Os Filhos de Fenrir
25 Renesmee- Perda
As manhãs tinham se tornado uma rotina bastante previsível, mas de certa forma, tranquilizadora. Desde que me tornei Beta, uma das minhas responsabilidades era dividir as tarefas diárias entre as mulheres da aldeia. À medida que o tempo passava, fui ganhando mais confiança para liderá-las, e a chegada do nosso primeiro filho, que crescia dentro de mim, me dava uma calma que eu nunca imaginei sentir.
Estávamos todas reunidas na clareira, e as mulheres já esperavam as instruções do dia. O sol ainda estava baixo, e o ar fresco fazia meus pensamentos parecerem mais claros.
— Clara — comecei, olhando para a esposa de Jeremy Black, que sempre me observava com um sorriso caloroso. — Você pode ficar responsável pela colheita hoje? Os suprimentos estão baixos, e vamos precisar de uma boa quantidade para os próximos dias.
— Claro, Nessie — respondeu ela com entusiasmo, ajeitando as mangas do vestido. — Pode deixar comigo.
Meu olhar passou para Rachel, a irmã de Jacob. Desde que me tornei Beta, ela havia sido uma das minhas maiores apoiadoras.
— Rachel, você pode ajudar no preparo das refeições para o jantar de amanhã? Vamos receber visitas de outra tribo, e eu quero que tudo esteja perfeito.
Rachel sorriu e balançou a cabeça. — Já estava pensando nisso. Vou preparar algo especial.
— Leah — chamei, e ela ergueu os olhos em minha direção. Nossas interações haviam melhorado bastante, mas havia sempre uma tensão silenciosa entre nós. — Preciso que você verifique as reservas de lenha e organize o transporte para a aldeia. A previsão é de frio nos próximos dias.
— Pode deixar — Leah respondeu de forma direta, sem hesitação.
— Kira — finalizei, olhando para a irmã mais nova de Kiara, que era sempre uma das primeiras a se voluntariar para qualquer coisa. — Você pode ajudar com os tecidos? Estamos precisando de novas mantas para os mais velhos.
— Estou nisso — disse ela, sempre rápida em aceitar qualquer tarefa.
Enquanto as mulheres se dispersavam para iniciar o trabalho, senti uma onda de calor súbita, acompanhada de um mal-estar que me fez tropeçar para trás por um instante. Segurei minha barriga instintivamente, e minha respiração ficou entrecortada. Kiara, que estava sempre por perto, foi a primeira a perceber.
— Nessie? — Kiara se aproximou rapidamente, os olhos preocupados. — Você está bem?
— Acho que... não. — Minha voz saiu trêmula, e eu senti que estava perdendo o controle sobre meu corpo. — Chame... Sarah.
Leah veio ao meu lado, sempre prática, segurando meu braço com firmeza. — Melhor levar você para casa agora. Não podemos arriscar nada.
Eu tentei respirar fundo, mas minha visão começou a ficar turva, e o mundo ao meu redor começou a girar. Kiara correu para chamar Sarah enquanto Leah me apoiava. Mas antes que pudesse dar mais um passo, tudo ficou escuro.
O último som que ouvi antes de perder a consciência foi a voz preocupada de Leah chamando meu nome.
Acordei com uma leve tontura e um cheiro diferente no ar, algo misturado entre ervas e um aroma que não reconheci de imediato. Pisquei lentamente, tentando focar no ambiente ao meu redor. Quando minha visão clareou, vi Sarah sentada ao meu lado, com um olhar sereno e preocupado. Sue Clearwater, a curandeira da tribo, estava em pé ao lado da cama, segurando uma pequena tigela com algum tipo de infusão.
— O que... o que aconteceu? — Minha voz saiu fraca, e imediatamente senti uma dor aguda no abdômen, me fazendo apertar o lençol com força. Um calafrio percorreu meu corpo, e logo percebi algo horrível: estava sangrando.
Minha respiração ficou presa na garganta, o pânico se instalando em cada parte do meu ser. — O bebê... o bebê está bem? — A pergunta saiu desesperada, já temendo a resposta, enquanto lágrimas começavam a brotar dos meus olhos.
Sue trocou um olhar triste com Sarah antes de se aproximar e se sentar na borda da cama, com um semblante cheio de pesar. — Renesmee, eu sinto muito... mas você perdeu o bebê.
O mundo ao meu redor pareceu desmoronar. Não. Não podia ser verdade. — Não... não, não... — As palavras escaparam entre soluços enquanto lágrimas caíam descontroladamente. O que parecia ser uma dor física no abdômen tornou-se um tormento muito mais profundo. — Eu... eu fiz tudo certo... Eu cuidei dele... — balbuciei, com a voz carregada de dor e incredulidade.
Sarah me puxou para perto, me envolvendo em seus braços enquanto eu chorava, o corpo tremendo com a intensidade do sofrimento. — Não foi culpa sua, querida. Você fez tudo que podia. Às vezes, essas coisas acontecem, e não podemos controlá-las. — Sua voz era suave, mas mesmo suas palavras de consolo não podiam aliviar a dor esmagadora que eu sentia.
— Eu o perdi... — repeti, incapaz de acreditar que aquilo estava acontecendo. Meus braços instintivamente foram até minha barriga, agora vazia, e a sensação de perda era quase insuportável.
Sarah acariciou meus cabelos, tentando acalmar meus soluços, e pediu a Sue que nos deixasse a sós. A curandeira assentiu respeitosamente e saiu do quarto em silêncio, me deixando com Sarah, que ainda me segurava firme, tentando me manter ancorada enquanto meu mundo parecia desabar.
— Eu queria tanto esse bebê... — murmurei entre lágrimas. — Ele era tudo para mim...
— Eu sei, querida... Eu sei. — Sarah me apertou mais forte, e mesmo com sua presença reconfortante, eu ainda me sentia despedaçada.
Foi então que ouvi passos pesados do lado de fora, e quando a porta se abriu, Jacob entrou. Seus olhos encontraram os meus, e eu vi nele o reflexo da minha dor. As lágrimas ainda escorriam pelo meu rosto enquanto eu tentava encontrar forças para falar.
— Eu sinto muito, Jake... Me desculpa... — Eu soluçava, as palavras saindo como um pedido de perdão por algo que eu sabia, racionalmente, que não tinha controle.
Jacob se aproximou rapidamente, sentando-se ao meu lado na cama e me puxando para os braços dele. — Não é culpa sua, Nessie... Não tem nada para se desculpar. Está tudo bem, vamos ficar bem. — Sua voz era firme, mas havia um traço de dor ali também, e eu sabia que ele estava sofrendo tanto quanto eu.
Ele beijou meus cabelos, segurando-me com força, e eu me deixei afundar naquele abraço. Senti o calor do corpo dele, o conforto que sua presença sempre trazia, mas mesmo assim, a dor da perda permanecia como uma sombra sombria, algo que eu sabia que demoraria muito tempo para cicatrizar.
E ali, nos braços dele, chorei até que as lágrimas não pudessem mais cair, enquanto Jacob sussurrava palavras de consolo, segurando-me como se nunca fosse me deixar ir.
*********
Acordei nos braços de Jacob, sentindo o calor do seu corpo ao meu redor, como um casulo de proteção contra a dor que ainda latejava no meu peito. Meus olhos estavam inchados, e a cabeça parecia pesada. Não sabia em que momento havia adormecido novamente, provavelmente após chorar até não ter mais forças. Os dedos de Jacob acariciavam suavemente minhas costas, e sua respiração era estável, um conforto silencioso em meio ao caos interno.
— Ness... — Ele sussurrou baixinho, percebendo que eu estava acordada. — Isso acontece, vamos tentar de novo... Temos todo o tempo do mundo. — Sua voz era firme, mas eu sentia o peso da tristeza por trás das palavras.
Afastei-me ligeiramente, apenas o suficiente para encará-lo, e pude ver o reflexo da minha própria dor em seus olhos. Mas não havia culpa ali, nem reprovação. Jacob, com sua força imensa, carregava nossa perda com o mesmo peso que eu. — Eu sei que está triste... — Ele continuou, sua mão subindo para segurar meu rosto suavemente. — Mas eu nunca, nunca vou te culpar por isso. Jamais.
Uma lágrima solitária escapou do canto do meu olho enquanto ele falava, e eu suspirei, tentando processar as palavras de conforto que ele me oferecia. — Eu te amo, Ness. — A voz de Jacob era um sussurro profundo, carregado de uma ternura que quase me fez desmoronar novamente. Então, ele se inclinou e selou seus lábios nos meus, com um toque gentil, porém cheio de emoção.
Aquele beijo, por mais suave que fosse, trouxe um consolo inesperado. Não apagava a dor, mas me ancorava no presente, no amor que sentíamos um pelo outro, e na promessa de que, juntos, poderíamos superar qualquer tempestade.
Quando nos separamos, encostei minha testa no peito dele, buscando consolo no ritmo estável do seu coração. O silêncio que se seguiu foi um alívio, uma pausa necessária para nossos corações quebrados. Não havia palavras que pudessem aliviar completamente o que estávamos sentindo, mas ali, nos braços dele, o mundo parecia um pouco menos sombrio.
Jacob não disse mais nada. Ele apenas me segurou com firmeza, me puxando para mais perto, como se quisesse proteger-me de qualquer dor futura. Eu me deixei afundar naquela sensação, naquela quietude, porque naquele momento não havia mais nada a fazer, além de buscar conforto um no outro.
E assim ficamos, em silêncio, compartilhando nossa dor e, ao mesmo tempo, nos consolando da única forma que sabíamos: com amor.
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