Os Filhos de Fenrir
42 Renesmee- Laços de Sangue
Eu recuei um passo, meu coração batendo descompassado no peito. Aquilo não fazia sentido. Meus pais estavam mortos. Eles morreram durante a guerra contra Asgardheim. Sempre me disseram isso.
— Você está mentindo — murmurei, com a voz trêmula, enquanto tentava controlar o turbilhão de emoções que me dominava. — Meus pais morreram na guerra. Eles... eles me deixaram.
O homem, Edward, respirou fundo e deu um passo em minha direção, a dor em seu olhar era inegável.
— Eu fui gravemente ferido naquela batalha. — Sua voz era baixa, carregada de uma tristeza profunda. — Tentei salvar sua mãe, Bella... mas falhei. Depois disso, lutei para sobreviver e, quando consegui, jurei que encontraria você.
Ele olhou para Emmett, que estava parado em silêncio, observando cada movimento.
— Emmett é seu irmão mais velho, Renesmee. Ele sempre soube de você, e ambos tentamos chegar até Niflheim. Tentamos por anos...
Eu os encarei, confusa, as lágrimas rolando pelo meu rosto sem controle. Meus olhos iam de um para o outro, e pela primeira vez, percebi a semelhança entre eles. O formato dos olhos, o jeito como falavam. Era inegável, mas o choque era demais.
— Então por que você me abandonou? — gritei, sentindo uma raiva crescer dentro de mim. — Por que me deixou em Niflheim? Por que nunca veio me buscar?
Edward fechou os olhos por um momento, a dor clara em seu semblante.
— Eu procurei você por 16 anos. Todas as vezes que me aproximei de Niflheim, fui expulso. O último Alpha me disse que você estava morta... — Sua voz quebrou por um momento, e meu corpo paralisou.
Jacob sabia. Ele sabia que meu pai estava vivo e me escondeu isso. Quantas mentiras haviam me dito? Quanta coisa me foi omitida?
— Ephraim sabia o que Alec, o rei de Asgardheim, planejava. Ele tinha interesse em você, em sua mistura de raças. Alec quer lobos para sua guerra contra Niflheim. Talvez por isso a tenham escondido de todos, até mesmo de mim.
Senti meu estômago revirar, e minhas pernas começaram a tremer. Eu não podia mais confiar em ninguém. O mundo que conhecia estava desmoronando, as peças do quebra-cabeça se alinhando, e tudo apontava para traições e mentiras que eu nunca havia imaginado.
Uma dor familiar atravessou meu corpo, e eu soube naquele momento que algo estava errado. A mesma dor que sentia antes de perder meus filhos.
— Não... não... — sussurrei, minha visão ficando turva enquanto olhava suplicante para Edward e Emmett. — Ajudem-me... eu não posso perder meu bebê de novo...
Minhas palavras mal saíram enquanto sentia meu corpo fraquejar. Emmett correu para me segurar antes que eu caísse, e Edward se aproximou, a preocupação estampada em seus olhos.
A última coisa que vi antes da escuridão me tomar foi o rosto aflito de meu pai, tentando me ajudar, enquanto eu mergulhava em um abismo profundo e desconhecido.
Acordei lentamente, os sentidos se ajustando ao ambiente ao meu redor. O cheiro de flores frescas era diferente de qualquer outro aroma que eu já havia sentido. A cama sob mim era macia, confortável, e uma brisa fria entrava pela janela, arrepiando minha pele. Sentei-me devagar, ainda me sentindo um pouco fraca, e olhei ao redor, confusa.
— Onde estou? — murmurei para mim mesma.
Antes que eu pudesse levantar, a porta do quarto se abriu suavemente, e uma mulher entrou. Ela sorriu gentilmente ao me ver acordada.
— Que bom que você acordou — disse ela, aproximando-se.
— Onde estou? — perguntei, ainda desorientada.
— Você está em Vindalheim — ela respondeu com calma. — Meu nome é Renée, e você dormiu por três dias.
Três dias? Meu coração deu um salto no peito. Instintivamente, toquei minha barriga, o pânico começando a crescer. E o bebê? Ele estava bem?
Renée pareceu perceber meu medo e se aproximou, ainda com aquele olhar calmo.
— O bebê está bem — disse ela, entregando-me uma caneca com um líquido quente. — Aqui, beba isso. Vai ajudar a limpar seu corpo da erva que estava envenenando você.
Peguei a caneca, hesitante, e olhei para Renée.
— Que erva? — perguntei, desconfiada.
— A erva se chama beladonnis, uma planta rara que, quando ingerida por muito tempo, faz com que o corpo expulse qualquer criança que você gere. — A voz de Renée era suave, mas as palavras pesadas demais para eu processar de imediato. — Parece que você foi envenenada a longo prazo... o que explica suas perdas anteriores.
Eu congelei, a caneca tremendo em minhas mãos. Beladonnis. O nome da erva ecoava em minha mente. Minha mente voltou imediatamente para os chás que Kiara sempre me oferecia, o sabor doce e reconfortante que eu tomava sem questionar.
— Beba, vai ajudar a manter esse bebê — incentivou Renée, sem perceber o turbilhão que tomava conta de mim. — Você deve descansar. Quanto mais repouso, maiores são as chances de levar a gestação até o fim.
Levei a caneca aos lábios e dei um pequeno gole. O gosto amargo me fez fazer uma careta involuntária.
Renée riu suavemente.
— O chá que costumavam te dar era doce, não era? — perguntou ela, curiosa.
Assenti, ainda em choque.
— Sim, era doce — respondi, quase num sussurro.
— Eu imaginei — disse Renée, aproximando-se e acariciando gentilmente meus cabelos. — Descanse agora. Fique na cama, é o melhor que você pode fazer por seu bebê.
Ela saiu do quarto, deixando-me sozinha com meus pensamentos.
Fitei a janela, vendo a neve fina cair lá fora, o vento sussurrando contra as folhas e árvores. Uma lágrima solitária escorreu pelo meu rosto enquanto eu apertava a caneca entre os dedos.
— Você vai me pagar, Kiara — murmurei, minha voz firme, apesar da dor que sentia. — Eu vou voltar... recuperar o que é meu por direito. E você vai pagar pelos meus filhos.
Segurei a promessa como um mantra, meu olhar fixo na neve que caía lá fora, preparando-me para o que viria.
Eu estava perdida em pensamentos, as emoções dentro de mim em turbilhão. Pensava em Jake, me perguntando como ele estaria agora. Será que já sabia que eu o havia abandonado? Uma parte de mim doía por isso, pelo amor que eu ainda sentia por ele. Mas, ao mesmo tempo, sentia um alívio. Se eu não tivesse ido embora, teria perdido novamente meu filho. Não havia mais espaço para dúvidas.
A porta do quarto se abriu lentamente, e meu pai — Edward, como ele se apresentou — entrou. Ainda era estranho chamá-lo assim. Ele sorriu para mim, mas havia um brilho de preocupação em seus olhos.
— Filha... — Ele se aproximou da cama, falando com suavidade. — Como você está?
— Estou bem — respondi, tentando soar convincente, mesmo que não estivesse completamente certa disso.
— Seu irmão me contou uma coisa. — Ele hesitou, antes de continuar. — Você está esperando um filho do alpha de Niflheim?
Assenti, meus olhos fixos nos dele, esperando sua reação. Para minha surpresa, um sorriso suave curvou seus lábios.
— Bella ficaria orgulhosa — ele disse, com um tom de nostalgia na voz. — Os Swans sempre foram amigos dos Black.
Minha mente ainda estava confusa com tantas revelações. Quase instintivamente, perguntei:
— Ephraim sabe disso?
Edward balançou a cabeça.
— Acredito que não. Ephraim sempre foi um alpha justo, e Billy, seu pai, era o melhor amigo de Charlie.
— Charlie? — perguntei, confusa. — Quem é Charlie?
Ele sorriu, um brilho de carinho nos olhos.
— Você está aqui por isso. Charlie é seu avô, pai de Bella. Ele está louco para conhecê-la.
Antes que eu pudesse responder, Edward abriu a porta e, logo em seguida, um homem de expressão emocionada entrou. Seus olhos brilharam com lágrimas não derramadas ao me olhar. Ele se aproximou devagar, observando cada detalhe do meu rosto.
— Você lembra muito Bella — disse ele, com a voz embargada.
Sorri, um pouco tímida, mas sentindo uma conexão imediata.
— Charlie? — perguntei, ainda tentando processar tudo. — Estou feliz em conhecê-lo.
— Eu também, querida — ele respondeu, com um sorriso gentil. — Esperei por esse momento a vida toda.
O calor daquela troca me fez sentir algo que nunca havia sentido antes. Pela primeira vez, eu me via cercada por membros da minha família. Todos sobreviventes da guerra que destruiu tantas vidas, mas que, de alguma forma, ainda tinham a esperança de se reencontrar. Pela primeira vez, senti o calor da família que eu nunca havia tido.
Ali, naquele momento, apesar de tudo o que havia perdido, havia um pequeno raio de luz em meu coração.
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