Os Herdeiros da Alvorada

3 Capítulo II - A vontade dos cholders


Todos os soldados desceram dos cavalos. O brilho da lua e das estrelas refletia fortemente em suas armaduras, e o som que mais chamava a atenção era do caminhar da tropa. O general Colan, líder deles, seguia em frente enquanto a sua direita e esquerda andavam seus filhos, Badin e Ganan. Os arqueiros se esconderam no meio do mato para poder cuidar melhor da retaguarda e os soldados menores serviam para avisar aos maiores caso houvesse alguém os seguindo. Cerca de trinta minutos depois de seguir a trilha que subia um monte e passava por entre duas grandes pedras estreitas, os homens finalmente chegaram à cabana onde morava o boticário. Em frente a ela, perto do portão de entrada, havia muito fogo, provavelmente feito pelo monstro que agora estava sendo puxado e segurado por vários soldados que davam tudo de si para imobilizar a criatura usando cordas e correntes de ferro mergulhadas em mel.

A boca da besta era quase do tamanho de seu peito. No tórax havia quatro braços que iam até o chão e suas pernas eram as menores coisas de seu corpo; os pés tinham três dedos com uma unha roxa em cada. Muitos fluidos saiam de sua boca e um brilho perverso piscava em seus olhos. Um som que se parecia com uma risada foi emitido pelo monstro em alto tom e os homens gritaram, pois suas forças já estavam acabando.

— Ajudem ele, seus panacas! — o general gritou com os seus soldados. Metade deles, incluindo um de seus filhos, correram para socorrer os que já prendiam a criatura. Badin segurou uma corrente que um soldado caído antes segurava.

Colan andou lentamente em direção a cabana que em grande parte já havia queimado. Apesar disso, ele sabia que geralmente as pessoas que mexiam com a ciência da energia superior tinham porões em suas casas que ajudavam a preservar as pesquisas caso um imprevisto acontecesse. Claro que ninguém pensava na possibilidade de um monstro aparecer; esse tipo de precaução servia para caso houvesse um guerra ou então a casa desmoronasse, como aconteceu, só que sem ser por uma intervenção nébulica.

O general levantou algumas tábuas de madeira maciça e atravessou no meio delas com facilidade devido a sua grande força. Conta-se que ele era capaz de levantar uma grande rocha apenas com uma mão sem intervenção alguma de magia. Ele tirava os escombros como se não fosse nada e apagava o fogo apenas com o sopro. Muitos dos que viam aquilo ficavam surpresos e posteriormente contavam aos seus filhos e netos garantindo assim lendas e mitos a respeito daquele homem.

Colan achou um pequeno galpão de madeira que magicamente, ou milagrosamente, não havia queimado. Ele quebrou a tranca com apenas uma mão e em seguida o abriu. No início teve dificuldade para entrar devido ao tamanho de sua grande armadura que era irregular e exagerado, mas seguiu em frente mesmo assim, esbarrando nos objetos e fazendo muito barulho. Alguns homens foram atrás dele com tochas ou artifícios de fogo na mão, e outros iluminavam o caminho com pequenas lamparinas cheias de vaga-lumes do vale das flores. No final das escadas havia uma porta de madeira maciça pintada de roxo que foi brutalmente destruída pelo general com apenas dois socos. Os soldados entraram depois dele e rapidamente expandiram as luzes acendendo outras tochas, velas e lamparinas que estava nas paredes e em cima de mesas.

A cena era deveras macabra: havia muito sangue e restos de vísceras no chão e em alguns objetos. Na lateral estava uma mesa virada próxima a vários potes de vidro quebrados e a estante de livros foi totalmente derrubada e estraçalhada. No final da sala, desenhado na parede, havia um circulo feito de giz e pó de osso, provavelmente feito com bastante cuidado, pois haviam muitos detalhes com desenhos de runas nunca vistas por ninguém presente naquele local. Era possível que aquilo fosse a origem do monstro que estava la fora.

— Como a criatura saiu daqui de dentro sem destruir nada? — Colan murmurou para si mesmo. Ele parecia bastante perturbado e ansioso. — Pelo que eu pude ver, ela parecia ser dura como pedra... A saída está totalmente intacta, a não ser pelo estrago que eu fiz, é claro.

Ganan, que era especializado em portais e magia arcaica, se aproximou do estranho desenho para analisá-lo melhor. Ele percebeu que as gravuras batiam com os escritos antigos de arcdeuses e que provavelmente foi o boticário que fez aquilo. O pó de osso parecia ser de um ciclope por causa da cor levemente esverdeada. Os ciclopes eram extremamente raros, pois eram criaturas antigas que foram quase extintas por causa das guerras em que elas foram usadas. Conseguir materiais com base neles era algo muito trabalhoso e arriscado, pois envolvia viagens longas e sem garantia de sucesso.

— Isso é bastante rústico... A escrita parece com aquelas que foram feitas no início dos tempos. Eu pensei que isso era uma língua morta... Como diabos alguém poderia recuperar algo que nem os estudiosos conseguiram? — Ganan falou, assustado.

— Bruxaria, talvez... — um dos soldados falou.

— Tente não tocar nisso, meu senhor — um outro soldado que era servo pessoal de Ganan falou — se nem você sabe o que é, então pode haver alguma magia perigosa ou contagiosa nisso. É igual o Cannack falou: talvez seja bruxaria!

— É, tem razão, eu posso estar sendo precipitado — Ganan balbuciou — Mas tenho um palpite, só não posso provar o que estou prestes a dizer.

Todos os que estavam na sala fizeram silêncio. Eles pareciam tensos e temiam o que Ganan diria.

— O monstro lá fora é o boticário.

— O que? Como pode ter certeza? — o general gritou, desesperado.

— Veja o chão. Ele está cheio de sague, certo? E esse mesmo sangue está espalhado na escada e lá em cima, na portinhola. Acredito eu que ele foi amaldiçoado e quando percebeu que se transformaria, correu para fora, para não comprometer o laboratório. Seja o que for que ele estava mexendo aqui, acredito que era magia negra pesada. Sim, o boticário se tornou um ser das trevas, um filho de Nuhgham. Além disso, antigamente era muito comum que bruxos e feiticeiros se transformassem em monstros após ter muito contato com energia superior das trevas.

— É uma acusação gravíssima. Se ele quisesse, poderia nos levar perante o rei por isso.

— Sim, eu sei...

O silêncio voltou ao ambiente. A tensão parecia maior e o clima ficou pesado. Um soldado jovem de pele morena desceu correndo as escadas desesperado fazendo com que todos entrassem em estado de alerta. Ele estava ofegante e bastante suado.

— Senhores, o monstro está ficando maior — ele gritou enquanto se escorava na parede por causa da tremedeira em suas pernas.

— Vamos, Ganan! — o general disse em alto e bom som — vamos fatiá-lo.

O general e seu filho foram os primeiros a sair. Seus soldados os seguiram depois com um pouco de receio. Apesar de serem de elite, eles tinham muito medo do que aconteceria a seguir.

A criatura tinha não só crescido em tamanho, mas em número de braços e olhos também. Sua voz havia ficado mais grossa e sua pele endureceu a ponto de ganhar um aspecto que remetia a um cristal colorido e brilhante, alguns que o viram quase cometeram a blasfêmia de o comparar com a grandessíssima Benuh Hadah. Uma labareda de fogo azul saiu de sua boca e foi em direção ao general que a partiu ao meio com sua enorme espada negra com detalhes em roxo nas gravuras rúnicas e no cabo. Aquela arma foi feita pelos deuses ferreiros para equilibrar alguns aspectos da natureza e por isso seu poder era imenso.

Os soldados que estavam segurando o monstro o soltaram, pois as correntes começaram a arder como o fogo. Os cristais ganharam um aspecto vermelho vivo e o chão se rachou enquanto chamas saiam das fendas. O ar ficou extremamente quente e o fluxo de energia superior fortemente desordenado.

O general avançou e, quando alguns tentáculos estranhos saíram de dentro da boca da criatura, ele os cortou com eficiência e rapidez, girando de forma bela e graciosa, sorrindo enquanto completava o golpe. Apesar da armadura e a espada dele serem pesadas, seu desempenho parecia impecável. Ele lutava com tanta leveza que nem parecia sentir o peso de seu armamento, talvez por sua enorme força, ou afinidade com as armas.

Mais uma vez a criatura preparou suas labaredas, mas quando foi lançá-las, Badin, o mestre das cordas e correntes a prendeu novamente, só que agora os materiais de seus objetos de luta eram mais resistentes ao calor, provavelmente feitos de algum minério encontrado em Fênia, a capital do diamante.

Outros soldados avançaram também, mas foram todos incinerados. Ganan recuou por um segundo e depois correu para auxiliar seu pai e se irmão. Ele pegou seu arco e tentou acertar algumas flechas de sua aljava, mas todas ricochetearam por causa da pele dura da besta. Nem mesmo a espada roxa conseguiu cortar a criatura; a lâmina parecia que iria se partir mesmo sendo quase indestrutível. O monstro girou sua mão e mirou em um dos filhos do general, mas um soldado pulou na frente e defendeu com seu escudo que se partiu logo após; seu braço parecia ter se quebrado. Ele imediatamente foi levado para longe por outros homens que também estavam feridos, mas com menos gravidade.

— Badin, use as correntes imperecíveis! — o general gritou. Toda a tropa congelou — isso dará tempo para que o rei e os outros de Anep descubram um jeito de matar essa coisa, ou talvez a prender para sempre, não sei!

— Pai, esse poder tem um alto custo, minha vida ou a vida de alguém importante para mim, como o senhor ou meu irmão! — Badin gritou enquanto desviava dos ataques da criatura. Apesar de estar em choque, seus reflexos continuavam apurados.

— Use a minha vida, anda, não temos tempo! — o general gritou. — isso será algo decisivo!

— Mas pai...

— Silêncio! Obedeça as minhas ordens, mas não como um filho, e sim como um subordinado do general negro!

— Não...

— Anda logo!

Badin hesitou e por causa disso o monstro conseguiu atacar os guerreiros com outro seus enormes braços. Felizmente eles desviaram, pois o movimento do inimigo foi extremamente lento. Várias nuvens começaram a se reunir no céu tapando as estrelas e a lua. Trovões podiam ser ouvidos e relâmpagos eram vistos cada vez com mais frequência. Uma ventania forte impedia todos de se comunicarem, mas a voz do general era a única que podia ser ouvida, pois naquele momento, os espíritos dos antigos cholders torciam pelo sucesso da missão e para que isso acontecesse, a vida de Colan teria que ser tomada.

Badin criou coragem e pediu a permissão de seu pai, como era exigido no ritual, e depois disse as palavras rúnicas, que eram somente compartilhadas pelas pessoas da família através da tradição oral. Eis então que os olhos do general arderam em chamas e uma aura púrpura com vermelho saiu com intensidade de seu corpo; aquilo era sua energia vital queimando como madeira no fogo. O monstro pressentiu o perigo, mas não conseguiu se movimentar. Vários espíritos de luz desceram dos céus para ajudar o general; eles tinham o poder de deuses e queimavam tudo aquilo que tocavam, pois seus poderes eram puros e intocados pelo mal. Nem mesmo os soldados conseguiam olhar para eles.

As correntes imperecíveis serviam para transformar o monstro em pedra por três meses. Elas usavam a energia vital da pessoa como materia prima da pedra. A tradição dizia que esse mana era tão poderoso que Yashrok teve que entrar em hibernação quando o criou. Por isso era preciso dele todo para que o alvo estivesse completamente imóvel.

Um poderoso fogo saiu dos olhos de Colan e envolveu o monstro que tentou o apagar, mas como aquele poder era espiritual, nenhuma intervenção física podia Pará-lo.

O general caiu imóvel no chão agonizando sem parar enquanto a besta rugia de modo a deslocar uma enorme quantidade de ar. Badin também caiu e ficou inconsciente. Ele foi socorrido, mas ficou em coma por um bom tempo.

A notícia da morte do general negro se espalhou rapidamente por toda Anep. As pessoas temiam o fato de que uma das pessoas mais poderosas que serviam o rei havia sido morta por um monstro que a princípio nem parecia ser tão forte. A área onde ficava a casa do boticário foi cercada e contida. Guardas ficavam de vigia por vinte e quatro horas e a estátua que até pouco tempo era a besta estava amarrada e acorrentada no mesmo lugar onde tudo aconteceu.

Os boatos diziam que isso era o indício da chegada de Yashrok, pois um dos sinais de que o mundo estava acabando era o fato de que um dia muitos monstros não seriam mais contidos por espadas consideradas sagradas. O Tamulack, livro sagrado dos anepianos, era o que mais tinha informações a respeito disso. Os Fênios também acreditavam na mesma profecia, mas com alguns detalhes que diferenciavam devido a livre interpretação.

Kouta, Elora e Gaasp haviam chegado à capital há pouco tempo. Eles estranharam o clima e decidiram perguntar a respeito disso para uma senhora que limpava a janela de sua casa. Ela os contou tudo nos mínimos detalhes. O cholder estranhou o fato dela ter tantas informações específicas, mas deixou para lá, pois em tempos assim era comum que o rei atual contasse coisas que não eram necessárias para a população. Ele estava extremamente triste, pois o general era seu amigo de infância. Eles cresceram juntos e se tornaram fortes juntos; até o mesmo mestre os ensinou. Agora estava acabado. Sua vida se foi por causa de um idiota que decidiu abrir as portas cinza para que os espíritos nébulicos passassem.

Kouta não se lembrava que as casas eram tão bonitas na terra do rei. A grande maioria tinha dois andares e eram feitas de madeira de boa qualidade. As ruas eram cobertas por paralelepípedos grandes e cinzentos distribuídos de maneira igual e sem defeitos. Os impostos eram bem aplicados alí.

As nuvens estavam tão densas que o dia parecia noite devido à escuridão. Vez ou outra era possível ver alguns relâmpagos iluminando o céu ou raios caindo no horizonte.

— Precisamos ir ao templo de Yashrok, com certeza o rei estará lá, pois a cerimônia de despedida já deve estar acontecendo — Gaasp falou enquanto andava.

— Não seria melhor esperar a poeira abaixar? — Elora perguntou — ele deve estar passando por um momento difícil.

— Sim, mas você deveria se lembrar que Colan também era o meu amigo de infância e que por isso eu também deveria estar la para me despedir. Além disso, mesmo que esteja passando por um momento difícil, Adam ainda é o rei de Anep e por isso deve estar ciente de tudo o que está acontecendo, inclusive sobre o ataque perto de seu bosque.

— É, tem razão, mas isso não lhe dá motivo para agir sem pensar. Lembre se que eu é quem deveria contar sobre...

Então Elora percebeu o que estava acontecendo: Gaasp estava usando o pretexto de falar com o rei para poder ir ao funeral. Ele não estava sendo honesto com medo de parecer menos durão na frente da musa da floresta ou do garoto que sonhava em ser um cholder.

— É, tem razão, acho que deveríamos ir lá mesmo — Elora disse com um pequeno sorriso de compaixão no rosto. Ela olhou para o chão e se lembrou de seus tempos de mocidade quando a antiga rainha das dríades estava em seu leito de morte por ter lutado contra o general nébulo Maturam.

Eles caminharam até a cidade dos sacerdotes, que ficava dentro da capital, e se dirigiram ao monte Yashmarino, que ficava dentro da cidade. A enorme escadaria era feita de uma pedra muito cara muito usada para se construir templos e coisas sagradas. Eles subiram com dificuldade, pois haviam muitas pessoas que também estava indo para o local. A maioria delas eram nobres que moravam na ilha dos nobres, lugar onde ficava o palácio real Anepiano e a cidade dos nobres.

A subida foi muito difícil para o cholder. A impressão que ele tinha era de que o peso da tristeza estava interferindo nisso, ou talvez fosse o medo de ver o rosto de seu amigo morto e não suportar, ou possivelmente era a vergonha de não estar presente no dia de sua morte para salvá-lo. Os sentimentos eram variados. Elora percebeu isso, mas permaneceu em silêncio. Ela sabia que Gaasp era muito orgulhoso para conversar sobre coisas do tipo; ele era do tipo que escondia seus sentimentos por medo do julgamento alheio. De certa forma, Kouta também era um pouco assim, mas como a musa tinha uma convivência maior com ele, insistir nesse tipo de coisa era completamente mais fácil.

Então, quando os três estavam próximos aos portões dourados, Gaasp foi reconhecido por algumas pessoas que tentaram o cumprimentar, mas ele passou direto enquanto algumas faíscas poderosas de energia saiam descontroladamente de seu corpo; era como se sua frustração estivesse sendo jogada para fora em forma de eletricidade. Kouta olhou para a musa que o sorriu para ele para tentar amenizar o clima.

A igreja era extremamente grande e majestosa. Havia detalhes em ouro nas pedras das paredes e nas estátuas dos deuses que ficavam distribuídas igualmente na direita e na esquerda. No teto era possível ver uma pintura a respeito do dia da criação e os candelabros estavam acesos, mas o fogo que saia deles era roxo. Gaasp andou pelo tapete vermelho que ia dos portões até o altar, só que naquele dia, em frente ao altar estava o corpo de Colan em cima de uma pedra com flores coloridas em volta; havia tantas delas que o amontoado ia do chão até onde o herói estava depositado.

A cor do fogo das velas que iluminavam Colan era normal assim como as dos grandes e brilhantes lustres que ficavam dependurados no teto. Sua espada negra repousava virada com a lâmina para baixo e o cabo para cima em suas mãos; ele trajava uma armadura dourada, provavelmente a negra seria dada ao seu filho, assim como a espada que mais tarde seria separada dele pelos sacerdotes na hora do enterro.

Gaasp se esquivou de todas as pessoas de forma rude e grosseira, mas apesar disso, elas entenderam e deixaram-no quieto assim que falharam. A família real, que estava assentada perto do corpo, mas não tanto, viu que o cholder havia chegado e, assim como os outros nobres, tentaram se aproximar, mas foi em vão; nem para o rei ele deu bola.

Então o cholder parou em frente ao corpo, tirou suas roupas e ficou totalmente nu. Muitos taparam os olhos diante daquela cena. As princesas gritaram e os nobres xingaram palavrões. Kouta ficou em choque e Elora tapou os olhos. Ela não estava fazendo isso para não o ver, mas sim para tentar se esconder da vergonha. Pela primeira vez em toda a história as pessoas cogitaram que o nébulo da vergonha estava presente em um templo dos deuses.

— Mas o que é isso? Gaasp — o rei gritou enquanto tapava os olhos de uma de suas filhas.

— Você não se lembra, Adam? — Gaasp gritou enquanto lágrimas e mais lágrimas saiam de seus olhos e escorriam pelo seu rosto — Colan e eu fizemos uma promessa quando éramos jovens: No dia que um de nós morrer, o que estiver vivo irá nu ao funeral do outro — continuou — aqui está, Colan, cumpri minha promessa. Agora saibam que aqueles que tentarem me consolar levarão uma surra.

Ele pegou suas roupas e saiu andando para fora do templo. Ninguém considerou aquilo como desrespeito, pois o cholder tinha mais autoridade do que o sacerdote supremo de Guenaton; dizem que ele é a única figura na qual os reis e os sacerdotes se curvam. Elora e Kouta permaneceriam ali para dizer ao rei sobre o acontecido, pois mesmo não concordando em fazer isso naquele momento, a musa sabia que a urgência era maior e que Gaasp, mesmo tendo feito coisa errada, estava certo nesse ponto.

Elora passou por entre as pessoas que a olhava com surpresa e admiração. A ninfa exilada que se escondeu em um bosque estava ali, na frente deles. Kouta a seguiu pelo mesmo caminho que Gaasp fez, só que ao invés de parar em frente ao morto, eles viraram a esquerda, bem onde a família real estava agrupada.

O rei estava na cadeira maior. Era como um trono, mas leve o suficiente para tirar dali caso fosse necessário. A sua esquerda estava à rainha Alaíla, que também era a rainha das fadas da luz e imperatriz de Állf. Em sua cabeça havia uma tiara de prata com detalhes em ouro e pedras roxas, que contrapunham seus longos cabelos dourados. Seus olhos eram como esmeraldas e seus lábios como pétalas de rosa. Ela usava um vestido negro cheio de detalhes nas bordas e quadris.

A princípio, Kouta não notou a princesa Lucy, que estava à direita do soberano, mas quando percebeu, ficou na dúvida de quem era a mais bela: a filha ou a mãe. Elas eram parecidas, mas a única diferença estava em seus olhos que se pareciam com safiras, assim como os do pai. Seus irmãos e irmãs não chamavam tanto a atenção a não ser a mais velha que tinha olhos amendoados e um sorriso cortante. Ela parecia ser um pouco assustadora, talvez fosse pelo fato de que todas as suas habilidades eram voltadas para tortura, ou seja, ela destruía o espírito do nébulo antes de matá-lo. Alguns sacerdotes diziam que quem escolhia esse caminho ficaria marcado pelo resto da vida, mas não só na aparência, mas em seu fluxo de energia superior.

— Vossa majestade! — Elora disse enquanto se ajoelhava — sei que agora não é um momento propício, mas por favor, escute meu aviso!

O rei parecia bastante aéreo e alheio ao que os outros falavam, ele também demorava a responder e cheirava a vinho; talvez tenha passado a noite bebendo após saber da morte do amigo.

— A musa do bosque saiu de sua casa? É, os tempos estão mudados mesmo. Primeiro nós nos deparamos com um nébulo que não é cortado pela espada negra e segundo que nós vemos uma ex-rainha que abandonou o reino fugindo de seu esconderijo... — o rei falou com um pouco de desdém. Ele estava com os olhos fixados no corpo de Colan.

— Meu senhor, eu sei que fiz coisas das quais não me orgulho, mas o que digo é urgente: estamos sob a mira dos generais nébulicos de Nuhmgham — ela disse, desesperada — um deles veio a mim, perto de meu bosque, provavelmente estava vigiando-me.

— E o que temos haver com isso? — o rei perguntou, no automático. Sua família arregalou os olhos para ele com uma expressão de assombro; eles não podiam acreditar que ele não estava vendo gravidade naquilo.

— O que vocês têm haver? Não acredito que não estais escutando as próprias palavras proferidas por sua boca e nem pela minha! Irei repetir: Um general nébulo está em Anep — ela gritou.

Todos no salão pararam suas conversas e olharam em direção a ela. A maioria não acreditou no que ouviu e outros não entenderam o que estava acontecendo. O rei finalmente despertou por causa do grito da mulher e arregalou os olhos, expantado.

— Espera! um general? Você quer dizer que há um general nébulo aqui? — ele perguntou, mas também gritando. A catedral era feita pensando em vários problemas acústicos e sua estrutura facilitava que uma voz ecoasse por todas as partes. Quando alguém gritava, o som espalhava com mais intensidade e força do que o normal.

— Sim, meu senhor, mas peço que permaneça calmo, pois isso é algo extremamente grave e muitas pessoas que estão aqui e não precisavam saber ainda terão ciência disso — Elora falou enquanto olhava timidamente para os lados.

— Ah, me perdoe. Eu estou um pouco mal. Acredito sim que não é hora para falarmos disso, mas se o que dizes é verdade, então temos que tomar o triplo de cuidado nesse momento. Eu acho que...

No momento em que falavam, as pessoas pararam de repente. Elas olharam para a porta e viram que Ganan caminhava em direção ao altar de forma rude e sem jeito, pois provavelmente estava bêbado. O rei se alegrou ao vê-lo, mas isso não foi recíproco, pois o rapaz nem o notou. Assim como Gaasp fez, ele parou diante do corpo de seu pai e o observou, só que em silêncio, sem fazer nada alarmante. Depois olhou para Elora e em sequência para Kouta, o rei, Lucy a rainha e o resto da família real. Um sorriso bobo apareceu em sua face, mas não era de deboche ou alegria, mas sim algo forçado para parecer que ele estava bem, como se no fundo ele pedisse ajuda.

— Ganan... — o rei começou a falar, mas em seguida permaneceu em silêncio. Lucy parecia chateada e seus olhos se enchiam de lágrimas. Primeiramente ela tapou sua boca com delicadeza, mas depois andou até o rapaz, colocou as mãos em seus ombros e colocou sua testa na testa dele; ambos choraram em sintonia.

Kouta se sentiu um pouco incomodado. Ele nunca havia tido contato com a princesa, mas a partir do momento em que a viu pela primeira vez, algo cresceu em seu coração, algo quente e forte, mas oculto nas névoas da dúvida e do desconhecimento. Elora parecia estar muito angustiada, seus olhos estavam levemente marejados e sua voz de vês enquanto vacilava. O rei percebeu seu desespero e atendeu ao seu pedido de conversar em particular, sem que ninguém os atrapalhasse. Kouta ficou sozinho com a família real e Ganan, que ainda estava junto a princesa que o tentava consolar. Ele decidiu então se dirigir até a saída da igreja para tomar um ar.

Do lado de fora estavam muitos guerreiros famosos e aventureiros que muitos consideravam como pessoas do tempo, viajantes livres que rodavam o mundo fazendo o bem ou o mal dependendo da índole. A direita do portão, perto de uns arbustos que cresciam para fora do jardim, estava um pequeno trio de guerreiros que conversavam entre si a respeito de Gaasp e o seu teste para auxiliar do cholder.

Kouta se interessou e aos poucos se aproximou para poder saber se eles estavam abertos a conversa. Eles comentavam sobre a prova e que haviam muitos guerreiros de sangue Anepiano vindo de vários lugares do mundo para poder participar do evento que decidiria o destino da vida de muitas pessoas que viviam naquela época.

O trio era composto por uma garota de cabelos levemente verdes água e uma armadura de cor verde grama. Em sua cintura estava uma espada curva, daquelas feitas pelo pessoal do sudeste, com o cabo também com uma tonalidade parecida com sua armadura; sua aparência era bem excêntrica e chamava a atenção. Ela estava virada de costas para Kouta e conversava com os braços cruzados.

Em sua frente, na sua direita, estava um homem alto de cabelos longos, brancos e amarrados em um rabo de cavalo bem feito. Ele era magro e usava uma armadura cinza de alta qualidade, provavelmente feita em Jahlasuh. Em suas costas havia uma longa lança meio marrom feita de bronze e em suas orelhas brincos em forma de argolas pequenos e feitos de prata.

E a sua esquerda estava um garoto baixo, loiro, com olhos amarelados e orelhas de raposa. Ele também tinha uma cauda grande e fofa, mas ao contrário de seus amigos não carregava arma alguma.

— Eh, desculpe-me por intrometer, mas eu ouvi vocês falando sobre a prova do cholder e não consegui deixar de perguntar: como faço para me inscrever? — Kouta perguntou, vencendo a timidez.

Os três viraram simultaneamente para o rapaz. Eles pareciam surpresos, mas sorriram com gentileza e disseram para Kouta se aproximar mais com um sinal de mão.

— Como se chama? — o homem grande perguntou.

— Kouta Leãodourado, senhor — Kouta respondeu.

— Não precisa me chamar de senhor, afinal, temos quase a mesma idade. — o homem falou, sorrindo.

Era surpreendente que aquele guerreiro tivesse tão pouca idade. Para Kouta, sua aparência denunciava que ele tinha quase quarenta.

— É um prazer conhece-lo, Kouta. Me chamo Raaph. Esse baixinho aqui é o Noop e essa garota mal humorada é a Jasmine — ele disse — quanto a prova de Gaasp, imagino que ele tenha falado pessoalmente com você, pois vimos que vocês chegaram juntos, mas estranho o fato de ele não ter dado muitos detalhes.

— É que ele estava muito abalado, acredito eu — Kouta falou — mas pode não ser isso, pois viajamos por um tempo, e se ele quisesse me dar detalhes, já teria dado.

— É, mas seja como for, lhe falaremos o que sabemos. Você pode se inscrever para a prova la na guilda boa pinga, que fica próxima da ponte do trevo, aqui perto. Chegue até a recepcionista e ela te dirá o que fazer e o dia da avaliação. Qualquer dúvida não hesite em perguntar a ela.

— Hm, certo, muito obrigado mesmo — Kouta disse.

— Ah, é, só mais uma coisa — Raaph disse — ela te cobrará uma taxa, não se esqueça disso.

Kouta não se preocupou, pois tinha muito dinheiro que havia juntado indo para algumas missões de saque de tumbas com Elora. Ele agradeceu mais uma vez aos guerreiros e entrou na igreja para ver se a mestra já havia terminado a conversa. Ele a viu assentada em uma das cadeiras, la na frente, na primeira fileira. Ela estava quieta e parecia triste.

Kouta se aproximou e ela percebeu, mas não se virou, pois provavelmente não tinha forças emocionais.

— Deu certo? — Kouta perguntou.

— Sim e não. O rei não acredita na nossa hipótese de que alguém no palácio possa estar controlando o cometa. Mas acho que ele tem razão, isso não tem muita base— Elora sorriu.

— Ah é, verdade. Eu encontrei com alguns guerreiros la fora e eles me disseram como me inscrever para a prova dee Gaasp — Kouta falou, empolgado.

Elora abriu um enorme sorriso. As plantas em sua cabeça se agitaram levemente e seus olhos brilharam.

— Então é melhor você ir, mas depois do enterro, pois acredito que a guilda não estará aberta agora — ela disse.

— Espera, você sabia o tempo todo o que eu tinha que fazer? Por que não me disse?

— Fiz isso para que você aprenda a se virar, cabeção — ela falou dando um pequeno soco no ombro do rapaz — tenho certeza de que conquistará muitas coisas a partir de agora. Mas por hora fique aqui, vamos homenagear esse homem que se sacrificou pelo bem comum Anepiano.

Kouta se assentou no banco perto de Elora e começou a olhar os detalhes da igreja, que eram lindos e arcaicos. Os sacerdotes saíram de uma sala que ficava perto do altar e seguiram, um a um, do maior deles na hierarquia para o menor. O sacerdote supremo era quem lideraria a cerimônia, pois era ele quem fazia esse tipo de coisa quando alguém com o gabarito de Colan morria. Ele foi para trás do altar e começou a cerimônia.