Os Fracos Nunca Mentem

3 Hormônios à Flor da Pele


Niko P.O.V

Olá! Dessa vez a história começará de um jeito diferente. Meu nome é Nikolas, mas todos me chamam de Niko, tenho vinte e quatro anos, cabelos e olhos castanhos e sou um homem trans, também amigo de Anastácia.

Acabou de amanhecer, e como não trabalho hoje, decidi que acordaria cedo para resolver algumas questões, aproveitar o dia e sair um pouco de casa, já que vivo enfurnado aqui dentro. Sou aquariano, não gosto de me sentir preso o tempo todo, mas ao mesmo tempo tenho preguiça de sair às vezes graças ao ascendente em touro.

Moro sozinho, tão sozinho que minha cama ainda é de solteiro, feita de madeira. Aqui em casa não tem muito espaço, mas também ela não é pequena, é confortável, como eu diria. Também não tem muitos motivos pra ter uma casa enorme em um lugar que faz graus negativos, seria até bem frio.

Enfim, hoje é um dia especial, então eu não posso deixar de ficar animado. Três meses atrás, eu comecei a tomar hormônios, como uma parte da população de pessoas trans faz. Não existe nada mais animador, sem dúvidas a minha primeira dose foi o melhor momento da minha vida porque foi quando eu tive certeza que meu corpo finalmente iria começar a mudar e eu começaria a me sentir mais confortável com ele.

Deixa eu explicar pra vocês, os hormônios são responsáveis por dar forma aos nossos corpos. Os femininos, como o estrógeno, fazem os seios crescerem e os quadris alargarem; já os masculinos, como a testosterona, te dão pelos e engrossam a sua voz, além de outros efeitos. É por isso que a maioria das pessoas trans querem tanto tomá-los, para adequarem o corpo ao seu gênero.

Quando eu me assumi homem, há dois anos, a primeira coisa que fiz foi cortar o cabelo e deixá-lo bem curto, praticamente raspado. Agora ele tá até bem grandinho, por ser cheio dá a impressão que ele é maior, mas eu gosto de deixá-lo bem pra trás. Aqui na Rússia é proibido pessoas trans comprarem hormônios, então demorou para que eu conseguisse importá-lo de outro país sem que ninguém soubesse.

Tomo uma injeção de três em três meses, ou seja, hoje é a minha segunda dose. Os efeitos demoram bem mais do que eu esperava, a Ana diz que eu sou muito impaciente; costumo ficar me olhando no espelho pra ver se encontro alguma diferença. Não sei se é paranóia minha, mas o meu rosto que era bem redondo, começou a ficar quadrado de um tempo pra cá e os meus olhos diminuíram.

A primeira coisa que cessou de vez, graças a Deus, foi a menstruação. Pode-se dizer que eu sou estéril agora porque não tem risco algum de engravidar, mesmo que eu me relacione tanto com homens quanto mulheres sexualmente. A única coisa ruim mesmo é que essa injeção é muito pesada e dói bastante, ficando a dor por uns dias até, mas vale a pena.

Enfim, não é só por esse motivo que eu tô feliz hoje. Daqui a pouco vai ter uma espécie de exposição infantil temática sobre patos que o meu amigo Ahiru é fã e aceitou vir comigo. Não que eu ache ele estranho, é que é bem engraçado alguém gostar tanto desse animal especificamente ao ponto de ter até cuecas com estampa de patos.

É melhor começar a fazer as coisas logo. Vou tomar um banho agora e daqui a pouco um farmacêutico amigo meu vai vir aplicar a injeção em mim, aí sim eu vou poder sair de casa mais feliz. Só espero que não doa muito, porque dá última vez eu nem conseguia andar direito.

Me dirigi até o banheiro, aquela não era a minha atividade favorita, só que era necessário pra não sair de casa fedendo. Tive que tirar minhas roupas, odiava isso, gosto do calor delas e do sentimento de proteção que elas me traziam. Não gosto de ficar nu, tanto por ser obrigado a olhar meu corpo quanto pela temperatura fria da Rússia.

Entrei no box; meus banhos não costumavam durar mais que três minutos, só fazia o necessário. Passava shampoo e deixava o sabonete cair sobre o meu corpo molhado, de olhos fechados para que o inferno acabasse de uma vez. Era estranho tomar banho, me perguntava como uma atividade tão comum pra maioria das pessoas poderia ser tão ruim pra mim. Provavelmente era um misto de desconforto misturado com disforia.

Saí de lá, enrolei uma toalha em minha cintura e fiquei de frente para o espelho. Como disse antes, é normal você ficar paranóico quando começa a se hormonizar, fico buscando mudanças no meu rosto. Nunca sei se é impressão minha ou se é verdade, mas minha cara continua ficando mais quadrada a cada dia.

Meus cabelos castanhos são um pouco compridos, batem na altura do ombro, porém os deixo bem pra trás. Ponho um pouco de pomada e penteio bastante pra ficar certinho, forma até um topete, mas de leve.

Em seguida, chegara a pior parte do dia pra mim e também uma das muitas razões pra eu odiar tanto assim o banho. Tinham algumas bandagens no armário embaixo da pia e eu as usava para apertar o meu peito até não ficar nenhuma marca por debaixo da camisa.

O nome dessa técnica é 'Binder', como eu disse, ela consiste em deixar o peito liso. Todos os dias quando eu vou ver alguém ou sair de casa, preciso colocar bandagens apertadas envolta do meu tórax. É algo que muitas vezes me impede de respirar e me dá problemas cardíacos, além da coceira por ser um material extremamente alérgico. Ele também acaba danificando permanentemente a caixa torácica e a desfigura, dando problemas na coluna.

Mesmo com tantos contras, eu precisava ficar com isso o dia todo, caso o contrário, teria que lidar com meus seios estando amostra embaixo da camisa e isso me arrecadaria uma série de problemas, fora que é extremamente desconfortável ser um homem e ter essas coisas. A cirurgia de remoção também é muito cara e eu não posso pagar.

(…)

Um pouco mais tarde, já havia saído de casa. Como eu previa, sentia uma dor insuportável na região dos quadris, mas fiz de tudo para que Ahiru não notasse e ficasse preocupado comigo. Estava vestido com uma calça jeans, uma camisa por cima de outra com manga comprida e all star. Todas as peças pretas. Pode parecer estranho, mas eu só uso coisas dessa cor pra vestir.

Oliver tinha acabado de chegar, eu fiquei esperando por ele na porta do shopping. Como sempre, ele estava com aquele gorro preto com estampas de patos cobrindo seus cabelos laranjas, uma bermuda também personalizada, uma bota masculina de couro e uma bolsa preta transpassada com alguns bottons.

— Brigado por ter me trazido pra cá, patinho! – Além de tudo, ele tinha esse mania de chamar os outros de “pato” como elogio, acho que era um contraste com “gatinho”. Estávamos andando juntos, um do lado do outro, e eu era um pouco mais baixo que ele.

— Imagina, eu vi que teria isso e não pude nem deixar de pensar em você.

A exposição era no terceiro andar, nós fomos juntos até lá e até mesmo quando andava, ele parecia um garoto adolescente. Relaxado, com os braços atrás do rosto e sem prestar muita atenção no caminho, só me seguindo e assobiando durante o percurso.

— Ali, acho que é lá! – Ele avistou várias crianças juntas em um mesmo lugar, apontou e saiu correndo naquela direção.

— Ei, e-espera aí! – Eu fui tentar correr também, só que meu quadril ainda tava doendo bastante. – Ai, ai... – E era difícil segui-lo porque Ahiru realmente corria rápido e com energia.

— Vem logo, Niko, você é lento demais!

— Eu tô indo, eu tô indo!

Que horror, eu parecia um idoso correndo enquanto ele, uma criança energética. Demorou, mas finalmente consegui alcançá-lo e era justamente como eu imaginava: um espaço cheio de pessoas entre dois e treze anos, pelúcias, desenhos e tudo relacionado a patos espalhados com até mesmo adultos fantasiados.

— Olha, Niko! Que fofo!

Tinha uma fila para entrar no espaço e sem dúvidas éramos as pessoas mais velhas dali, e mesmo assim, me arrisco a dizer que Oliver estava muito mais empolgado que a maioria das crianças, senão todas. Esperamos um pouco para entrar, para depois nos juntarmos com todo aquele amarelo de patos.

O chão era almofadado com vários brinquedos espalhados e as paredes tinham fotografias e desenhos, as estantes guardavam pelúcias, chaveiros e demais acessórios que poderiam ser comprados. Até os copos de refrigerantes eram enfeitados e as crianças poderiam ficar desenhando junto com os adultos fantasiados.

— Nossa, aqui realmente foi feito pra voc...

Antes que eu pudesse acabar de falar, me virei e vi Oliver puxando uma pelúcia das mãos de uma garotinha.

— Soolta, solta, eu vi primeiro! – E gritava, tentando tomar o brinquedo.

— Saai, você é velho, esse brinquedo é meu!

— Não é seu, eu vi primeiro, ele foi feito pra mim e é de todas as idades!

— Para com isso, eu vou chamar a minha mãe!

— Ahiru, solta isso, deixa com ela! – Me intrometi, indo até eles e afastando meu amigo. Depois, me virei pra garotinha. – Desculpa por isso, ele não consegue se conter quando o assunto são patos.

— Hmpf, brigada. – Ela olhou a gente com desdém e depois saiu com a pelúcia.

— Por que você fez isso? Eu gosto muito mais desse tipo de coisa que as outras pessoas, você sabe!

— O que eu sei é que você não pode ficar brigando com uma criança por pelúcia, idiota.

— Não é uma pelúcia qualquer, era um pato colorido, essa eu ainda não tinha.

— Eu compro outra pra você, deixa disso, o que não falta aqui é pato.

— Mas esse lugar é incrível mesmo! Eu poderia morar aqui numa boa.

— Você não enjoa mesmo, né? Nunca vi ninguém com um hobbie tão decidido quanto o seu.

— Não é um hobbie, é uma vida! Um dia eu ainda vou ter um quintal com riacho cheio de patos e vou nadar com eles, é meu objetivo.

— Boa sorte com isso, no primeiro inverno eles ficariam congelados instantaneamente.

Oliver tinha uma personalidade bem forte, ele consegue ser leonino com ascendente em áries, ter lua em escorpião e vênus em gêmeos. Quem entende um pouco de astrologia sabe que essa é uma combinação bem difícil, por isso eu gosto sempre de saber o mapa astral das pessoas que eu gosto, pra já saber o que me espera.

Ficamos na exposição de patos à tarde inteira praticamente, até que a fome bateu. Ele tinha comprado tantas coisas que nós dois carregamos várias sacolas até a praça de alimentação, onde sentamos para comer hambúrguer com batata frita.

— Brigado de novo por ter me trazido pra cá, foi ótimo! – Dizia sorrindo e batendo os pés um no outro debaixo da mesa.

— Que nada, foi mais divertido do que eu achei que seria. E ver você com as crianças era muito engraçado, hahaha, eu me senti um responsável por você.

— Então brigado por ter me trazido, “papai Niko”.

— Não força, vai.

— Tá, parei. Mas e aí, a gente vai fazer o que agora?

— Não sei, eu não tinha planejado nada pra depois daqui.

— Então diz, o que você quer fazer agora? – Ele perguntou entusiasmado e pegou minhas duas mãos, me olhando fixamente.

— Não faço ideia...

— Só diz a primeira coisa que vier na sua mente! Por mais estranho que seja, pode ser divertido.

— Hahaha, tá falando sério? Eu nem sei qual foi a primeira coisa que eu pensei.

— Sabe sim, fala aí.

— Não sei, mas e você? Quer fazer o que agora?

— Hm... sei lá. – Ele continuou segurando as minhas mãos, dessa vez olhando pra elas. – Eu vou analisar as suas mãos.

— Vai ler o meu futuro?

— Você sabe fazer essas coisas? Você que entende disso aqui.

— Hahaha, não, ainda não sei ler mãos.

— Que pena, seria divertido se você soubesse.

Enquanto ele segurava minhas mãos, eu acabei notando que o ambiente da praça de alimentação estava cheio e as pessoas olhavam para nós. Era costume sentar em família, mas estando só eu e ele, ainda mais com os nossos visuais chamativos, acabava chamando a atenção. Eu costumo reparar nesse tipo de coisa, apesar de já estar acostumado, mas Ahiru nem dá a mínima.

— Ei, Ahiru, você acha que essa gente tá olhando pra cá?

— Huh, quê? Onde? Quem? – Ele levanta o rosto, encarando diretamente a praça de alimentação inteira.

— N-Não faz isso, idiota, olha disfarçadamente! – E me obrigou a segurar seu rosto, para que ele olhasse pra mim e não ficasse tão visível que sabíamos que estávamos sendo observados.

— Mas por que você acha que estão olhando pra cá?

— Devem achar que nós dois estamos tendo um encontro.

— Teoricamente nós estamos, né?

— Acho que sim, mas essa gente é um saco! Até parece que nunca namoraram ou pelo menos saíram com amigos.

— Nem me diga, não me surpreenderia se eles realmente nunca tivessem feito esse tipo de coisa.

— Pois é, que vida chata a deles.

— Hey, quer irritá-los ainda mais?

— Como assim?

— Rápido, segura as minhas mãos e me olha como se estivesse apaixonado.

Do nada, ele se debruçou um pouco e pegou nas minhas mãos, me olhando bem de pertinho com os olhos quase fechados e um pequeno sorriso, típico de pessoas que pareciam realmente serem um casal. Fiz o mesmo, segurando o canudo do refrigerante com a boca enquanto encenava.

E era realmente engraçado essa situação de ficar olhando seu melhor amigo como se vocês estivessem apaixonados um pelo outro, tanto é que nós dois acabamos não aguentando muito tempo e começamos a rir baixinho, ainda segurando nossas mãos e batendo as pernas uma nas outras debaixo da mesa. Pra piorar, realmente dava pra notar que as pessoas ao redor se sentiram atingidas, o que foi mais engraçado ainda.

— Hih, eles acham que nós somos mesmo um casal. – Ri um pouco, fechando os olhos e ficando com meu rosto mais próximo ao dele.

— Haha, pois é!

E ele fez o mesmo, riu e continuou segurando minhas mãos, até fazendo carinho entre os meus dedos. Voltamos a nos olhar, mas conforme soltávamos risadas, mais nossos rostos foram se aproximando. Não sei direito até onde era fingimento pra provocar os conservadores de plantão, porém realmente era bem divertido fazer isso.

Até que foi inevitável ficarmos tão próximos que conseguíamos sentir nossas respirações batendo umas contra as outras; nessa hora, nossos risos foram ficando mais baixos e nossos olhos voltaram a ficar fechados. Ele encostou de relance seus lábios nos meus e eu fiquei inato, sem rir, mas ainda com a boca aberta.

Ele emanava um calor pela boca e eu conseguia sentir seus pés tocando os meus debaixo da mesa. Paramos de rir e de nos preocupar com as pessoas ao nosso redor, que se reduziram à nada naquele momento, e os lábios de Oliver cada vez tocavam mais os meus, até juntarmo-nos logo em um beijo de língua.

— Ei, o que diabos é isso? Isso aqui é um ambiente de família!

— Hã, como é que é? – Do nada, um homem apareceu falando com nós dois de modo bem desagradável. Nos separamos e Ahiru disse, o encarando, enquanto eu só fiquei na minha.

— Vocês não tem vergonha? Tem crianças nesse ambiente, vão fazer esses atos imorais longe daqui, pederastas!

— Você ficou maluco? – Oliver se levanta, batendo de frente. – Vai cuidar da sua vida, otário!

— Ei, Ahiru... – Tentei chamá-lo para ver se ele se controlava, mas baixo, ainda sentado na mesa.

— Maluco, eu? – O homem continuava brigando com ele, era até meio idoso. – Vocês sujam a imagem do nosso país, endiabrados de pouca vergonha, pedófilos! Tem crianças nesse lugar e vocês têm coragem de fazer isso?

— Qual é o problema? As crianças não são cegas e nós não estávamos fazendo nada demais, um dia elas vão crescer e se continuar escondendo tudo delas, elas vão virar adultas tão ignorantes quanto você!

— Então é isso que vocês querem, acabar com a humanidade e transformar nossas crianças em seres deploráveis que fazem orgias, é a nossa obrigação como povo russo protegê-la de vocês!

— Cala boca, para de falar merda! – Acaba perdendo a paciência e empurra o homem com ódio.

— Ahiru, não faz isso! – Acabei intervindo, me levantando e segurando meu amigo. O shopping inteiro já estava olhando pra nós.

— Me larga, eu ainda não acabei com esse idiota! – Mesmo sendo segurado por mim, ele se debatia e continuava querendo brigar. – Eu não posso deixá-lo falar o que quiser de mim!

— Viu só? Esse bando de pederastas só provam que não respeitam ninguém! – Ele continuava nos xingando. – Partem pra violência física e moral sem escrúpulos, nojentos! Animais libidinosos!

— E isso que você tá fazendo não é considerado violência, otário?

— Ahiru, para, não reage! – Ele ainda queria ir pra cima do homem e eu o impedia, não por concordar com o cara, mas por saber que é perigoso ter esse tipo de reação em um país que um beijo público é crime.

— Me larga, Niko, por que você tá fazendo isso? Você tá defendendo esse desgraçado!

— Eu não tô defendendo ninguém, eu tô tentando proteger nós dois!

— Ei, ei, ei, o que tá havendo aqui? – Dois guardas apareceram na nossa frente.

— Oh, que bom que chegaram, esses dois abutres estavam cometendo atos libidinosos em público.

— Foi só um beijo, seu nojento! – Ahiru exclama.

— Isso é verdade? – Um dos guardas perguntou para Oliver. – Você confirma que cometeu esse tipo de ato?

— Eu só dei um beijo no meu amigo, não foi nada demais, esse projeto de gente é que veio pra cima e começou a xingar a gente.

— Então você realmente confirma que praticou homossexualismo em um espaço público, onde pessoas de todas as idades, inclusive crianças, poderiam ver? Você está ciente de que esse espaço é frequentado por pessoas de família?

— Hã, você nem deu a mínima pro fato de nós dois termos sido atacados de graça, que tipo de guarda é você?

— Ahiru, cala a boca... – Prossegui tentando fazê-lo parar.

— E agora ainda desacato contra uma autoridade! Eu vou precisar levar ambos até a delegacia e abrir uma queixa.

— D-Delegacia? Queixa?!

— Não! Não faz isso, por favor. – Fui até o guarda, tentando consertar aquela situação. – Me perdoa pelo meu amigo, ele tá com a cabeça quente, nós não tínhamos intenção de ofender ninguém.

— Hã, fala por você, eu não me arrependo de nada que eu fiz! – Oliver exclama mais uma vez, se sobrepondo a mim.

— Para com isso, idiota, você não vê que eu tô tentando amenizar a situação aqui?

— Cometeram duas infrações e agora se recusam a ir até a delegacia? – Ele continua teimando. – Qual é a solução que vocês me dão então, a não ser arrastá-los à força?

— Olha, nós pedimos desculpas, de verdade, deixa passar essa, por favor. – Me dirigi até os guardas. – Ir até a delegacia só iria fazer os senhores perderem tempo, deixa que eu vou embora com o meu amigo, ok?

— Você afirma que consegue controlar o seu amigo desaforado até a saída do estabelecimento?

— Sim, sim, eu consigo.

— Então saiam daqui e não ousem voltar a pisar nesse ou em qualquer outro ambiente familiar!

Acabamos saindo dali, sem falar nada um com o outro. Dava pra ver perceptivelmente que Ahiru estava com um ódio mortal de mim, e eu nem tirava seu mérito, mas fiquei com muito medo dessa história tomar rumos piores. É horrível não ter sequer uma lei que te defenda, você é obrigado a abaixar a cabeça pra esse tipo de situação.

— Desculpa por isso, não precisa ficar chateado comigo. – Disse, quebrando o silêncio quando saímos do local.

— Eu não acredito que nem você me defendeu naquela hora. – Ele sequer olhava direito pra mim.

— Não fala isso, é óbvio que eu tava do seu lado!

— É? Não parecia, você só queria que eu parasse de responder aquele projeto de ser humano.

— Eu fiz isso pro nosso bem.

— Não, você fez isso pro seu bem! Eu não aceito que ninguém me trate daquele jeito, eu não gosto de ficar calado quando eu sei que eu não fiz nada de errado!

— Eu sei, mas você precisa entender que a gente não pode fazer nada quanto a isso, existe uma lei que diz que a gente poderia ser preso por ter feito aquilo!

— E essa lei vai continuar existindo se todo mundo se conformar e se esconder, ficar calado quando ouvir merda! Não vai ajudar nada ficar com medo e se submeter a esse sistema, Niko.

— O sistema não vai mudar magicamente se nós dois formos presos também, não é essa a solução por mudanças! Quem vai se lembrar ou sequer saber que a gente existiu se simplesmente nós formos presos por uma bobagem aleatória?

— Você acha mesmo que isso é bobagem?

— Bobagem ou não, nós só viraríamos estatística, não é assim que se muda um sistema conservador.

— E se muda como, aceitando o que as pessoas falam da gente e pedindo desculpas no final?

— Para de distorcer o que eu tô dizendo, eu só quis proteger nós dois!

— Que seja então, foi mal por ter posto a sua segurança em risco.

Ele pegou todas as sacolas da compra e deu de costas pra mim, indo embora. Até pensei em correr atrás dele e tentar de novo explicar que não era culpa minha nem dele, que isso era uma coisa que ia além de nós dois, mas achei melhor não falar nada.

(…)

4 dias depois...

Anastácia P.O.V

Adoro quando eu acordo, não tenho nada pra fazer e ainda por cima o clima está agradável! É uma sensação ótima saber que posso fazer o que eu quiser pelo resto da tarde. Tinha acabado de sair da minha cama, moro sozinha em uma casa no centro da cidade.

Aliás, errei em dizer que moro sozinha. Tenho um Lulu da Pomerânia, um cachorrinho bem pequeno, mas totalmente peludo chamado Peter. Sempre que eu acordava, ele vinha em minha direção com seus latidos baixos e agudos e lambia a minha perna.

— Rawr, rawr, rawr!

— Oi, meu amor! – O peguei no colo e ele abanava seu rabinho repetidas vezes, lambendo mais ainda meu rosto. – Que bom te ver de manhã!

Quem precisa de um namorado que provavelmente roncaria a noite toda do seu lado, ainda te empurraria e pegaria sua coberta? Ter um cachorro é muito melhor, com toda certeza eles são mais carinhosos, fofos e não te julgam por nada que você faça.

Mas enfim, continuei com minha rotina matutina. Fui até o banheiro e retirei minha roupa, me preparando para o banho, porém, antes disso eu precisava tomar meus remédios. Até que não eram muitos, só três vitaminas diárias, um comprimido de bloqueador de testosterona de manhã e um à tarde e outros dois comprimidos de hormônio feminino.

Ah, também tinham mais dois remédios, um deles pra evitar a queda de cabelo e outro pra pressão alta, mas esses eram só uma vez por semana. Às vezes eu me pergunto como não tive nenhuma overdose durante os oito anos que me hormonizo, só sei que pra conseguir atingir um nível de conforto consigo mesmo você precisa lutar muito, nunca vai ser fácil.

Depois dos remédios, posso finalmente tomar meu banho. Mais produtos para deixar o cabelo tratado e hidratado, sabonetes específicos pra não irritar a pele, hidratação de corpo... e olha que eu nem me acho tão vaidosa assim, talvez um pouco, em uma medida saudável.

Ao finalizar o banho, vinha a parte fácil: colocar as roupas. Acho que vou dar uma volta com o Peter, o clima tá ótimo pra ir até a pracinha aqui perto. Depois de me vestir, puis a coleira nele e já recebi uma reação positiva, visto que ele fica super feliz em saber que vai sair.

— Vamo dar uma volta, bebê? – Falei, me agachando. Ele era um cachorrinho tão pequeno que nem chegava perto de bater no meu joelho.

— Rawr, rawr, rawr!

Coloquei meus sapatos e enfim, saí de casa junto com ele. Caminhamos juntos até a praça, lá era um local bem grande com bastantes árvores e terra com uma área de lazer para as crianças. Os donos de cachorros vinham até aqui, como eu, passear diariamente, era um ambiente bem familiar e alegre.

Dei uma volta por aqui com Peter, aliás, acho que era ele quem dava uma volta comigo. Mesmo sendo tão pequenininho, esse cachorro tinha uma força incrível nas patas e corria por aí, me obrigando a correr junto graças à coleira, mas não posso negar que acho isso bem divertido.

— Own, que bonitinho! – Uma menina que deveria ter uns sete anos veio até mim, correndo, e se agachou perto de Peter. – Ele morde?

— Não morde não, pode fazer carinho. – Respondi, também me abaixando.

— Rawr, rawr, rawr!

— Ele é muito fofinho! Qual é o nome dele?

— É Peter, e o seu?

— Lilia. – Ela me olhou com aqueles olhos dourados e cabelo loiro liso preso com um gorrinho de frio, parecia transmitir uma aura muito boa. – E você, moça, qual é o seu nome?

— Anastácia, mas pode me chamar de Ana.

Lili! Ei, Lilia, cadê você?!

Ouvi uma voz masculina exclamando o nome da garota que acabei de conhecer, antes de vir em nossa direção.

— Tio Máx!

— Ah, você tá aí. – Ele a encontrou e logo a pegou no colo, como se fosse dar um sermão nela. – Não foge de mim assim, se eu te perder nessa praça minha vida vai ficar complicada.

— Eu não tava perdida, eu só tava brincando com o Peter.

— Peter?

Foi quando ele inevitavelmente olhou pra mim e percebeu a minha leve cara de espanto junto com aquele sentimento de quando você não sabe o que fazer e fica parada, inata, no mesmo lugar. O homem que tinha pegado Lilia no colo era o tal do Máxim, que eu já não via, com sorte, há uns dias.

— V-Você! – E quando ele me notou, também levou um susto.

— Oi... – Disse, sem o menor ânimo.

— O que você tá fazendo aqui?

— Ah, agora eu também sou obrigada a dizer pra qualquer estranho o motivo de eu sair de casa?

— Argh, era só o que me faltava, esbarrar com você. Que sorte. – Ele diz com ironia.

— Digo o mesmo, é tanta sorte que me dá vontade de vomitar.

— Vocês dois se conhecem? – Lilia pergunta com um sorriso gentil, ainda no colo dele.

— Lili, vai dar uma volta por aí, depois eu falo contigo. – Máxim a deixa no chão.

— Tá bom! – E ela vai correndo pra algum canto.

— Eu não me importo em esbarrar com você, mas você precisa ter bom senso e ficar longe das crianças, esse lugar nem é pro seu tipo. – Ele começa a me dizer com uma face de asco estampada.

— Tá de brincadeira? Eu frequento o espaço que eu quiser e falo com quem eu quiser, aposto que ela não se importou com a minha presença.

— Crianças não tem porquê ficarem expostas à pessoas como você, faz mal pra elas, só que elas não tem idade pra perceber.

— Já acabou? Eu não sou obrigada a ficar te aturando em pleno fim de semana.

— Pelo menos agora eu sei o seu nome de verdade. – Olha pra mim com desdém. – “Peter”.

— Ah, você acha que esse é o meu nome? – Mas só pude responder rindo.

— E não é?

— Olha pra baixo, idiota.

Foi quando ele notou a presença de Peter, que olhava para ele com a língua para fora e abanando o rabo sorridente.

— Ah, esse protótipo canino é o Peter? Eu nem tinha notado ele, parece um brinquedinho.

— Caso a sua memória seja tão pequena quanto a sua mente, meu nome é Anastácia. Aquela garotinha é a sua sobrinha? Tadinha, ela parece ser tão feliz.

— Ela não é minha sobrinha de verdade, é só uma criança que eu tomo conta às vezes por dinheiro.

— Verdade? Nossa, a última coisa que eu ia querer pro meu filho é ter uma baba como você.

— Por quê? Eu sou melhor com crianças do que pareço.

— Má influência, só isso.

— Você se veste de mulher e eu sou a má influência?

— Eu não “me visto de mulher”, eu visto roupas que, por acaso, estão em um corpo de mulher, e é só isso que faz elas serem “roupas de mulher”.

— Bom, eu não vou ficar discutindo com você.

— Que ótimo.

— Até porque dá última vez que tentamos discutir eu te deixei no hospital, não é? Melhor não arriscar de novo.

— Tsc, você só conseguiu me acertar porque eu tinha me distraído, como se eu fosse perder pra um idiota como você.

— Então essa é a sua desculpa, você tinha “se distraído”?

— Não é desculpa, eu realmente acabei me distraindo.

— Então tá, se você diz...

— Por quê, não acredita?

— Você tá querendo uma revanche, é isso?

— Hahaha, é incrível como vocês homens enxergam vontade de lutar em tudo, eu nunca supus que queria revanche.

— Então tá, se você tá com tanto medo de perder pra mim em público de novo...

— Que dia e que horas?

— Aqui fica vazio quarta-feira à noite.

— Pode ser então, vai trazer os seus amigos?

— Que amigos, os idiotas da outra vez? Eu nunca mais falei com eles depois daquele dia, nem ouvi mais falar.

— Sério? Por quê? Achei que você era tipo um líder pra eles.

— Eu até era, mas ter encontrado você me fez perceber que eu não tenho mais idade pra ficar brincando de gangue.

— Quem dera se isso fosse só uma questão de idade...

— Foi divertido enquanto durou, mas eu preciso me concentrar em arrumar um emprego, eu vim pra essa cidade há pouco tempo.

Tio, tio!— Lili veio em nossa direção novamente, gritando com aquela voz infantil.

— Oi, querida. – E ele a pegou no colo mais uma vez.

— A gente pode ir pra casa? Eu já tô cansada.

— Pode, claro.

— A gente pode levar a moça junto? – Ela saiu do colo dele com um sorriso, indo até Peter. – E levar o Peter também!

— Ahn, acho que não vai dar... – Máxim diz, inseguro.

— É... pra uma próxima, talvez. – E eu concordei, afinal, nunca que eu iria pra casa dessa pessoa, mas Lilia não tinha culpa.

— Por quê? – Ela ficou triste. – Vocês são amigos, né? E eu queria ficar com o Peter, meus pais não deixam eu ter um cachorro.

— Nós não somos amigos.

— Ei, não fica assim. – Falei, me abaixando e ficando na altura dela, mexendo em seus cabelos. – A gente vai se ver mais vezes, tudo bem? E eu trago o Peter nas próximas.

— Mas não dá pra você ir lá pra casa? Só um pouquinho.

— Hoje não vai dar, tá em cima da hora e eu também tenho compromissos mais tarde. Não fica chateada, tudo bem?

— Tá bom...

— Não fica assim. Ei, dá um sorriso pra mim?

Pedi sorrindo e Lili logo retribuiu, abrindo um sorriso alegre em seu rosto mostrando seus dentes infantis, uma das coisas mais fofas que eu já tinha visto. Percebi que até Máxim não se importava mais e pareceu gostar, visto que me deixou falar com ela normalmente sem interromper.

— Boa menina. – Em seguida, peguei uma mecha de seu cabelo e fiz uma trança. – Você fica mais bonita sorrindo.

— Vamos, Lili. – Ele segurou na mão dela e se virou, indo embora.

— Tchau! – Ela ficou acenando pra mim e retribuí, fazendo o mesmo.

Fiquei parada por um tempo, somente segurando a coleira de Peter e assistindo os dois indo embora, de costas para mim e segurando um na mão do outro. Achei curioso como alguém tão rude consegue ser bom com crianças, mas até que era engraçado, eu já vim nessa praça com Máxim várias vezes na infância, ele só não lembra.

E eu tenho um apego muito grande por crianças. Lilia parecia ser bem alegre, ela saltitava enquanto caminhava até a saída, se desfazendo no meio das outras pessoas da praça. Continuei olhando pros dois, pensativa, com meu cachorro praticamente querendo me puxar pra correr por aí, porém sem conseguir me mover.

Até que, antes de ambos sumirem de vez, percebi que Máxim havia olhado para trás, provavelmente para ver se eu ainda estava os olhando. Acabei sentindo um impacto quando nossos olhos se cruzaram, ainda que por poucos segundos. Provavelmente ele me acha sem noção depois de ter notado que eu ainda olhava pra ele, mesmo tendo nos despedido. Na real, eu só queria entender como alguém pôde ter mudado tanto negativamente desde quando éramos crianças.

Mas quando ele olhou pra trás diretamente nos meus olhos, ainda continuando a andar com Lili, não sei se foi impressão minha ou coisa da minha cabeça, porém, pude perceber, antes dele se virar de volta para frente, um pequeno sorriso no canto de seus lábios. Talvez irônico, talvez de despedida ou até mesmo talvez, um sorriso de “te vejo quarta-feira, quando brigarmos de novo”.

Notas finais
Vocabulário: Hormônios, sejam em formato de gel, comprimidos ou injeção, são importantes para todos os seres humanos. Todos nós os produzimos; alguns os femininos, outros, os masculinos e por aí vai. Mulheres trans costumam usar bloqueadores de testosterona em forma de comprimido e jogar algum estrógeno por cima, enquanto os homens trans, somente usam testosterona e derivados, sem precisar de anti-estrógeno. Obs: essa fanfic não apóia o uso de hormônios sem acompanhamento médico (endocrinologista) por ser extremamente perigoso e danoso à saúde. Resultados variam de organismo pra organismo. Binder é qualquer coisa usada para esconder os seios. É extremamente não recomendado pra saúde por deixar danos permanentes e por poder te levar até mesmo a ter um AVC. Mesmo assim, quem quiser usar, nunca compre bandagens na farmácia, e sim, tops especializados vendidos na internet adaptados ao seu tamanho. Fora isso, o que estão esperando pro próximo capítulo? Ficaram mais do lado de Ahiru ou Niko na discussão? E o que dizer da futura briga entre Ana e Máxim? :D