Os Garotos Feitos de Aço e Poesia

1 Capítulo 1 — Tudo o que há de bom


O apartamento de Fernando ainda estava silencioso, envolto naquele tipo de calma preguiçosa que só existe nas primeiras horas da manhã. A luz pálida de Paris entrava pelas frestas das cortinas, desenhando sombras suaves no corredor estreito.

A porta do quarto se abriu devagar.

Eduardo saiu primeiro, ainda meio desorientado pelo sono, passando a mão pelos cabelos bagunçados. Usava a mesma camiseta da noite anterior e carregava no rosto uma expressão tranquila demais para quem, meses atrás, vivia sempre em alerta.

Leo veio logo atrás.

Descalço, com a camiseta larga caindo sobre um dos ombros, ele se encostou por um instante no batente da porta, observando Eduardo como se quisesse guardar aquela imagem. O jeito distraído, o olhar ainda pesado de sono.

— Bom dia — Leo murmurou, aproximando-se.

Eduardo abriu um sorriso imediato, daqueles que surgem antes mesmo do pensamento.

— Bom dia…

Leo não falou mais nada. Apenas segurou a gola da camiseta de Eduardo, puxando-o levemente, e encostou os lábios nos dele. Foi um selinho demorado o suficiente para não ser só um gesto automático, mas curto demais para virar beijo de verdade. Um toque macio, íntimo, cotidiano.

Quando se afastou, Leo ainda manteve o rosto perto do dele por um segundo, respirando o mesmo ar.

— Definitivamente — comentou, com um meio sorriso — eu preciso ir escovar os dentes… pra tirar o bafo que a sua boca deixou em mim.

Leo continuou sorrindo e andou em direção ao banheiro.

Eduardo piscou algumas vezes, processando. Depois ficou ali, parado, com um sorriso idiota estampado no rosto, olhando Leo desaparecer no banheiro.

Do outro lado da sala, encostado na bancada, Fernando tinha visto tudo.

Ele cruzou os braços e soltou uma risada baixa.

— Cara… eu vivi pra ver isso.

Eduardo virou-se, ainda meio bobo.

— Ver o quê?

— Você — Fernando apontou com o queixo. — Com essa cara de apaixonado. Parece que levou um choque.

Eduardo pigarreou, sentindo o rosto esquentar.

— Fernando…

— Não, sério — continuou ele, divertido. — O Eduardo Castilho ficando todo mole por causa de alguém. Nunca achei que fosse presenciar isso.

Eduardo passou a mão no rosto, tentando se recompor.

— Para. Já deu.

— Ah, relaxa. — Fernando riu. — É bom ver isso.

Eduardo abriu a boca para retrucar, mas desistiu. Porque, mesmo tentando, não conseguia apagar o sorriso que insistia em ficar.

O barulho da porta do banheiro se abrindo interrompeu a conversa.

Leo reapareceu no corredor, secando o rosto com a toalha, o cabelo ainda levemente úmido. Quando viu Fernando, levantou a mão num cumprimento simples.

— Bom dia.

— Bom dia — Fernando respondeu no mesmo tom, agora mais neutro, mas com um sorriso fácil. — Dormiu bem?

Leo assentiu.

— Muito bem.

Eduardo desviou o olhar, de novo constrangido.

Fernando se espreguiçou e deu dois passos em direção à cozinha.

— Então vamos aproveitar, né? — disse, animado. — O café da manhã tá esperando.

Leo riu de leve e seguiu atrás dele, com Eduardo logo atrás.

Na cozinha, Julia já estava sentada à mesa, com uma xícara nas mãos e o celular apoiado ao lado. Ela ergueu os olhos quando eles entraram.

— Bom dia — disse, observando os três com curiosidade.

— Bom dia — Leo respondeu, educado.

Eduardo foi até ela e a cumprimentou antes de se sentar.

Enquanto Fernando começava a tirar coisas do armário, Leo se acomodou na cadeira, olhando ao redor. A cozinha simples, o cheiro de café, a cidade acordando do lado de fora.

Paris seguia viva além da janela, mas, naquele instante, Leo percebeu que o melhor da viagem não era a cidade, era estar ali, começando um novo capítulo de sua vida.


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Mais tarde, Paris já estava em pleno movimento quando eles chegaram à Galeries Lafayette.

Assim que Leo atravessou a entrada, parou no meio do caminho, os olhos se erguendo lentamente até o alto da cúpula. A luz atravessava os vitrais coloridos, espalhando tons dourados e azulados pelo espaço imenso. Era bonito demais para ser absorvido de uma vez só.

— Meu Deus… — ele murmurou, quase para si.

Eduardo parou ao lado dele, também olhando para cima de imediato. Porém logo desviou o olhar e o virou para Leo.

Viu os olhos dele brilhando daquele jeito específico que aparecia sempre que Leo se encantava com algo novo.

Leo puxou o celular do bolso quase por instinto e começou a tirar algumas fotos. Primeiro da cúpula. Depois das escadas curvas, do movimento das pessoas lá embaixo, da luz refletindo nos corrimões dourados.

Eduardo o seguia a poucos passos de distância, em silêncio.

Leo sempre fora assim.

Ele fotografava tudo o que achava interessante: uma paisagem vista da estrada, um detalhe esquecido numa parede antiga, a sombra de uma árvore no fim da tarde, um copo de café bonito demais para passar despercebido.

— Desse jeito, você vai acabar com a memória do celular — Eduardo comentou, aproximando-se.

Leo riu, sem desviar os olhos da tela.

— E vai valer a pena.

Ele se virou para Eduardo e, sem pensar muito, ergueu o celular.

— Fica ali. Quero uma foto sua.

— Aqui? — Eduardo apontou em volta, meio constrangido.

— Aí mesmo.

Eduardo obedeceu, encostando no corrimão. Leo se afastou alguns passos, inclinou a cabeça, ajustou o enquadramento.

— Não faz essa cara de quem tá sendo julgado.

— Eu não sei fazer pose.

— Então não faz — Leo sorriu. — Só fica aí.

E foi o que Eduardo fez.

Apenas ficou ali, com as mãos nos bolsos, o corpo relaxado, o olhar tranquilo. Leo apertou o botão no momento exato, satisfeito.

— Pronto.

Eduardo se aproximou, curioso.

— Deixa eu ver.

Leo mostrou a foto. Eduardo se reconheceu nela de um jeito estranho, mais leve, mais inteiro. Não como costumava se ver.

— Ficou boa — ele comentou, sincero.

— Sim, você tá nela — Leo comentou.

Eduardo levantou os olhos do celular para ele. Por um segundo, esqueceu completamente onde estavam.

A Galeries Lafayette seguia viva ao redor, cheia de vozes, passos, turistas maravilhados. Mas tudo o que Eduardo conseguia pensar era em como Leo parecia pertencer a todos aqueles lugares, mesmo agindo como se ainda estivesse descobrindo o direito de estar ali.

Ele estendeu a mão sem pensar muito, e Leo entrelaçou os dedos nos dele com naturalidade.

— Obrigado por me trazer aqui — Leo disse, baixo.

Eduardo apertou sua mão de leve e deu um meio sorriso.

— Obrigado por estar aqui comigo.

Leo não respondeu. Apenas sorriu, voltando a olhar para cima, já procurando outro ângulo, outra foto, outro detalhe que pudesse guardar.

E Eduardo ficou ali, admirando.

Não Paris.

Mas o jeito como Leo parecia aprender, pouco a pouco, que o mundo também era dele.


◄☼►


Mais tarde, eles caminhavam pela Champs-Élysées, misturados ao fluxo constante de gente, luzes e vitrines elegantes. O céu começava a escurecer aos poucos, tingido de tons rosados, e as primeiras luzes da avenida iam se acendendo, uma a uma.

Leo andava um pouco à frente, com o celular na mão, alternando entre olhar a tela e observar o movimento ao redor. Diminuiu o passo e se virou para Eduardo, com um sorriso animado.

— Eduardo — chamou.

— Hm?

— Eu quero te levar pra jantar num lugar que eu achei.

Eduardo ergueu uma sobrancelha.

— Como assim?

— Eu pesquisei ontem à noite — Leo explicou. — Não é nada chique demais. Mas parece ótimo. Fica aqui perto. Um bistrô pequeno… chama Le Relais de l’Entrecôte.

Eduardo reconheceu o nome e sorriu.

— Parece uma ótima ideia.

— E eu vou pagar.

Eduardo diminuiu o passo, fazendo com que Leo parasse junto.

— Leo, você não precisa fazer isso.

Não era reprovação. Era cuidado. Eduardo sabia que Leo ainda estava se reorganizando financeiramente, juntando os pedaços de uma vida que tinha sido virada do avesso mais de uma vez. Não queria que ele se sentisse pressionado a gastar por orgulho ou comparação.

Leo cruzou os braços, encarando-o com firmeza tranquila.

— Eu sei que não preciso, mas eu quero.

Eduardo abriu a boca para insistir, mas Leo foi mais rápido.

— Eu gosto de você fazer coisas por mim. De verdade. Mas eu também quero ser o cara que proporciona algo pra você de vez em quando.

Eduardo sorriu, sem conseguir evitar.

— Leo… você já me proporciona tudo o que há de bom.

Leo revirou os olhos, mas o sorriso entregava que tinha gostado.

— Mas isso é diferente. — Ele deu um passo mais perto. — Deixa eu fazer isso.

Eduardo ficou em silêncio por um instante.

Ele entendia.

Leo sempre fora assim, orgulhoso na medida certa, querendo sentir que estava construindo algo por conta própria. Não era sobre dinheiro. Era sobre dignidade. Sobre não se sentir um peso, nem um apêndice. Eduardo aprendera, ao longo do tempo, que respeitar isso era uma forma de amar melhor.

— Tá bom — disse, por fim.

O sorriso de Leo se abriu inteiro.

Eles retomaram a caminhada, agora lado a lado, as mãos se encontrando naturalmente. Mais tarde, quando já estavam andando de volta para o apartamento para se trocarem, Leo apontou para Eduardo com o dedo.

— Aliás, aviso importante.

— Hm?

— Não leva seu cartão.

Eduardo riu.

— Sério isso?

— Seríssimo. — Leo estreitou os olhos, brincando. — Hoje você é meu convidado.

Eduardo levantou as mãos em rendição.

— Sim, senhor.

Leo gargalhou, puxando-o pela camiseta.

— Vamos. Paris ainda tem muita coisa pra gente hoje.

E Eduardo foi, sorrindo, pensando que não importava quem pagasse a conta, porque, no fim, ele já tinha tudo.


◄☼►


No apartamento, Leo estava terminando de ajeitar a gola da camisa quando Julia apareceu na porta do quarto, apoiando o ombro no batente.

Ela observou os dois em silêncio por um segundo.

Eduardo estava de preto, simples, arrumado sem esforço. Leo usava uma camisa clara, as mangas dobradas e o cabelo ainda um pouco rebelde.

Julia sorriu.

— Ok — disse ela. — Vocês estão lindos. Oficialmente um casal parisiense irritantemente bonito.

Leo riu.

— Obrigado, eu acho.

Eduardo fez uma reverência exagerada.

— Aprovados então?

— Sim — ela confirmou. — Aproveitem.

O restaurante ficava a poucas quadras dali. Um bistrô pequeno, aconchegante, com mesas próximas demais umas das outras e um cheiro bom de comida quente que escapava da porta. Leo entrou primeiro, olhando em volta com atenção, como se quisesse ter certeza de que tinha feito a escolha certa.

— Eu disse que parecia bom — comentou, satisfeito.

Sentaram-se perto da janela.

Quando o garçom deixou os cardápios sobre a mesa, Leo abriu o dele com uma confiança que durou exatamente cinco segundos.

O sorriso foi sumindo aos poucos.

— Tá — murmurou. — Isso aqui é mais francês do que tudo.

Eduardo deu uma espiada no menu.

— Eu entendo algumas coisas — disse. — Não tudo, mas dá pra se virar.

Leo ergueu os olhos imediatamente.

— Ah, é?

— Sim. Pelo menos meu pedido eu vou saber fazer.

Eduardo percebeu tarde demais o brilho desafiador no olhar dele.

— Leo…

— Não, não. — Leo endireitou a postura. — Eu dou conta também.

Quando o garçom voltou, Leo não hesitou. Fez o pedido em francês, com uma pronúncia esforçada e confiante demais para quem claramente estava improvisando.

Eduardo mordeu o lábio, desviando o rosto para o lado, segurando o riso.

— O quê foi? — Leo perguntou, desconfiado.

— Nada — Eduardo respondeu rápido demais. — Nada.

Eduardo também pediu o prato dele. O garçom assentiu educadamente e se afastou.

— Viu? Parece que consegui. — Leo disse, satisfeito.

Eduardo apenas concordou com a cabeça, os ombros ainda tremendo levemente.

Quando os pratos chegaram, Leo percebeu primeiro. Ele olhou para o prato. Piscou. Olhou de novo.

— Eduardo…

— Hm?

— Isso… não era exatamente o que eu achei que tinha pedido.

Eduardo finalmente olhou e perdeu completamente o controle.

— Leo — ele começou, rindo — Você pediu exatamente isso.

— Não pedi.

— Pediu sim. — Eduardo levou a mão à boca, gargalhando.

Leo encarou o prato como se ele tivesse traído sua confiança.

— Eu não acredito.

— Você basicamente pediu uma versão completamente diferente do prato original — Eduardo conseguiu dizer entre risos.

— Que ótimo — Leo suspirou.

Eduardo ainda ria quando estendeu o braço e puxou o prato mais para perto.

— A gente troca, então.

Leo relaxou.

— Não. — Ele deu um meio sorriso. — Eu vou comer isso. Eu pedi, eu assumo.

— Não quer mesmo trocar? Sabe, não tem problema.

— Não, sério, tá tudo bem. — Leo sorriu, dando uma garfada na carne e levando um pedaço à boca. — Isso tá bom.

Eduardo sorriu.

Eles continuaram a comer, fazendo um comentário ou outro, até que o celular de Leo vibrou pela terceira vez em poucos minutos. Ele desbloqueou a tela e revirou os olhos.

— Minhas irmãs.

— O que elas querem? — Eduardo perguntou.

— Estão pedindo presentes de Paris.

— Pedindo o quê?

— Tudo. — Leo riu. — Cachecol, chocolate, chaveiro, qualquer coisa que prove que eu realmente vim aqui.

Eles estavam rindo, até que, num momento em que Eduardo foi cortar a carne, um descuido fez o molho espirrar, um pingo certeiro caindo direto na manga clara da camisa de Leo.

Os dois congelaram.

— Eu sinto muito — Eduardo arregalou os olhos. — Mesmo.

Leo ficou sério por dois segundos, então começou a rir.

— Eu estou tentando fazer uma noite especial aqui, Eduardo.

Eduardo riu junto, balançando a cabeça.

— Prometo que pago a lavanderia.

— Não precisa — Leo respondeu. — Considere isso parte da experiência.

Eles brindaram com as taças, ainda sorrindo.

E, no meio da conversa, da comida errada, das mensagens insistentes e das risadas baixas, Leo percebeu que aquela noite não precisava ser perfeita.

Ela já era deles.


◄☼►


Quando a conta chegou, Leo pegou o bloquinho da mão do garçom com naturalidade, entregou o cartão e digitou a senha sem hesitar. Eduardo observava em silêncio, encostado na cadeira, sem dizer nada.

Apenas olhava para ele.

Não havia orgulho inflado ali, nem necessidade de provar nada. Havia só Leo, inteiro, seguro, fazendo algo porque queria. Eduardo sentiu aquele aperto conhecido no peito, o mesmo que vinha sentindo desde o primeiro selinho naquela manhã.

Admiração pura.

Leo agradeceu em francês, pegou o recibo e se levantou, satisfeito, como quem cumpre algo importante consigo mesmo. Eduardo o acompanhou até a porta, ainda com aquele olhar atento demais.

— O que foi? — Leo perguntou, já na calçada, ajeitando a roupa.

Eduardo demorou um segundo para responder.

— Nada — disse. — Só… você.

Leo franziu a testa, confuso.

— Eu o quê?

Eduardo sorriu de canto.

— Você fazendo as coisas do seu jeito. — Ele respirou fundo. — Eu acho isso absurdamente atraente.

Leo abriu a boca para responder, mas não teve tempo.

Eduardo segurou sua mão e o puxou de leve, aproximando-se rápido demais para que Leo reagisse. O beijo veio intenso, sem aviso, quente demais para a calçada movimentada.

Leo riu contra a boca dele e empurrou seu peito de leve.

— Eduardo! — sussurrou. — Para com isso.

— Por quê? — ele provocou, ainda perto demais.

Leo olhou em volta, depois voltou o olhar para ele, um sorriso enviesado surgindo.

— Porque se você continuar assim… — ele se aproximou mais um pouco, baixando a voz — a gente não vai chegar inteiro no apartamento.

Eduardo sentiu o corpo inteiro reagir.

— Isso é uma ameaça?

— É um aviso — Leo respondeu, puxando a mão dele. — Vamos embora. A noite ainda não acabou.

Eduardo riu baixo, deixando-se conduzir.

Enquanto caminhavam de volta, Leo entrelaçou os dedos nos dele com firmeza, como quem já tinha decidido exatamente como queria terminar aquela noite.

E Eduardo seguiu, pois, naquele momento, tudo o que ele queria estava ali, andando ao lado dele.

Notas finais
Eu ainda não fiquei pronta pra me despedir deles <3 Sem contar que ainda tinha alguns pontos não explorados que explorarei aqui, mas será um livro curto! Se você leu até aqui, obrigada!