Duas da tarde… acabei acordando não muito cedo dessa vez, e pra piorar, nem acordei por querer. Meu cachorro subiu em minha cama e começou a lamber meu rosto, caminhando em cima do meu corpo para obter minha atenção. Deveria estar pensando em alguma coisa do tipo “acorda, humana, me alimente!”

— Rawr, rawr!

— Bom dia, Peter…

Pelo meu jeito de falar dava pra ver perfeitamente que mesmo depois de tudo, eu ainda estava com sono. Fico me perguntando que horas eu teria acordado se não fosse por Peter. Isso não é culpa minha, eu juro, é tudo graças ao fato de eu trabalhar à noite que acaba me desgastando, querendo ou não.

Mas não posso deixar a preguiça me consumir. Sentei na cama, abri os braços e me espreguicei bem forte, dando um pulo para fora dos colchões na mesma hora para despertar de vez. Assim que meus pés tocaram o chão, senti um desequilíbrio. Achei que tinha esquecido como se andava, mas era só preguiça mesmo.

— Meu cabelo… o que houve com você?

Em seguida, me dirigi ao banheiro e me olhei no espelho. Estava com uma cara terrivelmente amassada e meus cabelos pareciam ter adquirido vida própria durante a noite. Aliás, adquirido vida de lutador, porque eu tenho certeza que cada fio loiro que eu tinha havia entrado em um confronto.

Eis que, vendo meu estado, cheguei a uma conclusão.

— Cara, eu poderia ficar dormindo o dia inteiro hoje…

[Ring ring ring]

Na mesma hora, ouvi meu celular tocar. Parecia Deus me ligando pra dar uma resposta à última frase preguiçosa que eu disse. Fui ao meu quarto, pegando o telefone.

Oi, Ana! Vamos sair hoje?”

— Eu sabia… – Acabei respondendo sem pensar muito, automaticamente, com uma voz embriagada e sem a mínima vontade de falar.

Huh, sabia do quê?”

— Pode falar, Deus. A preguiça é um pecado e eu não posso dormir o dia todo.

Acho que esses hormônios estão começando a ir pra sua cabeça.”

— Por que você diz isso? Só porque eu estou conversando com uma divindade pelo celular?

Que divindade o quê, sou eu! Se bem que ser chamada de Deusa não é nada mau.”

— Natasha?

É, isso!”

— Aahh, por que você não disse logo?

Você achou mesmo que Deus ia te ligar te convidando pra sair? Você não precisa ficar na ‘se querência’ só porque tá solteira, Ana.”

— Não é isso, é que eu acabei de acordar e tudo mais. Mas fala, por que você me ligou?

Eu tô aqui com a Lara em uma lanchonete, a gente quer chamar você, o Ahiru e o Niko pra sair.”

— Eles já voltaram a se falar?

Não, mas a gente não tem que parar de sair por causa de uma briga boba deles.”

— Você tem razão… só deixa eu tomar um banho e acordar.

Tá bom, mas não deixa de vir. Té mais!”

— Eu vou, eu juro. Até.

Pelo visto meu plano de ficar dormindo o dia inteiro não vai dar muito certo. Natasha é uma garota que usava cabelos curtos castanhos avermelhados, tinha olhos verdes e de vinte e seis anos que namorava outra garota chamada Lara, de vinte e sete, olhos amarelados e cabelos cor de mel.

Pelo o que minha mente sonolenta me deixou entender, eu preciso encontrar as duas em uma lanchonete. Ah sim, e elas mencionaram que iriam chamar o Niko e o Ahiru... eu não sei o que aconteceu entre eles, mas parece que brigaram quando foram ao shopping juntos. Tudo o que eu sei é que nenhum dos dois quer falar nada sobre isso.

(…)

Depois de tomar um verdadeiro banho e colocar a comida de Peter, eu finalmente consegui sair de casa sem estar parecendo um zumbi. Fui me encontrar com as meninas na tal lanchonete e estamos sentados na mesma mesa. É bom ressaltar que Ahiru e Niko também estão aqui, mas nem trocam olhares. Muito pelo contrário, parecem até emburrados.

— Então… – Tentei dizer alguma coisa pra amenizar o clima. Oliver e Niko estavam sentados de frente um pro outro, com rostos infelizes e um olhava pra direção oposta a que o outro olhava. – Será que os pastéis vão demorar muito pra sair?

— Acho que não, eles costumam ser rápidos aqui. – Lara fala. Nós havíamos pedido uma porção de pastéis.

— Alguém tem alguma coisa que queira falar? – Natasha indaga, assim como eu, tentando quebrar o clima.

— Conta do seu novo trabalho! – A namorada dela exclama. Lara parecia ser a mais animada ali, visto que o lance entre os dois garotos parecia sério.

— Você conseguiu um trabalho novo? – Perguntei.

— Ah, sim! – E Natasha respondeu. – Eu agora sou crítica gastronômica.

— Mentira! Sério? – Fiquei imaginando, aquela sim deveria ser uma profissão legal. – Que coisa foda, parabéns!

— Obrigada!

— Pera, então você vai receber dinheiro pra comer em lugares caros e poder xingar todo mundo depois? – Ahiru finalmente fala alguma coisa, dizendo exatamente o que eu tinha pensado, mas não queria falar em voz alta.

— Haha, tipo isso.

— Parabéns, Natasha. – Niko também fala, segurando na mão dela. – Bem que você poderia dar um jeito de avaliar o bar que a Ana trabalha.

— Olha, seria uma ótima ideia. – Respondi. – Meu chefe iria parar de pegar no meu pé um tempo.

Enquanto conversávamos, o moço da lanchonete chegou com os pastéis. Cada um de nós foi comendo um, mas quando estávamos na segunda rodada, Niko e Oliver acabaram tocando um na mão do outro. Ao perceberem o que haviam feito, eles se encararam.

E no mesmo segundo em que se lançaram olhares bruscos, retiraram suas mãos o mais rápido possível e voltaram a desviar o foco da visão, fingindo que nada havia acontecido. Entretanto, seus rostos conseguiram ficar mais emburrados ainda. Eu e as garotas ficamos nos entreolhando, nos indagando até onde aquela atitude iria.

— Quando é que vocês vão parar com essa briga, hein? – Natasha perguntou, diretamente.

— Que briga? – E ambos responderam em uníssono.

— Pelo menos nos contem porque estão assim. – Disse, com pesar dos dois.

— Não foi nada, não. – Niko respondeu, virando o rosto. – Só divergência de opiniões.

— Claro, se você considerar ‘aceitar humilhação’ como divergência de opinião… – Ahiru murmura, não olhando pra ele.

— Não é aceitar humilhação, eu impedi que você fosse atacado por todas aquelas pessoas que estavam ali! – Nisso, o moreno grita, agora sim na direção do ruivo, que o ignora.

— Pelo visto a briga foi feia mesmo. – Comento.

— Vamos fazer um bolão. – Natasha sugere. – O que vocês acham que aconteceu?

— Eu acho que o Niko impediu que o Ahiru roubasse algum pato de alguma criança. – Lara sugere. – Até porque eu já vi isso acontecer.

— Eu acho que o Ahiru comprou briga de algum fóbico e o Niko impediu. – Meu palpite.

— Já eu aposto que o Niko ganhou alguma discussão e o Ahiru ficou com raivinha. – Natasha fala.

— … – Ambos ficam olhando pro além, com carinha fechada, nos ignorando.

— E aí, quem chegou mais perto? – Perguntei.

— … – Mesma reação.

— Não me ignorem!

— A Ana acertou. – Niko responde baixo.

— Eu sabia! Alguém deve ter arrumado confusão no shopping e o Ahiru queria reagir.

— É ele que tem a lua em escorpião aqui, né.

— Ei, ei, não vem falando do meu signo, não. – Oliver responde. – Se vai contar, pelo menos conta a história toda.

— Não tem muito o que falar, a gente começou a provocar o pessoal do shopping, veio um carinha conservador reclamar e você começou a tretar com ele. – Niko explica.

— Óbvio, e você ficou defendendo ele!

— Eu não defendendi absolutamente ninguém, eu tentei ser o mais neutro possível! Você chegou a empurrar o cara.

— Você chegou a empurrar o cara? – Natasha pergunta com um sorriso. – Muito bem, toca aqui! – E bate na mão de Ahiru em seguida.

— Eu só empurrei porque ele veio pra cima de mim, eu não ia deixar ninguém me atacar de graça.

— Os seguranças do shopping vieram pra expulsar a gente, se não fosse por mim pra amenizar o negócio eles teriam chamado a polícia pra abrir uma denúncia contra a gente.

— Gente, vocês não podem ficar arrumando briga gratuita sabendo que vão perder. – Lara defende a visão de Niko.

— Não se trata de arrumar briga gratuita, e sim de lutar pelos nossos direitos! – Natasha a contrapõe.

— Lutar como, dois garotos contra um shopping inteiro?

— Então a solução é ficar calado e deixar esses fascistas fazerem o que querem? Lênin não conseguiu a nossa revolução conversando com os inimigos.

— Lênin tinha um exército, o Niko e o Ahiru são duas pessoas!

— Uma pessoa só, o Niko não me defendeu. – Oliver murmura.

— Vocês querem comparar a Revolução Russa com uma discussão no shopping contra um velhinho resmungão? – Niko se defende.

— Rasputin era um velinho resmungão. – Ahiru continuava o contrariando.

— Q-Que que um mago tem a ver com aquele canalha?!

— Gente, vocês estão misturando tudo. – Comentei, antes que começasse uma verdadeira guerra ali. – Eu acho que a gente poderia construir algum beijato ou alguma manifestação, mas realmente não dava pra fazer nada só com os dois garotos ali.

— Viu? Eu disse que não dava pra fazer nada estando só nós dois! – Niko exclama.

— A opinião da Ana não conta, ela namora fascista. – Ahiru diz.

— Hã, eu não namoro fascista nenhum! – E logo me defendo daquele absurdo, me segurando pra não bater nesse garoto. – Não fala uma coisa dessas.

— Ah é, o que deu a sua história com aquele seu amigo nazi? – Natasha questiona.

— Eu já tinha dito pro Ahiru, a gente acabou se esbarrando na praça outro dia e marcamos de ter uma revanche no fim de semana.

— Uma revanche? Sério? – Niko fica entusiasmado.

— É, vai ser a minha chance de bater nele já que da outra vez eu não pude.

— Aaaah, eu quero ver isso! – E Natasha já olha pra mim. – A gente pode ir lá te ver?

— Não dá, ele disse pra eu ir sozinha. Talvez não queira ser humilhado em público por uma garota.

— Ah, mas depois conta pra gente tudo o que aconteceu. – Lara me disse.

— Óbvio que eu vou contar, pode deixar. Agora será que dá pros dois meninos se resolverem de uma vez?

— Hmpf. – Ambos desviam o olhar um do outro.

— Não vai adiantar nada vocês dois ficarem brigados por uma coisa que já aconteceu.

— Adianta, se essa mesma coisa pode voltar a acontecer há qualquer momento. – Ahiru resmunga.

— Para de falar como se eu aceitasse qualquer tipo de repressão! – Niko exclama. – O que você queria que eu fizesse? Gritasse com os seguranças pra no dia seguinte todo preconceito acabar que nem mágica?

— Bem melhor do que aceitar o que eles te dizem, né.

— Não é aceitar, é precisar tomar a única atitude que cabia naquela hora, não ia adiantar nada ser denunciado por aqueles canalhas, ir preso ou pagar alguma multa. Eles iam continuar discriminando os outros e a gente ia se ferrar.

— Eu ainda acho que a gente podia organizar alguma coisa contra esse shopping. – Natasha sugere. – É mais proveitoso do que ficar brigando aqui.

— Vocês estão esquecendo que esse tipo de conservador também quer que nós briguemos uns com os outros e fiquemos desunidos. – Comentei. – É exatamente isso que eles estão tendo aqui.

— Troca logo de assunto, por favor... – Oliver pede.

Eu e as garotas suspiramos em conjunto, já vimos que não ia dar pra amenizar essa briga tão cedo. Achamos melhor trocar de assunto para que os dois não ficassem daquele jeito mais tempo, até porque era impossível discutir daquele jeito.

Mais tarde, Lara precisou voltar ao trabalho então nos separamos. Natasha e Ahiru foram pra casa, mas como eu não tinha nada pra fazer o dia todo, convidei o Niko pra ir pra minha e levarmos meu cachorro para passear em algum lugar.

— Oi, bebê! – Assim que entramos na minha casa, Peter foi logo cumprimentar o Niko praticamente pulando em cima dele. – Quanto tempo que eu não te vejo!

— Rawr, rawr!

— Já faz mesmo tempo que você não vem aqui em casa, né. – Comentei, indo na cozinha pegar um pouco de sorvete. – O Peter sente saudades suas, sabia?

— Pois é, faz tempo mesmo, você também não me chama mais.

— Te chamo sim, você é que não vem.

— Que mentira! Normalmente você fala mais com aquele Ahiru.

— Mas e aí, falando nisso. – Voltei pra sala de estar, com um pote de sorvete nas mãos, sentando no sofá. Niko se sentou do meu lado. – Quando é que você vai ir lá resolver as coisas com o Ahiru?

— Ah não, não começa a falar nisso de novo...

— Niko, todo mundo sabe que você não vai continuar com isso por muito tempo.

— Hã, por que é que tenho que ser eu a ir procurar alguém? – Ele fica com beicinho. – Ele que venha pedir desculpas, ora.

— Ele é teimoso, você sabe disso. Você não vai querer perder a amizade do Oli por uma bobagem dessas, né?

— Não é questão de perder a amizade, não é isso... você acha mesmo que o que eu fiz foi errado?

— Eu não acho nada, até porque não existe um certo e um errado definido. Você fez o que cabia a você fazer naquele momento.

— É, mas o Ahiru não entende isso!

— Sabe o que eu acho que você deveria fazer?

— O quê?

— Vai lá na casa dele e conversem pessoalmente, debatam, sei lá. Não precisa pedir desculpas até porque você não tá errado, mas do que adianta uma discussão em que os dois lados se ignoram?

— Mas eu já expliquei o meu ponto de vista e ele continua dizendo que eu não apoiei ele!

— Ele é cabeça dura, ele não vai admitir nada. Vocês precisam conversar, Niko, os dois, sozinhos.

— Você acha mesmo que eu tenho que fazer isso..?

— Você não quer reatar a amizade com ele?

— Claro que eu quero, até porque seria idiotice parar de ser amigo por causa disso, mas...

— Não quer ferir o seu orgulho?

— Não é isso, eu não sou orgulhoso. É que é chato ser sempre a pessoa a correr atrás da outra.

— Você não precisa “correr”, só vai lá na casa dele pra conversarem. Se o Ahiru não quiser mesmo te ouvir, o que eu duvido, aí é outra história.

— Se você diz... eu vou pensar.

(…)

Niko P.O.V

É realmente bem chata toda essa situação. Eu não quero abrir mão de alguém que eu gosto por causa de uma briga boba. Então umas pessoas idiotas vieram mexer com a gente, tá, mas e daí? Não é nem um pouco justo eu me desfazer de uma amizade por conta desses canalhas. Eu sei disso, eu sei que a Ana tá certa e eu também sei que o Ahiru precisa parar com esse orgulho em querer ter sempre a razão.

Então, depois de passear com o Peter, já no começo da noite, eu decidi fazer o que ela havia sugerido. Eu vim até a casa do Oliver, sem avisar, pra ter uma conversa séria com ele sobre esse lance. A casa dele não era muito grande, mas o quintal é bem esverdeado, e toda essa grama no inverno fica linda branca. Toquei a campainha.

Quem é? — E ele perguntou lá de dentro, vindo atender. Eu decidi não falar nada até ele abrir a porta. — Espero que seja a pizza que eu esqueci de pedir.

Assim que ele abriu a porta e me viu, confesso que eu estava com uma face meio ansiosa, tremendo um pouco os lábios e cerrando os olhos. Uma parte de mim queria bater nele por ficar exaltando essa discussão, mas a outra queria acabar logo com isso. Ele, ao contrário, só me olhou com desdém.

— Argh, é você.

— Oi pra você também. – Disse, me contendo ao máximo pra não iniciar outra briga.

— Qual delas mandou você vir até aqui?

— Ninguém, eu vim porque eu quis.

— Ah tá.

— Posso entrar?

— Não.

Depois disso, ele simplesmente bateu a porta na minha cara.

— … – Fiquei parado um bom tempo, novamente me contendo ao máximo pra não iniciar outra briga, até que achei melhor apenas ficar tocando a campainha várias vezes consecutivas, com intenções de quebrar o botão mesmo, para irritá-lo.

— Que que foi? – E deu certo, visto que ele abriu a porta novamente.

— Ahiru, para com isso e me deixa entrar.

— Aff, por que você quer tanto assim entrar? Seu amiguinho conservador não tá aqui.

— É sério isso?

— Por que não seria?

— Deixa disso, me deixa logo entrar. – Empurrei ele, entrando em sua casa mesmo com ele continuando de teimosia.

— Ei, não entra assim!

A casa de Oliver era exatamente igual a personalidade dele. Os móveis eram rústicos e antigos, como se ele morasse em uma fazenda mesmo. Tinham patos nos quadros das paredes, nos quadros das mesas... tinham patos em todos os lugares que você poderia imaginar. Pelúcias na estante, DVDs infantis na TV, etc. Ele também tinha um gato.

— Quaack. – E claro, ele deu um jeito de ensinar o gato a grasnar.

— Oi, Patschê.

— Você quer alguma coisa pra beber? – Ele pergunta, indo pra cozinha.

— Olha, até que enfim você mostrou que sabe receber alguém. Ou você esconde alguma arma na cozinha?

Eu não tenho armas. — Diz, no outro cômodo, pegando a bebida. – Bom, mas já que você veio e me levou pra passear naquele dia, nada mais justo do que pelo menos pegar alguma coisa.

— Não precisa fazer isso por obrigação.

— Não é por obrigação, Niko. – Ele voltou com dois copos de refrigerante e me deu, sentamos no sofá. – Eu só não entendi porque você veio até aqui.

— Como não? Pra gente conversar, ué. Você não quer mesmo tocar nesse assunto?

— Não é que eu não queira, é que sei lá, eu fiquei chateado por você não ter me defendido lá. A gente começou a provocar juntos.

— Eu sei que a gente começou a provocar juntos, não é essa a questão.

— Do jeito que você fala parece que eu fiquei provocando e você só entrou pra amenizar a história.

— Não é isso! É que chega uma hora que a gente precisa parar de provocar, e é a hora que surgem os guardas.

— Você nem tentou me defender quando não tinha guarda nenhum, eu fiquei tretando com aquele velhinho babaca sozinho.

— Eu sei, foi mal, eu fiquei com medo daquela discussão ficar pior. Se fosse só um velhinho tudo bem, mas era o shopping inteiro olhando pra gente com cara feia. Você não percebeu?

— Óbvio que eu percebi.

— Então, a gente ia sair de lá como dois malucos descontrolados.

— Niko, a gente é visto como dois malucos descontrolados sempre que a gente sai juntos! Olha só o nosso grupo de amigos em comparação às pessoas tradicionalistas aqui da Rússia. Chega uma hora que a gente precisa parar de se importar com os olhares, né.

— Eu sei disso, não fala como se fosse fácil.

— Eu não tô falando como se fosse fácil.

— Então me perdoa por não ter ficado do seu lado, e para de falar como se eu fosse amigo desses caras.

— … tá, foi mal por ter te comparado a eles.

— Isso não se faz nem com o seu pior inimigo.

— Desculpa, tá? Eu fiquei com raiva.

— Então tá... se acontecer uma situação parecida, eu prometo que vou te defender.

— E eu juro que eu vou tentar não bater boca com os fardados e não ir preso, tá bom? Pelo menos não diretamente.

— Tá bom, estamos combinados.

— Ótimo.

— Fim de briga?

— .. fim de briga.

— Então, ahn... – Estendi a minha mão, meio sem jeito. – Amigos de novo?

— Sim, claro. – Ele apertou a minha mão. – Amigos.

— Que bom... – Tentei sorrir, um pouco desconfortável. Não tinha pensado em nada além de me acertar com o Oliver, não sei o que eu faço agora. Se é pra continuar na casa dele ou se é pra ir embora.

— Então... – E ele parecia pensar o mesmo que eu, tanto é que ficou me olhando desconfortável também, sem saber o que dizer. – Que bom.

— É. – Eu definitivamente não sei o que falar. Eu tenho que puxar algum assunto? Que droga, eu não sei ser social...

— Mas e aí... – Eu acho que ele vai me expulsar agora. – Você quer.. ver algum filme?

— Ahn, filme? – Não me expulsou. – Pode ser! Seria legal.

— Então vamos escolher algum.

(…)

Anastácia P.O.V

Já é de noite, então eu precisei vir trabalhar. Trabalho em um bar, servindo drinks a noite inteira. Não é um trabalho ruim, pelo contrário, é bem divertido porque dá pra conversar com alguns clientes e ainda ouvir música, mas é chato não poder beber absolutamente nada.

— Oie! – Até que, enquanto eu atendia uma pessoa, vi uma garota de curtos cabelos castanhos me chamando, logo reconheci pela voz que se tratava de uma amiga minha.

— Natasha! – Fui até ela. – Que raro te ver por aqui.

— Você acha? Verdade, tem tempo que eu não venho mais aqui mesmo.

— Veio sem a Lara?

— Vim a trabalho mesmo.

— Como assim?

— Você já se esqueceu? Eu arranjei um emprego como crítica gastronômica de um blog turístico, eu vim aqui avaliar o ambiente E a barwoman.

— T-Tá falando sério? – Aquilo acabou me pegando de surpresa e me fez hesitar um pouco.

— Sim, por que não estaria?

— M-Mas tipo.. agora? Eu não tô preparada pra isso, Natty.

— Não fica nervosa, miga. Lembra que eu vou avaliar o seu trabalho e o local como profissional, nossa amizade fica de lado agora.

— Isso deveria me deixar mais calma?

— Vai, vamos recomeçar. Finge que eu entrei aqui agora e que você não me conhece.

— Tá bom.

Me afastei dela e continuei fazendo drinks pros clientes que já haviam pedido, deixando os copos os mais perfeitos possíveis, com uma rodela de limão ou laranja, batida rápida, bastante gelo e açúcar nas bordas. Fiz o melhor que pude, até tentando ser rápida e ágil, pra que a impressionasse o mínimo possível.

— Boa noite, Madame. – Em seguida, me dirigi até ela.

— Me vê uma Black Russian, por favor.

Peguei um corpo arredondado, acrescentei gelo e derramei um bocado de vodka. Em seguida, usei um licor de café para dar a mistura ao drink e coloquei uma fatia de laranja na borda. Cortei o canudo pela metade pra que não ficasse incômodo de beber e a servi.

— Aqui está.

— E o que tem pra comer?

— Servimos as empanadas de carne, mais tarde também vamos ter música ao vivo com um violinista local.

— Maravilha.

Continuei o meu trabalho normalmente. Dava um certo frio na barriga em ver Natasha observando todos os pontos do bar e todos os meus movimentos, mas tentei agir o mais natural possível. Até que não era tão difícil, e dependendo da crítica dela, isso poderia até me ajudar em relação ao meu chefe.

Até que senti uma presença, mesmo estando de costa para os clientes... Uma sensação de que tudo estava prestes a dar errado, meus passos até ficaram mais lentos. E mesmo assim, podia sentir que alguém estava sorrindo na minha direção de modo totalmente arrogante e menosprezado, como se duvidasse de mim só pelo olhar.

— Ah não, por favor, que não seja... – Fiquei ansiando estar errada, mas me virei pra ter certeza de que não era quem eu estava pensando. – Aff, é você.

— Yo. – Era Máxim, que havia surgido do além e sentado justamente ao lado da minha amiga, sem saber. Natasha ficou atenta.

— Que é que você quer?

— Como sempre tratando mau os seus clientes, certas coisas nunca mudam.

Eu, definitivamente, não acredito que ele comentou isso ao lado da Natasha nessa ocasião...

— Você não é exatamente “um cliente”. – Me virei e fiz um Martini, que era um drink que ele já havia pedido aqui, e dei pra ele. – Tá mais pra alguém que não consegue ficar um dia sem me ver.

— E eu seria um cliente inferior se eu, supostamente, viesse aqui só pra te ver? De qualquer modo eu ainda estaria pagando.

— Então aproveite o seu Martini. – Me virei, indo servir outros clientes e ignorando a presença dele por completo.

— Oi. – Nisso, eu ouvi Natasha se virando pra falar com ele, fingindo ser amigável. – Você vem sempre aqui?

— É sério isso? – E ele ri. – Não tem nenhuma cantada mais original pra me dar, não?

— Não é cantada, eu sou crítica e gostaria de saber da sua opinião sobre o lugar.

— Ah tá... bom, tem um espaço legal atrás do bar, dá pra arranjar umas brigas. Tem uma boa refrigeração, a bebida é boa, mas eu conheço gente que não entraria aqui por causa da criatura que serve a gente.

— Por quê, qual é o problema dela?

— É que ele é travesti, né.

Só de ouvir aquilo acabei não resistindo, estava com uma garrafa de vodka na mão e acabei derramando um pouco na cabeça dele, dando as costas depois.

— … e ainda trata mal seus clientes. – Ele pois a mão na cabeça e levou até a boca. – Pelo menos eu ganho vodka de graça.

— Eu tenho que dizer que achei isso engraçado. – Natasha comenta.

— Vem cá, você não vai escrever que essa criatura maltrata seus clientes não?

— Eu vou deixar passar essa.

— É sério, você tá perdendo uma boa chance de reportagem. Ela é perigosa.

— Eu aposto que sim.

— Vocês se conhecem?

— Agora além de me importunar vai fazer o mesmo com as pessoas que eu conheço? – Me aproximei deles, indagando ao insuportável do Máxim.

— Mas eu não posso dizer nada que já vem alguém me atacar, não é possível. – E ele se defende. – Eu nem disse nada.

— Tadinho, ele tá se sentindo oprimido. – Me debrucei no balcão. – Quer dizer alguma coisa, então?

— Eu só vim aqui pra confirmar se você já desistiu da nossa revanche ou se vai continuar.

— Aparece lá no dia e na hora que a gente marcou, aí você descobre se eu desisti ou não. É só isso?

— Precisa falar desse jeito comigo? Eu vim em paz.

— Tá bom, então. Essa é a minha namorada, o nome dela é Natasha. – A abracei pelo ombro e ela me olhou primeiro com dúvida, mas depois voltou a sorrir pra ele como se fosse a pessoa mais gentil do mundo.

— Namorada? – E ele, como eu esperava, ficou com cara de desentendido por completo. – Como assim?

— Como assim o quê, nunca viu? – Natasha retrucou.

— Não, não, isso é zoação. Vocês estão tirando uma com a minha cara, né?

— Por que você acha isso? – Perguntei.

— Não, quer dizer... você gosta de homens, não é?

— Credo. Quem iria gostar dessa coisa?

— Não, não, então pera... – Em seguida, ele se vira pra Natasha. – Você é homem?

— Se eu sou homem?

— É, tipo, que nem ela.. ele, sei lá.

— Você é homem, Máxim?

— Eu sou... eu acho.

— Olha pra você e olha pra mim. Você acha mesmo que eu sou um homem?

— Mas isso não faz sentido, se você é mulher então não faz sentido vocês namorarem.

— Por quê?

— Porque ele.. ela, virou mulher pra namorar homens, não é?

— Eu não virei nada pra namorar ninguém. – Disse. – Nós nem nos conhecemos tanto tempo assim.

— É, verdade, eu já conheci a Anastácia como Ana, definitivamente ela não virou nada.

— Bom, eu ainda acho que vocês estão tirando uma com a minha cara.

— Você não acredita na gente?

— Não. Provem.

— Provar?

— É, provem. Eu quero ver isso.

— Então ótimo.

Eu pensei em dizer que não éramos obrigadas a provar nada pra ninguém, mas Natasha virou meu queixo e me deu um beijo no balcão, com Máxim nos olhando com uma cara de curiosidade e espanto. Parecia ter visto um fantasma ou um ser exótico nunca antes descoberto.

— Nossa.

— Que cara é essa? – Olhei pra ele com deboche.

— É, até parece que nunca viu. – Natasha fez o mesmo.

— Não, sério, isso foi o quê? – Ele continuou sem entender. – Tipo... um beijo lésbico gay?

— Beijo lésbico gay? – Ela fala. – Essa é nova.

— Qual é o nome que se dá pra isso?

— Vocês héteros costumam dar nome aos beijos de vocês? – Perguntei.

— A gente podia apelidar o nosso beijo de, sei lá, Anasha.

— Hahaha, gostei.

— Sério... – Ele continuava parecendo sem entender. – Isso é muito estranho. Como alguém vira mulher pra ficar com mulher?

— Do mesmo jeito que existem homens que gostam de homens, existem mulheres que gostam de mulheres.

— Ou que gostam dos dois. – Ela fala. – Ou de nenhum, e assim vai.

— Entendi... vocês duas fazem os gays parecerem normais.

— Se você abrir um pouco a sua mente e começar a raciocinar você vai perceber que nada é anormal. – Digo. – Eu juro que não dói pensar um pouco.

— Não, eu entendi. Você é uma pessoa estranha que gosta de ficar inventando moda.

— Se foi tudo que tirou como conclusão. – Me virei, indo atender os clientes que chegaram.

— Gênero não tem nada a ver com sexualidade. – Natasha explica. – A não ser que você realmente acredite que só tem uma forma de se relacionar.

— Eu não tenho nada contra os viados.

— Ah, claro.

— Então é tipo... ela pode escolher se vai ficar com homem ou com mulher, que nem as outras pessoas normais. É isso?

— Éhn... já é muito pra alguém como você ter entendido.

— Pelo visto a criatura fala bastante de mim.

— Não se preocupa, você não é o centro das nossas conversas, nem nada importante.

— Eu sou o quê, então?

— Hm... sabe aquelas piadas que se contam quando não tem mais assunto em rodas de bar?

— Eu sou a piada?

— E uma bem ruinzinha.

— Entendi. Eu posso conviver com isso.

— Posso te perguntar uma coisa?

— O quê?

— Porque você continua querendo falar com a Ana? Isso não fere o seu orgulho fascista? Ou você tem interesse mesmo em aprender alguma coisa?

— Voltei. – Digo, depois de servir os clientes, indo até eles. – Já estão se matando?

— Eu já estava de saída. – Ele diz, terminando seu Martini e se levantando. – De qualquer modo eu só tinha vindo aqui pra confirmar o lance de quarta.

— Pode confirmar, mas precisa acabar antes da meia noite. Eu disse pro meu chefe que viria nesse horário.

— Eu vou pegar leve contigo então, pra não atrapalhar o seu trabalho.

— Só se você for cair com mais facilidade pra eu não precisar machucar as minhas mãos e poder fazer os drinks normalmente.

— Isso é você quem diz, não tem nenhuma chance de uma mulherzinha me derrotar.

— Ah, agora eu sou uma mulherzinha indefesa?

— Não é isso que você diz tanto ser?

— Bom... já é muito pra alguém como você ter dito. Até quarta.

— Até quarta.

Notas finais
Desculpem pela demora ao postar, sou uma pessoa lenta escrevendo. De qualquer modo, entenderam que gênero não tem absolutamente nada a ver com sexualidade? Gênero é homem, mulher... sexualidade é gay, bi, ace... da mesma forma que uma pessoa é mulher, ela pode ser de qualquer sexualidade. Isso não interfere nela ser cis ou trans. Trans não precisa ser tudo hétero, assim como os cis. Acho que ficou fácil de entender assim (eu espero) Próximo capítulo, a luta! :P Não deixem de recomendar essa fic pra alguém que queira entender do assunto, ou que não entenda nada do mesmo. Qualquer forma de aprendizado é válida, até mesmo nesses sites. E comentem!! S2