Os Garotos Feitos de Aço e Poesia

2 Capítulo 2 — Novas Vivências


Leo não lembrava exatamente quando tinha parado de contar os dias que passava no apartamento de Eduardo em Curitiba.

Ele chegava com uma mochila nas costas, uma mala pequena na mão e o corpo cansado da estrada que ligava São Tomás à cidade. A distância era longa demais para idas e vindas rápidas. Sempre que vinha, ficava dias. Às vezes uma semana inteira. Às vezes mais.

Mas, aos poucos, isso foi mudando.

Agora, sua mochila ficava encostada no canto do quarto de Eduardo por tempo demais. As roupas começavam a se misturar com as dele no armário. A escova de dentes de Leo já não parecia mais um item provisório no banheiro.

Para Leo, porém, sempre havia um motivo claro para ir embora: a fazenda, a família, compromissos, a sensação de que não podia ocupar espaço demais na vida de ninguém, nem mesmo na vida do seu namorado.

Eduardo, no entanto, nunca perguntava quando ele iria embora.

Nunca sugeria que Leo devesse voltar. Nunca fazia questão.

Pelo contrário, parecia sempre encontrar um motivo novo para fazê-lo ficar.

— Se você for embora hoje, a gente não vai terminar aquela série — Eduardo dizia, jogado no sofá, com o controle na mão.

Ou:

— Você já viu que vai chover hoje? Viajar assim é perigoso.

Leo fingia não perceber, mas percebia.


◄☼►


Naquela manhã, o apartamento estava tomado por uma luz cinza suave, típica dos dias nublados da cidade. Eduardo já estava acordado havia algum tempo, sentado à escrivaninha da sala com o notebook aberto, o celular vibrando de tempos em tempos ao lado da xícara de café.

Leo apareceu no corredor ainda sonolento, usando uma camiseta de Eduardo e o cabelo completamente fora de ordem.

— Bom dia — murmurou, arrastando os pés até ele.

Eduardo ergueu os olhos da tela imediatamente.

— Bom dia — respondeu, sorrindo daquele jeito que sempre fazia Leo se sentir bem.

Leo se aproximou sem dizer nada, apoiando o peso do corpo sobre os ombros dele, passando os braços ao redor do pescoço. Eduardo inclinou a cabeça para o lado, aceitando o gesto com naturalidade, como se aquele contato já fizesse parte da rotina havia anos.

— Você vai trabalhar o dia inteiro hoje? — Leo perguntou, a voz ainda rouca.

— Provavelmente — Eduardo respondeu. — Reunião com o pessoal da empresa de manhã, depois algumas coisas pra resolver à tarde.

Leo fez um som vago, meio reclamando, meio entendendo. Beijou a bochecha dele antes de se afastar.

Eduardo voltou os olhos para a tela, mas não antes de segurar o pulso de Leo por um instante.

— Você vai ficar hoje, né?

Não era uma pergunta direta. Era quase um pedido disfarçado.

Leo sorriu.

— Vou

Eduardo assentiu, satisfeito.

A Castilho Agronegócios ocupava boa parte dos dias de Eduardo. Não era apenas o sobrenome pesado, nem a herança inevitável. Ele tinha escolhido estar ali. Escolhido assumir um papel mais ativo, provar, para si mesmo mais do que para o pai, que sabia conduzir os negócios.

Leo observava tudo à distância.

Via Eduardo no telefone, sério, concentrado, falando de números, contratos, logística. Via o cansaço no fim do dia, os ombros tensos, o silêncio carregado depois de reuniões difíceis. E também via o brilho discreto quando algo dava certo.

Naquele mesmo dia, no horário da tarde, Leo serviu seu café com calma, como se não tivesse hora nenhuma para estar em outro lugar.

— Então… você virou empresário mesmo, né? — comentou, num tom leve.

Eduardo sorriu de canto.

— Sim, mas às vezes eu sinto que nunca tive muita escolha — respondeu por fim.

Ser sócio da empresa do pai ainda soava estranho quando ele pensava demais. Porém, ele levava aquilo a sério. Talvez a sério demais.

Leo se aproximou, apoiando o quadril na mesa.

— Você não gosta? — perguntou.

Eduardo pensou por um instante antes de responder.

— Eu gosto. Gosto de me sentir no controle, de construir coisas. De fazer funcionar. — Fechou o notebook. — E gosto de ter poder de decisão.

Leo não disse nada. Apenas se aproximou e beijou seu ombro, um gesto pequeno, mas cheio de significado.

Enquanto Eduardo focava em seus negócios, Leo seguia com seus freelas. Fotografia de eventos, pequenos ensaios, trabalhos pontuais que surgiam de indicações e contatos na região. Ele organizava horários, editava fotos no notebook na mesa da cozinha, às vezes passava horas concentrado, com fones de ouvido e o café esfriando ao lado.

Eduardo gostava de observar.

Gostava de ver Leo trabalhando, completamente absorvido, mordendo levemente o lábio enquanto ajustava cores ou escolhia enquadramentos. Era uma versão diferente daquele garoto da fazenda, mas ainda assim, tinha a mesma essência.

— Você se vê fazendo isso pra sempre? — Eduardo perguntou certa noite, enquanto jantavam algo improvisado.

Leo deu de ombros.

— Não sei. Mas eu gosto, e… por agora, é o que faz sentido pra mim.

Eduardo assentiu.

E talvez fosse isso que os dois estivessem aprendendo naquela fase: não pensar longe demais. Não projetar demais. Apenas viver o agora.

Às vezes, Leo acordava no meio da noite, sentindo o peso do braço de Eduardo sobre sua cintura, o corpo quente encostado no dele, e pensava que aquilo parecia perigoso demais para ser tão bom.

Mas, ao mesmo tempo, parecia certo.

Curitiba já não era só uma cidade onde ele passava alguns dias.

Era quase casa.

E Eduardo, mesmo sem dizer, fazia questão de lembrar disso todos os dias, deixando espaço, inventando motivos, construindo um cotidiano onde Leo sempre tivesse vontade de ficar.


◄☼►


Fernando apareceu sem avisar, como fazia desde sempre.

A porta do apartamento se abriu depois de duas batidas rápidas, e Eduardo nem precisou perguntar quem era. Apenas se levantou do sofá, já suspirando, enquanto Leo permanecia sentado no chão da sala, organizando algumas fotos no notebook.

— Eu juro que um dia vou trocar essa fechadura — Eduardo resmungou.

— Você fala isso há tempos — Fernando respondeu, entrando com a maior naturalidade do mundo. — E nunca troca.

Ele parou no meio da sala ao notar Leo ali.

Não era exatamente uma surpresa. Fernando já sabia que Leo passava boa parte do tempo naquele apartamento agora. Mesmo assim, ainda havia algo levemente estranho em ver outra pessoa ocupando aquele espaço que sempre fora tão exclusivamente de Eduardo.

Mas não era algo ruim. Era só… novo.

— Oi, Leo. — Fernando disse, abrindo um sorriso espontâneo. — Tudo bem?

Leo levantou os olhos do notebook e sorriu de volta, fechando-o com cuidado antes de se levantar.

— Oi, Fernando. Tudo, e você?

Fernando assentiu, aproximando-se.

— Tudo de boa.

Eles se cumprimentaram com um aperto de mão simples, que rapidamente virou algo mais descontraído. Fernando gostava da presença de Leo. Não era forçado, nem invasivo. Ele parecia saber exatamente como ocupar espaço sem disputar território.

Fernando já estava acostumado a aparecer ali só para bater papo, provocar Eduardo ou simplesmente não ir embora. Agora, precisava se acostumar também com o fato de que Leo fazia parte da equação.

E, por mais estranho que isso fosse no início, havia algo reconfortante nisso.

Se Eduardo, o mesmo Eduardo que nunca se encantou por ninguém, que sempre manteve as pessoas a uma distância segura, estava fascinado por Leo, então com certeza Leo devia ser alguém excepcional.

— Você veio só pra me irritar ou tem algum motivo específico hoje? — Eduardo perguntou, cruzando os braços.

Fernando riu.

— Não posso mais visitar meu melhor amigo?

— Pode. Desde que não fique julgando minha geladeira ou minhas escolhas de vida.

Leo riu baixo, se sentando novamente no chão.

Fernando jogou a mochila no sofá e se acomodou na poltrona.

— Engraçado — comentou, olhando de um para o outro. — Parece que foi ontem que a gente tava perdido em Paris.

Leo levantou os olhos na hora.

— Nossa, verdade.

— Seis meses — Eduardo completou, quase surpreso ao dizer em voz alta.

Fernando balançou a cabeça.

— Seis meses desde aquela viagem caótica.

— Não foi caótica — Leo rebateu. — Foi incrível.

— Incrível porque não foi você o responsável por quase perder o voo de volta, né? — Eduardo apontou, provocando.

— Eu só queria comprar um último croissant — Leo se defendeu.

Eduardo riu, lembrando.

— Um último que virou três.

— Tá bom. Mas eu não me arrependo. — Leo respondeu, divertido.

Fernando se inclinou um pouco para frente.

— É, mas foi muito legal. Obrigado por terem ido.

Leo sorriu diante do comentário, mas, por dentro, pensou em como Fernando não era nada do jeito como imaginou.

Quando Eduardo falava de Fernando, lá atrás, Leo tinha criado uma imagem completamente diferente. Imaginava algum amigo rico, fechado, do tipo que não dava trela para quem não fazia parte do mesmo círculo. Um daqueles homens que olham de cima a baixo.

Mas Fernando não era assim.

Desde Paris, Leo tinha entendido isso. Fernando era gentil sem esforço. Tinha humor, tinha cuidado, sabia provocar Eduardo sem ultrapassar limites e, mais importante, nunca fez Leo se sentir deslocado. Nunca o tratou como “o namorado”, “o cara de fora” ou alguém provisório. O tratava como parte de tudo aquilo.

E isso era importante.

— Eu também gostei muito — Leo disse, sincero. — Da viagem… e das companhias.

Fernando abriu um sorriso mais aberto.

— Então pronto. — Ele se recostou na poltrona. — Oficialmente valeu a pena.

Eduardo observou os dois em silêncio por um instante, sentindo algo aquecer no peito. Era estranho ver esses mundos se encontrando com tanta naturalidade. Mas era bom.

Fernando se levantou, caminhou até a cozinha e abriu a geladeira sem pedir permissão.

— Você ainda vive só de café, pelo visto — comentou.

— Isso é calúnia — Eduardo respondeu. — Hoje tem macarrão.

— Impressionante. Pelo menos evoluiu.

Leo riu, encostando as costas no sofá.

E, enquanto os dois amigos começavam mais uma discussão boba, Leo teve certeza de uma coisa: não era só Curitiba que estava começando a parecer casa. As pessoas também.


◄☼►


Certa noite, Leo estava trabalhando em um dos eventos ao qual foi contratado como fotógrafo.

O salão estava cheio de luz.

Ele se movimentava com cuidado entre as mesas, a câmera pendurada no pescoço, atento a cada detalhe. Era um casamento pequeno, mas intenso. Dois homens se casando, mãos entrelaçadas, sorrisos largos demais para caber nas fotos.

Ele ajustou o foco no momento em que um deles levou a mão ao rosto do outro, encostando a testa, rindo baixo antes do beijo. Leo apertou o botão quase sem perceber.

E sentiu.

Não era inveja. Nem comparação. Era um aperto bom, quente, que vinha do reconhecimento. Aquilo existia. Aquilo era possível. Era real.

Por um segundo, Leo baixou a câmera e respirou fundo.

Pensou em Eduardo. No apartamento em Curitiba. No jeito distraído com que ele deixava Leo ficar dia após dia. No café dividido pela manhã, nas roupas misturadas no armário, nas mãos que se encontravam sem precisar anunciar nada.

Antes que pudesse pensar demais, Leo puxou o celular do bolso.

Abriu o Instagram, escolheu uma selfie recente: ele e Eduardo lado a lado, num fim de tarde qualquer num parque da cidade. A luz suave, os sorrisos tranquilos.

Na legenda, colocou apenas um emoji de coração.

E postou.

Guardou o celular no bolso e voltou ao trabalho, suspirando.

Trinta minutos depois, durante uma pausa rápida perto da mesa de doces, Leo pegou o celular de novo, quase por reflexo. A notificação estava lá.

Eduardo tinha curtido e comentado.

Um coração também.

Simples. Direto. Público.

Leo sentiu o sorriso surgir antes mesmo de perceber. Ele deslizou a tela mais um pouco, distraído, e parou.

Carla tinha curtido a foto.

Carla.

Sua amiga de infância. A que conhecia versões deles que quase ninguém mais conhecia. A que sabia dos silêncios, das confusões, das coisas que Leo nunca tinha conseguido descrever direito quando era mais novo.

O celular vibrou quase imediatamente.


Carla: Leo??? Esse é O Eduardo Castilho mesmo?


Leo riu baixo, passando o polegar pela tela antes de responder.


Leo: Oii Carla. É ele sim.


A resposta veio rápido demais para ser coincidência.


Carla: Meu Deus. Quanto tempo faz, hein?

Carla: Tô surpresa

Carla: Mas de um jeito bom

Carla: Nunca imaginei isso


Leo apoiou as costas numa coluna do salão, observando de longe os noivos abraçados, enquanto digitava.


Leo: Nem eu imaginava, pra ser sincero


Carla digitou por alguns segundos.


Carla: Vocês estão bonitos

Carla: Será que você pode falar agora?

Carla: Pra colocarmos a conversa em dia, sabe, quero saber tudoo


Leo engoliu em seco, sentindo algo apertar no peito.


Leo: Agora não, tô trabalhando. Saindo aqui te chamo.


Ele bloqueou o celular, respirou fundo e voltou a erguer a câmera.

Quando enquadrou os dois homens rindo no centro da pista, Leo percebeu que não estava apenas registrando aquele amor.

Estava, pela primeira vez, permitindo que o dele também existisse em voz alta.


◄☼►


Quando o evento terminou e Leo finalmente guardou a câmera na mochila, o salão já estava mais silencioso. Restavam apenas algumas luzes acesas, garçons recolhendo taças, os noivos abraçados perto da saída, ainda sorrindo.

Do lado de fora, o ar da noite estava fresco.

Leo encostou-se na parede, respirou fundo e desbloqueou o celular. A notificação da conversa com Carla ainda estava ali, pulsando.

Então, ele ligou.

— Leo! — a voz dela veio do outro lado com a mesma empolgação de anos atrás. — Você me ligou mesmo!

— Eu tinha dito que ia ligar. — ele respondeu, sorrindo sem perceber.

— Tá, primeiro: você tá bem? Segundo: o que foi aquela foto? Terceiro: desde quando você e o Castilho… meu Deus, Leo!

Leo riu, passando a mão pelo cabelo enquanto se afastava do barulho da rua.

— Calma. Uma pergunta de cada vez.

— Não dá — Carla respondeu. — Eu tô curiosa demais.

Leo ficou em silêncio por um segundo, organizando os pensamentos.

— A gente… se reencontrou — começou, devagar. — Depois de muito tempo. Não foi simples. Não foi nada simples, pra falar a verdade.

Carla não interrompeu.

— Ele voltou atrás de mim — Leo continuou. — Não de um jeito bonito de filme, mas do jeito possível, sabe? Errando, acertando, insistindo. E… provando. Com ações. Todos os dias.

— Sério? Ele mudou mesmo? — ela perguntou, mais suave agora.

— Mudou sim. Ele entendeu onde errou, disse que se arrependeu amargamente... enfim, eu senti que podia confiar de novo.

Carla soltou um suspiro longo do outro lado da linha.

— Leo… — disse, emocionada. — Eu lembro de como aquilo tudo te quebrou.

— Eu sei. — Ele engoliu em seco. — Eu também lembro. Por isso não foi fácil deixar ele chegar perto outra vez. Mas… dessa vez ele ficou, mesmo quando era difícil. Mesmo quando eu empurrei… Eu não facilitei as coisas também, não.

Carla sorriu do outro lado, e Leo quase conseguiu ouvir.

— Caramba. Imprevisível.

— Sim, assim como a vida. — Ele comentou sem hesitar.

Houve um breve silêncio, e então Carla falou, animada outra vez:

— Tá. Agora que eu já tô oficialmente feliz por você, eu tenho uma proposta.

— Lá vem.

— A gente precisa se ver. — Ela disse. — Eu, você, o Eduardo. E o Davi também. Eu me recuso a continuar essa história só por mensagem e ligação.

Leo riu baixo.

— Ele vai ficar nervoso, você sabe, né?

— Ótimo — Carla respondeu. — Sinal de que se importa.

Leo olhou para o céu escuro por um instante, sentindo aquele mesmo aperto bom de antes.

— Eu topo — disse. — Vou falar com ele.

— Faz isso — Carla respondeu, satisfeita. — E, Leo?

— Oi.

— Eu sinto a felicidade na sua voz. Sério.

Leo sorriu, o peito cheio.

Eles se despediram e desligaram. Leo ficou ali mais alguns segundos, com o celular na mão, pensando em como a vida tinha, silenciosamente, encontrado um jeito de se reorganizar.

Depois entrou no ônibus, já imaginando a cara de Eduardo quando soubesse que o passado estava prestes a cruzar com o presente.


◄☼►


O dia do jantar chegou mais rápido do que Eduardo gostaria de admitir.

A viagem até Londrina, onde Carla e Davi moravam juntos, foi tranquila, mas o silêncio dentro do carro dizia mais do que qualquer conversa. Eduardo mantinha as mãos firmes no volante, atento demais à estrada, como se dirigir fosse uma forma eficiente de controlar a própria ansiedade. Leo, ao lado, estava visivelmente animado, olhava pela janela, comentava pequenas coisas.

Eduardo percebeu.

Percebeu o brilho nos olhos dele ao falar de Carla e Davi, a leveza com que citava os dois, como quem retorna a um lugar seguro na memória. E isso foi o suficiente para fazê-lo aceitar ir, mesmo com o estômago levemente embrulhado.

Porque aquelas duas pessoas conheciam o pior dele.

Sabiam o quanto ele tinha errado com Leo, o quanto o tinha machucado no passado.

Ainda assim, havia curiosidade também. Porque, lá no fundo, ele tinha uma vontade silenciosa de encarar quem tinha ficado para trás, mesmo que isso doesse um pouco.

O restaurante era aconchegante, iluminado por luzes quentes e mesas de madeira.

Carla e Davi já estavam lá.

Leo os viu primeiro.

— Olha eles ali — disse, sorrindo largo, antes mesmo de terminar a frase.

Carla se levantou na hora. Davi veio logo atrás.

O abraço foi imediato.

Carla envolveu Leo com força, como se quisesse recuperar o tempo perdido num único gesto.

— Você tá do mesmo jeito — ela disse, emocionada.

Davi veio logo atrás, abraçando Leo com força.

— Cara, que saudade.

Eduardo ficou alguns passos atrás, observando, com um sorriso meio sem graça, as mãos nos bolsos. Quando Davi o notou, foi direto até ele.

— Eduardo — disse, abrindo os braços. — Quanto tempo.

Eduardo piscou, surpreso, antes de retribuir o abraço.

— Pois é… — respondeu, sincero. — Muito tempo.

Carla se aproximou em seguida. Olhou para ele por um segundo a mais do que o necessário, não como julgamento, mas como reconhecimento. E então o abraçou também.

— Que bom te ver — disse, simples.

Aquilo desarmou Eduardo mais do que qualquer confronto teria feito.

Eles se sentaram.

A conversa fluiu com uma naturalidade inesperada. Piadas antigas, histórias da infância em São Tomás, lembranças de situações ridículas que só faziam sentido para quem esteve lá. Leo ria alto, os olhos brilhando, contando episódios que Eduardo nunca tinha ouvido, gesticulando como sempre fazia quando se empolgava.

E ninguém, absolutamente ninguém, trouxe o passado pesado à mesa.

Não houve cobranças.

Não houve silêncios constrangedores.

Em um momento mais quieto, enquanto Davi contava uma história longa demais e Carla ria com a cabeça apoiada na mão, Eduardo sentiu os dedos de Leo procurando os seus por baixo da mesa.

Ele entrelaçou a mão à de Leo sem pensar. Um gesto simples, mas cheio de ternura e confiança.