Os Heróis de Roma [HDR]
5 Não está na hora de matar príncipes.
Aquele lugar me dava arrepios, era estranho, parecia ter vida própria. O som dos morcegos era claramente audível, eram muitos, e pareciam grunhir em uma única frequência. Nos aproximamos cautelosamente, Demetria tirou uma lanterna de sua mochila e a ligou. Era como se fosse um corredor sem fim, não era possível deduzir o que havia depois que a luz ficava mais fraca. Nas paredes haviam tochas, um caminho de tochas e eu não conseguia deduzir se aquilo era algo bom ou algo ruim.
— Olhem pelo chão, o teto, pode ter alguma armadilha, precisamos ver além do que ninguém conseguiu ver.
Ambos assentiram e quando ela virou a lanterna par a direita, pude observar diversas passagens, portas, com uma descida que ninguém sabia onde poderia dar.
— Uni, duni tê, o escolhido foi você. — Leo, apontou para a terceira porta da esquerda para a direita e começou a seguir em sua direção.
— Tu é tapado oh infeliz?! — Ela falou baixo, mas isso não fez com que alguns morcegos se espantassem.
— Ela tá certa, cara. — Me abaixei e pedi para que ela virasse a lanterna para mim, poderia ter alguma pedrinha lá. — Se aqui tiver alguma pedra, podemos jogar e assim ter uma ideia da profundidade e do que pode ter lá em baixo. Não quero caminhar para a morte.
— É, podemos fazer desse jeito também.
Ele resmungou e no momento em que concluiu a frase, uma mão gigante passou pelo corredor, o segurando e o empurrando dez metros para trás. Ela tinha um aspecto gelado, tanto que algumas partes do meu cabelo e do meu braço se congelaram de leve, assim como nos de Demetria.
— Mas que porra foi essa?! — Ela virou a lanterna e assim pudemos ver o corpo do filho de Mercúrio completamente congelado. — Impressão minha ou ele ficou mais atraente congelado? Poderíamos deixar ele assim para sempre.
Por um momento eu realmente acreditei que ela estava cogitando naquela ideia. — Claro que não, não podemos deixa-lo aqui. — Respirei fundo, me agachando e fazendo um sinal com as mãos, era como uma espécie de mania, eu conseguia pensar melhor daquele jeito. — Se deixarmos ele muito tempo assim, ele vai entrar em estado hipotérmico, ter alguns órgãos comprometidos, morrer... Você não consegue, sei lá... dobrar essa água?
Algo sobre a Demetria é que, pode parecer um pouco com aquele desenho: Avatar, a lenda de Aang, mas a Dem é de uma família de dobradores de água, e ela tem muita habilidade em fazer isso.
— Aquele gelo, não consigo, está muito espesso.
— Mas se combinarmos fogo com água, podemos ter alguma chance.
— Mas se deixarmos ele aí, será tudo mais fácil. — Deu de ombros.
— Não podemos deixar ele aqui sozinho, é errado, é nosso amigo.
Ela parecia contrariada, mas mesmo assim concordou comigo. Nos aproximamos de Leo, cautelosamente, qualquer passo em falso poderia ativar outra armadilha e iriamos perder mais tempo com isso.
— Eu vou ir derretendo o gelo e você vai dobrando a água, pra poder ser mais rápido.
Ela assentiu. Respirei fundo e toquei o gelo com a palma da mão. Aquele choque térmico fez meus pelos arrepiarem, gelo e fogo, duas coisas que foram feitas para não darem certo. Me concentrei ali, minha mãos ficaram alaranjadas e aos poucos era possível ver a fumaça subir junto com a água sendo retirada e jogada no chão.
— Fica calmo Hian, a última coisa que eu quero é ter que controlar o homem chamas aqui.
Rolei os olhos e aos poucos fui diminuindo a intensidade do fogo, ele poderia se queimar e ter um choque térmico maior.
— Ele vai melhorar aos poucos. Me ajuda a carregar ele. — Coloquei um dos braços por cima do meu ombro enquanto Demetria fazia a mesma coisa.
— Como ele ativou essa armadilha? Ele estava conosco o tempo todo...
— Ele é pé frio, Hian.
Concordei, essa era a única explicação plausível que existia.
Ignoramos as portas, pelo o que parecia, se a mão veio do centro, deve ser porque é lá é a saída, essas passagens provavelmente são apenas armadilhas. Mas por via das duvidas... Tirei uma das moscas mecânicas do bolso e dei a ordem para que ela espionassem as passagens.
— O que é isso?
— Foi algo que eu construí quando estive com o velho maluco, o Karin, são moscas de espionagem. O barato delas, é que eu posso enxergar o que elas veem.
— Como? Você nem está lá com elas.
— Eu tenho um olho robótico... longa história, coisa da minha mãe, digamos que era um olho mecânico ou ficar cego.
Ela me olhou com uma cara de: você é estranho, mas eu entendo.
Pelo o que parecia havíamos chegado no nada, duas janelas imensas protegidas por longos cabos de metal com pontas, uma porta no mesmo modelo e o grunhir junto com um bafo de algo que comeu algo podre.
— Deve ser o monstro da mão de gelo. — Ela murmurou.
— Dificil... o ambiente nem está gelado.
Olhei para Leo, a feição ainda era de susto, parece que aquela coisa era mais feia do que eu imaginava.
O chão começou a tremer, o ruim dali, era que não havia nenhum lugar para poder se esconder. O gigante passou ao lado da janela e sua feição não era amigável.
— Temos que dar um jeito de sair daqui e parece que a única maneira é passando por essa porta, eu acho que vamos ter que enfrentar ele.
— Vamos ou esperamos a Rainha da Inglaterra aqui sair do susto?
— Não sou rainha da Inglaterra, eu apenas estava fingindo, queria que vocês me carregassem.
Ela ficou vermelha, os narizes soltavam fumaça. Rapidamente a segurei pelos ombros.
— Se acalma okay? Não está na hora de matar príncipes.
— Não está na... hora de ... matar príncipes? — Ambos falaram em uníssono.
— Isso, não está na hora, se quisermos sair daqui, precisamos trabalhar em equipe. Leo, como você é mais rápido e acabou de irritar a Demetria, você vai ser nossa isca, considere como uma punição. — De repente ela parecia satisfeita... deuses. — Essa porta pelo o que parece, abre apenas por dentro, isso significa que para passarmos, vamos ter que atrair o gigante para lá.
Leo assentiu.
— Quando ele vier, temos duas hipóteses do que pode acontecer: ou conseguimos correr mais rápido do que ele, já que ele é grande e lento, podemos passar por debaixo das pernas ou dribá-lo. E a segunda hipótese é que durante a corrida, ele consiga de alguma forma pegar um de nós, então já precisamos ficar preparados.
Foquei meu olho mecânico na janela, ela tinha mais ou menos seis metros de altura, as moscas que eu havia feito poderiam se autodestruir e essa pareceu uma ótima oportunidade pra usá-las. Dei o comando para que elas voassem em pontos estratégicos, pontos esses que ficariam o rosto do gigante.
— O Leo vai pela frente, Demetria pela ala direita e eu pela ala esquerda. Não vamos deixar ninguém para trás. — Olhei para Dem. — E vamos fazer isso como uma equipe.
Ambos assentiram e Leo partiu para o ataque. Quando o gigante o observou, rapidamente as barras da porta se levantaram fazendo um leve tremor no local. Leo começou a driblar o gigante. E eu e Demetria fomos correndo logo atrás.
— O seu gigante, te jogo na cama, te boto de quatro, te lasco a banana que cara cê faz?
— Deuses, não acredito nisso. — Murmurei. — Leo, anda logo!
Tudo iria sair conforme o plano, se não fosse por um motivo. O Leo inventou de dar uma sarrada, isso mesmo, uma sarrada, ele deu uma sarrada no gigante.
— DEVERIAMOS TER DEIXADO ELE CONGELADO!
Naquele exato momento o gigante o pegou e o levou em direção ao rosto.
— Garoto, você é muito tapado, espero que seu gosto seja bom.
— Precisamos...
— Uh, eu já sei.
Avancei, desembainhando a espada, se eu falasse para as moscas explodirem, iriam machucar o Leo... putz. Corri na direção deles, com Dem na minha cola, ela indo pela lateral direita e eu pela esquerda. Meu corpo estava começando a pegar fogo, era questão de segundos para que eu entrasse em combustão total.
Ela arrancou o colar de tridente do pescoço e este se transformou em um tridente. Ela corria rapidamente e usou o cabo da arma para se apoiar e ficar no ar. Nesse momento, firmei meu pé em uma pedra alta que havia ali, pegando impulso e usando o fogo para me fazer levitar no ar. Dei uma piscadinha para ela, esperava que ela entendesse.
— VOCÊ ESTÁ DANDO EM CIMA DE MIM? AGORA?!
Ela não entendeu, pensei. Enquanto o corpo dela fazia uma curva para a esquerda, passei entre ela fazendo uma curva para o lado oposto, assim nos corpos iriam fazendo o desenho de um oito. Segurei firmemente o cabo da espada, fazendo a lamina entrar em combustão, não tão alta ao ponto do aço derreter, claro. Ela fincou rapidamente o tridente na mão do gigante e enquanto a outra vinha para dar um tapa nela, Leo aproveitou o momento em que ele se soltou e girou o corpo em trezentos e sessenta graus na horizontal e lançou as duas adagas uma atingindo certeiramente a unha do polegar e a outra fincando no centro da mão. E eu, aproveitando que a guarda dele estava baixa, enfiei a espada em combustão no olho dele, dando um mortal no ar — com ajuda do fogo — e retirei a espada, ficando de cabeça para baixo no ar atrás do gigante e lançando a espada certeiramente na nuca dele.
O corpo do gigante se desintegrou. As adagas caíram, o tridente caiu e a espada também, todas juntas no monte de cinzas que havia se formado. Bom, meu voo não era tão bom, e eu acabei por cair no chão me ralando assim como os outros. Dem havia pequenos ferimentos nos braços, Leo estava com o braço esquerdo ralado do antebraço até o cotovelo e havia fraturado uma costela. E eu? Bom, partes do meu braço estavam chamuscadas, e sua extensão estava em carne viva, mas apesar disso, eu estava bem, ainda precisava me acostumar com isso.
— Droga! Precisamos sair daqui logo, você aguenta correr? — Leo assentiu e aproximou-se das cinzas do gigante. — #PedeieSai.
— Ele não tem jeito. — Demetria falou e eu assenti.
Passamos pelo portão, eu sentia que o fim estava próximo, mas aquela caverna era muito estranha para o fim estar tão próximo.
Fale com o autor