú parecia sem paciência -
—Sim… Agora eu me lembro. Andrade disse que um dos meninos dele era um ator famoso… Eu não acreditei.
Os Karas observam Calú. Sua expressão foi de seriedade para uma surpresa em questão de segundos. A surpresa deu lugar a um sentimento de culpa no peito daquele Kara.
Vivian se senta próximo dos Karas e observa um a um. Reconheceu Magrí, mas se conteve desta vez. Sorriu e observou atentamente a cada um dos filhos de Andrade.
—Vocês são totalmente diferentes do que imaginei. Já são todos adultos… Ou quase todos. — Ela sorri para Chumbinho -
—Não somos filhos legítimos do Andrade. Na realidade, ele nem sequer tinha uma família. Mas, fomos próximos dele tanto quanto filhos. Por isso, estamos aqui.
Vivian observou em dúvida.
—Não possuía família… O que quer dizer com isso? Fala como se ele tivesse morrido.
Miguel suspirou fundo. Ela entendeu.
—Minha nossa, eu sinto muito… — Seu semblante tornou-se visivelmente abalado. — Oh, Andrade…
O silêncio se instalou naquele lugar. Todos, se faziam algumas perguntas que gostariam de responder o mais depressa possível, quem quebrou o silêncio foi Magrí.
—Senhora Vivian?
—Diga querida…?
—Magrí. Por favor, nos diga. Quem é Sofia Malpraga?
Ela suspirou e olhou nos olhos de Magrí.
—Sofia Malpraga é a minha irmã mais velha. Andrade e ela se conheceram há quase trinta anos.
Os membros dos Karas assimilaram aquilo que acabara de ser dito. Miguel continuou o diálogo.
—Temos perguntas a fazer a ela. É importante. Pode nos levar até a sua irmã?
Vivian suspirou fundo. Um suspiro que expressava totalmente a tristeza que possuía.
—Não vai ser possível ter as respostas vindas de minha irmã... — Ela diz — Venham comigo. Três. Vou levá-los até ela.
Novamente, os Karas se entre olharam. Levantaram-se: Chumbinho, Magrí e Crânio.
Miguel observou os Karas seguirem Vivian. Limitou-se a trocar olhares com Peggy. Calú ainda estava quieto. Peggy segura a sua mão.
Atravessaram uma porta que ligava o bar à casa a esquerda. Crânio, Magrí e Chumbinho analisaram bem o local. Era uma casa comum. Moravam ali, apenas Vivian e sua irmã. Assim que Vivian abriu a porta, Magrí foi invadida por uma sensação conflitante.
Ela observou a mulher a sua frente. Ela, com dificuldade, ela tentava recolher um pouco o pano da manga de seu casaco. Estava deitada na cama. No criado mudo ao lado, havia caixinhas de remédio e uma fotografia de um homem de cabelos negros e chapéu de cowboy.
Magrí a assistiu por fim abandonar seus esforços e olhar para ela.
—... bom dia. — Magrí sorriu, visivelmente comovida -.
Chamava-se Sofia Malpraga. Seus últimos dezesseis anos haviam sido memoráveis por uma sequência de derrames cerebrais e problemas sanguíneos. Tudo isso, a impediu conforme os anos passaram de cuidar de si. Por volta de sete a oito anos, tornou-se incapaz de se comunicar.
Magrí aproximou-se. Sofia estava agitada. Não reconhecia nem mesmo a própria irmã, mas mesmo assim, colocava as mãos sobre Magrí e tentava tocá-la, não queria deixar que ela fosse embora.
Magrí se ajoelhou e deixou que ela segurasse seu lindo rosto. Sofia fez um olhar perplexo, Magrí deixou uma lágrima escapar.
—Podem… Podem voltar para o bar, por favor? — Disse Vivian -.
Crânio e Chumbinho não haviam saído do corredor. Magrí olhou para trás e, apressada, soltou-se de Sofia, abraçou-a e foi para junto dos amigos.
Miguel, Calú e Peggy voltaram suas atenções aos Karas que retornavam junto de Vivian. Magrí secava o rosto.
—Sofia teve alguns problemas durante a sua vida… Eu… Eu lamento muito não poder atender as expectativas de vocês.
Magrí a observou. Estava triste. Ver o estado de Sofia, mesmo sem a conhecer, de certo modo, a estava deixando deprimida.
—Eu tenho uma pergunta… — Crânio ligou o gravador — Como… Como Andrade veio a conhecer Sofia… Sofia Malpraga?
Vivian observou ao gravador por um breve momento, depois, olhou rapidamente para cada um deles e começou.
—... Mamãe nos criou sozinhas. — Ela começou — Nunca conhecemos o nosso pai. Talvez seja nesse ponto, que podemos começar. Quando conheci Andrade, ele era um garoto revoltado… Segundo ele, um órfão. Nem mãe. Nem pai. A razão pela qual ele e Sofia se deram bem logo de cara.
—Quantos anos você tinha…? - Crânio perguntou -
—Eu tinha quatorze anos. Sofia tinha feito dezessete a alguns dias. Morávamos com nosso tio. Mamãe nos abandonou e tentou uma vida na América.
—Que horror… - Peggy observava a expressão pesada nos olhos de Vivian Málaga -.
—Nosso tio veio fugido da Rússia comunista. Instalou-se e criou seu próprio negócio. Um bar. Ele era horrível com bebidas, mas foi bom o suficiente para aprender uma única iguaria de sua terra, que tornou a sua marca registrada. Ele ensinou para minha irmã, que ensinou para mim.
Crânio anotava a tudo e deixava o gravador tocar. Miguel estava em um silêncio absoluto.
—Porém, meu tio não fora um homem bom, se me perguntar. Sofremos maus tratos, trabalhávamos mesmo sendo crianças… Ele não nos via como família. Recebiam os uma pensão, que era dedicada a nossa educação. Nunca vimos um único centavo deste dinheiro. Ele buscava uma forma de se livrar de nós.
Ela suspira e retoma seu relato.
—Tinha quatorze anos quando conheci o Andrade. Sofia tinha dezessete anos, como já havia dito. Ela trabalhava como balconista do bar. Era tudo o que poderia ser feito. Não tínhamos estudo. Ela recebia 15 pesos mexicanos por dia. Ela começou a sonhar em juntar peso o suficiente para ir para a América. Foi quando surgiu o Andrade.
—Como foi o primeiro encontro real com o Andrade? — Crânio perguntou -
—Andrade ficou duas ou três semanas… Não me recordo ao certo. O que eu me lembro era do amigo dele. Andrade gritava. Falava mal. Quase se metia em brigas o tempo todo. Lembro-me até mesmo do pedido deles. Tequila. Ele, quando bêbado parecia ainda mais agressivo e nervoso.
Miguel levou à mão a testa. Parecia um pouco incomodado.
—O amigo dele, era extremamente educado e se desculpava o tempo todo. Houve um momento em que Andrade já bêbado começou a conversar com minha irmã… Pediu um beijo. Ela negou. Ele quebrou alguns copos e começou a gritar.
Chumbinho desviou o olhar. Parecia extremamente desapontado. Miguel com o canto de olho o observou.
Peggy pode notar no rosto dos Karas. As expressões mudam aos poucos. Até mesmo Crânio que Conduzia as perguntas parecia mais surpreso do que gostaria. Ela mesma se sentia extremamente desconfortável. Não conseguia conceber que Andrade poderia ter um comportamento tão…
—... Fui para trás do balcão. Andrade não fora o primeiro bêbado agressivo que conhecemos. Se meu tio estivesse lá, ele provavelmente quebraria uma garrafa e tentaria cortar o nariz de Andrade, mas, o amigo dele estava lá. Como um anjo da guarda do amigo bêbado. se não me falha a memória, o nome dele era Morais.
Calú respirou fundo e soltou. As peças de um quebra cabeça confuso estavam começando a se encontrarem.
—Saíram do lugar sem pagar. Morais prometeu voltar com Andrade sóbrio para pagar e se desculpar. Aquele foi o nosso primeiro encontro.
Vivian pode notar que suas palavras estavam caindo sob os Karas como uma chuva de meteoros. Visivelmente abalados, os filhos de Andrade estavam em silêncio.
Miguel parecia não acreditar. Aquele gordo e leal detetive, entregue aos vícios e horrores que ele, desde um garoto escondido no quarto das vassouras, considerava repugnante. Encontrara o amor que nunca teve no fundo de uma garrafa de bebida. Descontava no mundo as suas frustrações… Era o passado daquele que Miguel havia declarado ser “O melhor que ele conheceu” em seu leito de morte. “Um ser humano par em um mundo ímpar” Como disse Crânio. O “Segundo pai” de Magrí. “Um verdadeiro herói”, nas palavras de Peggy…
Miguel lembrou-se que Calú nunca dissera a sua opinião sobre Andrade de forma explícita. Olhou na direção do amigo e notou sua expressão. Era confusa. Não conseguia interpretar o que parecia estar pensando. Mas ao olhar para Chumbinho, Miguel não teve dúvidas. O garoto estava arrasado.
“Um exemplo do que eu quero ser no futuro”. Era aquilo que Chumbinho havia dito sobre Andrade em seu enterro. O garoto deveria estar naquele momento se sentindo traído em mais de mil formas distintas. Seu olhar estava fixo em Vivian.
Crânio, também desconcertado, estava em silêncio. Quando finalmente deu por si, pausou a gravação.
Vivian levantou-se.
—... Vou preparar um café rapidamente. Aceitam?
Crânio e Miguel cruzaram olhares e assentiram com a cabeça. Vivian caminhou para fora do gabinete.
Miguel, Crânio, Calú, Magrí e Chumbinho desejaram por um momento que aquilo tudo tivesse Acabado, mas não. Assim que o café chegasse a eles, o passado de Andrade seria exposto para eles. Foi como se, de dentro da pomba da paz, revelasse a imagem de um urubu.
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