Os Herdeiros da Alvorada

2 Capítulo I - O bosque sagrado


Notas iniciais
Todos os capítulos são um pouco grandes. Por isso, caso queria ler, disponha um pouquinho de tempo.

O bosque em que a senhora Elora morava era o mais calmo de todo o reino de Anep. Nem mesmo a casa da vó Banga era tão aconchegante e terapêutica quanto à cabana onde vivia a musa das Ninfas das florestas. As árvores eram grandes, grossas e tinham galhos tão longos que as folhas que nasciam deles tapavam quase todo o céu da região; havia uma mágica profunda e misteriosa em cada uma delas. Os animais eram diferentes e um pouco estranhos; existia dentre eles coelhos falantes e até mesmo raposas com dois pares de orelhas a mais.

Os vaga-lumes piscavam em cores que iam além da convencional. Eles e os outros insetos não eram nada intimidadores; no geral, eles eram grandes, felpudos e tinham olhos enormes que lhes davam um aspecto fofo e inofensivo. As aranhas também eram assim, mas a maioria preferia ficar dentro das copas das árvores construindo seus ninhos feitos de amontoados de teias macias e quentes; seus ovos brilhavam quando estavam prestes a eclodir e quando isso acontecia, as árvores emitiam luzes fortes e bastantes ofuscantes conhecidas como: Nehck- an- Malaak, que na antiga linguagem dos deuses significava: "o sol na terra".

Os cogumelos que cresciam no solo tinham cores vibrantes e diversas. O tamanho deles também era anormal e a aura que emitiam tinha uma energia quente e um pouco sedutora, brilho da morte era o nome, pois muitas pessoas achavam que eles eram de comer, mas mal sabiam que no passado os bárbaros usavam o líquido daqueles fungos como veneno nas pontas de flechas e lanças. Em baixo da cabana, perto de algumas pedras azuladas e brilhantes, corria um pequeno riacho de águas cristalinas com peixes dourados que piscavam como vaga-lumes; eles se pareciam bastante com as frutas das grandes macieiras que serviam de lanterna à noite naquele lugar.

O som dos pássaros também era diferente. A canção que eles cantavam era estranhamente melódica e se parecia com as que os nobres dos palácios compunham. Claro que havia horário para se ouvir esse tipo de coisa: quando o sol nascia, eles cantavam em sincronia, e quando se punha também; das seis da manha até a seis da noite eles agiam como aves normais até que uma dessas horas chegasse.

Kouta Leãodourado, filho de Cerles e Biona, treinava o controle de sua energia superior nos fundos da cabana, bem perto do chiqueiro onde moravam os porcos cinzentos que a mestra havia comprado dois dias antes. Aqueles animais eram mais estranhos do que os próprios que moravam no bosque, eles eram, assim como seus nomes indicavam, cinzas, mas com manchas vermelhas que brilhavam como cristais em todo o corpo; seus olhos também eram da mesma cor. O rapaz já não ligava mais para isso, o medo daquelas criaturas já havia passado. Ele estava assentado em cima de um tronco velho de árvore com os olhos fechados e as pernas cruzadas enquanto segurava um grimório velho em uma mão e uma pedra azul na outra.

Qualquer um que o visse pensaria que ele não passava de um simples garoto como qualquer, que sonhava em um dia aprender a dominar por completo os caminhos da energia superior, mas a aparência enganava, pois antes de nascer ele foi um dos maiores deuses que houvera naquele universo. Por causa da queda das divindades, que aconteceu a há trinta anos, agora tinha que ser um ser mortal que precisava aprender a usar algo que um dia já foi natural.

Algumas pequenas araras vermelhas assistiam aquilo com curiosidade, pois era comum ver a musa do bosque e não Kouta fazendo aquilo. Elas cochichavam entre si na própria língua e às vezes, quando se empolgavam, gritavam alto demais distraindo Kouta e fazendo com que ele jogasse pequenos galhos leves em direção a elas na tentativa de espantá-las; infelizmente para o rapaz os animais eram inteligentes a ponto de não se importarem por saberem que o que ele fazia era apenas blefe.

Quando tentou se concentrar pela sétima vez, escutou a porta da frente da cabana batendo com muita força. As araras se dispersaram por causa do barulho e os porcos se agitaram. O rapaz se levantou com um pouco de medo e pegou sua espada que estava perto de algumas lenhas que havia cortado mais cedo usando um machado.

Por cinco minutos Kouta permaneceu imóvel enquanto olhava para a porta dos fundos. Ele respirava de vagarosamente enquanto o suor frio descia de sua cabeça. Quando apanhou um pouco de coragem, decidiu seguir em frente para averiguar a situação. Com muito cuidado abriu com sutileza a porta usando sua mão esquerda enquanto segurava a espada com a direita; seus passos eram firmes, porém silenciosos.

Havia muito sangue nas paredes, no chão e até mesmo na pedra que ficava em cima da lareira. A grande poltrona de Elora estava virada em direção a porta e um homem com longos cabelos negros e olhos penetrantes agonizava no chão enquanto segurava o ferimento de sua barriga com as suas mãos. Ele vestia roupas escuras com armaduras leves por baixo delas; provavelmente havia também cota de malha ali, mas Kouta não deu muita bola pra isso. Seu desespero cresceu quando percebeu que a pele daquele cara estava ficando sem cor enquanto o sangue jorrava cada vez mais.

— Elora... Onde ela está? — o homem falou enquanto vomitava um pouco do sangue. Suas mãos tremiam muito e Kouta não sabia o que fazer — rápido, chame ela, agora — ele gritou.

— Ela não está, mas eu posso tentar fazer algo — Kouta falou, desesperado.

Ele correu para o quarto de sua mestra e vasculhou em baixo de sua cama, no armário e até mesmo no criado intocável a procura dos remédios milagrosos. Por fim, depois de muito procurar, ele achou em baixo do piso de tábua uma pequena caixa feita de madeira maciça com detalhes em ouro nas bordas e na tranca. Apesar de pequena, ela era um pouco pesada. Kouta forçou a tranca e a abriu com dificuldade, pois até mesmo os parafusos pareciam estar enferrujados.

Dentro havia quatro itens: o primeiro era um osso velho de algum animal da floresta que estava amarelado por causa do tempo e tinha um cheiro doce e sufocante emanando de seu interior. O segundo era um pedaço de metal antigo, provavelmente era da coroa de algum rei que viveu em Anep há muitos e muitos anos. O terceiro e o quarto eram frascos de vidro, mas somente em um deles havia uma poção verde meio avermelhada no núcleo; ela se parecia bastante com a que os soldados da capital usavam quando estavam feridos após muitas batalhas e, por causa disso, ele deduziu que aquilo tinha algum efeito curativo muito potente e Elora guardava somente para usar em último caso.

Kouta pegou o objeto e rapidamente correu até a sala. O homem estava mais fraco e já não abria mais os olhos. Sua pele pálida estava fria e o sangue já havia parado de jorrar; provavelmente estava acabando. O rapaz segurou o homem com seu braço esquerdo o apoiando de modo que ficasse assentado, tirou a tampa do frasco com os dentes e em seguida, usando a mão direita, entornou todo o líquido na boca do moribundo desconhecido.

O fluxo de energia superior do bosque se alterou totalmente. Era possível ouvir as aves gritando sem parar do lado de fora. Uma ventania forte mexia violentamente as folhas das árvores. O vidro de algumas janelas trincou e a porta dos fundos fechou violentamente. Os porcos cinza tentavam quebrar a cerca do chiqueiro e os poucos raios de sol que passavam por entre os galhos desapareceram. O homem abriu os olhos abruptamente e sua ferida se regenerou com muita velocidade. Um brilho estranho refletiu seus cabelos e o sangue que no chão estava espalhado secou e ficou marrom, como se fosse muito velho.

Kouta saltou para trás, assustado e confuso. Suas costas foram de encontro à parede e seus braços a tateava a procura de alguma saída. O fogo da lareira estava apagado e o que sobrara era apenas um punhado de cinzas e carvão. Ele pensou em entrar la, mas o homem o impediu segurando em seu braço.

— Espera, espera — ele gritou, desesperadamente.

Kouta rolou pelo chão, pegou sua espada que estava caída perto da estante de livros e poções, e apontou-a diretamente para a garganta do sujeito.

Os dois ficaram imóveis. A única coisa que podia ser ouvida era os batimentos cardíacos do jovem que se segurava para não perder a consciência. Aquilo que havia acontecido tirou-lhe boa parte da energia, provavelmente era algum tipo de magia involuntária que forçava quem deu a poção a doar um pouco de magia. A natureza também foi afetada, possivelmente ela também perdeu poder. Nada daquilo foi natural.

— Quem é você e o que faz aqui? — Kouta perguntou com dificuldade. Ele gaguejava bastante e sua espada tremia sem parar. Suas roupas estavam totalmente molhadas por causa do suor e sua respiração ofegante parecia com a de uma pessoa extremamente doente.

— Calma, abaixa essa espada, ta bom? Você não salvou minha vida para depois tirá-la de mim — o homem falou enquanto levantava suas mãos para cima bem devagar — sou amigo de Elora e quando me feri, vim correndo para cá, pois era o lugar mais perto de onde tudo aconteceu. Além disso, se eu fosse um inimigo, as árvores sentinelas não teriam me deixado entrar.

— É, você pode ter razão, mas quem garante que você não as matou?

— Como alguém mataria aquelas árvores? A casca de seus troncos são tão duras quanto pedra — o homem falou. — não seja idiota, abaixe essa arma, por favor.

Kouta hesitou por um tempo e depois abaixo a lâmina. Ele continuou olhando torto para o homem, mas sem fazer nada imprudente. Seus passos ainda estavam pesados e agora faziam barulho. Provavelmente ele acreditava que aquilo era uma forma de intimidar sem usar violência física.

— Como você se chama? — o homem perguntou.

— Kouta, e você?

— Gaasp

— Gaasp? Sinto que já ouvi esse nome antes... espera, você?...

— Não temos tempo para isso — Gaasp falou, desesperado — preciso falar com Elora, agora.

— Ela não está — Kouta disse.

— Sabe onde posso encontrá-la?

— Não posso dizer, e mesmo que pudesse, não diria.

— Ah, vamos, por favor, é urgente. É questão de vida ou morte, ou melhor, de mortes — ele falou com mais desespero ainda.

— Me conte e então eu posso pensar em te dizer — Kouta falou enquanto olhava para os olhos do homem como um lobo olha pra presa.

— Olha, eu não tenho tempo. Você vai ter que confiar em mim. Eu sou o cholder de Anep — ele disse enquanto tentava se aproximar de Kouta.

— É mesmo? Que coincidência, eu sou Yashrok em pessoa... Espera, esqueça isso, eu nunca disse isso.

— Está bem, eu esqueço, mas você tem que me dizer onde está Elora.

— Você não ta me ajudando, Gaasp...

A porta se abriu com muita força. Lá estava Elora, a musa do bosque, com seus cabelos esverdeados que alternavam entre fios normais e plantas. Seu vestido longo estava rasgado e um filete de sangue descia de sua testa escorrendo em sua bochecha e depois no pescoço. Ela estava ofegante e um pouco de saliva escorria da lateral de sua boca; provavelmente os bandidos que ela foi caçar deram trabalho.

— Gaasp? — Elora perguntou depois de olhar espantada para o homem, lágrimas escorreram de seus olhos.

— Graças a Yashrok, você voltou — Gaasp correu em direção da musa e a abraçou com força. Ele a levantou no colo e girou, como os casais faziam após se encontrar depois de muito tempo. Kouta ficou paralisado, pois aquele era um lado de sua mestra que nunca havia sido revelado.

— Espera, vocês realmente se conhecem? — Kouta perguntou com um olhar confuso na face.

— Sim, eu disse que eu a conhecia, haha, chupa essa, otário — Gaasp comemorou de maneira infantil, assim como as crianças faziam após vencer uma pequena competição.

Elora olhou para o estado de sua sala e andou por ela enquanto pegava algumas coisas do chão e olhava de perto para analisar as manchas marrons de sangue velho. Ela também parecia confusa e desconfiada. Novamente seus olhos se voltaram para Kouta que agora sorria de nervoso.

— O que aconteceu aqui? — Ela perguntou com um pouco de fúria. As plantas que moravam entre seus cabelos começaram a se agitar.

— Eu... — Kouta tentou falar, mas foi interrompido por Gaasp.

— É tudo culpa minha. Eu entrei aqui quando estava ferido e acabei sujando suas coisas. Por sorte o seu aluno estava aqui para me ajudar e me deu uma poção que salvou minha vida; ironicamente ele tentou me matar depois — Gaasp fez um olhar cínico para Kouta que ficou nervoso, mas não retrucou.

— Que poção? — Elora perguntou apreensiva — eu não deixo nenhuma poção a vista... Ah, entendi — Ela se virou para Kouta que desviou o olhar — Então você mexeu nas minhas coisas?

Elora se aproximou agressivamente de Kouta que correu para o outro lado da sala. Ela o seguiu e ele se escondeu atrás de Gaasp que foi usado como escudo humano.

— Agora vem pedir minha ajuda depois de tudo? — Gaasp falou indignado.

— Eu não to pedindo, eu to forçando sua ajuda — Kouta falou enquanto girava Gaasp de acordo com a posição de sua mestra — Eu fui forçado a fazer isso. Ele ia morrer — ele gritou.

— Mas que poção você deu a ele? — Elora perguntou, furiosa.

— Uma verde meio vermelha que estava em um baú de madeira maciça — Kouta respondeu. Elora ficou mais furiosa ainda. Ela empurrou Gaasp para o lado e acertou um soco no estomago de Kouta que caiu ajoelhado no chão. Em seguida o segurou pela gola e o levantou até a altura de seus olhos que agora mudaram totalmente de cor.

— Aquela poção era a última feita pelas mãos de um deus pessoalmente, idiota, irresponsável, babaca — Kouta continuou sendo xingado por nomes que ele nem mesmo conhecia. Sua dignidade já não existia mais a aquela altura do campeonato e Gaasp tentava sair de fininho pela porta da frente.

— Você, parado aí — algumas plantas saíram por debaixo do vestido da musa e seguraram os braços e as pernas de Gaasp que se contorcia sem parar.

— Agora você tem pouco tempo de vida, Gaasp. Aquela poção foi feita por Melok a fim de tornar uma pessoa condenada a imortalidade terrena em mortal. Ela tem propriedades que nem mesmo eu cogitaria a existência — Elora falou em um tom sério — Ela te trouxe de volta através de um efeito colateral devido ao fato de você ser um mortal. Provavelmente você tem um ou dois anos de vida no máximo.

As plantas soltaram Gaasp que caiu imóvel no chão devido ao choque. Kouta ficou branco por causa do baque de ter matado um homem na esperança de salvá-lo. Elora também o soltou. O rapaz ficou de pé, mas com as pernas tremendo sem parar.

— Eu só queria o salvar... — Ele falou, gaguejando.

Elora fechou os olhos, suspirou fundo e sacudiu a cabeça em sinal de negação.

— O que está feito foi selado pelo tempo, não há como mudar. Gaasp pode tentar achar uma cura, mas pode ser que seja em vão. Em fim, são águas passadas — ela andou em direção a poltrona, a virou com ajuda de suas plantas e se assentou — vai demorar pra arrumar isso tudo; olha aquela janela quebrada...

— Elora! — Gaasp falou enquanto ainda olhava para o nada — a vila das flores foi completa destruída por nébulos.

Elora voltou ao seu estado de tensão anterior e ficou ereta na poltrona. Kouta olhou para aquela cena enquanto escorria na parede que ficava perto da janela e Gaasp se virou. Agora era possível ver seus olhos brilhando em um azul bem cintilante.

— Não sei o que aconteceu, mas a barreira que o penúltimo rei fez há setenta e cinco anos atrás está se desfazendo — Ele falou.

— Não, não é possível. A expectativa de vida dela era de pelo menos uns mil anos. Por qual motivo estaria se desfazendo assim?

— Existem duas possibilidades: A primeira é de que o cometa verde está próximo e a segunda é que alguém de dentro do palácio real descobriu a fórmula mágica da barreira e decidiu nos trair. Espera, tem uma terceira alternativa: As duas coisas podem estar acontecendo simultaneamente — Gaasp respondeu.

Kouta olhou para o teto na esperança de tentar amenizar a agonia que estava sentindo e pela primeira vez em anos notou que o lustre de metal tinha alguns rostos esculpidos e distribuídos aleatoriamente nele todo, provavelmente aquele objeto era trabalho de algum ser místico, pois a maioria das coisas daquela casa eram. Duas das três velas que ali estavam haviam se apagado por causa do poder que ele invocou ao dar a poção a Gaasp. A última chama lutava para sobreviver, mas provavelmente se apagaria em pouco tempo.

Ao ver isso, Kouta percebeu que foi ele que causou aquilo, ele que apagou a vela, ele que usou de seus poder para alterar a natureza, ele quem causou...

Algo veio a sua mente. Sua experiência anterior deu a ele uma idéia do que pode ter acontecido para que a barreira estivesse fraca.

— E se a pessoa do palácio provocou a vinda precoce do cometa? — ele perguntou sem esperança de que concordassem com ele.

— Não acho que é possível alguém alterar a natureza a esse ponto — Gaasp falou.

Elora não disse nada. Ela apenas arregalou os olhos enquanto segura o queixo com seus longos e belos dedos.

— É uma possibilidade... — ela falou.

— O que? Como alguém controlaria um cometa? — Gaasp perguntou com uma expressão de assombro e deboche.

— Ora, havia um rei nébulo há muito tempo que tinha esse tipo de poder, não é? Está escrito no Tamulack sagrado que ele era tão poderoso que a física se ajoelhava perante sua presença e por isso as coisas funcionavam a seu bel prazer. A neve de fogo foi criada por suas mãos e até hoje nenhum estudioso consegue a explicar com lógica por traz desse fenômeno — Elora falou.

— Sim, mas isso aconteceu a milhares de anos, quando era comum existirem pessoas tão poderosas que se compararmos com hoje, o que sobra é vergonha e humilhação — Gaasp disse.

— Olha quem fala, você é uma pessoa que foge totalmente da lógica humana. Você derrotou um dos chicotes de Amerehadanã e vive no tempo presente, não é? — Elora disse com indignação.

— Eu sou uma exceção.

— Exceção? Você e mais quantos são exceções? A sim, lembrei, você e mais uns quarenta. Se existe tantas exceções para o bem, quem garante que não existem para o mal?

Gaasp não tinha respostas, ele tentava argumentar, mas apenas gaguejava e se perdia em sua lógica. Kouta suspirou fundo e olhou para o lado de fora através da janela. Já era noite, pois as frutas das árvores começaram a brilhar e alguns animais haviam ido dormir. A situação la dentro foi tão tensa que ele nem ouviram os pássaros cantando em sincronia.

— Gente, já anoiteceu — Kouta falou com voz fraca e uma expressão de desesperança.

Gaasp se levantou, limpou a poeira de sua calça e também olhou para fora. Ele parecia meio angustiado e temeroso. Seus olhos brilharam ao verem as luzes noturnas do bosque e a energia superior que fluía dele estava mais calma.

— Eu tenho que ir. Preciso me preparar para procurar por uma cura. Acredito que a oráculo tenha uma sugestão — Gaasp falou.

— Espere! — Elora disse em alto tom — fique aqui essa noite. Se o que disse sobre os monstros for realmente verdade, então não será seguro zanzar por aí há essa hora. Além disso, irei partir para a capital amanhã de manhã. Podemos ir juntos já que você quer falar com a oráculo.

— Certo, parece justo — Gaasp falou.

Kouta estava andando de fininho até a parte de trás da casa quando foi parado por uma das plantas de Elora, assim como aconteceu com Gaasp.

— Não pense que escapará dessa, sua antinha. Você virá conosco e nem pense em fugir — Elora falou com um sorriso sádico no rosto, mas com voz de autoridade. Havia magia em suas palavras, mas o rapaz não conseguiu identificar usando a técnica de seu povo. A sutileza dos poderes de Elora era incrível.

— Mas... Mas eu não ia fugir... — Kouta falou com dificuldade, pois uma das plantas envolvia sua barriga e a apertava com força. Só estava indo dormir para ficar disposto para amnhã.

— Sei... Vou fingir que acredito enquanto você finge que me engana — Elora falou.

As plantas soltaram Kouta que se dirigiu resmungando até a área para poder pegar a escada e subir no sótão onde ficava o seu quarto. Gaasp dormiria perto dele, só que no chão, em um colchão feito de cipós que Elora providenciou. O cholder ficou um pouco perplexo por aquela casa não ter um quarto para os hóspedes, mas relevou, pois oferecer hospitalidade foi algo de bom tamanho para ele.

Aquela noite foi bastante conturbada, Kouta teve sonhos estranhos com árvores de fogo e até mesmo um vale feito de troncos e plantas secas. Algumas flores também apareceram, mas estavam todas murchas e sem vida. Por causa disso, o rapaz acordou assustado e teve dificuldade para dormir novamente; virou para o lado e para o outro na cama e nada. Quando viu que nada que fizesse adiantaria, jogou as cobertas para o lado e se levantou em um salto. Em seguida tateou as coisas do quarto até achar uma lamparina que foi acesa através de uma faísca que saiu da ponta de um dos seus dedos.

Quando procurou a saída do lugar, viu que a escada que antes estava guardada na parte de cima agora permanecia ajustada para descer ou subir. Quando percebeu isso, seus olhos foram diretos para a cama de Gaasp que agora estava vazia; provavelmente foi ele quem colocou a escada naquela posição para sair.

Kouta desceu devagar e com um pouco de dificuldade. Mesmo que a lamparina estivesse acesa, a parte de baixo onde a escada estava permanecia totalmente escura. Kouta procurou por outras lamparinas e quando achou as acendeu. Para a sua surpresa, Gaasp estava na janela observando a fauna. Ele olhava atentamente para as frutas luminosas enquanto descascava uma maça com uma faca pequena, negra e totalmente desenhada com runas vermelhas. Aquelas armas eram de altíssima qualidade, provavelmente foram feitas pelas mãos de algum ferreiro muito experiente de Anep ou Fênia.

— O que faz aqui há essa hora? — Kouta perguntou enquanto bocejava. Gaasp se espantou, mas se recompôs rapidamente para manter as aparências.

— Bom, estou esperando dar à hora de partirmos. Agora deve ser umas cinco e meia, eu acho. Estou querendo ver os pássaros cantando aquela canção novamente — Gaasp falou enquanto colocava um pedaço da maça na boca — aceita? — ele ofereceu um pedaço para Kouta.

Kouta pegou a e comeu. A fruta era extremamente doce. Sua textura dava um prazer enorme quando a pessoa a mastigava, provavelmente havia algum elemento espiritual alí.

— Tirei de uma das árvores — Gaasp falou com a boca cheia.

— O que? Essa é uma maça luminosa? Mestra Elora me disse que quem tentasse tirar uma da árvore morreria. Como você conseguiu?

— Há muitas coisas que os altos heróis de Anep precisam saber para não morrer. Nós passamos por treinamentos que nos ensinam coisas que você não aprenderia em qualquer lugar — Gaasp falou enquanto sorria.

— Então você é mesmo um cholder? — Kouta perguntou.

— Sim, eu sou. Acha mesmo que eu brincaria com uma coisa dessas? Se fosse mentira, eu poderia muito bem sofrer com consequências na próxima vida.

— Vocês são incríveis... Já ouvi histórias que me deixaram de queixo caído. Quem me dera chegar ao nível de um cholder um dia — Kouta falou com um brilho nos olhos.

— Ora, você pode! — Gaasp disse com convicção — daqui a alguns dias, em Anep, faremos provas para ver quem pode ser parte da minha nova equipe futuramente. Por que você não se inscreve?

— Ah, eu não sei. Acho que não tenho capacidade para isso. Além do mais, não acho que Elora vai ficar feliz se eu me apartar dela agora... — Kouta disse com uma voz tímida.

— Não seja idiota — Gaasp falou — Elora ficaria feliz se soubesse que você está querendo evoluir. Além do mais, eu percebi que você tem grande potencial, pois aguentou dar uma poção feita por um deus a outra pessoa.

— E isso foi bom? — Kouta perguntou, confuso.

— Sim, mas é claro. Elora disse que aquela coisa foi feita por Melok, o deus da morte e isso é algo grandioso, pois somente sacerdotes de alto nível podem usar esse tipo de coisa sem desmaia ou morrer — Gaasp falou com empolgação — converse com sua mestra, eu tenho certeza de que ela entenderá.

Kouta olhou para o cholder como se ele fosse ouro puro. Seus olhos brilhavam de felicidade e uma euforia repentina fez com que um arrepio passasse por suas costas e braços. Esperança era o sentimento que ele não tinha há muito tempo, mas agora tomava conta de seu corpo e alma.

Então o coro dos pássaros começou. A música estava totalmente diferente do normal. O vento do dia misturou se com o canto e vários papagaios se juntaram dando mais corpo e consistência a canção doce e bela. Um brilho diferente saiu das árvores, era como se um pó de ouro fino estivesse caindo das folhas e dos galhos enquanto as frutas luminosas faziam com que o contraste entre o amarelo e o azul natural do bosque se tornasse mais evidente; as folhas também se desprendiam em grande quantidade.

Aquilo fez Kouta arrepiar mais anda. Ele olhava para os lados na esperança de fazer seus olhos pararam de lacrimejar, mas era em vão, pois tudo estava belo na presença do espírito do bosque. Cada coisa daquela casa era parte daquele lugar; cada tábua, cada lustre, tudo foi retirado do solo ou das árvores que agora cantavam em alegria.

— Demos sorte de hoje ser o primeiro dia de outono, a canção sempre é diferente nessa data — uma voz feminina veio de trás de Gaasp e Kouta. Era Elora que estava parada os observando com um sorriso sutil no rosto. Ela estava vestida com suas roupas de viajem feitas com tecidos de alta qualidade que os aldeões das redondezas lhe davam de presente como forma de oferenda pela boa colheita. Elora era tratada como uma deusa por causa de suas ações em prol das pessoas, mas isso a incomodava, pois no passado muita gente se feriu por se esquecer dos verdadeiros deuses. Ela temia a fúria de Yashrok e por isso evitava se encontrar pessoalmente com essas pessoas. — vocês ainda não se aprontaram? — ela disse em um tom severo.

— É que estávamos admirando a beleza do bosque, mestra — Kouta falou.

— E também conversávamos sobre a possibilidade de Kouta fazer a prova para se um de meus assistentes — Gaasp falou.

Kouta só faltou o matar com os olhos. Ele planejava conversar sobre isso na hora certa, mas o cholder decidiu colocar o carro na frente dos bois.

— Oh, então você quer ser um aventureiro? — Elora perguntou, surpresa.

— Sim... Eu estava pensando em te contar mais tarde, pois tinha medo da resposta... — Kouta respondeu, envergonhado.

— Por que estava com medo? Você sabe muito bem que eu apoio esse tipo de decisão. Além do mais, se Gaasp te convidou, é porque ele viu algo em você que não pode ser desperdiçado.

Os olhos de Kouta se encheram de lágrima. Ele olhou para o lado e sorriu. A mestra parecia estar muito orgulhosa, provavelmente ela também sabia que ele estava preparado e que os anos de treinamento não foram em vão. Dês da época em que chegou naquele bosque, seu coração sempre ansiou por coisas maiores que elevassem o seu nível, pois treinava diariamente lutas corporais e a distância através do domínio da energia superior. Seu corpo tinha uma afinidade muito grande com o fogo fazendo com que seu foco na hora do estudo fosse sempre a piromancia pura e direta.

— Certo, eu vou me aprontar. É melhor você fazer o mesmo, Kouta. Está na hora de partirmos. — Gaasp disse enquanto se dirigia para o sótão. Kouta o seguiu com lentidão, pois o baque dos acontecimentos tinha o afetado bastante.

Depois de arrumar as mochilas com roupas, poções, livros e comida, Kouta desceu e tomou seu café da manhã. Gaasp deu mais algumas fatias de maça luminosa para que ele guardasse para mais tarde e Elora se mostrou assustada ao ver que o cholder havia conseguido pegar aquilo sem morrer. Ela mesma não comeu a fruta, pois ficou com medo das árvores se sentirem traídas quando retornasse para casa.

Quando estavam saindo, a porta da cabana se selou completamente com plantas cheias de espinhos e flores cuspidoras de veneno, assim como as que existiam em calabouços antigos de Nekobus. Elora era muito precavida, pois disse que há uns noventa anos atrás, um grupo de ladrões conhecidos como "Alvras" tentou invadir o lugar na esperança de encontrar os tesouros sagrados da rainha das drýs. Eles falharam antes de entrar no bosque, pois as árvores vigias os queimaram até os ossos; mesmo com essa segurança na entrada, a mestra não se sentia segura em deixar a casa sozinha e por isso deixaria as plantas mais mortíferas que existiam de vigia.

Eles caminharam pela trilha que passava por cima do riacho e em seguida seguia junto a ele. Aquelas águas eram consideradas sagradas, pois diziam que elas eram as principais fontes de vida daquele lugar. As abelhas vaga-lumes continuavam brilhando mesmo que o dia tivesse raiado. Elora dizia que elas falavam que o trabalho nunca poderia ser deixado para depois. Kouta não duvidava disso, pois a existência da mestra era fora do comum; ela sempre o surpreendia quando ele já achava que havia se acostumado com as maluquices de sua energia superior.

Eles continuaram por mais um tempo até chegar à saída do lugar. As árvores que tapavam a entrada se curvaram para a musa e providenciaram uma ponte feita de raízes e galhos para que todos passassem pelo rio que circundava o bosque e era alimentado pelo riacho que nascia perto da cabana.

A visão que tiveram era maravilhosa: a pradaria estava parcialmente amarelada e o sol batia nela dava um aspecto dourado e brilhante as plantas. O vento as balançava com delicadeza e alguns poucos animais como as vacas espinho se alimentavam com calma sem se preocupar com a presença deles ali. Kouta viu que havia sangue no chão; provavelmente era de Gaasp que se arrastou até chegar ao local seguro.

Eles olhavam para o céu limpo enquanto prosseguiam devagar. Elora fechou seus olhos, levantou sua cabeça e abriu seus braços para que as plantas passassem por eles enquanto ela andava. Os cipós que viviam por entre os cabelos dela pareciam se mexer; Kouta não sabia se aquilo era natural das dríades ou se era particular da mestra, no entanto, mais tarde, com certeza ele desenharia aquela cena em seu caderno de desenhos que trouxe consigo.

Depois de muito caminhar eles finalmente se viram no topo da encosta. Kouta pôde ver que la em baixo, perto de um rio, havia uma vila, ou o que sobrou dela, pois as casas haviam sido queimadas e os moradores massacrados. O sangue espalhado pelo chão era muito; por incrível que pareça não havia vísceras, mas isso não deixava a cena menos perturbadora.

Gaasp desceu correndo e com muito desespero, estava na cara que aquele era o que ele tentou defender antes de se ferir gravemente. Seus olhos corriam por cada corpo na esperança de achar os seus conhecidos vivos, mas nenhum deles estava entre os restos; provavelmente os nébulos os levaram para usar de alimento para mais tarde. Lágrimas escorreram pelo rosto do mestre que se ajoelhou e abaixou a cabeça como forma de luto. Elora ia se aproximar, mas hesitou, pois ficou constrangida.

— Como eu pude perder para aqueles monstros? — Gaasp falou — eles podiam ser muitos, mas eram criaturas fracas... A não ser por um...

— Havia um líder dentre eles? — Elora perguntou, preocupada.

— Sim, era um monstro extremamente alto feito de madeira e restos de plantas mortas. A sua cabeça era repleta de galhos que se pareciam chifres que davam um aspecto diabólico a ele. Lembro-me também que seus olhos brilhavam em verde e sua boca era escura e profunda. Sim, um sorriso maligno ele tinha; era como se zombasse de mim... — Gaasp disse com uma voz agoniada; ele ainda permanecia na mesma posição que antes — No início eu pensei que fosse um golem enviado por um bruxo, mas percebi que sua inteligência era muita se comparada à simples monstros feitos de pedra ou lama. Ele falava muito bem a nossa língua e era chamado de senhor pelos seus subordinados.

Os olhos de Elora quase saltaram para fora. Era visível o espanto em sua face. As plantas que moravam em sua cabeça começaram a se agitar e o fluxo de energia superior de seu corpo se desordenou completamente.

— Gaasp... — Elora falou, gaguejando.

O cholder se virou para olhá-la nos olhos e ambos ficaram em silêncio por um tempo. Aos poucos, o terror no rosto do herói foi ficando cada vez mais visível; era como se palavras amaldiçoadas tivessem sido mandadas em sua direção.

— Não, Elora, isso não é possível... Como uma criatura daquelas seria mandada para um lugar assim para atacar vilas pequenas? Será que não era um golem um pouco mais evoluído?

— E que golem fala fluentemente nossa língua? Já é um milagre eles pensarem por si próprios — Elora disse.

— Espera! Do que vocês estão falando? O que realmente é essa criatura? — Kouta gritou, desesperado.

Elora e Gaasp se espantaram com Kouta. Eles haviam esquecido que o rapaz estava no local e por isso se assustaram quando ele se manifestou.

— Não é nada... — a musa falou enquanto desviava o olhar — esqueça isso.

— Como é que é? Como assim eu...

— Não importa agora — Gaasp gritou — vamos enterrar esses corpos. Se não fizermos isso, eles apodrecerão mais rápido por causa do mal que ficou no ar e aí não conseguiremos dar um fim digno a eles.

Kouta vasculhou casa por casa a procura de uma pá para que as covas fossem feitas. O ritual de purificação que Elora estava preparando era o mais complexo e por causa disso eles só sairiam dali a tarde. Em uma das casas o rapaz viu em cima de um criado uma foto de uma família com uma enorme mancha de sangue em cima; nela havia um pai, uma mãe e duas crianças. Ele se segurou para não chorar.

A pá que tanto procurava estava nos fundos, perto do lugar onde os antigos moradores criavam seus animais que também haviam sido massacrados. A ferramenta estava meio enferrujada, mas dava para o gasto. Os corpos podiam ser muitos, mas com certeza eles dariam conta até o fim do dia.

Elora preparou um ritual com ervas, incensos e cipós perfumados que haviam sido tirados do bosque. Esse material foi todo moído junto a um pouco da água do rio que serviu de liga para eles. Depois ela pegou uma lâmpada e queimou a massa espalhando a fumaça enquanto andava pela vila; ela proferia orações tiradas do Tamulack simultaneamente com isso.

Kouta temia que os monstros voltassem, mas Gaasp o assegurou que isso era impossível, pois não tinha mais nada para eles fazerem ali. Depois de muito tempo, eles fizeram uma fogueira e acamparam perto dos arredores da vila.