Os Filhos de Fenrir
59 Renesmee- A filha do meu marido
Enquanto nos afastávamos do vilarejo, o silêncio entre Jacob e eu era pesado. Seguimos pela trilha que levava à cabana em Björkveld, e o som suave da cachoeira próxima trouxe uma breve sensação de paz. Sabia que ele queria conversar, e eu também sentia a necessidade de colocar meus sentimentos para fora. Quando paramos perto da cachoeira, o som da água caindo preenchia o espaço entre nós, criando uma espécie de barreira invisível.
Jacob foi o primeiro a falar, e eu pude ver o peso das palavras em seu rosto antes mesmo que ele dissesse qualquer coisa.
— Nessie, eu fui fraco. — Ele começou, a voz grave e carregada de arrependimento. — Deixei o conselho me pressionar, me influenciar. Eu não te protegi como deveria. Eu te abandonei na cabana... Eu... fui fraco.
Olhei para ele, sentindo o impacto das suas palavras como se fossem lâminas afiadas em minhas feridas já abertas. Uma parte de mim sabia que ele estava sendo sincero, mas outra parte, a parte mais ferida, estava exausta de desculpas.
— Você me abandonou, Jake — eu disse, a voz baixa, mas firme. — E não só fisicamente. Você me deixou sozinha em todos os sentidos, quando eu mais precisava de você. E agora... — Minha voz falhou por um momento enquanto tentava segurar as lágrimas que ameaçavam cair. — Agora você me pede perdão, e eu não sei se posso dar isso a você. Não de verdade.
Ele abaixou a cabeça, como se estivesse tentando absorver o que eu dizia, mas as palavras precisavam sair.
— Eu te amo, Jacob. — Admiti, com o coração na garganta. — E não é só por causa do imprinting. Eu te amo por tudo que você é. Mas... a confiança que tínhamos, a base que construímos, quebrou. E eu não sei como consertar isso.
Jacob ergueu os olhos para mim, e pude ver a dor em seus traços. Ele abriu a boca para falar, mas ergui a mão, pedindo que me deixasse continuar.
— Você... não pode simplesmente tirar e colocar pessoas na sua vida como se fossem peças de xadrez, Jake. Foi o que aconteceu com Karin. — Minha voz tremeu, mas continuei. — Como seria a vida dela se Emmett não tivesse tido o imprinting com ela? O que teria acontecido com ela, com Josh?
Jacob suspirou, claramente lutando para encontrar as palavras certas.
— Eu sei... eu errei, Nessie. Sei que foi um erro monumental. Eu devia ter amadurecido, mas... — Ele hesitou, os olhos buscando os meus. — Eu vou mudar. Eu preciso ser o Alpha que você merece, que nossos filhos merecem.
Balancei a cabeça, sentindo as lágrimas rolarem livremente pelo meu rosto agora.
— Você precisa amadurecer, Jacob. Precisa ser o Alpha que uma Beta merece ter ao lado, porque, agora... você não é. — Minha voz saiu mais firme do que eu esperava. — Quando você for esse Alpha, então nós teremos uma nova conversa.
Ele me olhou, sua expressão cheia de determinação, mas também de dor.
— Eu vou ser esse Alpha, Nessie. Eu prometo. Você me conhece. Eu não vou descansar até ser o homem que você merece.
Suspirei, sentindo o peso da nossa situação.
— Sei que você vai tentar, Jake. Mas, até lá... — Olhei para ele, buscando forças para a última coisa que eu precisava dizer. — Nós estamos casados agora. Para a vida toda. Mas... nada vai acontecer entre nós até eu conseguir confiar em você novamente.
Jacob assentiu lentamente, como se estivesse aceitando, mas não sem luta. Ele se aproximou de mim, mas manteve a distância, respeitando o espaço que eu tanto precisava.
— Eu te amo, Nessie — ele disse, sua voz baixa e carregada de emoção. — E eu vou provar isso. Cada dia, cada segundo, até você voltar a acreditar em mim.
Eu assenti, engolindo o nó na garganta. Era difícil admitir que, apesar de todo o amor que sentíamos um pelo outro, havia uma barreira entre nós que só o tempo, e as ações de Jacob, poderiam derrubar.
Nos despedimos ali, sem mais palavras, mas o peso da conversa permaneceu em nossos corações. Sabíamos que havia um longo caminho pela frente.
**********
As semanas passaram com uma calmaria aparente no vilarejo. A nova casa que Jacob havia construído para mim era confortável e espaçosa. Fenrir, Fay, Rana e Kamy viviam comigo, e, apesar de tudo estar em seu devido lugar, as tensões internas não desapareceram. Kamy, com seus quinze anos, parecia carregar a amargura e os traumas que Kiara, sua mãe, havia plantado.
Estava sentada à mesa da cozinha, revisando algumas anotações sobre a rotina das crianças, quando ouvi passos bruscos atrás de mim. Kamy entrou na sala, visivelmente irritada. Seus olhos ardiam com algo que eu ainda não entendia.
— Por que você tem que se meter em tudo? — ela disparou, cruzando os braços de maneira defensiva. — Sempre tentando ser a "mãezona" perfeita, mas ninguém te pediu isso, sabia?
Respirei fundo, controlando minha resposta. Sabia que qualquer palavra poderia acender ainda mais o pavio curto de Kamy.
— Kamy, eu não estou tentando substituir ninguém. Sei que as coisas não são fáceis, mas estamos todos juntos nisso. Quero que você se sinta parte da família.
— Família? — Ela riu, mas o som era frio, sem humor. — Isso aqui é uma bagunça. Você acha que só porque é a Luna e Beta pode mandar em todo mundo?
Antes que eu pudesse responder, Fay, minha filha, entrou no cômodo, ouvindo o tom rude de Kamy.
— Como você ousa falar com a minha mãe assim? — Fay se postou ao meu lado, os olhos faiscando de raiva. — Ela está tentando ajudar! Você não vê que todo mundo está fazendo o melhor por você?
Kamy revirou os olhos, desdenhando a interferência de Fay.
— Ficar puxando o saco da "Beta" agora, Fay? Não sabia que você gostava de ser bajuladora.
Fay avançou um passo, e eu segurei seu braço, tentando evitar o pior.
— Você não sabe o que está dizendo, Kamy. Ela é minha mãe. Minha mãe nunca fez nada além de tentar te ajudar. Quem está sendo ingrata aqui é você! Se quiser bancar a mimada como sua mãe, vai em frente, mas não pense que todos vão aguentar isso pra sempre!
— Não fale da minha mãe! — Kamy gritou, sua voz tremendo de frustração. — Você não sabe de nada, Fay!
Nesse momento, Jacob entrou no cômodo, sua expressão carregada de raiva ao perceber o que estava acontecendo.
— O que está acontecendo aqui? — ele perguntou, seu tom firme e frio. — Kamy, você não tem 5 anos. É hora de agir como adulta. Nessie não merece esse desrespeito, e muito menos as pessoas que estão tentando fazer o melhor por você.
— Ela... — Kamy começou, mas a voz falhou ao perceber o olhar severo de Jacob.
— Chega, Kamy. — Jacob interrompeu, sua voz grave. — Eu entendo que você está com raiva, mas não vai descontar isso nos outros. A sua mãe fez escolhas que desmoralizaram um clã inteiro, e eu não vou deixar você seguir pelo mesmo caminho. Está na hora de você crescer e assumir responsabilidade pelos seus atos.
Kamy ficou em silêncio, com o rosto pálido, e desviou o olhar, claramente atingida pelas palavras do pai. Ele se virou para mim e Fay.
— Nessie, Fay, vocês podem sair por um momento? Preciso conversar com Kamy... isso não vai ser fácil.
Eu troquei um olhar com Fay e, sem hesitar, segurei sua mão, guiando-a para fora da sala. As tensões eram palpáveis, mas esperava que essa conversa pudesse colocar Kamy no caminho certo. Fay apertou minha mão com força, e nós duas saímos da casa, tentando encontrar um pouco de paz enquanto Jacob lidava com sua filha.
Quando saímos da casa, o ar fresco pareceu aliviar um pouco o peso da discussão. Caminhei ao lado de Fay, que ainda estava visivelmente irritada. Ela chutava pequenas pedras pelo caminho, e eu sabia que algo ainda a incomodava.
— Kamy não dá espaço pra gente ser irmãs, mãe — Fay disse, quebrando o silêncio. — Não é como Josh, que é um doce, todo carinhoso... Ela tá sempre com essa raiva, essa barreira. É como se ela quisesse afastar todo mundo.
Suspirei, compreendendo a frustração de minha filha. Kamy era difícil, e sabia que grande parte disso vinha das atitudes de Kiara, sua mãe, que sempre plantou discórdia ao invés de amor.
— Kamy tem suas dores — comecei, enquanto andávamos. — Mas, sinceramente, Fay, Kiara foi tão egoísta que só pensou em infernizar o seu pai e não na felicidade da própria filha. Ela nunca quis o bem da Kamy, só usou a garota como uma peça de jogo.
Fay suspirou, os ombros caídos.
— É uma pena. Ela poderia ser diferente, sabe? Poderíamos ser próximas, como irmãs de verdade.
Coloquei o braço em volta dela e beijei seus cabelos.
— Vamos mudar de assunto, meu amor. Não adianta esquentar a cabeça com isso agora. Por que você não me ajuda a pegar alguns mantimentos na tenda? Precisamos nos preparar para o jantar.
Fay assentiu, e eu sorri ao ver que sua expressão relaxava. Fomos até a tenda do vilarejo, onde pegamos o que precisávamos: sacos de grãos, frutas e alguns pedaços de carne que estavam sendo distribuídos. Depois de organizar tudo, nos preparamos para voltar.
Ao retornarmos para casa, encontramos Seth, o filho de Leah, caminhando em nossa direção. Ele era um jovem forte e bem-humorado, sempre com um sorriso estampado no rosto. Quando ele nos viu, parou e acenou com a cabeça, cumprimentando com respeito.
— Luna — ele disse, olhando para mim. — Fay.
Fay, ao ouvir o nome, corou levemente, e eu sorri ao notar o rubor em seu rosto. Seth olhou diretamente para minha filha e sorriu ainda mais largo.
— Quer ajuda com as sacolas? — ele perguntou, seu olhar fixo nela.
Fay, um pouco desconcertada, sorriu timidamente e respondeu:
— Claro, eu adoraria.
Seth pegou as sacolas de Fay e, antes que eu pudesse dizer qualquer coisa, as minhas também. Caminhamos juntos em direção à casa, mas eu fiquei alguns passos atrás, observando como Fay e Seth conversavam. Ela parecia animada, rindo de algo que ele havia dito, enquanto ele mantinha o olhar atento e interessado.
Eu ri baixinho, imaginando o que poderia ter acontecido.
— O Jake vai surtar quando descobrir isso — murmurei para mim mesma, com um sorriso no rosto.
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