Os Garotos Feitos de Aço e Poesia
4 Capítulo 4 — Não vou a lugar algum
Os dias passaram devagar, mas nunca em silêncio.
Mesmo longe fisicamente, Leo e Eduardo se falavam todos os dias. Às vezes por mensagem, às vezes por longas ligações à noite ou chamadas rápidas no meio da rotina, só para ouvir a voz um do outro e confirmar que o que sentiam ainda estava ali. Não era exatamente uma pausa, era mais um fôlego.
Quando Leo voltou para o apartamento de Eduardo, numa noite nublada, mal teve tempo de largar a mochila no chão.
Eduardo abriu a porta e puxou Leo para perto sem dizer nada, beijando-o com pressa, como se tivesse passado tempo demais se segurando. Leo riu contra a boca dele, correspondendo, as mãos já encontrando o caminho familiar pela camisa de Eduardo.
— Oi pra você também — Leo murmurou, quando finalmente se separaram.
— Você demorou — Eduardo respondeu, roçando o nariz no rosto dele.
O cheiro de comida vindo da cozinha fez o estômago de Leo roncar alto.
— Meu Deus — ele disse, rindo. — Você cozinhou?
Eduardo fez que sim, puxando-o pela mão.
— Espero que esteja com fome.
— Morrendo de fome — Leo respondeu, sincero.
Jantaram juntos, sentados à mesa pequena da cozinha, conversando sobre coisas bobas: um cliente chato, uma reunião cancelada, uma música nova que Leo tinha descoberto. Era confortável daquele jeito simples, quase doméstico.
Depois, ficaram jogados no sofá, Leo com a cabeça apoiada no peito de Eduardo, ouvindo o ritmo tranquilo da respiração dele.
Foi ali, no meio daquele silêncio bom, que Leo falou:
— Posso te perguntar uma coisa? — disse, meio hesitante.
Eduardo abaixou os olhos para ele, curioso.
— Claro.
Leo respirou fundo.
— Você… ainda fala com seus pais?
Eduardo demorou um pouco para responder. Não parecia pego de surpresa, mas sim como se estivesse escolhendo as palavras certas.
— Muito raramente — disse, por fim. — Com meu pai, só quando preciso tomar alguma decisão muito drástica na empresa. Fora isso, não.
— E sua mãe? — Leo perguntou, baixo.
— Quase nunca também.
Leo se virou um pouco para encará-lo.
— Eles moram aonde?
— Aqui em Curitiba mesmo.
A resposta veio simples demais para o impacto que causou.
— Aqui? — Leo repetiu, surpreso. — Na mesma cidade?
Eduardo assentiu.
Leo ficou em silêncio.
Era estranho pensar nisso. Sua família, mesmo com todos os defeitos, estavam sempre presentes de algum jeito. Telefonemas frequentes, perguntas demais. Às vezes irritava, mas nunca faltava contato.
Com Eduardo, era o oposto.
Leo pensou naquele apartamento grande, elegante, silencioso. Pensou em Eduardo chegando do trabalho e não tendo ninguém que perguntasse como tinha sido seu dia. Pensou em como ele tinha construído tudo, carreira, casa, vida, e em como aquilo devia ter custado mais do que ele deixava transparecer.
— Eles nunca vêm aqui? — Leo perguntou, com cuidado.
Eduardo deu de ombros.
— Não. Nem eu vou lá.
Leo assentiu devagar, sentindo algo apertar no peito.
Ele nunca tinha tido aquilo: distância emocional vista com normalidade. Nunca tinha precisado ser adulto cedo demais por falta de acolhimento. E, de repente, entendeu um pouco melhor certas durezas de Eduardo. Certas tentativas de controle que nasciam mais do medo do que da arrogância.
Sem dizer nada, Leo se aninhou mais, passando o braço pela cintura dele.
Eduardo aceitou o gesto sem comentar, apenas apoiando o queixo no topo da cabeça de Leo.
E, pela primeira vez desde que voltou, Leo pensou que talvez Eduardo tivesse passado tempo demais sozinho naquele lugar.
◄☼►
O tempo voou, e a vida parecia ganhar um ritmo diferente, mais leve, desde que Leo e Eduardo haviam aprendido a navegar juntos pelas complexidades de suas próprias emoções. A ideia da viagem à Islândia surgiu quase como um capricho, uma fuga do cotidiano que se transformou em um plano concreto.
Leo mal podia conter a empolgação.
A neve, as paisagens de outro mundo, tudo o atraía de uma forma inexplicável.
Quando o avião pousou em Reykjavík, um frio cortante os recebeu, mas o entusiasmo de Leo era mais forte que qualquer temperatura baixa. Eles exploraram gêiseres borbulhantes, cachoeiras congeladas e praias de areia preta, com Leo tirando fotos a cada passo, maravilhado com a beleza selvagem do lugar. Eduardo observava o brilho nos olhos de Leo, feliz por vê-lo tão completamente entregue àquele cenário.
Em um dos dias, enquanto caminhavam por uma trilha coberta de neve, Leo parou de repente, virou-se para Eduardo com um sorriso largo e atirou uma bola de neve em seu rosto. Eduardo gargalhou, revidando, e logo estavam em uma guerra de bolas de neve improvisada, agindo como crianças em meio à paisagem grandiosa.
Na primeira noite no hotel, depois de um dia exaustivo explorando, eles estavam cansados, mas a conexão entre eles era palpável. O calor do quarto contrastava com o frio lá fora, criando um ambiente aconchegante. No entanto, em vez de se despir completamente, eles se beijaram com a urgência de quem esteve separado por muito tempo. As roupas de frio, os casacos e as blusas permaneciam, aquecendo seus corpos enquanto as mãos de Eduardo deslizavam sob a camisa de Leo, encontrando a pele quente por baixo.
No colchão, Leo se virou de costas para Eduardo quase instintivamente, sentindo o corpo dele se aproximar por trás. Havia algo de profundamente confortável naquela posição: a confiança silenciosa, a entrega sem alarde.
Leo sentiu o peso do corpo de Eduardo sobre o seu, uma âncora familiar e segura. Apenas o necessário foi afastado; as partes íntimas descobertas encontrando o contraste do ar do quarto com o calor febril de seus corpos. Leo fechou os olhos, enterrando o rosto no travesseiro, enquanto sentia as mãos de Eduardo, firmes, possessivas, prendendo seus quadris.
Ali, naquele momento, Leo se deixou levar completamente. Ele permitiu que Eduardo o dominasse, ditando o ritmo, a força e a profundidade de cada movimento. E Eduardo conduzia os movimentos com calma, firme, atento a cada reação mínima de Leo.
Havia um entendimento silencioso que pairava sobre eles há meses, algo que Leo raramente admitia para si mesmo e nunca em voz alta: a dinâmica entre eles tinha um encaixe perfeito.
Embora fossem versáteis e a troca de papéis acontecesse com frequência, havia uma preferência latente que os guiava de volta àquela dinâmica. Leo amava a sensação de ser "tomado". Ele adorava o modo como Eduardo o reivindicava, como se cada toque fosse uma afirmação de que ele pertencia àquele momento, àquele homem. Ser o objeto do desejo focado e quase voraz de Eduardo o fazia se sentir vivo.
Eduardo, por sua vez, parecia encontrar sua paz naquele domínio. Ter o corpo de Leo sob o seu, sentir a rendição dele em cada suspiro abafado pelo travesseiro, alimentava uma necessidade de proteção e posse que, com Leo, não era tóxica, mas sim uma forma profunda de entrega.
Às vezes, eles mudavam. Leo assumia o controle, Eduardo se entregava, e a experiência era igualmente maravilhosa, cheia de novas descobertas. Mas ali, sob a luz suave do hotel islandês, com a neve caindo lá fora, o que eles queriam era o clássico. O porto seguro.
Quando o ritmo enfim desacelerou e a respiração de ambos começou a se alinhar com o som do vento lá fora, Leo continuou deitado, sentindo Eduardo ainda pressionado contra suas costas, o calor atravessando as camadas de roupa que ainda usavam.
— Tudo bem? — Eduardo sussurrou perto do seu ouvido, a voz rouca.
Leo apenas assentiu, um sorriso preguiçoso surgindo em seu rosto. Ele não precisava dizer que adorava quando Eduardo tomava as rédeas daquela forma. Ele se aconchegou para trás, buscando ainda mais o contato.
Eduardo percebeu o movimento de busca de Leo e, em resposta, o apertou ainda mais contra o peito, envolvendo-o em um abraço protetor que ignorava o volume das camadas de roupa. Ele se inclinou, buscando o rosto de Leo; mesmo com este estando deitado de costas. Eduardo roçou o nariz em seu pescoço, depositando beijos lentos e quentes na nuca, até conseguir que Leo virasse um pouco o rosto para que seus lábios se encontrassem em um beijo lateral, úmido e demorado.
No entanto, o contato constante e a proximidade extrema fizeram com que o corpo de Eduardo reagisse novamente. Ele se pressionou com mais força contra o corpo de Leo, uma afirmação silenciosa de que o desejo não havia se dissipado com o fim do primeiro ato.
Leo sentiu a pressão firme e o calor renovado. Um risinho baixo e rouco escapou de sua garganta.
— Nossa... mas já tá querendo uma segunda rodada? — Leo perguntou, o tom carregado de uma provocação carinhosa, sem esconder a surpresa e o ego inflado pela reação do outro.
Eduardo suspirou contra a pele dele, a voz saindo mais profunda do que o normal.
— Eu não consigo evitar — admitiu, com uma honestidade que fez Leo rir de verdade, sentindo o peito vibrar. — Estar aqui com você, nesse lugar... parece que tudo fica mais intenso.
Eduardo fez uma pausa, tentando controlar a própria respiração, e completou com um tom suave, quase resignado:
— Mas a gente não precisa fazer mais nada. Eu sei que o dia foi longo e cansativo. Podemos só dormir.
Leo, porém, não estava nem um pouco interessado em encerrar a noite tão cedo e, em resposta à oferta de Eduardo, decidiu não usar palavras; em vez disso, arqueou o corpo com malícia e se empinou deliberadamente contra ele, iniciando movimentos lentos e calculados. Foi um ato de quem sabia exatamente o poder que tinha sobre o homem que o segurava.
Ao sentir aquela resposta física, Eduardo soltou um gemido baixo, sentindo-se desarmado. Ele se "derreteu" sobre Leo, perdendo qualquer rastro de autocontrole que estava tentando manter. A sua resistência evaporou ali mesmo, substituída por uma urgência renovada de redescobrir cada centímetro daquele corpo que, mesmo coberto de lã e tecidos térmicos, parecia o lugar mais quente e convidativo de toda a Islândia.
— Você vai acabar comigo desse jeito — Eduardo murmurou, as mãos descendo novamente para os quadris de Leo, puxando-o para que não houvesse mais nenhum milímetro de espaço entre eles.
Leo sorriu contra o travesseiro, fechando os olhos e se entregando mais uma vez àquela condução firme que tanto amava.
◄☼►
O dia estava claro demais para o frio que fazia. A neve rangia sob as botas, o vento cortava o rosto, e Leo ria enquanto tentava se equilibrar numa pequena estradinha, branca demais para parecer real. Eles tinham alugado roupas térmicas grossas, dessas que deixam os movimentos meio desajeitados, e mesmo assim Leo parecia leve, animado, quase eufórico.
Eduardo vinha logo atrás, mais contido. Mas, aos poucos, Leo percebeu que algo estava errado.
— Tá tudo bem aí? — perguntou, virando-se quando Eduardo parou por tempo demais.
Eduardo assentiu rápido demais.
— Tô. Só… o ar aqui é estranho.
Ele tentou continuar andando, mas a tosse veio forte, seca, arrancando-lhe um pigarro que não parecia comum. Leo se aproximou na hora, a animação evaporando.
— Eduardo…
— É sério, Leo, eu tô bem — ele insistiu, com um sorriso forçado. — Deve ser o frio.
Só que não era só o frio.
Minutos depois, Eduardo estava pálido demais, mesmo para alguém cercado por branco e luz. A respiração vinha curta, e a tosse não dava trégua. Leo passou o braço ao redor dele, ignorando qualquer tentativa de minimizar.
— A gente vai parar — disse, firme. — Agora.
No caminho de volta, Eduardo tentou brincar, dizer que era exagero, mas Leo não respondeu. A mão dele apertava a manga do casaco de Eduardo com força suficiente para denunciar o medo.
No hospital indicado pelo seguro viagem, tudo parecia rápido e confuso. Pessoas falando baixo, equipamentos apitando, palavras difíceis demais para acompanhar com tranquilidade. Leo fazia o possível com o inglês que tinha, misturando frases corretas com gestos e olhares desesperados, enquanto Eduardo tossia ao seu lado, cada vez mais cansado.
Eduardo tentava falar, mas era interrompido por mais uma crise de tosse.
Os exames vieram mais rápido do que Leo esperava.
Pneumonia.
A palavra caiu pesada, mesmo sem ser nova. Leo sentiu o estômago afundar quando o médico explicou que Eduardo precisaria ficar em observação. Um dia, pelo menos.
Leo não saiu do lado dele.
Sentou-se na cadeira dura ao lado da cama, segurou sua mão quando a febre subiu, ajeitou o cobertor quando Eduardo tremia. Em alguns momentos, Eduardo dormia; em outros, acordava confuso, pedindo desculpas por “estragar a viagem”.
— Cala a boca — Leo murmurou. — Você não estragou nada.
No dia seguinte, Eduardo já respirava melhor. Ainda fraco, mas consciente, presente. O médico deu alta com recomendações claras: medicamentos e descanso absoluto.
O problema era o tempo.
Era o dia de voltar ao Brasil.
A viagem de retorno foi silenciosa. Eduardo dormia a maior parte do tempo, encostado em Leo, enquanto Leo permanecia acordado, atento.
Quando o avião pousou, Leo sentiu um alívio estranho. O fim daquela aventura não foi do jeito que ele tinha imaginado. Mas, ao olhar para Eduardo, cansado, vivo, ali, percebeu que nada era mais importante do que isso.
Ele segurou a mão de Eduardo com mais força.
◄☼►
Curitiba os recebeu com nuvens baixas e um frio úmido que parecia penetrar até os ossos. Eduardo havia melhorado no avião, mas a diferença de clima e o esforço da viagem pareciam cobrar seu preço. Poucos dias depois, Leo percebeu que os sinais de alerta voltavam com força: Eduardo tossia até ficar sem fôlego, a febre surgia e desaparecia, e a exaustão parecia impregnada nele. Ainda assim, Eduardo tentava manter o ritmo normal.
— Não exagera, Leo — dizia Eduardo, apoiando-se na escrivaninha, digitando rápido no notebook. — Tenho várias reuniões. A empresa… precisa que eu esteja presente.
Leo franziu o cenho, cruzando os braços, sem ceder à tentativa de normalização da situação.
— Eduardo, você mal consegue respirar direito. Eu não vou assistir você se matando de trabalhar! A gente vai ao hospital agora e ponto final.
Ele se aproximou, segurando o ombro de Eduardo, firme, sem espaço para negociação.
— Leo, eu… — Eduardo suspirou, tentando soar calmo, mas a tosse cortou sua voz, rouca e insistente. — Eu não posso simplesmente largar tudo.
— Você não vai largar nada se estiver morto, Edu — Leo rebateu, com uma seriedade que não aceitava réplica. — Pega suas coisas, vamos agora. Não tem “reunião” que valha sua vida.
Eduardo suspirou longamente, rendendo-se. Pegou as chaves do carro da mesa com um gesto resignado, olhando para Leo com um meio sorriso que não alcançava os olhos.
— Tá bom, tá bom… você venceu.
— Não, nada disso. — Leo balançou a cabeça e pegou o celular. — Uber. Você não vai dirigir.
Ele observou Eduardo hesitar, a mão ainda segurando as chaves, e sentiu uma pontada de reflexão. Seria útil… saber dirigir, pensou, imaginando que nessa situação poderia ter assumido o volante e cuidado dele sem depender de ninguém. Um pensamento que surgiu silencioso, enquanto ajudava Eduardo a se levantar do sofá.
— Vamos logo, Edu. Quanto mais tarde, pior — Leo disse, guiando-o para a porta, cada passo uma mistura de cuidado e firmeza.
◄☼►
O hospital em Curitiba tinha um ar frio e impessoal, diferente do da Islândia, mas a gravidade da situação não deixava espaço para comparações. Eduardo mal conseguia andar, os passos eram lentos e cada tosse parecia drenar o pouco de energia que lhe restava. Leo segurava seu braço com firmeza, quase como um escudo, guiando-o pelos corredores movimentados.
Eduardo fez alguns exames e após isso, ficaram aguardando os resultados.
O médico, um homem calmo mas direto, olhou para o resultado dos exames e para o quadro de Eduardo.
— Ele precisa ficar internado. A infecção não está respondendo ao antibiótico anterior. Provavelmente a bactéria é resistente. Precisaremos iniciar medicação intravenosa e mantê-lo em observação — explicou, olhando para Leo.
Eduardo ergueu os olhos, tentando sorrir, mas o esforço era visível.
— Não… eu consigo. Posso continuar em casa… — disse, a voz fraca, mas carregada de teimosia.
Leo franziu o cenho, segurando a mão dele com mais força.
— Eduardo, para, por favor.
— Mas… tenho reuniões, compromissos… a empresa… — Eduardo insistiu, tentando encontrar algum argumento que justificasse resistir, mesmo com o corpo traindo-o. A tosse o cortou novamente, rouca e violenta, e ele se apoiou no braço de Leo.
Leo suspirou, o coração apertado, e inclinou-se para beijar sua testa, firme e terno ao mesmo tempo.
— Eu sei. Mas nada disso vale se você não estiver vivo para aproveitar. A gente resolve a empresa depois. Agora você vai ficar aqui.
O médico interveio suavemente, guiando-os para o quarto.
— Vamos iniciar o tratamento intravenoso imediatamente. Ele ficará internado até estabilizar — disse.
Eduardo suspirou, finalmente cedendo, ainda tentando se convencer de que podia resistir, mesmo sabendo no fundo que não tinha escolha. Leo segurou sua mão enquanto o equipamento era preparado, sentindo cada parte do corpo de Eduardo relaxar um pouco ao perceber que não estava sozinho.
— Eu vou ficar aqui com você. Não vou a lugar algum — Leo murmurou, encostando a cabeça na dele, sentindo a respiração pesada e irregular. — A gente vai passar por isso juntos.
Eduardo fechou os olhos, exausto, e por um instante deixou de lado toda a teimosia, sentindo apenas o calor de Leo ao seu lado.
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