Os Filhos de Fenrir
39 Renesmee- O lobo misterioso
Os últimos três meses pareciam ter se arrastado lentamente, cada dia mais doloroso que o anterior. Desde que Jacob havia me deixado naquela cabana, minha vida parecia girar em torno de duas realidades: o vazio sem ele e a constante dor que carregava comigo. As regras eram claras — ele só poderia voltar depois de seis meses, quando o primeiro filho dele com Kiara estivesse a caminho. Saber disso me dilacerava por dentro, mas eu me acostumei com a dor. As lágrimas não vinham mais com tanta facilidade, mas o meu amor por Jacob? Esse não havia mudado nem um pouco.
Terminei meu café da manhã, uma rotina que Leah havia me imposto para garantir que eu me cuidasse. Ela não podia estar comigo todos os dias; suas obrigações com seu marido a chamavam, e nos dias em que ficava sozinha, sentia falta dela. O frio de Björkveld era implacável, ainda mais durante o inverno nas montanhas. Lá, a neve nunca derretia, o que tornava tudo ao mesmo tempo belo e solitário. Vesti algo quente, colocando um casaco grosso por cima, e decidi sair para caminhar um pouco. Precisava distrair a mente.
Pisei na neve fofa, sentindo o frio subir por minhas botas enquanto caminhava em direção à floresta. A paisagem era calma, os galhos das árvores cobertos por camadas espessas de neve, e tudo estava silencioso, como se o mundo inteiro estivesse adormecido. Mas, mesmo naquele cenário tranquilo, meus pensamentos se voltaram para Jacob, como faziam todos os dias. Como ele estaria? Será que pensava em mim tanto quanto eu nele? E se tivéssemos tido nossos filhos, como seria?
A lembrança dos bebês que perdi me tomou de repente. A dor apertou meu peito de uma maneira que me fez parar de respirar por alguns instantes. Meu corpo congelou, e então algo me atingiu: não havia sangrado desde que cheguei a Björkveld.
O pânico se instalou. Eu poderia estar... grávida? Não era possível. Mesmo que fosse, eu sabia que não conseguiria manter a gravidez. Nenhum dos meus bebês tinha sobrevivido mais de dois meses no meu ventre, e agora já se passavam três.
Meus pensamentos corriam desenfreados enquanto eu me apoiava em uma árvore, tentando controlar o pânico que começava a tomar conta de mim. As lágrimas ameaçavam voltar quando, de repente, percebi uma presença.
Levantei a cabeça e meus olhos se fixaram na figura imponente de um lobo. Ele estava parado a alguns metros de mim, me observando. Era grande, com uma pelagem densa que se misturava ao branco da neve. Por um momento, eu não soube se deveria me assustar ou me sentir segura. Seu olhar não era ameaçador, mas vigilante, como se me estudasse.
— Quem... quem é você? — sussurrei, minha voz fraca e quebrada pelo medo e pela incerteza.
O lobo deu um passo à frente, seus olhos fixos nos meus, e eu me senti incapaz de me mover. Algo naqueles olhos parecia familiar, mas não consegui identificar o que era.
Eu sabia que os lobos guardiões às vezes percorriam essa região, mas aquele parecia diferente. Havia uma força silenciosa nele, algo que me fez sentir... protegida. Meu coração disparou, mas não por medo.
O lobo desapareceu entre as árvores, deixando apenas a marca de suas patas na neve fofa. Meus pés congelaram no lugar enquanto eu tentava entender o que acabara de acontecer. Mas, antes que pudesse pensar em correr, um homem surgiu de repente da mesma direção em que o lobo havia sumido. Ele parecia calmo, mas havia algo nele que me deixava em alerta, como se ele não pertencesse àquele lugar.
— Quem é você? — minha voz saiu mais firme do que eu esperava, enquanto dava um passo para trás, tentando criar alguma distância entre nós.
Ele me olhou com um sorriso curioso, quase divertido.
— Sou apenas um forasteiro — respondeu, encolhendo os ombros. — Meu nome é Emmett.
Eu o observei mais de perto. Ele era diferente de qualquer lobo que eu já tinha visto, não tinha a pele bronzeada como os membros da matilha, e seus cabelos eram claros, quase tão dourados quanto os meus.
— De que tribo você é? — perguntei, desconfiada.
Ele hesitou por um segundo antes de responder:
— Cullen.
Eu franzi a testa. Nunca tinha ouvido falar daquela tribo antes. Talvez fossem nômades, viajantes de terras distantes.
— Cullen? — repeti, minha voz carregada de dúvida. — Eu não conheço essa tribo.
Ele sorriu, um sorriso cheio de algo que eu não conseguia decifrar. Não era arrogante, nem condescendente. Era... quase familiar.
— E qual é o seu nome? — ele perguntou, inclinando a cabeça levemente, como se estivesse curioso para descobrir algo.
— Renesmee — respondi, e, por um breve momento, seus olhos se arregalaram, como se eu tivesse dito algo que ele não esperava.
Emmett sorriu novamente, mas desta vez havia algo diferente em seus olhos, como se ele soubesse mais do que estava revelando.
— Eu preciso ir — disse ele de repente, o tom mudando. — Mas... por favor, não comente com ninguém que me viu. Estou fazendo uma pequena viagem, sem autorização, se é que me entende.
Algo nele me fazia confiar, mesmo que minha razão gritasse para ser mais cautelosa. Talvez fosse o fato de que ele, de algum modo, não parecia uma ameaça. Assenti com a cabeça, concordando em manter seu segredo.
Ele deu um último sorriso, acenou de leve e começou a se afastar. Fiquei observando até que desaparecesse novamente entre as árvores cobertas de neve.
Suspirei, sentindo meu corpo relaxar levemente, mas, ao mesmo tempo, algo sobre aquele encontro me incomodava. Quem ele realmente era? E o que estava fazendo tão perto do território da matilha? Talvez Leah soubesse de algo sobre essa tal tribo Cullen.
Minha mente voltou a se ocupar com pensamentos de Jacob, mas agora, um novo mistério havia sido adicionado à mistura. Eu precisava ser mais cuidadosa daqui em diante. A neve ao redor de Björkveld escondia mais segredos do que eu poderia imaginar.
Ao voltar para a cabana, meus pensamentos estavam em completa desordem. Aquele encontro com Emmett... Quem era ele, realmente? O que estava fazendo aqui? Algo me dizia que ele não era apenas um forasteiro comum. Havia algo diferente nele, algo familiar de uma maneira que eu não conseguia explicar.
E, além disso, havia a possibilidade — não, a esperança — que me assombrava desde aquele momento na floresta. Será que eu estava grávida? Os meses sem Jacob tinham sido longos e dolorosos, e eu quase havia me acostumado com a solidão. Mas agora, depois de três meses sem sangrar, uma pequena chama de esperança havia se acendido dentro de mim.
Entrei na cabana e fechei a porta atrás de mim, o som abafado da madeira contra a neve ecoando pelos meus ouvidos. Meus pés me guiaram automaticamente até a cama, e eu me joguei sobre os cobertores macios, o peso de todas as emoções finalmente me alcançando. Suspirei profundamente, minhas mãos instintivamente indo para minha barriga.
Minhas mãos acariciaram levemente a pele ainda plana, e um pequeno sorriso surgiu em meus lábios. Era uma esperança frágil, eu sabia disso. Mas ainda assim, era esperança.
— E se... — sussurrei para mim mesma, deixando o pensamento escapar. E se todos estivessem errados? E se eu realmente estivesse esperando um filho? Um filho de Jacob, nosso filho.
A possibilidade me trouxe uma leveza que eu não sentia havia tanto tempo. Meus bebês anteriores não tinham sobrevivido além de dois meses, mas agora... talvez fosse diferente. Talvez este bebê fosse forte, tão forte quanto seu pai.
Fechei os olhos e, por um momento, permiti que essa pequena gota de esperança inundasse meu coração. As dores e as perdas dos últimos meses ainda estavam ali, ainda latejavam como feridas abertas. Mas, naquele instante, a ideia de carregar a vida de Jacob dentro de mim me trouxe uma sensação de renovação.
Claro, ainda havia tantas perguntas sem respostas. Jacob estava longe, e eu não sabia quando ou se ele voltaria para mim. E havia Emmett, o estranho lobo que carregava o nome de uma tribo que eu nunca tinha ouvido falar. Mas, por um breve momento, essas preocupações desapareceram. Tudo o que eu sentia era a esperança que crescia, pequena e tímida, dentro de mim.
Eu sorri novamente, dessa vez mais confiante. Se eu estava grávida, tudo mudaria. Eu não seria mais apenas uma sombra. Eu teria um propósito, uma razão para lutar, e para acreditar que as coisas poderiam ser diferentes desta vez.
Acariciei minha barriga mais uma vez, com carinho.
— Se você está aqui, meu pequeno, — murmurei, sentindo meus olhos encherem de lágrimas, — então nós dois vamos provar que todos estavam errados.
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