Os Garotos Feitos de Aço e Poesia

5 Capítulo 5 — Inabalável


Três dias haviam se passado desde que Eduardo foi internado. Leo praticamente abandonou todos os seus freelas e eventos de fotografia, deixando os compromissos de lado para ficar ali, ao lado dele.

Eduardo, é claro, não aprovava. Entre sussurros sonolentos e olhares cansados, ele tentava protestar:

— Leo… você não precisava largar tudo por minha causa.

— Eu quero estar aqui com você — Leo respondeu, firme. — E ponto final.

Os dias passavam lentos. Eduardo dormia quase o tempo todo, pesado pelos efeitos dos medicamentos intravenosos. O ar do quarto era quieto, interrompido apenas pelo som do monitor e pelo ocasional pigarro ou tosse curta.

Leo se mantinha ao lado, lendo, ajustando o cobertor, observando cada respiração, cada gesto, como se pudesse adivinhar o que Eduardo precisava antes mesmo que ele percebesse.

O celular de Eduardo vibrou sobre a mesa de cabeceira. Leo olhou para a tela e viu uma série de mensagens de clientes e colegas de trabalho da empresa. O impulso inicial foi de ignorar, mas a indecisão logo tomou conta: responder ou não? Informar que Eduardo estava internado ou simplesmente deixar as mensagens acumularem?

Ele suspirou, deslizando o dedo pelo visor, sem conseguir decidir.

Mais tarde, o celular tocou novamente. Era Fernando, melhor amigo de Eduardo. Pelo menos era alguém que Leo conhecia. Então, sem hesitar, ele atendeu.

— Eduardo, cadê você? — Fernando perguntou assim que a ligação foi atendida, a voz firme, mas carregada de preocupação.

— Fernando… sou eu, Leo. — Leo explicou rapidamente. — O Eduardo tá internado.

Do outro lado da linha, a surpresa deu lugar à tensão.

— Meu Deus… — Fernando exalou, a preocupação evidente. — Mas o que ele tem? Como assim?

— Pneumonia. Não estava respondendo aos antibióticos anteriores. Precisou de internação e medicação intravenosa. Ele tá sendo cuidado, mas precisa ficar em observação.

— E em que hospital ele tá? — Fernando perguntou, exasperado.

Leo informou o nome do hospital.

— Certo… certo. — Fernando respirou fundo. — Leo, se precisar de alguma coisa, me liga, tá? Qualquer coisa mesmo, eu corro aí.

— Pode deixar, Fernando. Obrigado. — Leo desligou e ficou olhando para Eduardo, que ainda dormia profundamente. O monitor bipava ritmicamente, e Leo segurou a mão dele, sentindo o peso da responsabilidade e do medo, mas também da escolha de estar ali, incondicionalmente.

Ele suspirou, olhando pela janela do quarto, sentindo o frio de Curitiba penetrar o vidro, e pensou, silenciosamente, que nada do mundo exterior importava mais que aquele momento: cuidar do homem que amava.


◄☼►


Dois dias se passaram e Leo continuava firme ao lado de Eduardo. Ele quase não saíra do quarto, dormindo em cadeiras duras, comendo sanduíches improvisados, e ignorando notificações de freelas que piscavam no celular. A rotina era simples: observar, cuidar, segurar a mão, ajustar cobertores, oferecer água, acalmar as crises de tosse, e estar ali.

Eduardo dormia a maior parte do tempo, a respiração ainda irregular, os olhos fechados sob o efeito dos medicamentos.

O silêncio do quarto foi quebrado por passos firmes na porta. Um homem entrou com a postura reta, passos decididos e um olhar autoritário. Leo ergueu os olhos e, de imediato, reconheceu o rosto. A expressão imponente e segura não deixava dúvidas: aquele era Frederico Castilho, pai de Eduardo.

Leo sentiu o coração apertar e quase congelou no lugar. Eduardo continuava dormindo, alheio à entrada do pai, e Leo manteve-se em silêncio, observando cada gesto.

Frederico lançou um olhar direto para Leo, avaliando-o em segundos, e perguntou:

— Você é algum assistente dele?

Leo sentiu o coração disparar. Claramente Frederico não o havia reconhecido.

Ele tentou responder:

— Eu… não sou assistente dele, na verdade…

Mas Frederico nem deixou que terminasse:

— Não importa. Você está dispensado por hoje. Pode sair.

Leo piscou, sem saber como reagir. Seu coração batia acelerado, e ele se sentiu repentinamente pequeno diante daquele homem. Eduardo continuava dormindo, vulnerável, e a sensação de impotência de ter que deixá-lo ali apertou o peito de Leo.

— Certo… — murmurou, a voz quase sumindo.

Ele deu alguns passos para trás, ainda olhando para Frederico, antes de se virar e sair do quarto. Cada passo ecoava pelo corredor, e Leo sentiu o peso de ter que se afastar de Eduardo, mesmo que temporariamente, e de lidar com a autoridade incontestável do pai dele.

Ao chegar ao corredor, parou por um instante, respirando fundo, tentando acalmar o coração disparado. “Ele vai estar bem… ele vai estar bem”, murmurou para si mesmo, tentando se convencer de que não estava o abandonando.


◄☼►


No quarto, o silêncio pesado foi interrompido por um leve suspiro. Eduardo abriu os olhos lentamente, ainda sonolento, e a primeira coisa que viu foi o rosto severo de seu pai, iluminado pela luz fria do hospital. Por um instante, ele piscou várias vezes, tentando entender se aquilo era real ou apenas um sonho induzido pelo cansaço e pelos remédios.

— Eduardo? — a voz firme de Frederico o trouxe de volta à realidade.

Eduardo piscou mais uma vez, tentando se sentar, mas o corpo pesado ainda o impedia.

— Pai…? — murmurou, a voz rouca, como se ainda estivesse preso entre o sono e a vigília.

Frederico, cruzou os braços, o olhar afiado.

— Fiquei sabendo da sua internação por terceiros na empresa. Você deixou várias coisas pendentes, e eu estou sendo muito cobrado por isso.

Eduardo suspirou, o peito pesado, a garganta arranhando. A vontade de protestar se misturava com o cansaço e a febre que ainda o consumia.

— Eu… eu sei… — disse, mas a frase morreu no ar, sem forças.

Frederico suspirou, balançando levemente a cabeça, como se carregasse o peso de responsabilidades que não eram só suas.

— Pedi pro Fernando tentar resolver o que dava no seu lugar — disse, a voz firme, mas com um traço de resignação. — Não é o ideal, mas pelo menos algumas coisas não vão ficar paradas.

Eduardo apenas assentiu, sentindo a exaustão e a febre ainda pesarem em cada músculo do corpo. Ele não tinha energia para discutir ou se justificar; a cabeça doía, o corpo tremia de fraqueza, e cada palavra parecia custar mais do que podia dar.

O silêncio se instalou no quarto novamente, pesado, quase palpável. Frederico permaneceu de pé, observando o filho com aquela mistura de cobrança e preocupação que sempre carregava. Eduardo, de olhos semicerrados, olhava para o teto branco, deixando que a presença do pai preenchesse o quarto sem precisar de mais palavras.

Por alguns minutos, apenas respiraram naquele espaço compartilhado, cada um lidando com pensamentos próprios. O silêncio era interrompido apenas pelo bip constante do monitor e pelo sussurro distante do hospital além da porta.

Até que, em um momento, Leo, acreditando que o pai de Eduardo já havia ido embora, abriu a porta para entrar novamente. Mas a surpresa foi imediata: Frederico ainda estava ali. Olhou para Leo com desdém e perguntou:

— Você é surdo? Eu não tinha te dispensado?

Leo congelou por um instante, o coração acelerado, mas não disse nada. Apenas saiu e fechou a porta com cuidado, sentindo o peso do olhar autoritário e o clima tenso do quarto.

Eduardo, ainda deitado, viu a cena e sentiu algo se partir dentro de si. Ele não conseguia admitir que o pai falasse daquele jeito com Leo, que estava ali cuidando dele sem descanso, abrindo mão de tudo para ficar ao seu lado.

Ele permaneceu deitado, o corpo ainda pesado pelo cansaço e pelos remédios, mas a raiva misturava-se com a frustração e a impotência de não poder defender Leo naquele momento. Com a voz fraca, quase sussurrando, ele falou:

— Pai… não fala assim com ele…

Frederico, sem desviar o olhar, cruzou os braços e respondeu, com o tom calmo e autoritário que sempre usava:

— Um bom funcionário é aquele que sabe ouvir ordens e obedecer.

Eduardo piscou, e então, finalmente, entendeu. O pai achava que Leo era apenas algum assistente, alguém subordinado que estava ali por obrigação. O peito dele se apertou.

Respirando fundo, tentou recuperar o pouco de força que tinha:

— Ele… não é funcionário.

Frederico arqueou uma sobrancelha, a expressão ainda firme, mas agora curiosa.

— Ah é? Então quem é esse rapaz?

Um misto de raiva, cansaço e coragem cresceu dentro de Eduardo. Ele sentiu que precisava dizer aquilo, mesmo com a voz fraca e o corpo dolorido. Olhou para o pai com determinação:

— É… meu namorado.

Por um instante, o quarto ficou em silêncio. Frederico arregalou os olhos, visivelmente surpreso, como se o mundo tivesse mudado em um instante. O choque era visível na postura rígida, nos olhos que se abriram mais do que o costume, e no ar que parecia ter ficado pesado ao redor deles.

Eduardo recostou-se, exausto, mas de alguma forma aliviado. Finalmente, havia dito em voz alta aquilo que Leo representava na sua vida. E, mesmo frágil, sentiu a coragem de defender o lugar de Leo ao seu lado.

Frederico permaneceu imóvel por um instante, ainda digerindo a revelação de Eduardo. A expressão nada feliz denunciava que aquela notícia não havia sido bem recebida, e o ar do quarto ficou pesado com a tensão silenciosa. Finalmente, ele cruzou os braços mais uma vez e disse, com a voz firme:

— Vamos conversar sobre isso depois.

Sem esperar resposta, Frederico se virou e saiu do quarto, fechando a porta atrás de si. O som do corredor vazio ecoou, deixando um silêncio profundo no ambiente. Eduardo permaneceu deitado, o peito subindo e descendo lentamente, tentando controlar o turbilhão de emoções que ainda girava dentro dele.

Trinta minutos se passaram. O silêncio pesado foi quebrado novamente pela porta se abrindo. Leo entrou, os ombros tensos, os olhos em alerta, cada passo carregando a hesitação de quem ainda se sentia deslocado naquele ambiente.

Eduardo o olhou com aqueles olhos cansados, mas vivos, e murmurou, com a voz rouca, mas firme:

— Vem… se deita aqui do meu lado.

Leo parou, surpreendido, balançando a cabeça levemente.

— Não, Edu… — disse, tentando se justificar, a voz baixa, quase um sussurro. — Não é seguro, você ainda tá…

— Por favor — interrompeu Eduardo, com uma mistura de cansaço e insistência que não admitia recusa. — Só por um tempo. Eu quero você aqui.

Leo olhou para ele, o coração apertado. Não era apenas um pedido; havia algo na insistência de Eduardo que fazia com que recuar não fosse uma opção. Lentamente, Leo se aproximou da cama, ajudando Eduardo a ajeitar-se um pouco, e se deitou ao lado dele, mantendo a mão firme na dele, sentindo o calor e a presença que os dois precisavam naquele momento.

Eduardo fechou os olhos por um instante, sentindo a segurança de ter Leo ali. O toque, a respiração, a proximidade, tudo isso parecia acalmar uma parte de sua ansiedade e dor que nem os remédios conseguiam tocar. E Leo, mesmo ainda tenso, sentiu uma onda de proteção e cuidado preencher cada centímetro de seu corpo, lembrando-se de por que estava ali, inabalável.