Os Filhos de Fenrir
40 Renesmee- O retorno a vila
Naquela manhã, eu saí da cabana com a cabeça pesada. Não era mais uma suspeita. Eu tinha certeza. Meu bebê crescia dentro de mim, e a pequena protuberância na minha barriga, apesar de discreta, era inconfundível. O vestido largo que eu vestia era minha maneira de esconder a evidência, mas meus pensamentos estavam longe de disfarçar qualquer coisa. Estava com quatro meses, e a cada dia a realidade se tornava mais tangível.
Meus encontros com Emmett haviam se tornado frequentes. Ele era o único com quem eu podia desabafar, sem julgamentos. O lobo misterioso com quem eu cruzara tantas vezes na floresta já não era mais um estranho. Emmett era um amigo. E naquele dia, mais uma vez, fui até a cachoeira onde ele sempre me esperava.
Quando cheguei, lá estava ele, sentado diante das águas que desciam com força. Ao me ver, ele sorriu, mas logo seu olhar se estreitou, notando que eu tinha chorado.
— Lágrimas de novo? — perguntou, levantando-se e se aproximando de mim. — É por causa do pai do seu bebê?
Suspirei, sentindo o peso do desabafo pronto para sair.
— Jacob... eu não o vejo há quatro meses, Emmett. — Minha voz saiu trêmula, cheia de dor. — Desde que ele foi embora, o vazio só cresce. Eu tento ser forte, mas é difícil... sinto que fui abandonada.
Emmett ficou em silêncio por um momento, os olhos fixos em mim. Havia algo de solidário neles, algo que me acalmava, mas ao mesmo tempo me fazia questionar tudo ainda mais.
— O abandono machuca, Renesmee. — Ele disse, a voz grave, mas gentil. — Mas eu e minha tribo estamos indo embora em breve. Vamos para Vindalheim, um vilarejo ao norte de Niflheim, entre Niflheim e Asgardheim. — Seus olhos encontraram os meus, sérios. — Há lugar para você lá. Pode começar de novo.
Balancei a cabeça, um misto de surpresa e angústia tomando conta de mim.
— Eu agradeço, Emmett... — murmurei, os dedos instintivamente indo para minha barriga. — Mas eu não posso partir. Estou esperando um filho de Jacob. Sou o imprinting dele... não posso simplesmente ir embora.
Emmett suspirou profundamente, e o som parecia pesar no ar frio da manhã.
— Se o imprinting fosse tão forte assim, você não acha que ele teria acreditado que você poderia lhe dar um filho? — disse ele, a voz baixa, mas firme. — Se ele realmente acreditasse nisso, Renesmee, ele não teria casado com outra.
Aquelas palavras me atingiram com força, e o silêncio que se seguiu foi quase insuportável. Eu sabia que Emmett estava certo, de certo modo. Se o imprinting fosse tão inquebrável, por que Jacob tinha me deixado para casar com Kiara? Eu suspirei, incapaz de responder.
— Eu preciso voltar para casa. — murmurei, desviando o olhar. — Obrigada por ouvir, Emmett.
Ele assentiu, seus olhos ainda fixos nos meus, como se quisesse me dizer mais alguma coisa, mas escolheu o silêncio.
— Cuide-se, Renesmee. — disse, antes de se afastar em direção à floresta.
Voltei para a cabana, as palavras de Emmett ainda ecoando na minha cabeça. Ele tinha razão? E se eu estivesse me agarrando a uma esperança que já não fazia mais sentido?
Quando cheguei, Leah estava me esperando, os braços cruzados e uma expressão séria no rosto.
— Onde você estava? — perguntou, os olhos estreitados. — Eu te procurei.
— Eu precisava pensar... — respondi, tentando soar casual, mas era claro que Leah não acreditou em mim.
— Você chorou, não chorou? — ela disse, se aproximando, forçando-me a encará-la. Eu desviei o olhar, mas ela segurou meu queixo, obrigando-me a olhá-la nos olhos. — Olha pra mim, Nessie. É hora de você reagir.
Suspirei, sentindo o peso daquelas palavras.
— Não posso simplesmente... — comecei, mas Leah me interrompeu.
— Pode, sim! E vai. — Ela falou com firmeza, seus olhos determinados. — Vamos para o vilarejo. Vamos mostrar a Kiara que ela não venceu. Você ainda tem muito poder, Renesmee. E é hora de usar isso.
Havia uma chama de algo em Leah que eu não via há muito tempo. Uma determinação feroz que quase me contagiou. Por um momento, senti a pontada de algo parecido com esperança.
— Eu não sei se estou pronta... — sussurrei, hesitante.
— Você está. — Leah respondeu, sem hesitar. — E eu vou estar ao seu lado. Vamos provar para todos que você não foi derrotada.
E, pela primeira vez em meses, eu realmente senti que talvez ela estivesse certa.
Depois de tantos meses longe, retornar ao vilarejo foi uma mistura de emoções. O ar estava frio, mas agradável, e o cheiro familiar da terra úmida trouxe de volta memórias que eu não sabia se queria relembrar. Assim que as jovens me viram, correram ao meu encontro, me cercando com abraços calorosos e sorrisos que, de certa forma, me reconfortaram.
Rachel, a irmã de Jacob, foi a primeira a me abraçar com força.
— Para mim, você sempre será minha cunhada, Nessie. — sussurrou em meu ouvido, apertando meu braço com ternura.
Clara, outra jovem do vilarejo, revirou os olhos.
— A nova Beta é insuportável, sabe? — ela resmungou, arrancando murmúrios de concordância das outras meninas.
Muitas delas reclamavam de Kiara, o que fez algo em mim acender. Leah estava certa, afinal de contas. Kiara não era quem eu imaginava que fosse. Talvez ela nunca tenha sido.
Com o coração acelerado, caminhei até a tenda das mulheres. Leah estava ao meu lado, sua presença forte e confiante, como sempre.
— Não fraqueje, Nessie. — ela disse, com um olhar firme.
Eu assenti, sentindo minha coluna se endireitar, minha expressão endurecer. Não era o momento de hesitar. Assim que entrei na tenda, meus olhos caíram sobre Kiara, que estava organizando algumas frutas em uma mesa.
Ela me olhou, claramente surpresa, mas logo um sorriso doce se formou em seus lábios.
— Renesmee! — Kiara exclamou, com uma voz quase melódica. — Que bom te ver de volta. Está tudo bem?
Eu a encarei, sem reciprocidade no sorriso.
— Não precisa fingir, Kiara. — comecei, minha voz firme. — Você já está casada com Jacob. Não precisa mais de todo esse teatro.
O rosto dela se contorceu por um segundo, mas ela logo se recompôs.
— Desde quando você ficou tão rude, Renesmee? — respondeu, com uma sobrancelha arqueada. — Ou você esqueceu que está falando com a Beta?
Houve um silêncio tenso enquanto os olhos de Kiara endureciam. Sua máscara caía aos poucos. Sentei-me à mesa, mantendo o olhar fixo nela, sem perder o controle da situação.
— Sirva-me algo. — pedi com frieza, sentindo um leve prazer em virar o jogo.
— Eu não sou sua empregada. — Kiara respondeu, sua voz cheia de veneno.
Leah interveio com um sorriso debochado.
— É melhor tratar bem a Luna, Kiara. Sabe que o Alpha não vai gostar de ver você desrespeitá-la.
Kiara fechou as mãos em punhos, visivelmente irritada, mas não disse nada. Ela deu as costas e saiu da tenda rapidamente, e Leah e eu trocamos um olhar cúmplice antes de começarmos a rir.
— Isso foi bom. — murmurei, um sorriso verdadeiro se formando em meus lábios pela primeira vez em muito tempo. Sentia uma estranha satisfação ao castigá-la.
Não demorou muito até que Kiara voltasse, desta vez com uma xícara em mãos. Ela a colocou na minha frente com um sorriso tenso.
— Aqui está. Sempre gostei de como você apreciava meu chá.
Olhei para a xícara por um momento, algo dentro de mim começando a conectar os pontos. Algo estava errado. Eu sabia disso.
— Beba antes de mim. — falei, com a voz baixa, mas firme.
Kiara ficou pálida, seus olhos se arregalando ligeiramente.
— O quê? — murmurou.
— Beba, Kiara. — Leah repetiu, cruzando os braços, curiosa.
Kiara hesitou por um segundo antes de jogar o chá fora em um gesto brusco. O ambiente ficou pesado, e então ela se virou para mim, visivelmente abalada.
— O que você está fazendo aqui, Renesmee? — perguntou, a voz vacilando. — Você sabe que não pode ver Jacob...
Antes que ela pudesse continuar, a entrada da tenda se abriu, e lá estava ele. Jacob.
Meu coração disparou no peito quando nossos olhares se encontraram. Havia tanto que eu queria dizer, mas as palavras não vieram de imediato. A presença dele me atingiu como um raio, mas não era hora de fraquejar.
— Eu senti sua falta, Jake. — disse, minha voz mais segura do que eu imaginava. — Por isso eu vim vê-lo.
Kiara tentou intervir, seu rosto fervendo de indignação, mas eu a interrompi antes que ela pudesse proferir mais alguma palavra.
— A lei diz que o Alpha não pode ver sua Luna por seis meses... — falei, levantando-me lentamente. — Mas a Luna é dona de sua própria vontade. — Me aproximei de Jacob, minha respiração acelerada. — E dona do próprio Alpha.
Fiquei de frente para ele, nossos olhos se encontrando de forma intensa. Havia uma tempestade entre nós, cheia de emoções não resolvidas, de um passado que não poderia ser apagado. Sem hesitar, levei minhas mãos ao seu rosto e o puxei para um beijo.
Jacob ficou paralisado por um segundo, mas logo cedeu, suas mãos envolvendo minha cintura. O mundo ao nosso redor desapareceu, e pela primeira vez em muito tempo, eu me senti completa.
A voz de Kiara se apagou. A dor dos últimos meses, por um instante, também.
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