Os Filhos de Fenrir
38 Renesmee- Dama de companhia
Os últimos dois dias foram insuportáveis. A dor parecia uma constante em meu peito, e as lágrimas eram as únicas que me faziam companhia. Não conseguia me livrar da imagem de Jacob indo embora, deixando-me sozinha. Ele tinha sido tudo para mim. E agora... tudo estava consumado. O peso da solidão me esmagava, como se as paredes da cabana tivessem fechado sobre mim.
Foi o som de uma batida na porta que me acordou, tirando-me do torpor da tristeza. Pisquei os olhos, o rosto ainda molhado das lágrimas que eu havia derramado até o cansaço me vencer. Por um instante, sorri. Talvez fosse ele. Talvez Jacob tivesse voltado. Mas, ao me levantar, a esperança rapidamente se dissipou. Ele não bateria na porta. Ele entraria sem hesitar, como sempre fazia.
Abri a porta com o coração pesado e, ao ver Leah Clearwater do outro lado, a confirmação caiu sobre mim como um balde de água fria. Jacob havia falado a verdade. Leah seria minha nova acompanhante. Não sabia se aquilo era uma benção disfarçada ou o golpe final que eu tanto temia.
— Leah... — murmurei, surpresa.
Ela me olhou em silêncio por alguns segundos, o rosto sério, mas com algo diferente nos olhos. Algo que eu não esperava ver ali.
— Achei que você poderia estar precisando de alguém que te tirasse dessa cama — disse ela, sem rodeios, seu tom mais suave do que o normal, mas ainda com aquele toque provocador que era sua marca registrada. — Sempre soube que você era forte, Nessie, mas ultimamente... — Leah fez uma pausa, cruzando os braços. — Bom, ultimamente você tem agido como se o mundo tivesse acabado.
Eu fechei a porta com cuidado, sem saber como reagir. Leah nunca tinha sido gentil comigo. Nunca. E agora ela estava aqui, oferecendo ajuda? Parte de mim queria mandá-la embora, mas a outra parte... a parte mais fraca, ansiava por qualquer forma de apoio.
— Não sei se consigo mais — admiti, minha voz fraca, o peito apertado. — Tudo que fiz, tudo que lutei... de nada valeu. E agora, ele... — não consegui terminar a frase. O nome de Jacob ficou preso na minha garganta.
Leah suspirou, aproximando-se um pouco mais.
— Jacob sempre vai ser seu — ela disse, as palavras duras, mas cheias de uma verdade que eu não queria aceitar. — Mas ficar chorando pelos cantos nunca vai te ajudar. Foi por isso que eu sempre te provoquei. Você precisava parar de se esconder atrás dessa fragilidade, Nessie. Você é a Luna, e precisa agir como uma. Não foi rebaixada, ao contrário. Agora você tem mais poder do que jamais teve.
Balancei a cabeça, sentindo o peso de suas palavras, mas sem conseguir encontrar ânimo. Poder? Eu nunca liguei para isso.
— Eu não me importo com poder, Leah. Nunca me importei. Só queria... — respirei fundo, tentando manter a voz firme. — Só queria Jacob. Ele... ele já se casou?
Leah me encarou por um momento, seus olhos cintilando com algo que eu não consegui identificar. Talvez compaixão.
— Não vou falar sobre o Alpha. Isso não vai te ajudar em nada agora. Você precisa cuidar de si mesma, Nessie — disse ela, caminhando pela cabana, observando o ambiente. — Aliás, sua cabana é linda. Vou preparar um banho com ervas perfumadas para a nossa Luna — completou com um sorriso de canto, que quase parecia genuíno.
Eu a observei em silêncio, sem conseguir acreditar naquela mudança de comportamento.
— Leah, eu...
— Sem desculpas — interrompeu ela, erguendo uma mão. — E depois do banho, vamos tomar um café. Especial, é claro. E então você vai sair dessa cabana e dar uma volta comigo.
— Leah, eu realmente não estou com ânimo para isso — tentei argumentar, mas ela se aproximou de novo, me empurrando suavemente em direção à pequena sala de banho.
— Não estou pedindo. Estou mandando. Você pode não ligar para o poder, Nessie, mas tem que agir como a Luna que é. E ficar trancada aqui só vai te afundar mais. Agora vai — insistiu ela, e apesar de tudo, havia algo em sua voz que me fez ceder.
Eu a deixei me empurrar para o banho, sentindo uma pequena, minúscula parte de mim se render. Talvez, só talvez, Leah estivesse certa.
Passei alguns minutos dentro da banheira de madeira, a água quente misturada com as flores perfumadas acalmava meus músculos tensos. O aroma delicado preenchia o ambiente, oferecendo um conforto temporário que, nos últimos dias, parecia impossível de encontrar. Quando finalmente saí, um vestido simples e suave estava sobre a cama. Suspirei, ainda me sentindo sem energia, mas o vesti lentamente. Era como se, pouco a pouco, eu estivesse me permitindo voltar à vida.
Enquanto ajustava o tecido sobre meu corpo, Leah entrou com uma bandeja nas mãos. Havia frutas, suco e um pão fresco. Ela colocou tudo sobre a mesa e se aproximou para me ajudar a fechar o vestido nas costas.
— Você não precisava se incomodar, Leah — murmurei, um pouco constrangida pela atenção.
Ela me ignorou, focada em ajustar os botões. — Agora você vai ter que engolir minha presença. Jacob me pediu para cuidar de você, e é exatamente isso que vou fazer. Não adianta reclamar.
Peguei uma fruta da bandeja, e ao dar a primeira mordida, percebi que era a primeira vez em semanas que eu realmente sentia fome. O suco doce e ácido da fruta trouxe uma sensação estranha de conforto. Leah, sem dizer mais nada, começou a escovar meu cabelo, os movimentos ritmados e firmes.
Enquanto eu comia, não conseguia deixar de pensar em como tudo parecia irreal. Leah, minha rival de infância, a pessoa que mais me provocou no acampamento, agora estava aqui... cuidando de mim. Parte de mim ainda esperava que fosse algum tipo de provocação ou brincadeira cruel.
— Não entendo como você deixou Kiara ganhar essa — Leah quebrou o silêncio, suas palavras secas, mas carregadas de uma curiosidade genuína.
Franzi o cenho, terminando de mastigar a fruta. — Kiara não fez nada, Leah.
Ela parou por um momento, me encarando pelo espelho. — Você tem certeza? Não acha muita coincidência perder três bebês assim, um atrás do outro? — Ela ergueu uma sobrancelha, claramente duvidando da minha ingenuidade. — Se você realmente não fosse compatível, Fenrir não teria te escolhido para Jacob.
As palavras de Leah me fizeram parar. Eu nunca havia pensado por esse lado. Kiara sempre havia sido gentil comigo. Amigável, até. Sempre me oferecia apoio, principalmente quando eu mais precisava.
— Kiara sempre foi gentil — murmurei, mais para mim mesma do que para Leah. — Ela me tratava bem. Fazia chás deliciosos e sucos para me ajudar a relaxar...
Leah, que ainda estava escovando meu cabelo, parou abruptamente e me encarou pelo espelho.
— Os chás... eram vermelhos e doces? — perguntou com um tom mais sério, a expressão fechada.
Eu assenti, meio confusa. — Sim, eram deliciosos. Por quê?
Leah não respondeu imediatamente, mas a preocupação em seus olhos me deixou alerta. Ela colocou a escova de lado e se levantou, andando pela cabana com um ar pensativo.
— Vou averiguar isso — disse ela, um tanto séria. — Termine seu café, porque depois quero que me mostre a floresta de Björkveld. Já ouvi falar muito sobre ela e estou curiosa.
Leah conseguiu me arrancar um sorriso com sua animação repentina. Algo sobre sua determinação me fez sentir um pouco de alegria, mesmo em meio ao caos. Não sabia o que ela havia percebido, mas parte de mim confiava que, de alguma forma, ela estava ali por mim agora, como nunca esteve antes.
— Tudo bem — concordei, pegando mais uma fruta da bandeja. Por um momento, senti um lampejo de esperança.
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